O Diário
21 Capitulo 21
Notas iniciais
21.
Assim que entrei no bar, percebi que haviam menos clientes beberrões do que de acostume, mas sempre era noite nas vezes que precisei vir aqui e talvez seja por isso que o movimento parecia mais frenético. Agora eram quase seis da manhã e, a essa hora, as pessoas se tornavam novamente civilizadas e voltavam a suas ‘vidas normais’, escondendo seu misterioso hábito noturno.
Levei meus olhos ao balcão e constatei que Kisame não estava lá, era um mal sinal levando em conta a forma como ele me ligou. O jeito que falou me deixou tão preocupada que tive que interromper meus progressos nas pesquisas com Sasuke sobre o “passado empresarial” dos Uchiha e dar um jeito de vir o mais rápido possível.
Só espero que as coisas não estejam tão ruins quanto ele quis que parecessem por telefone.
Andei um pouco mais nervosa ate as escadas e subi ao segundo andar, era lá que ficavam os quartos reservados aos “clientes vips” da Akatsuki e suas garotas. Quando eu pensava que esse lugar não poderia ficar pior, Kisame vem e me conta o que acontece nesses quartos... Fico nauseada só de pensar na ideia de mulheres se vendendo por trocados aqui em cima.
Passando pelo corredor, contando os números das portas, cheguei ate a certa e bati uma vez, só para perceber que não estava trancada.
Se eu segui as instruções corretamente, esse deveria ser o quarto que Kisame usava quando quisesse “se divertir” com a garota que contratasse. E eu realmente desejava mentalmente estar certa, não queria nem imaginar que cena poderia presenciar se tivesse errado de quarto.
Empurrei a porta semiaberta e a primeira pessoa que vi foi Naruto, estava sentado na beira da cama com um saco de gelo cobrindo o rosto e Kisame, mais adiante, estava escorado em outra porta que deveria ser o banheiro. Ambos estavam distraídos conversando sobre lutas, artes marciais e algo sobre nocaute, não perceberam quando entrei.
Tentei fechar a porta atrás de mim, mas notei que a fechadura de metal estava retorcida de tal forma que impedia o encaixe, tornando-a assim quebrada e inútil, então, observei o resto do quarto e logo me dei conta de como estava bagunçado.
Pelo que conhecia de Kisame, sabia que não era um “maníaco por limpeza”, mesmo assim duvido que deixaria um abajur aos pedados no chão, o ventilador de ponta cabeça em cima de um armário, ou, ainda, a persiana destroçada da janela que também estava trincada. Tinha vidro quebrado e agua espalhada para todo lado, talvez um aquário que tenha caído no chão?!
Parecia que um furação tinha passado naquele quarto e eu tinha receio de me pronunciar e perguntar algo simples como “o que houve?”
– Cheguei... – Mesmo falando baixo, ainda consegui atrair a atenção deles.
– Por que você veio aqui?! – Naruto foi irônico, se levantando e vindo ate mim com um tom mal-humorado que eu raramente o via usar. – Eu já não tinha ligado dizendo que não precisava?!
– Eu quis vir, ok?! Esse assunto é mais meu do que s...
Parei de falar quando vi o loiro se desfazendo de seu saco de gelo, sem vergonha de mostrar seu olho exageradamente roxo, entendi porque eles conversavam sobre lutas quando cheguei, parecia que Naruto tinha levado uma surra e tanto. Pega de surpresa pelo estado do seu rosto, estiquei o braço para toca-lo, mas desisti no meio do caminho, minha preocupação era impropria para nossa atual situação.
– O que aconteceu?! – Me detive a perguntar.
Esperei que respondesse, mas, ao invés disso, ele apenas cruzou os braços sem parecer ter qualquer intensão de falar qualquer coisa, foi Kisame quem me deu uma resposta.
– O desgraçado tem um belo gancho de esquerda, né?!
– Ah, não acredito... – Com essas simples palavras, me dei conta de quem destruíra o quarto e acertara Naruto, encarei-o de novo. – Sinto muito, eu...
Naruto-kun bufou, parecendo que estava deixando toda sua raiva se esvair nesse simples gesto, e me deu um meio sorriso dolorido.
– Nem começa com esse discurso de culpa, Hinata. Já sei como termina e eu não vou embora de jeito nenhum. – Ele ficou na minha frente. – Ele é meu amigo também e fui eu que descobri tudo. Mas se soubesse que você ia tentar me excluir assim, nem teria te contado.
A ultima coisa que eu queria era discutir com o ele, já estávamos tão “emocionalmente afastados” que a preocupação dele não fazia mais sentido e saber como ele se sentia acabava me ferindo por dentro. Tornando ainda pior estar em uma situação tão delicada e ser obrigada pela minha consciência a relembrar minhas escolhas mais difíceis.
Mesmo assim, como se fosse obra do destino, acabamos por nos reunir em outro problema. É quase como se Naruto sentisse prazer em se meter nos assuntos da minha família.
De qualquer forma, não era hora para pensar sobre relacionamentos ou sentimentos, não podia me esquecer do motivo que me trouxe aqui.
– Onde ele está? – Perguntei e o loiro apenas saiu da minha frente e vi Kisame acenar com a cabeça, apontando para o banheiro.
Andei aqueles curtos metros, receosa, encarando meus próprios pés e, já na porta, ainda mantive o olhar baixo ate criar a coragem necessária para erguer a cabeça e olha-lo.
Neji estava irreconhecível: Cheirava mal, seu cabelo longo estava todo emaranhado e seu corpo estava sujo e machucado, assim como suas roupas rasgadas; Estava encolhido no canto embaixo do chuveiro, com miúdas gotas d’agua caindo sobre ele sem que exercesse reação alguma;
Era um fato, se eu me encontrasse com ele na rua assim, nunca conseguiria reconhecer o meu primo de sempre, tão orgulhoso e responsável...
– Ele demorou para se acalmar e ainda esta meio “alto”. – Naruto disse. – Ai, a gente pensou em deixar ele esfriando a cabeça ai um tempinho.
Entrei no pequeno cômodo, esquivando meus passos dos pedaços de vidro do espelho quebrado espalhados pelo chão.
– Falar com ele agora não adianta... – Ouvi Kisame falar as minhas costas, mas ignorei e ele retrucou com um resmungo. – Teimosa como uma mula!
– Neji-niisan?! – Chamei, mas não obtive resposta, me abaixei perto de meu irmão para tentar ver se estava acordado.
Vi seus olhos se moverem levemente, percebendo minha presença de forma lenta e duvidosa, então sorri por um segundo e foi quando ele entrou em desespero.
– Sai daqui!
– Oniisan, calma!
– Vai embora. – Ele gritava repetidamente enquanto usava os braços para cobri o rosto.
– Vim te levar para casa.
