O Devorador de Profecias
2 Capítulo 1

O cenário não era um dos melhores, as sombras já haviam engolido tudo o que se podia ser visto ou tocado; engolindo até mesmo a esperança daqueles que buscavam por um futuro melhor, homens e mulheres de todas as espécies que já haviam deixado que Embrívora tomasse conta de seus destinos e profecias vagavam como seres sem almas. As veias negras cobrindo o corpo como uma segunda pele de forma asquerosa.
Eu ainda estava tentando entender o que aconteceu quando minha mãe gritou por meu nome, meus olhos se desviaram da cena de inúmeras sombras negras como o céu noturno tomando conta da nossa pequena vila e finalmente se fixaram sobre minha mãe. Meus olhos arregalaram quando eu notei a cena diante a mim, há quanto tempo estou em devaneio? Como tudo isso começou? O pânico começou a preencher o meu corpo quando me levantei do chão, a minha frente estava minha mãe — caída sob os escombros de nossa casa em chamas, os olhos inundando de lágrimas que ela se recusava a deixar rolarem. Eu me aproximei, a dor em meu joelho se tornando proeminente enquanto o calor e a adrenalina sumiam de meu corpo.
— Ália, preciso que me escute. — Mamãe disse, meu nome escapando de seus lábios como uma súplica, no fundo era notório o quanto ela estava segurando sua dor. — Ália! Preste atenção!
A voz alterada dela me fizeram dar um passo para trás, ainda atordoada enquanto uma dor invadia meu peito, como se meu corpo já tivesse se dado conta do que estava acontecendo.
— Querida, eu preciso que você vá embora daqui... — Ela tentou novamente, a voz saindo mais suavemente, como quem se fala com uma criança. — Você não pode ficar aqui.
— Mas mamãe... O que farei sem vocês? E o papai? — questionei, olhos tentando encontrar qualquer sinal sob os escombros da casa.
— Ália, nada disso importa mais! — A mulher me respondeu, a voz saindo como um rugido enquanto as lágrimas começavam a deslizar sobre as bochechas arranhadas. — Você é quem importa! Precisa fugir e precisa se lembrar de nunca deixar que esse mal tome conta de você! Seja pura para sempre, filha minha, e siga o destino que Eterion teceu para você desde o nascimento. Agora vá!
Eu estava prestes a respondê-la quando outra bomba explodiu perto de onde estávamos, quando me virei para olhar, metade de Aurivale já havia sido tomada por algo que nunca sequer vimos a face, mas que devorava tudo e a todos como se sua fome nunca cessasse. Quando voltei a olhar para minha mãe, seus olhos já haviam se fechado e a cabeça havia caído sobre a lama.
— Mãe! — Eu gritei, me sentando sobre a cama feita de folhas-do-abismo-silencioso.
Meus olhos correram pelo quarto escuro, procurando algo ou alguém enquanto meu peito subia e descia rápido, já era a terceira vez na semana que estava tendo pesadelos — novamente. Eu desci os pés, sentindo o chão de terra esfriar os pés antes quentes enquanto eu levava as mãos à cabeça, apoiando cotovelos sobre os joelhos. Eu chorava, não me lembro quando comecei ou quando pararia; entretanto, as lágrimas têm sido minhas melhores amigas. Ajudando a afogar a dor da perda no oceano de memórias. Mesmo ao fechar os olhos, tudo o que eu enxergava era o que antes fora uma família feliz, agora destruída. Havia se passado cinco anos. Cinco anos que venho chorando e acordando antes do próprio sol.
Eu me levantei após alguns minutos, saí da cabana que construí no meio de uma floresta na cidade de Veridiana, cujo a grama desta havia se tornado um punhado de cinzas. Há alguns passos de distância havia um pequeno riacho e era dali que eu buscava água — ou apenas assistia os peixes nadando. Ao ver meu reflexo sobre a água tão clara quanto uma jóia rara, eu parecia tão humana quanto qualquer humano; notei também o quanto parecia exausta. Não me lembro da última vez que penteei o cabelo e vivia usando magia para que ele ficasse quieto e menos esvoaçado, todavia nunca parecia ajudar quando no fim do dia ele parecia nunca ter visto água limpa e um bom sabão caseiro. Eu juntei as mãos em concha, peguei um pouco de água e bebi antes de despejar sobre meu rosto.
O sol nascia além do horizonte, pintando o céu de um rosa-alaranjado enquanto as primeiras aves despertas começavam a cantarolar com seus gritinhos irritantes, quando uma eco-rastejante se aproximou e abriu o bico para soltar um choro agoniado, eu levantei o dedo em sinal de silêncio.
— Não faça isso — pedi, olhando-a de forma mortal. — Não estrague meu dia apenas para melhorar o seu.
A ave me encarou, as órbitas escuras que moravam em seus olhos me faziam-na parecer Embrívora em forma mortal. Ela virou a cabeça apenas mais alguns segundos antes de abrir as asas e voar para longe. Eu tinha medo que alguma dessas pudesse repetir as últimas palavras de minha mãe. Outras aves passaram a cantar, me lembrando do meu plano atual: Eterion estava tomada pela praga, espécies haviam perdido suas vidas e vilas foram desfeitas. Entretanto, havia uma pessoa que poderia ser a chance de tudo isso voltar ao normal — mesmo que não trouxesse os mortos à vida —, O Devorador de Profecias.
Originalmente dizendo, este homem retira maldições e desfaz profecias que estejam desvanecendo o futuro de alguém. Lembro-me de escutar sobre ele ao passar por uma taverna no vale dos alados, após perguntar para uma pixie onde tal homem vivia, passei a entender o porquê do apelido. Rumores diziam que ele vivia em Cineris, um lugar tão amaldiçoado quanto seus visitantes, entrar em Cineris é como pisar num sonho febril que nunca acaba; e apenas pensar nisso me trás náuseas. Não sei o que ele pode fazer ou quão grande é seu poder, mas se há uma chance de salvar o meu lar e o lar de outros seres, eu precisava ao menos tentar. Entretanto, Cineris era tão grande quanto qualquer outro reino, buscar por ele era como atirar no escuro.
Eu voltei à cabana, juntei tudo o que levava de volta à bolsa que carregava e parti antes que os primeiros raios de sol pintassem Veridiana de dourado. O mapa que carregava comigo já estava desgastado, não me ajudava a compreender quais trilhas levavam a algum lugar e quais não levavam a lugar nenhum; eu poderia estar andando em círculos e nunca saberia.
Fale com o autor