O Diário da Morte

2 Capítulo Segundo - Conversas


No dia em que a morte de meu irmão completou dois anos minha mãe descobriu que estava grávida. Ela irradiava alegria por onde passava e eu dava total razão a ela. Fiquei com medo de ela perder o bebê novamente e com ele toda aquela felicidade que demonstrava com entusiasmo, mas achei melhor não dizer nada para não lembra-la dos dias mais tristes de sua vida. Ela parecia tão despreocupada, sentada no sofá cor de creme vendo a televisão que estava a sua frente. Não parecia mesmo aquela mulher que envelhecera vinte anos. Não, agora ela havia retomado a sua juventude, parecia uma adolescente, como eu. Fiquei tão feliz em vê-la com um sorriso estampado naquele rosto inquietante. Ela ficou mais animada para tudo, todos os dias queria me levar ao cinema, fazia nosso prato favorito no jantar, íamos ao parque nos fins de semana para fazer um piquenique, tudo planejado por ela e apenas por ela.


Uma semana depois de ela ter descoberto que estava novamente grávida eu decidi ter uma conversa séria que eu gostaria de ter a muito tempo. Chamei-a em meu quarto. Ela apareceu tão serena e plena que hesitei em lhe falar o que queria, mas decidi:


- Mãe, eu preciso falar sobre algo importante com você. – minha voz continha certo temor e minha mãe pareceu perceber isso. Nessas horas eu não gostava de ela me conhecer tanto.


- O que foi minha filha? – seu tom de voz me fez hesitar novamente, mas continuei.


- Bom, talvez essa conversa lhe traga lembranças um tanto quanto... desagradáveis. – agora eu tinha um ar misterioso.


- Ahn... Pode falar. – sua voz foi vacilante, mas fingi não notar.


- É sobre a morte. – disse isso rápida e diretamente.


- Ah! Bem *pigarreou*, pode perguntar. – minha mãe parecia confiante, mas não estava, eu sentia isso. Era como se fosse algo obrigatório que não havia mais como adiar e ela devia falar.


- O que há após a morte? – disse isso pausadamente e com ênfase no há.


- Filha, as pessoas acreditam em diferentes teorias. – falou isso com tanta calma que eu estranhei.


- Qual a sua teoria? – perguntei curiosa.


- Minha teoria é que os bons vão para o céu e os maus vão para o inferno. – ela disse a última palavra com repulsa.


- Você acha que eu fui boa o suficiente para ir para o céu? – perguntei, sugerindo que morreria logo, ela entendeu isso também.


- Você ainda será muito melhor do que é hoje, e você já é muito boa. – me olhou para ter certeza de que eu havia entendido sua explicação confusa. Eu entendi.


- Acho que não entendi muito bem, eu quero saber mais. – quando disse isso minha querida mãe olhou para mim maternal e acolhedoramente.


- Não poderei te dar muitas respostas, pergunte a outras pessoas e tire suas próprias conclusões. – enquanto dizia isso ela me abraçava amorosamente.


Decidi seguir seu conselho, mas fui conversar com a pessoa errada para esse tipo de assunto tão tenso: meu pai.


- Pai, eu... preciso... falar com você. – essa frase saiu com relutância, mas cedi no final.


- Sim, filha? – disse com curiosidade, mas só porque não sabia o assunto ainda.


- É algo importante para mim. – eu vi a curiosidade virando impaciência em seus olhos, mas queria enrolar o máximo possível.


- Diga criança! Quero voltar a ler meu jornal! – dizendo assim ele parece ser um pai intolerante que me trata como se eu tivesse seis anos de idade, mas se você olhasse para ele veria seu olhar brincalhão e pidão, tanto que não estava com um jornal. Estava doido para saber o que era, sempre fora muito curioso.


- Pai, eu conversei com a mamãe sobre umas coisas e ela pediu para saber a opinião dos outros sobre o assunto e decidi começar pelo senhor. – com ele eu era mais formal, pois, a pesar de ser um pai alegre e brincalhão, ele me dava um pouco de medo, não me pergunte o motivo.


- Sim? – agora ele estava realmente impaciente.


- É sobre a morte. – fui direta novamente.


- Oh! Ahnn... bem, não sei. – ele se levantou rispidamente. Foi uma atitude previsível demais para mim, então não liguei.


- Calma pai. – tentei realmente acalma-lo.


- Ahnn... claro. Sim, sim. – mas, não estava nada calmo, estava alarmado.


- Bem, pai, só quero saber a teoria em que você acredita. Digo, com relação ao que vem após a morte. – dei um sorriso encorajador a ele.


- Ahnn... claro. Eu creio que, bom... que alguém do... do... do além venha nos buscar e, bem, e... e nos leve a algum local estranho, só. – ele parecia mais calmo apesar de gaguejar um pouco e hesitar algumas muitas vezes.


- Obrigada pai. – levantei em um salto e fui para o quarto.


Em meu quarto entrei no computador e fiquei conversando com uns amigos meus sobre este mesmo assunto, tentando entender a morte, mas não consegui grande coisa, apenas a certeza do incerto.

Notas finais
Tá aí! O segundo capítulo ^^
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.