Tentei segura-lo pelos pulsos para impedi-lo de se esconder, Neji, porem ,continuava me mandando se afastar, enquanto virava o rosto desesperado.
– Não... Não quero... Você não!
– Por favor, me escuta.
– Não... Não quero que me veja assim... – Ele se livrou do aperto de minhas mãos e abraçou as próprias pernas escondendo o rosto atrás dos joelhos. – Não me olha... Não...
– Hinata, ele não tá falando coisa com coisa. – Naruto entrou pousando a mão em meus ombros. – Melhor tentar depois.
Olhei de relance para trás, encontrando o olhar do loiro igualmente preocupado, de alguma forma parecia que ele era capaz de me entender ou ao meu irmão... Ou, talvez, ambos...
Bem, se me entendesse mesmo, saberia que não poderia deixa-lo jogado lá e simplesmente “tentar depois”.
– Neji-niisan... – Tentei desfazer a barreira que se tornaram seus braços e pernas. – Presta atenção...
– Para! Você não quer... Você... me odeia...
– Por favor...
– Não, sai... Vai embora daqui!
– Olha pra mim! – Elevei um pouco minha voz, usando um tom de ordem.
Sempre tentei ter paciência em tudo que fazia, mas recentemente descobri que só isso, as vezes, não bastava.
Acho que peguei todos de surpresa, pois senti Naruto afastar sua mão do meu ombro e ouvi Kisame rindo baixo, e o alvo da minha “ordem”, meu irmão, se calou e finalmente me olhando nos olhos, de uma maneira que eu julguei calma para a situação.
Agora que tinha um pouco da atenção dele, me calei por meio segundo, decidida a escolher as palavras certas. Não era hora para julga-lo, poderia fazer isso depois quando estivesse sóbrio, lucido, mas ate lá, enquanto sua mente estivesse destruída pelas drogas, tudo de que ele precisaria era de um apoio, saber que não estava sozinho.
– Eu também não queria te ver assim, mas... Não importa, eu estou aqui agora e vou ajudar você. Só vou sair daqui se você vier junto, entendeu?!
– Quer... me ajudar...?
– E por que não?! Você é meu irmão, não é?!
– Mas eu... machuquei você...
Bufei sorrindo sem graça, ele ainda pensava sobre isso, já havia acontecido a tanto tempo. A briga que tivemos quando descobri de seu vicio e que tive o azar de enfrenta-lo quando já estava um pouco alterado. Ele ficou um tanto furioso por seu segredo ter sido descoberto, saiu quebrando tudo em seu quarto e me empurrou quando tentei conte-lo, mas foi apenas isso, cai no chão de mal jeito e ate hoje ainda se recrimina por isso.
Dizendo que me “machucou” naquela vez?
Se ele soubesse que eu sei melhor do que ninguém o significado mais profundo desta palavra, ele não se culparia tanto pelo seu misero empurrão. Imagina que irônico, a pessoa que sempre pensei que cuidaria de mim e agora era quem precisava de meus cuidados.
– Não pense sobre coisas tão bobas. – Cuidadosamente estiquei a mão para retirar algumas mechas do seu cabelo de frente dos olhos. Queria que ele olhasse para mim, desejava que entendesse o que eu estava falando. – Não se lembra de quando éramos crianças?! Você era o cavaleiro de armadura que sempre estava lá para me salvar. Bem, agora é a minha vez de fazer algo por você... E eu vou te salvar, mas você tem que querer também, de verdade, só assim vamos conseguir.
– Eu não consigo... não consigo parar... eu nunca...
– Não diga isso. Se eu posso ser forte por mim mesma, então você pode também. Independente de qualquer coisa, eu estou aqui. Não importa quantas vezes você me empurre, eu ainda estarei aqui...
Ele me encarou, piscando um pouco exagerado e depois esticou as pernas, deslizando-a pelos azulejos, então bufou e apoiou a cabeça na parede. Olhado para cima, começou a rir, porem lagrimas escapavam de seus olhos. Para mim, parecia um misto de euforia pelas drogas e tristeza pelo conhecimento da situação em que se encontrava.
– O que foi?! – Tentei perguntar da maneira mais natural possível.
– Eu não sei levantar... – Assim o ouvi, olhei-o com um misto de surpresa e pesar, antes de estender minha mão.
– Eu te ajudo.
Ele segurou meu braço, puxando, tentando se erguer e logo percebi que seria pesado de mais para mim. Foi quando Naruto interveio e o segurou, puxando-o pelos ombros.
– Eu também estou aqui. – Ele disse.
Neji-niisan era muito teimoso e tentava fazer as coisas por si só e acabava mais atrapalhando do que ajudando, quase caiu duas vezes por causa disso.
Naruto-kun era forte o bastante para ergue-lo facilmente sozinho, mesmo assim ele não se desfez da minha ajuda, foi algo que fizemos juntos e, pela primeira vez, me senti agradecida por ele se envolver nisso e estar ali comigo nesse momento.
Assim que todos ficamos de pé, percebi que o banheiro era pequeno de mais para nós três. Meu irmão cambaleou um pouco e se apoiou nas paredes, o curto espaço dificultava seus movimentos, já que, diferente de mim, os dois rapazes eram enormes. Então fui para a porta, deixando Naruto-kun guia-lo.
Fiquei observando-os um tempinho, Neji andava devagar, tendo dificuldade para dar passos, parecia que ele não sabia mais o que era direita e esquerda e as vezes simplesmente tombava para o lado. Se não fosse Naruto ali ele já teria caído por cima dos vidros do chão.
– O que é?! – Kisame perguntou.
– Eu devia ter prestado mais atenção nele, mas outro dia ele me disse que estava conseguindo lidar com isso e eu já tinha tanta coisa na cabeça...
– É, você tem uma divida bem gorda para se preocupar. Kakuzu não gosta quando seus empregados usam a mercadoria ao invés de vender.
– Eu queria que fosse só isso...
Olhei novamente para o banheiro só para ver Neji-niisan que, por algum motivo “embriagado” dele , decidiu lavar o rosto na pia, Naruto-kun mantinha a atenção extrema para não deixa-lo cair, caso perdesse o equilíbrio.
– Se fosse só isso, seria fácil.
– Fiz mal chamando o Naruto aqui?!
– Eu não sei. – Respondi baixo, sentando-me na cama. – Você sabe que eu não o queria envolvido... Não sei por que você teve de chama-lo...
– Hinata, você quer deixar o Neji aqui o resto do dia?!
– Claro que não, se Kakuzu vier nem sei o que poderia acontecer.
– Então me explica como é que você iria embora sozinha com esse cabeludo trocando as pernas desse jeito?
