Malthus, um homem de cerca de 35 anos, estava num quiosque na praia lendo o roteiro de uma peça de teatro: O Beijo no Asfalto, de Nelson Rodrigues. Ele lia o seguinte trecho, no qual o protagonista confessava a cunhada um deslize que cometeu

ARANDIR (numa alucinação) —Dália, escuta! Pela primeira vez, na vida! Por um momento, eu me senti bom! (furioso) Eu me senti quase, nem sei! Escuta, escuta! Quando eu te vi no banheiro, eu não fui bom, entende? Desejei você. Naquele momento, você devia ser a irmã nua. E eu desejei. Saí logo, mas desejei a cunhada.

Distraiu-se por alguns instantes com um grupo de mocinhas aparentemente recém chegadas na maioridade. Todas elas falavam alto, riam alto, menos uma. Essa única parecia tímida e recatada, se recusando a ficar de biquíni para mergulhar, devia estar com vergonha de expor o corpo, mas com a insistência das amigas, tirou o vestidinho leve e mergulhou. Mergulhou nas águas formando a imagem mais bela que Malthus veria naquele dia: os cabelos molhados, o corpo magrinho e delicado, tão natural e tão diferente das outras. Acordando de seus devaneios, ele olhou para a aliança dourada no anelar de sua mão esquerda, e lembrou-se de sua esposa, sua querida esposa, e reafirmou pra si mesmo o quanto a amava e como não seria capaz de trocá-la por novinha nenhuma no mundo. Ele era o típico romântico, apaixonado por sua companheira apesar dos anos de casado e da rotina. Colocou a aliança sobre a mão e observava o brilho dourado da jóia sem reparar que a mocinha da praia estava bem do lado dele, no quiosque, pedindo um picolé. Ele tomou um susto e até derrubou a aliança no chão. É que ele teve a impressão de ter a ouvido falar o nome dele, e demorou uns segundos para ler na embalagem a palavra que ela realmente pronunciou: Magnum, o nome do picolé. Ele observou a menina desejando ele próprio ser aquele picolé consumido por ela, e com um desejo sincero de fugir da tentação, ele levantou bruscamente da cadeira e foi em direção ao seu carro.

A jovem da praia se chamava Dália. Distraída, conversava com as amigas sobre qualquer coisa e nem reparou na presença de Malthus, que a observava. O homem já tinha ido embora, quando o vento fez voar a embalagem do picolé que ela segurava e, quando ela se abaixou pra pega-lo debaixo da cadeira de praia, deparou-se com a aliança, que ela logo pegou e observou cuidadosamente com uma mistura de surpresa e admiração. Tentou ver se tinha algum nome gravado e ficou imaginando quem seria o dono da jóia. Colocou a aliança no próprio anelar da mão esquerda e imaginou como seria estar casada. Em tempo: ela achava que nunca ia casar. Todos os rapazes que chamavam sua atenção estavam impedidos de se envolver com ela por algum motivo. O mais recente, por exemplo, ela descobriu que era um daqueles gays que ninguém percebe que é. Insegura e pessimista, ela achava que estava destinada a solteirice por não ter a desenvoltura e traquejo social das suas amigas. Enquanto isso, Malthus já estava na porta do carro, quando se desesperou pela falta da aliança e retornou rapidamente ao quiosque na esperança de que alguém tenha achado a joia e entregado ao dono do lugar. Chegando lá, ele dá de cara com a mocinha da praia com a aliança dourada dele no próprio dedo. Enquanto as amigas dela paqueravam um surfista saradão aleatório, ela estava ali, meio de lado, viajando nos próprios pensamentos.

“Posso ver essa aliança?” perguntou Malthus para Dália. “Não é minha, eu achei aqui debaixo da cadeira” ela respondeu. Ele colocou a aliança de volta no próprio dedo e disse aliviado: “não se preocupe, é minha, obrigado por achar”. A moça ficou um pouco frustrada. Imaginou o dono da aliança com um pouco mais de cabelo e menos de barriga. Mas reparou que ele segurava o roteiro de O Beijo no Asfalto e logo se animou. É que aquela era a peça de teatro preferida dela, e até seu nome foi dado em homenagem a uma personagem da obra. “Sabe qual é o meu nome? Dália. E foi por causa da personagem dessa peça, sabia?” disse a jovem apontando para o livro que o homem segurava. Ele ficou tão apreensivo por ter perdido sua aliança que simplesmente esqueceu-se de deixar o livro no carro e voltou segurando ele. Parecia coisa do destino, pois, se não fosse o livro, não teria conversa, e os dois nunca mais se falariam. Agora a encantadora moça da praia tinha nome, Dália, logo Dália, a personagem mais enigmática da história. A conversa fluiu a partir dali, cada um ia falando suas leituras favoritas, seus gostos, ele se surpreendendo de uma garota de dezoito preferir a companhia dos livros a de redes sociais. Papo vai, papo vem, Dália contou que seu sonho era ser atriz, como seu falecido pai, que ela não chegou a conhecer, mas que não tinha condições financeiras de pagar esses cursos de teatro por ai afora. Que coincidência! Malthus fazia parte de uma bem sucedida companhia de teatro, e tinha um projeto de oficina de atuação e dramaturgia para pessoas sem muitos recursos.

As amigas de Dália a chamavam para ir embora, ela só teve tempo de anotar seu número e nome no celular de Malthus, e saiu correndo atrás de um ônibus. Malthus dirigiu até o restaurante onde tinha combinado de almoçar com sua Ana Carina, sua esposa. No caminho, ele pensava em como a jovem na praia parecia ser a personificação da personagem do livro que lia, até o nome era o mesmo, Dália. Era como se a cena do roteiro se repetisse na vida dele. Almoçou com a esposa. Conversaram sobre como foi o dia de cada um, e quando ele falou de Dália, esperava que a esposa ficasse enciumada. Ledo engano. Ela sabia bem o marido que tinha, sincero e fiel como sempre, e só de não ter escondido dela a existência da tal garota já era sinal de honestidade e confiança. Tinha razão. Porém, o homem não esqueceu Dália tão rapidamente, pois quando teve oportunidade ele levou o contato da jovem para a oficina de teatro onde trabalhava e Dália foi chamada para um teste. Esse teste mudaria a vida de ambos para sempre.