O Diário da Morte
1 Capítulo Primeiro - Sentimentos
Minha vida acabou assim que percebi a morte. Agora eu penso com mais freqüência, antigamente só agia. Imagino eu que, por ser ainda uma adolescente tão imatura, não deveria pensar desse modo ainda, deva ser mais de acordo com a minha idade. Pensamentos e imagens espalhados pela minha mente. O que fazer nesses momentos onde não há ocupação, uma tarefa? Simplesmente aja. Agir é algo tão normal, mas reagir é tão mais difícil. Sei que deveria compreender que agir em relação à morte é algo tão intenso que as pessoas tentam evitar. Mas eu não evitei, simplesmente agi, e agora que lembro, percebo que agi de forma tão incorreta que o meu arrependimento é pouco.
Tudo começou naquela noite de quarta-feira que jamais esqueci, nem em vida, nem em morte. Deviam ser umas onze horas, e acordei com minha mãe chorando baixo, tenho o sono muito leve, levantei e fui à sala para ver o que estava acontecendo. No alto dos meus 15 anos a única coisa que me preocupava até aquele momento era se o garoto mais lindo da escola estava gostando de mim. Porém, quando vi o semblante cabisbaixo e deprimido de minha mãe, notei que a vida tinha um significado, só teria que descobrir qual era. Olhei bem para os olhos vermelhos de minha mãe e perguntei em um tom covarde:
- O que houve? Por que você está tão triste?
- Filha, você não conhecerá seu irmão. – foi isso que ela me respondeu, com a voz mais soluçante e chorosa possível.
Olhei em volta, não via mais a sala alegre e elegante que via todos os dias, o sofá de estofado creme e a cadeira de mesma cor desapareceram, a televisão mais cara que eu já vira não se encontrava lá, o telefone sem fio parecia invisível naquele momento, para mim, até o chão sumiu, as únicas coisas que eu enxergava eram as faces tristonhas de meus pais. O que eu pude fazer foi me sentar ao lado de minha mãe que naquele momento parecia uma criança sem sua mais preciosa boneca e disse em seu ouvido:
- Mãe, não importa o que acontecer, estarei sempre ao seu lado. – eu quebrei aquela promessa dois anos depois.
Fui para a escola péssima, nada me animou nem a conversa longa que tive com o garoto mais lindo da escola, nem o presente de consolo que minhas melhores amigas me deram, nem mesmo o beijo que recebi daquele mesmo garoto. Naquele dia apenas pensei, muito, pensei sobre como a vida é cruel. Eu não queria ter visto aquela cena, a cena mais dolorida que já vira, a cena em que minha mãe derramava rios de lágrimas. Agora, além de pensar, eu sentia. Sentia raiva, tristeza e, por incrível que pareça, felicidade. Tudo ao mesmo tempo. Tinha uma raiva absoluta e verdadeira da vida, uma tristeza imensurável pela perda de meu irmão e uma felicidade agourenta, pois me pareceu que a morte de meu irmão tinha unido mais nossa família. Que idéia mais infeliz a minha, mas, era verdade. Que mal tem dizer a verdade afinal? Às vezes, todo o mal da Terra. Dizer a verdade causaria imensa dor em minha mãe e tamanha culpa em mim, tanta que eu não conseguiria mais olhar no espelho de tanto nojo de minha própria pessoa. Será que apenas esse pensamento me levaria à morte em um piscar de olhos? Não, eu vi que não. Isso me entristeceu! Nunca quis morrer, sempre quis amar e ser amada, mas hoje eu tinha uma outra definição para sempre: não nunca, apenas às vezes.Esses foram os meus sentimentos nos outros dois anos que se sucederam, de vez em quando mudava alguma coisa, como um amor profundo ou uma compaixão incomum. Fiquei com medo de mim! Isso é tão estranho. Eu me conheço mais do que qualquer outro, mas ainda assim, me achei com um ar misterioso e não sabia me decifrar. Isso pode lhe parecer estranho, e realmente é. Estranhamente me acostumei em não me conhecer ao longo dos dois anos que se passaram.
Fale com o autor