Eu entendia o que Kisame queria dizer. A Akatsuki era uma organização com varias facetas... E mesmo com ele sendo meu amigo, nós dois não poderíamos ser vistos juntos assim tão deliberadamente. Ele nunca poderia me ajudar a tirar Neji daqui, já tinha se arriscado muito por emprestar esse quarto para escondê-lo.
Quanto o Naruto-kun... Foi ele que descobriu esse vicio do meu primo e por isso acabou se envolvendo também. Não nos deixou em paz desde então e sempre dava um jeito de chegar ate mim, as vezes nos piores momentos.
Kisame o via como alguém “descartável” que ele podia jogar no meio do fogo cruzado para distrair os outros, por isso gostava de chama-lo de “isca”, mas também admitia que era um bom “cão de guarda”, capaz de me proteger.
E era assim que o estava usando agora... Já que ele não podia se expor para me ajudar, usaria Naruto para ser minha cobertura.
Apesar de confiar nas ideias de Kisame para comigo e Neji, não gostava nada quando envolvia outras pessoas... Ele ainda era um bandido frio e escuso, tenho certeza de que, se algo der errado, não pensaria duas vezes para atirar em alguém só para criar algum caso que me poupasse.
E agora a pessoa que ele colocava na reta era o Naruto-kun... Não, eu não estava nada satisfeita com isso.
– Eu pensaria em alguma coisa diferente...
– Você pode não gostar, mas minha ideia ainda é boa! – Kisame riu. – Mas e agora? O que quer fazer?! Duvido que dê para pegar um ônibus sem chamar atenção.
– Eu posso chamar um taxi, ou...
– Taxi?!! Sim, isso é bem discreto. – Ele riu irônico. – Por que não liga pra sua casa e pede pro seu motorista vir te buscar?!
– Na verdade... Nem sei se devemos ir para casa.
– Por que não?!
– Meu motorista já presenciou uma cena do Neji-niisan uma vez e ficou desconfiado, se eu chegar lá assim... Tenho certeza que ele vai falar com meu pai.
– E qual é o problema do seu pai saber?! – Agora foi Naruto quem perguntou.
Ele acabava de sair do banheiro com Neji, mas estava praticamente arrastando e mantendo-o de pé. Chegou a cama, deixando que meu irmão caísse deitado com a cabeça afundada emm um travesseiro, enquanto o loiro se sentava ao meu lado.
– Eu acho que é ate melhor que seu pai saiba e resolva tudo.
– Não, o meu pai não.
– Por que não?! O que ele pode fazer além de te dar um sermão ou mandar o Neji pra uma clinica de reabilitação? Não parece tão ruim pra mim.
– Não preciso depender dele para nada.
– Você pode viver com esse seu orgulho bobo, mas e o Neji?! Seria muito mais fácil se...
– Eu não quero! – Eu perdi o tom da minha voz, minhas palavras saíram quase como um grito de fúria. – E se você não pode lidar com isso então é melhor ir embora!
Eu nem entendi bem o que estava sentindo, mas sempre que eu ouvia falarem do meu pai como se ele fosse um tipo de “salvador” isso me deixava com raiva. Era difícil me controlar as vezes e eu tinha que perder o controlo logo com o Naruto-kun?! Ele me olhava um pouco surpreso, talvez ate magoado.
– Eu não queria ter gritado... – Isso foi o mais próximo de “desculpas” que eu consegui chegar, ele estava certo sobre a parte do ‘orgulho bobo’ que eu tenho.
– Tudo bem, eu sei bem que as coisas estão difíceis entre você e o “Hyuuga-sama”. Acho que foi burrice minha insistir. – Naruto desviou o olhar.
– Não, eu só estou um pouco estressada.
– Eu reparei...
Estava me sentindo horrível, mas, sinceramente, não tinha o que falar, nem como explicar minha reação. Ele com certeza faria perguntas sobre meu pai se eu tentasse justificar. Mudar de assunto talvez fosse o melhor, por sorte ou boa percepção, Kisame fez um pigarro forçado para chamar a atenção.
– Você estava dizendo que não podia ir para casa. O que vai fazer então?! – Ele perguntou.
– Neji-niisan precisa de um lugar longe da Akatsuki para ficar, só por algumas horas, ate ele conseguir se recompor.
– Um lugar?! Ah, sim. Eu já tinha conversado sobre isso com o Naruto antes de você chegar. Existe varias pousadas e motéis baratos, mas nem sempre esses lugares são discretos. Então nós pensamos e vimos que o melhor lugar para vocês irem seria... A casa do Naruto.
– O que?! – Olhei para o loiro, mas ele ainda mantinha o olhar distante, então encarei Kisame de novo, interrogativa.
– Não me olhe assim, eu disse que a minha ideia era boa – Kisame disse simples. – Eu acho que vou lá embaixo beber alguma coisa... Vocês dois conversam e decidem o que fazer.
O barman saiu, encostando a porta, Naruto e eu acabamos por ficar em silencio, o único som do quarto era algo que Neji balbuciava enquanto deitado na cama, mas era algo que eu não conseguia encontrar significado algum.
Enquanto eu pensava em tudo que poderia dar errado quanto a isso, o loiro interveio, falando um pouco sem jeito:
– Quero que você e Neji vão para minha casa.
– Naruto-kun, eu...
– Sei que você odeia ser pressionada, mas não quero discuti sobre isso. – Ele falou simples, fugindo do meu olhar enquanto se levantava. – E se você esta preocupada com o Hiashi, eu não vou falar nada, se você não quer procurar ele, então não procuramos. E eu nem vou perguntar o que você tem contra seu pai para ficar tão zangada.
– Eu não acho que seja a melhor ideia, para nós dois.
– Sabe, você disse uma coisa legal para o Neji agora a pouco...“Não importa quantas vezes você me empurre para longe, ainda estou aqui”... – Ele parou a minha frente e finalmente me olhou nos olhos. – Eu já disse que apoiaria você e suas decisões, não importa o quão malucas, erradas ou idiotas elas sejam... E, olha só, eu estou aqui, não estou?! Neji é meu amigo e você é minha...
Ele fez uma pausa, não havia uma palavra capaz de preencher esse espaço vazio que sua frase deixou. Não éramos mais amigos, por muito pouco, talvez seriamos colegas de trabalho e escola, mas a conexão que sentíamos era muito mais profundo que isso. As coisas estavam mesmo confusas, não só para mim, mas para ele também.
– Hinata, eu estou preocupado com tudo isso e não vou ficar tranquilo se você me afastar agora... Deixe eu ser a pessoa que você disse que precisava, mesmo que seja só por hoje.
***
– Eu já disse: ela tá legal. – Naruto dizia ao celular.
Hinata sorriu ao observa-lo enquanto falava, as vezes esfregando uma das mãos pelos cabelos, outras rindo ou ainda gesticulando exageradamente com os braços para exemplificar algo que dizia, como se quem estivesse do outro lado da linha pudesse enxergar o que estava fazendo.
