Todo o percurso parecia longo e demorado, olhei tantas vezes o mapa em minhas mãos que passei a ter certeza que Cineris nunca existiu e que fora somente inventada por aquela pixie; o que seria difícil uma vez que Cineris estava na história antes mesmo do meu nascimento.

No caminho, encontrei alguns ogros e anões que vendiam colares à prova de maldições, estes têm ficado bastante famoso desde que Embrívora despertou, pessoas e seres compravam os colares pensando que assim se tornariam imunes a qualquer sombra que quisesse roubar deles o direito de seguir a vida de boa maneira e longe das sombras devorando seus caminhos como uma mãe furiosa. Nunca entendi como elas funcionam, apenas sabia que aqueles que possuíam os destinos engolidos pela praga, se tornavam marionetes da própria maldição — fadados a viver para sempre com um futuro corrompido e incerto. Todavia, aqueles na qual Eterion nunca desenhou um futuro, foram engolidos por inteiro. Se tornaram pó da qual vieram, deslizando para dentro da terra onde pertenciam e deixaram de ser lembrados por familiares... Acredito que meus pais possuíam um futuro. Morreram tão puros quanto qualquer ser alado do vale citado antes, pois me lembro deles.

Me lembro também do quanto doeu perdê-los para o destino e não por Embrívora; mas a culpo mesmo assim.

Na verdade, culpo Eterion às vezes, pois o reino se adaptou ao pecado que Lord Vorath cometeu. Deixou que seu povo fosse engolido pela soberba dele que escapou dos buracos da terra, por que de onde mais sairia a praga senão do inferno?

Com os pensamentos nas nuvens e o devaneio no corpo, tropecei e quase me colidi ao chão, tendo poucos segundos para firmar os pés contra a estrada de terra. Eu me virei, encontrando o pequeno ser que havia tropeçado sobre.

— Céus, tudo bem? — perguntei ao me aproximar, mantendo as mãos longe daquele ser, por ser tão pequeno tive medo de amassá-lo.

— Já não basta demorar para atravessar a trilha, ainda tenho que receber um pisado? — O serzinho rabugento resmungou, se levantando e tirando a poeira das roupas minúsculas.

— Você é um... Hob? — perguntei, talvez a mim mesma um pouco surpresa de vê-lo por ali. — Vocês não ficam em casas? O que faz aqui?

— Buscando alimento, oras. Estaria chegando em casa se não fosse por você, humana.

As palavras dele, a forma em que ele pareceu dizer "humana" como uma ofensa me fez me afastar. Eu olhei em volta, disfarçando o desconforto enquanto procurava qualquer casa à vista.

— Não sei em qual casa você deve viver, mas certamente está longe dela — respondi por desaforo, olhando-o me encarar como se pudesse pegar uma faca e cortar minha garganta se fosse alto o suficiente. — Me leve ao seu senhorio ou sua senhora.

— Além de mal-educada, gosta de dar ordens. — Pude o escutar dizer sob a respiração.

Eu queria pisar novamente naquele hob, talvez esmagá-lo de verdade, mas segurei os pés e passei a seguí-lo quando ele praticamente me apressou. O problema era o quanto estava demorando, comparado a mim, aquele ser doméstico tinha 23cm e andava feito uma lesma; qualquer passo largo era necessário esperá-lo enquanto ele fazia reclamações do tipo "se você sabe onde é a casa, siga sozinha. Agora se não sabe, me espere!" — tinha pena de quem comandava este pequeno ser, pois se fosse eu a ser sua senhoria, já teria mandado-o calar a boca.

Quando chegamos na tal casa, me deparei com algo semelhante a uma toca de raposa, porém, um pouco mais alta e larga ao ponto de caber um ou dois humanos altos ali. Seu teto era feito de cogumelo-rosê, uma espécie de cogumelo venenoso que existia perto aos pântanos. Pântanos! Isso, era onde aquele homem morava, talvez...

Minha esperança morreu tão rápido quanto a luz do dia.

A porta de madeira se abriu, revelando de dentro uma elfo vestida com roupas tão rosas quanto o teto de sua casa. O vestido era feito de flores, certamente, mas muito bem desenhado.

— Claus! Quanta demora! — Ela reclamou, me fazendo talvez entender o porquê do hob ser daquela maneira.