O loiro decidiu vir com ela no banco de trás do carro por achar que, de alguma forma, seria mais confortável. Embora Kakashi tenha dito que não fazia diferença nenhuma e ter feito um leve comentário de que iria parecer mais um motorista particular, não houve discussão quanto a isso. Todos estavam com pressa para sair da periferia controlada pela Akatsuki.
A garota admitia que tinha gostado da ideia de tê-lo sentado ao seu lado, sempre falando e a distraindo, fazendo-a se sentir melhor e mais tranquila apesar de toda tensão experimentada essa noite.
Isso, ate ele decidir que deveria avisar aos outros que já tinha a encontrado, ficando grudado ao celular repetindo o mesmo discurso montado de “Já encontrei a Hinata e está tudo bem”.
A partir dai, ela deixou sua atenção ser levada pela paisagem, vendo a realidade mudar enquanto adentravam na área mais nobre da cidade. Permanecia com o olhar fixo para fora do carro, perdida em seus pensamentos, enquanto via as luzes da rua passando.
Entretanto, houve uma pessoa para quem Naruto ligou que não se contentou apenas com a frase pronta, prendendo-o na linha sem dar chance de desligar sem antes que passasse um tipo de “relatório completo” do ocorrido.
Conversaram por algum tempo, mas, embora fosse muito fácil se guiar pela voz do loiro, ela não prestou atenção no que falavam. Só agora, com essa recente lembrança despertada, decidira olha-lo.
Ele era tão... tão...
Não existia uma palavra para defini-lo, o conjunto que era o seu ser, se iluminava de uma maneira que nenhuma outra pessoa no mundo poderia.
Achava que esse era o tal “olhar romântico” que ouvira falar nas aulas de literatura, onde a luz de suas qualidades apagavam qualquer um de seus defeitos, tornando a pessoa amada um modelo do ser mais perfeito...
Perfeito... Sim, essa era a palavra que procurava.
Naruto era perfeito, pelo menos, aos seus olhos e seu coração apaixonado.
Perfeito como “amigo”... Perfeito como “defensor”... Perfeito como “amante”...
Parecia egoísmo pensar assim, mas do pouco que se lembrara da noite que passaram juntos e agora sabendo como a ajudou em seus problemas com a Akatsuki e mais todos os outros momentos que já havia recordado antes...
Ele sempre esteve querendo ser a pessoa de que ela precisava, na hora certa ou errada...
Mas ele já era essa pessoa... Sempre foi...
Teve certeza absoluta quando o viu sorrir para ela agora...
Tudo que Hinata precisava, agora e sempre, era da presença de Naruto em sua vida.
– Tudo bem, tudo bem... Vou passar o telefone, mas não seja um idiota. – Ele estendeu o celular para ela, dizendo. – Ele não vai acreditar em mim ate você mesma falar e dizer que esta bem.
Ela segurou o celular com as duas mãos e respirou fundo antes de levar o aparelho para perto do rosto. Atendeu:
– Neji-niisan?!
– Hinata! O que te deu para sair assim de casa?! Quer deixar tudo mundo maluco?! – Neji a repreendeu.
– Eu não estava pensando direito, o meu... pai...
– Eu sei. Aquela discussão sem sentido não te fez nada bem, certo?!
– Não fez...
– Eu garanto que não fez bem para o Hiashi-sama também, então, por favor, não repita isso.
– Não vou, já aprendi a lição...
– Bom... E para onde você foi?!
Ela perdeu a fala por um momento, sentindo-se desconfortável com essa pergunta, imaginava que Naruto já tivesse contado, mesmo por alto, que tinha parado no covil da Akatsuki acidentalmente. Hinata não saberia como o primo reagiria se contasse, talvez seja ate por isso que o loiro mesmo não ter falado. Sentiu-se nervosa sem saber o que fazer.
– Eu me perdi...
– Se perdeu?! – Ele riu minimamente desacreditando, mas depois falou serio. – Tivemos sorte do Naruto ter te encontrado então...
– É... – Ela disse um pouco tímida. – Será que a gente... a gente pode se falar depois, acho que não vai demorar para chegar em casa.
– Tudo bem.
Hinata devolveu o celular a Naruto e, enquanto esperava ele falar mais umas poucas palavras antes de desligar, esticou as costas para trás e descansou a cabeça no encosto, sentindo-se exausta. Respirou fundo, percebendo como esse dia tinha sido longo e cansativo, começando com uma simples ida ao colégio que estudava e terminando em meio a uma fuga de traficantes. O que era essa coisa maluca que ela chamava de vida?!
– Não falta muito para chegarmos. – Naruto disse enquanto guardava o celular no bolso. – Neji vai ligar pro resto do pessoal para avisar que você apareceu.
– É tanta gente assim?!
– É, ele ficou tão preocupado que colocou todo mundo para te procurar.
– E por que... – Ela parou pensando bem em como perguntar. – Por que você não disse nada do que aconteceu para ele?!
Naruto pensou um pouco desviando o olhar, Hinata seguiu e percebeu que fitava Kakashi de relance. O socorrista que dirigia silenciosamente e parecia prestar a atenção na estrada, mas a garota tinha a impressão de que ele estava atento a eles também.
Assim que se deu conta disso, viu o loiro se encostar bem próximo dela e sussurrou o mais baixo possível em seu ouvido:
– Então, você lembra?! Sobre a Akatsuki?!
– O suficiente para entender. – Respondeu simples e em tom igual.
Entendeu a decisão do rapaz de que esse assunto deveria ser levado com algum sigilo. Ao que poderia parecer aos olhos do motorista, eram apenas um casal conversando aos sussurros, nada incomum.
– Bem, eu não disse nada ainda porque ele é seu primo e eu... Eu não tenho nada haver com isso.– Ele deu um riso sem graça e fez uma curta pausa desviando o olhar. – Eu pensei que você mesma iria querer falar ou perguntar. Você sempre foi assim, mas se quiser, eu posso contar depois.
– Acho melhor, ainda estou um pouco confusa. Vai levar um tempo para organizar tudo na minha cabeça...
– Ah, é... Você disse que queria conversar, certo?! Eu posso te contar como as coisas aconteceram.
– Não... – Hinata sentiu seu rosto esquentar com a vergonha. – Não era sobre isso que eu queria falar...
– Não quer falar sobre a Akatsuki?! Sobre o que é então?!
Hinata olhou novamente para Kakashi e dessa vez percebeu que ele olhava pelo retrovisor. Foi apenas por meio segundo, mas ela teve a impressão de que estava tentando ouvir o que falavam.
Suspirou um pouco desanimada...
O que queria falar com Naruto, as explicações de que precisava sobre tudo que se lembrou, sobre ele e a noite que passaram juntos, seus sentimentos... Não poderia acontecer agora.
Ela queria que estivessem sozinhos e, de preferencia, em um lugar mais reservado e confortável.
Não era algo que pudesse ser ditos em meros sussurros, era muito importante para ser assim...
Ela teria que esperar mais um pouquinho.
– Deixa para depois, estou um pouco cansada agora.
Hinata fechou os olhos e acomodou melhor a cabeça no encosto como um meio de fortificar suas palavras, algo fácil já que o cansaço era real.
Naruto ficara um pouco tentado com essa cena...
Vendo-a de perfil em um momento “relaxado”; a forma com que mantinha seus olhos ocultos quase parecendo que dormia; o jeito que seu corpo se movia quando respirava; a mania que tinha de morder o lábio inferior de vez em quando, algo que provavelmente fazia inconscientemente;
Tudo era convidativo a uma aproximação mais ousada do que aquele simples selinho que lhe dera na casa de Tazuna.
Coçou a nuca sentindo-se sem jeito, parecia quase tão pervertido quanto o Ero-sannin por pensar assim enquanto ela estava inocentemente descansando.
Desviou o olhar para frente tentando esvair sua mente e quando seus olhos rebateram com os de Kakashi, sorriu um pouco zombeteiro e cutucou o banco do motorista com a sola dos sapatos.
– Kakashi-sensei! Não tem vergonha de ficar ouvindo a nossa conversa?!
– Quem disse que estou ouvindo alguma coisa?!
– Eu vi você olhando pra gente pelo espelhinho.
– Olhar e ouvir são coisas diferentes, Naruto. – O socorrista disse simples.
– Hunf, sei...
A garota manteve os olhos fechados ouvindo a pequena e descontraída discussão de Naruto e Kakashi. A voz rouca do loiro, tão próximo dela, era bem calmante e a garota esteve tão tensa e cansada ate agora que quase podia interpreta-la como uma verdadeira canção de ninar.
– Além disso, se vocês vão falar sobre o que aconteceu hoje, eu bem que gostaria de saber. Você me deixaram para trás, lembra?!
– A gente ia fugir para pedir ajuda depois. Mas... Agora que você falou, o que você estava fazendo em um lugar como aquele?!
– Ora Naruto, eu sou um adulto e pago minhas contas. O que faço nas horas livres não te interessa.
– Do mesmo jeito que minha conversa com a Hinata não te interessa...
– Eu, na verdade, gosto de um romance agua com açúcar como o de vocês, de vez em quando...
– Então vá ver uma novela...
– Ei, fica quieto! Acho que Hinata dormiu...
Ela não estava dormindo de verdade, apenas tentava manter os maus pensamentos afastados para poder descansar a mente. Ainda ouvia as vozes da conversa deles, porem de forma um pouco distante. Ela não estava dormindo, ainda não... mas...
Automaticamente, por um milésimos de segundo, a garota reviveu todo pavor do pesadelo de teve. Viu as cenas intercaladas daquele que deu inicio a isso tudo, o horrível momento em que viu sua mãe e irmã se afastar e desaparecer, enquanto Naruto se transformara em um monstro sangrento dominado pelo mais puro ódio.
– Não! Dormir não! – Ela sentou-se rápido, estava tão nervosa que quase parecia que tinha acabado de despertar do tal sonho.
– O que foi? – Naruto perguntou, preocupado.
– Nada... – Ela bufou e levou uma das mãos a cabeça esfregando sua têmpora, se sentindo nauseada com as imagens que novamente tomou conta de sua mente, sua cabeça começava a tamborilar.
– Quer que eu pare o carro? – Kakashi perguntou já diminuindo a velocidade, viu como ela ficara pálida de repente.
– Não, por favor, vamos para casa... – Ela disse simples, mas depois dessa reação, pensou que deveria se justificar. – É que eu tive um pesadelo mais cedo e agora...
– Vem cá... – Naruto cercou os ombros dela com um dos braços formando um meio abraço.
Hinata, em um primeiro intuito, quis afasta-lo, mas depois pensou em tudo que sentia e em como sua presença a acalmava, como ele sabia trata-la de forma atenciosa e paciente. Então aceitou o amparo oferecido e fechou os olhos, aproveitando melhor aquele contanto quente e cheio de sentimentos e significados que dividiam.
Ele tocou seu rosto gentilmente, fazendo-a mover a cabeça para que descansasse em seu ombro e ela pode ate mesmo sentir o toque dos lábios dele em sua face e ouvi-lo sussurrar em seu ouvido.
– Você ainda deve estar assustada com isso tudo, não é?!
– Você não imagina o quanto...
Descansando naquele aconchego que estava aprendendo aos pouco a apreciar. Ela pensava em quando o viu pela primeira vez no hospital, era apenas um estranho que surgira em alguns sonhos confusos... Agora, essa leve e longínqua ideia parecia extremamente errada, pois ele sempre foi tão mais “intimo”.
Nunca imaginou que os seus sentimentos por uma pessoa poderiam mudar drasticamente em tão pouco tempo. Entre o “gostar” da primeira impressão no hospital, o “odiar” das lembranças da briga, o “voltar a gostar” com a conversa na lanchonete, e então... O que seria agora?! Desde o beijo que trocaram no auditório do colégio ate essa revelação da noite que se entregou para ele... Não havia muito do que duvidar, a verdade de cada uma das palavras que disse a ele naquela ocasião era quase palpável de tão nítida... O que sentia era mesmo amor... Talvez fosse o tempo todo, ela apenas não era capaz de identificar ou entender.
Entretanto, pensar nessa palavra a deixava um pouco nervosa, principalmente se começasse a imaginar como seria a conversa que precisavam ter...
Estava começando a ficar ansiosa por um momento as sóis com Naruto.
***
Assim que os portões se abriram e o carro entrou, a primeira pessoa que Kakashi viu foi Sakura, estava no gramado conversando com alguém que, de longe, pensou que fosse Hiashi, mas quando foi se aproximando percebeu que era, na verdade, o sobrinho, Neji.
Estacionou o carro, saindo lentamente, sem tirar os olhos dos jovens que se aproximavam, depois perdeu o interesse a foi ajudar Naruto a retirar Hinata que ainda mancava e precisava se apoiar no carro para permanecer de pé sozinha.
O socorrista gostava de ver os dois juntos, era engraçado presenciar esse interesse romântico disfarçado de nervosismo, preocupação e timidez. Uma única frase piegas vinda de qualquer um dos dois acabaria com essa tortura sentimental que ele tanto achava interessante de assistir, mas parecia que isso nunca aconteceria por si só. Diferente dos jovens de hoje em dia, eles eram desastrados que sabiam como se enrolar e perder tempo, o que para ele era bom, pois assim poderia se divertir um pouco mais...
– Finalmente apareceu! – Sakura abraçou Hinata apertado. – O que você estava pensando?!