O ser doméstico da elfo entrou na casa, ignorando sua senhoria enquanto me deixava para trás. Os olhos dela, por outro lado, se voltaram para mim, se arregalando.

— O quê? Quem é você?

— Desculpe. Pedi que seu hob me trouxesse até aqui, estou em busca de informações.. — respondi, sentindo desconforto pela maneira em que ela me encarava.

Parecia assustada. Assustada ao ponto das unhas em formato de ganchos estarem viradas em minha direção. Todavia, um sorriso se abriu pelo rosto da elfo, tão brancos quanto seus olhos.

— Ah, sim? Pois bem, entre então. Acabei de assar um bolo. — Ela disse, se virando e adentrando a toca, deixando a porta aberta ao desaparecer na escuridão.

Eu engoli a seco, porque ao me aproximar da entrada, minhas mãos começaram a tremer e era possível sentir a energia que aquele local emanava; pareciam lâminas afiadas cortando a pele.

Ao adentrar no local entretanto, fui surpreendida com móveis feitos de madeira e couro de vaca, as cores variavam entre o rosa claro ao mais forte existente. As prateleiras estavam preenchidas de taças e jarras de cerâmica, além de algumas bebidas que não ousaria perguntar o que eram.

— De onde você vem? Não me lembro de ver humanos vindo da capital em anos.. — A elfo questionou, me fazendo olhá-la.

Ela estava ao lado de um fogão, não estava ligado e parecia apenas galhos, mas a magia que ela jogou sobre fez com que se parecesse um fogão de ferro branco. Havia outros hobs sobre as bancadas feitas de vinhas, alguns dormiam e outros limpavam com panos tão finos as bancadas, que pareciam sumir em suas mãos.

— Venho de Aurivale — respondi enquanto segurava a bolsa mais forte contra as costas ao ver uma hob de nariz comprido encará-la por tempo demais.

As orelhas pontudas da elfo se mexeram, se virando totalmente em minha direção como se o interesse tivesse se instalado em seu corpo.

— Aurivale, você diz? Faz tempo que não visito essas terras... Está longe de casa. O que busca por aqui?

— Estou em busca do devorador de profecias, o conhece? — A pergunta fez com que seu corpo ficasse tenso, as mãos pararam de se mover antes que ela cortasse o último pedaço do bolo.

Os hobs pareceram notar a tensão, ficando em silêncio e me encarando após eu ter mencionado o título do homem por quem eu buscava e ansiava encontrar.

— Muitas pessoas o buscam... Algumas para retirar maldições e outras em busca de uma forma para reescrever o futuro que fora esquecido entre as sombras da praga da noite. Entretanto, garota humana, você não parece amaldiçoada ou com um futuro encoberto.

Eu a encarei, porque aquilo tudo era verdade, eu nunca fui amaldiçoada e não esperava que fosse. Na verdade, eu sabia que não seria. Meus olhos se desviaram para as paredes brancas do lado de dentro da onde ela vivia, a cabeça recebendo uma dor aguda quando pude ver além daquilo que me era permitido. Os móveis feito de espécies diferentes de hobs, até mesmo o bolo que ela assou havia tanto sofrimento que as visões que me permitiam ver o futuro pareciam embaçadas. Aquilo não era um lar doméstico de hobs se não um matadouro deles. Então o vislumbre do futuro me alcançou, a casa que aparecia nas visões queimava, alcançando as árvores da floresta.

— O busco porque preciso descobrir algo — menti, olhando para a elfo. — Apenas me diga onde ele está e eu não a incomodarei mais.

— Certo, então. Você não parece uma ameaça... Todavia, não vai aceitar sequer um pedaço do bolo? — Ela perguntou, um sorriso diferente surgindo nos lábios avermelhados. Ao ver minha expressão séria, o sorriso desapareceu tão rápido quanto surgiu. — Vejamos... Se você seguir ao norte, chegará ao pântano de Cineris, os trolls saberão dizer onde o homem das maldições certamente está.

Eu gravei o caminho que ela mencionou na mente, após inúmeras tentativas da elfo de me oferecer o bolo feito de seus próprios hobs domésticos, ela finalmente me deixou ir embora quando revelei a ela que sua casa seria queimada mesmo feito de barro. Porque o destino dela estava corrompido e sua alma, destinada ao inferno.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.