– Ela não estava. – Neji disse também chegando a eles.
– Relaxa, tudo acabou bem no final. – Naruto sorriu.
Kakashi permaneceu quieto observando a cena em que Sakura dava um sermão à morena por seu desaparecimento, Neji também falava algo e frequentemente Hinata e Naruto se entreolhavam quase como se pudesse se comunicar telepaticamente.
Então alguém atraiu sua atenção, um homem alto de terno e cabelo longo chegava andando, tentando disfarçar a pressa em seus passos que hora eram mais apressados, outrora mais contidos.
– Hinata!
Hiashi chegara ate eles um tanto apreensivo e o socorrista poderia jurar que se não tivesse saído da frente dele a tempo, com certeza, seria empurrado para abrir passagem. E para ele ficou nítida a intensão do Hyuuga de abraçar a garota logo que a alcançasse, porem assim que estendeu o braços para ela, Hinata se afastou.
Parecendo querer fugir de seu pai, a morena deu dois passos para trás, esquecendo-se de sua perna ruim, acabou sentido dor e perdendo o equilíbrio. Naruto e Neji automaticamente ergueram suas mãos para tentar pega-la, mas o surpreendente era que ela não precisou de ajuda, conseguindo, mesmo com alguma dificuldade, se manter sozinha.
– Já passou, é só uma dorzinha chata! – Ela disse aos rapazes, tranquilizando-os.
– Você esta ferida?! – Hiashi perguntou parando e baixando seus braços estendidos. – Como ela se feriu?!
A pergunta foi direta ao socorrista e saiu em um tom de ordem que ele não gostou nada, antes de responder olhou bem para as expressões apreensivas que Naruto e Hinata adotaram, reconheceu o medo deles de tudo que aconteceu ser exposto nesse momento.
– O que eu posso saber disso?! Foi Naruto que a encontrou, eu apenas ofereci uma carona. – Kakashi respondeu simples dando os ombros, percebendo o quão aliviada a morena ficara com sua resposta.
– Foi minha culpa... – Naruto dizia, mas ela o interrompeu:
– Eu apenas escorreguei e cai, não é nada serio!
– Nem tanto. Esse corte é profundo e precisa ser limpo, talvez seja necessário fazer dois ou três pontos também. – O socorrista resolveu se aproximar e encarou Hiashi um pouco mais de perto. – Eu posso cuidar disso, se o senhor tiver um kit de primeiros socorros aqui.
– Sim, garanto que minha governanta deve ter o que precisa.
– Ótimo! Hinata, você consegue ir para dentro sozinha? Ou talvez Naruto precise te ajudar como antes.
– Não, eu estou bem... – Ela disse sem jeito.
– Eu não me importo em te ajudar. – Naruto sorriu.
Kakashi sorriu novamente, ver o efeito do seu “empurrãozinho” nos dois era mesmo divertido, também notou que Sakura e Neji tentavam se fazer de desentendidos, contendo o risos e comentários para não estragar o clima, obviamente compartilhavam do mesmo tipo de “entretenimento” que ele.
Porem logo percebeu a expressão mais fechada de Hiashi, que ate era bem compreensível. Afinal, que pai fica confortável com um rapaz “cortejando” sua única filha na sua frente?!
– Por que vocês não vão entrando?! Eu preciso conversar com Hiashi-sama.
Ele viu a forma do olhar que Hinata o lançou, mas ele apenas sorriu para tentar transmitir confiança, sabia que a comunicação visual entre eles não era tão afiada quanto a que ela tinha com o Naruto, mas espera que entendesse mesmo assim.
Logo os jovens se encaminharam para dentro, Hinata se apoiava em Naruto abraçando-o pelo torso e tentando não tropeçar em seus descuidados passos mancos. Ate que, enfim, chegou aos três degraus ressaltados para o porta, os quais queria, teimosamente, tentar subir sozinha, como se andar em linha reta em uma superfície plana já não fosse difícil, imagine ter que apoiar todo o peso em um joelho nada confiável para subir um degrau.
Sakura reclamou um pouco dessa teimosia, mas uma discussão de verdade nem chegou a acontecer, pois Naruto simplesmente a pegou nos braços e a carregou para dentro, sem que desse tempo para que dissesse qualquer coisa.
– Sobre o que queria falar? – Hiashi perguntou tirando a atenção que Kakashi tinha nos jovens.
– Não será uma conversa, na verdade. É apenas um conselho de médico. – Se escorou no carro, cruzando os braços.
– Sobre minha filha, ela...
– Você deve se afastar da Hinata.
– O que? Como se atrev...
– Por hoje, pelo menos! – Se retificou. – Enquanto estávamos vindo para cá, deu para perceber que ela esta um pouco “sobrecarregada” e eu vi agora pouco que ela também está receosa quanto a você, então... Seja lá qual foi o motivo que fizeram vocês brigar, ou se o senhor quiser se desculpar ou repreende-la por ter fugido, não importa, deixe isso para outro dia.
– Quem você pensa que é para me dizer o que devo ou não fazer com minha filha?! – Hiashi disse baixo, fria e secamente.
– Um médico... – Ele respondeu simples. – Foi o que eu disse, isso é só uma observação de médico, acho que será o melhor para ela. Hinata merece um pouco de paz, não concorda?!
***
Entrar em casa sendo carregada por Naruto era algo que Hinata não esperava, falava com Sakura sobre conseguir se apoiar mesmo com a perna ferida e, do nada, ouviu um resmungo dele sobre seu “orgulho bobo” e sentiu os braços a sua volta e suas pernas suspensas no ar.
Agora ele a colocava no sofá cuidadosamente, sentou-se ao seu lado.
– E aqui estamos, sãs e salvos. – Ele disse.
Conversaram um pouco sobre qualquer coisa e, em dado momento, Neji e Sakura saíram dizendo que procurariam Natsu e o Kit de primeiros socorros que Kakashi pedira, deixando-os completamente sós na sala. Era uma desculpa bem esfarrapada já que, não precisaria dos dois para isso e provavelmente Neji já saberia onde o tal Kit estaria. Mas a morena não se surpreendeu tanto, já que fizeram algo igual na lanchonete.
Naruto e Hinata ficaram calados enquanto se olhavam em um prevê momento de constrangimento mutuo, ela se sentira tentada a tocar naquele assunto que tanto ansiava por falar, mas se conteve. Sabia que alguém poderia aparecer a qualquer momento e interrompe-los, ou pior, ouvi-los, já que não estando completamente sozinhos. Não podia nem imaginar estar falando algo “íntimo” e seu pai aparecer, por exemplo...
Não, ela não queria começar essa conversa de forma descuidada e ter que deixa-la inacabada por algum motivo.
Pensou em convidar Naruto para almoçar, assim ganharia algumas boas horas de espera, onde poderia tirar algum tempo serio para conversar.
O viu tomando ar para finalmente falar algo, porem seu celular tocou, interrompendo a linha de raciocínio...
Naruto, primeiro viu quem era, para depois se levantar, andar para um canto da sala e atender, com uma cara não muito animada, falou com alguém que chamou de “Ero-Sannin” que ela já sabia ser padrinho dele. A única frase inteira que o loiro falara foi no começo, a respeito de já ter encontrado a garota, depois foram só múrmuros e resmungos.
Nesse meio tempo Kakashi entrou na sala e logo depois Natsu com uma pequena maleta branca e Neji e Sakura atrás dela. Conversaram mais um pouco e a garota teve que inventar respostas a algumas perguntas curiosas da governanta sobre onde esteve e porque fugiu.
Era como Hinata pensara, os dez minutos que ficaram sozinhos não serviriam para nada.
Depois disso, Naruto deixou-a aos cuidados do socorrista e chamou Neji e Sakura para conversarem lá fora, a morena sabia, pelo olhar que ele a lançou, que o assunto seria o temido encontro com Kakuzu.
– Por favor... – Kakashi chamou a governanta. – Poderia trazer a receita que Tsunade prescreveu? Quero ver os remédios Hinata esta tomando.
Natsu acenou minimamente e saiu, assim Kakashi e Hinata acabaram por ficar sozinhos na sala.
– E aqui estamos. – Ele disse apenas para puxar assunto. – A sua casa ate que é ajeitada, hein, Hinata?!
– Muito grande para apenas 3 pessoas, não é?! – Ela disse educada.
– Principalmente se essas três pessoas mal se falam... – Ele se abaixou e pegou um dos porta-retratos da mesa de centro. – Essa é a sua mãe?!
– Foi o que me disseram. – Ela riu um pouco.
– Não se lembra de nada dela? – Ele perguntou e ela apenas deu os ombros um pouco desanimada. – Então eles podiam colocar qualquer foto aqui e você acreditaria que é sua mãe...
– Na verdade, não... Eu sei que é ela. Mesmo sem ter lembranças, eu consigo reconhecê-la.
Kakashi colocou o porta-retrato em perspectiva com a garota sentada para poder comparar as duas. Então sorriu e disse.
– Bem, vocês se parecem. Ela deve ser sua mãe mesmo! – Ele se abaixou e pegou outros três porta-retratos que estavam na mesinha de centro e pôs em cima do outro sofá. – Apoie sua perna aqui, para eu dar uma olhada.
A garota, depois de fazer como o pedido e deixar a perna descansada ali, sentiu que aos poucos isso passou a se tornar custoso. Hinata tentava não transparecer a dor que estava a aumentar gradativamente, tanto no ferimento quanto em seu joelho por ter que deixar a perna esticada daquele modo. Ambos incomodavam muito, mas ela conseguia disfarçar, enquanto ele retirava da pequena maleta de primeiros socorros os utensílios que precisaria.
Ele pegou uma porção do algodão e logo molhou em álcool, passando habilmente no corte exposto. Mantinha a atenção no que fazia e pouco falava ou olhava para ela.
Ela decidiu começar uma conversa para se distrair da ardência que o liquido causava:
– Por que escondeu a verdade para o meu pai?
– O que? Você queria que eu dissesse que encontrei Naruto e você no meio de uma boca de fumo? – Ele perguntou em um tom irônico.
– Não...
– Então não há o que falar. – Ele disse simples depois mudou de assunto. – Vou precisar dar alguns pontos nesse corte.
– Tudo bem, acho que não pode doer mais do que já esta.
Ela sentiu quando sua perna foi espetada pela agulha, assim como o deslizar da linha passando e unido novamente sua pele. No começo, pensava que conseguiria se habituar a costura que sofria, mas a cada ponto dado parecia que sua perna ficava ainda mais sensível a dor.
Travou os dentes, engoliu um gemido e segurou as lagrimas ate o ultimo espetar, decidida a não deixar que o socorrista percebesse sua angustia. Foram quatro pontos no total.
– Tudo bem? – Ele perguntou.
– É... – Ela tentou disfarçar – É só o meu joelho, não esta muito confortável assim.
– Isso me preocupa também. Talvez você precise ir tirar um raio-x.
– Eu não quero ir a hospital...
– Estou começando a achar que você é masoquista. – Ele riu. – Por que esse medo de hospitais?! Não quer ajuda para melhorar?
– Eu não tenho “medo” de hospitais! Mas sempre que vou lá, parece que Tsunade quer inventar desculpas para me internar de novo. Ela me irrita as vezes.
– É, Tsunade-sama é mesmo assustadora as vezes. – Kakashi riu. – Vamos fazer assim, não tomaremos nenhuma atitude por enquanto, mas se você piorar terá que procurar ajuda, entendeu?!
Ela apenas acenou concordando e Kakashi começou a preparar a gaze e o esparadrapo, vendo a melhor maneira de enfaixar o joelho dela para minimizar a dor e, assim que decidido, começou o trabalho.
Observando as mãos ágeis do socorrista agindo, Hinata percebeu que, por ficar curvado naquela posição, um cordão se desenrolara e ficara pendurado em seu pescoço, balançando de um lado para o outro. Enquanto rodopiava pelo próprio eixo, ela conseguiu ler o que estava marcado nele: de um lado era “Rin” e do outro “Obito”.
Sentiu algo diferente ao pensar nesses nomes e, em um ato impensado, esticou a mão para pegar o pingente.
Kakashi não permitiu, assim que percebeu, se ergueu tirando-o do alcance de Hinata e escondeu-o por dentro da camisa.
– Desculpa. – Ela pediu.
– Tudo bem...
Ele voltou a enfaixar sua perna, mas um silencio estranho se estagnou entre eles. Kakashi agora parecia tenso, talvez ate um pouco mal-humorado, e, mesmo Hinata não entendendo, não queria puxar conversa naquele momento.
– Sabe, Hinata. – Ele falou de repente. – Existe uma regra ética na medicina que impede que um médico cuide de parentes ou amigos próximos.
– Eu sei.
– Mas eu sou um socorrista, meu dever é chegar rápido aos locais de acidente, muitas vezes sem ter noção de quantos feridos há ou de quem são...
Ela não disse nada, sabia que não precisava dizer para que ele prosseguisse com a historia:
– Rin fez faculdade comigo, e se tornou médica-legista da policia. Obito era só um cara rico que ela gostava e, por tabela, acabou se tornando meu melhor amigo também. Então, num dia normal de trabalho, eu recebi uma chamada... E quando cheguei lá eram eles... Eu queria ajuda-los, mas haviam outras pessoas que também precisavam de atendimento. Meus colegas e eu nos dividimos e eu respeitei essa regra ética e me afastei...
– O que aconteceu?
Ela não queria fazer essa pergunta, mas ela simplesmente saiu de sua boca ao ouvir sua ultima frase. Se arrependeu de imediato após ao ver a expressão que tomou conta do olhar do socorrista.
– Foi... um acidente bem grave. – Ele respondeu baixo.
– Sinto muito.
– Tudo bem, três anos é tempo o bastante para reagir, não é?! – Seu sorriso era perceptível mesmo por sob a mascara cirúrgica. – Alguém me disse uma vez que certas dores não podem ser superadas, mas o tempo nos torna forte e ajuda a suporta-las.
Hinata encarou o médico surpresa, pensando no que disse. Ela conhecia aquelas palavras, o tom dela e o sentido. Lembrando, quase podia se ouvir pronunciando a mesma coisa:
Não acho que é algo que dá para superar... O que acontece é que aos pouquinhos o tempo nos torna mais forte para podermos resistir a ela. E quanto mais tempo, mais resistimos e mais fortes ficamos e a dor deixa de ser tão incomoda...
Já usara essa frase antes, na verdade era um modo de pensar seu, que algo que saiba só havia dividido com Naruto a muito tempo atrás, naquela vez em um ônibus escolar. Era basicamente o mesmo discurso...
– Kakashi...
– O que?
– Vai parecer estranho perguntar isso agora, mas... Nós já nos conhecíamos?! Digo, antes do meu acidente?
O socorrista ficou encarando-a por mais de um segundo antes de voltar os olhos para a gaze e esparadrapo que usava para enfeixar sua perna, terminando seu trabalho em silencio.
– Isso mostra o quanto você esta confusa. – Finalmente disse.
– Hum?
– Hinata, nós nunca nos vimos, aquela vez foi a primeira...
– Desculpa, é que fiquei com essa impressão. – Ela riu um pouco. – Estranho, né?!
Ele se levantou sem encara-la e foi ate sua mochila que estava jogada ao pé da cama, quando voltou a olha-la, falou com um tom médico extremamente profissional.
– Hinata, eu estou te proibindo andar por enquanto. Não quero que force seu joelho enquanto o inchaço não diminuir e, se não melhorar em uma semana, quero que vá ao hospital tirar um raio-x. – Ele se sentou na cama, agora com um livro em mãos. – E vou te devolver isso para ajudar a passar o tempo.
Ela sorriu ao reconhecer o livro que havia emprestado, o mesmo que Naruto lhe dera de presente a muito tempo atrás.
***
– Akatsuki... – Neji levou as mãos ao rosto, pensativo. – Ah, eu pensei que tinha virado essa pagina da minha vida...
– Nós viramos, mas Hinata parece estar alguns capítulos para trás. – Naruto riu sem graça. – As coisas ficaram bem complicadas.
Os três conversavam no jardim, um pouco afastados da porta principal, no local em que se encontrava estavam de frente para a janela na sala, sendo possível ver a garota sendo tratada pelo socorrista, aparentemente eles não tinham sido notados.
– Isso não faz o menor sentido, como ela foi parar em um lugar assim por acidente?! – Sakura disse.
– Ela me disse que não se lembrava. Quando se deu conta, já estava lá. – O loiro explicou.
– Isso é tudo culpa sua! – Sakura acertou o Hyuuga com um soco no ombro. – Dê um jeito de resolver isso antes que Hinata acabe no meio desses bandidos de novo.
– Eu sei! Eu vou falar com ela... Só preciso de um tempo para pensar no que dizer. Ela também brigou comigo ontem, não sei se é uma boa hora.
– Brigou com você também?! Achei que era só com o Hiashi. – Naruto disse.
– Primeiro, ela parecia meio assustada, nem queria me deixar chegar perto, mas, quando eu ou Hiashi-sama tentamos toca-la, ficou bem furiosa.
– Ela devia estar começando a lembrar das drogas e tudo mais... Ela reclamou comigo que estava tendo uns pesadelos.
– Na verdade, eu não disse nada de ruim, mas quando intervi na briga deles, ela estava zangada comigo também.
– É como você disse antes: Ela esta bem confusa...
Enquanto andava pensou novamente no breve beijo que ela lhe dera e as palavras que usou...
Sinto muito, por me esquecer... Por tornar tudo tão mais difícil para nós dois.
De onde veio isso tão de repente?!
Ela o estava evitando e sendo a orgulhosa de sempre, ele quase juraria que estivesse com raiva de algo que ele disse ou fez que a magoou sem perceber...
Então simplesmente o beija e diz algo desse tipo?!
Isso o deixava mais que confuso, era de enlouquecer... Como tudo que Hinata fazia, sempre imprevisível e “bipolar”...
Talvez fosse o que mais gostasse nela, essa forma única de agir...
– Espera um pouco... Isso tudo parece muito estranho. – Sakura disse pensativa. Se manteve quieta e observadora, apenas ouvindo e analisando o que os rapazes disseram, mas agora achou que era hora de intervir.
– Como assim? O que é estranho? – Naruto a encarou atentamente.
– Primeiro você diz que a Hinata teve um apagão e não lembra como chegou ate a Akatsuki e agora Neji fala que ela não queria ser tocada?!
– Ela esta doente. A amnesia... – Neji dizia, mas fora interrompido:
– Vocês sabem que eu quero estudar medicina e eu acabo lendo muito sobre isso. E com tudo que vocês falaram, não parece que essa amnesia seja algo do acidente, na verdade parece algo mais “psicológico”...
– Psicológico como?! – Naruto perguntou.
– Eu não sei, eu não sou médica... Só estou preocupada. Acho que oque falaram sobre a Hinata ter batido com a cabeça pode não ser verdade.
– E por que alguém mentiria sobre isso?! – Neji perguntou. – E que outro motivo ela teria para perder a memoria?!
– Bem, existe muitos motivos para alguém ter esse tipo de problema... – Sakura desviou o olhar, porem o Hyuuga pode ler esse gesto com suspeita.
– Mas você tem algum palpite?!
– Não! Eu não sou qualificada para falar qualquer coisa! – Ela respondeu rápida. – Só fiquei intrigada.
– Eu estou preocupado... – Naruto bufou. – Já tem algum tempo que eu estou preocupado... As vezes quando eu olho para ela quase não posso reconhece-la, é como se estivesse carregando algum tipo de peso que a fizesse mal... Vocês não percebem isso?!
– Pode ser estresse ou ela se lembrando de algumas coisas... – Neji pensou.
– Não! Eu não sei o que é, mas é mais que isso. As vezes ela fica muito estranha...
Todos ficaram pensativos e em silencio, pois também já haviam notado as mudanças de comportamento de Hinata. Talvez o loiro mais do que qualquer um.
– Se tiver alguma coisa a mais nisso tudo, eu quero saber! – Naruto disse de forma determinada.
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