Dália esqueceu Malthus, mas não imediatamente. A princípio, ela passeava pelas praias, praças e shoppings esperando esbarrar casualmente com o homem da praia, para retomar as conversas sobre livros, viagens e sonhos. O homem cujo nome ela nem sabia representava uma esperança de futuro ideal para Dália, uma possibilidade dela se aproximar do mundo da dramaturgia e, quem sabe, ter uma carreira brilhante como atriz. Ela andava pra todo lado com o celular na expectativa de uma ligação dele. Os dias passavam e o realismo pessimista de Dália voltava à tona, fazendo a jovem se conformar que sua vida nunca teria uma grande virada, e o homem da praia caia pouco a pouco no esquecimento.

Não foi por falta de vontade que Malthus deixou de ligar para Dália. Ele só queria conversar, o que não tinha nada de errado, afinal. Então qual era o motivo de seu pudor? Ela estava ao alcance de suas mãos, no contato salvo do celular. Mas algo dentro dele dizia que era errado. Talvez não pegaria bem pra ele ser visto por aí com uma jovem que nem sua esposa nem seu círculo de amizades conheciam, mas, desde quando ele decide sua vida pela opinião dos outros? Não poderia muito bem simplesmente apresentá-la a esposa e aos amigos com naturalidade? Algo dentro dele, no profundo de suas intuições, fora do alcance de sua razão, apontava a mocinha da praia como uma ameaça ao status quo de sua vida perfeita. Mas ao mesmo tempo, ele queria pagar pra ver, ele queria manter o contato com ela, queria saber se os riscos que ele sentia eram reais ou irracionais apenas.

Incapaz de tomar uma decisão, ele legou ao destino a responsabilidade de decidir aproximar Dália dele ou afastá-la para sempre. Malthus era um dos professores responsáveis pelo Projeto Missão Arte, oficina de atuação que buscava tornar acessível as artes cênicas para jovens de baixa renda. Para estudar lá, os candidatos se inscreviam, eram chamados para testes e os que demonstrassem talento e desenvoltura eram aprovados e matriculados na oficina. Malthus inscreveu Dália, deixou lá anotado o número do contato dela e, logo em seguida, apagou o número de seu celular. Haviam duas possibilidades: se Dália desistisse do teste ou fizesse o teste e fosse reprovada, eles não se veriam mais, mas, se Dália fizesse o teste e fosse aprovada, ela se tornaria sua aluna no Missão Arte e ele teria um boa motivo para vê-la e conversar com ela sem despertar nenhum tipo de fofoca. A sorte estava lançada.

O telefonema do Missão Arte soou para Dália como som do despertar de um profundo sono de desesperança e desilusão. Agora ela tinha uma chance! A jovem patinava entre a euforia e a descrença, não queria alimentar ilusão e se decepcionar. Quem garantia que ela seria aprovada? Quem garantia que ela não travaria lá na hora e fugiria correndo? Sentou-se a beira da cama com sua mãe, Silmara, que pacientemente tentou acalmar a mente da filha.

­- Dália, minha filha, você não tinha desistido dessa ideia? O que te fez voltar atrás? – indagou Silmara preocupada.

— Mãe, eu não tinha desistido de ser atriz, eu só achava que não conseguiria. Me expor na frente das pessoas. E que essas coisas de arte estavam fora da nossa realidade ... – respondeu Dália, silenciando por alguns segundos, como que refletindo sobre o que tinha acabado de falar.

— Sim, mas você se inscreveu nesse curso de teatro aí, foi até chamada pro teste, parece que é tudo de graça, não é? Então, não está tão fora de alcance assim. Se você teve a atitude de ir lá atrás do seu sonho, é porque algo mudou em você. Me fala, o que aconteceu? – Insistia Silmara. – Mãe é mãe e sabe das coisas. Mesmo que Dália não tivesse dito nada sobre seu encontro e conversa com o homem da praia, a mãe percebeu no olhar da filha um brilho diferente.

— Uma pessoa, mãe. Uma pessoa entendida dessas coisas de teatro. Eu estava na praia com as meninas e conheci um professor de teatro, ele falou lá do projeto Missão Arte, a gente conversou, ele me deu a maior força, disse que eu levava jeito pra coisa, que não custava nada tentar, aí eu fui lá e me inscrevi. – Óbvio que Dália não diria pra mãe que deu seu número pra um estranho, seu celular seria confiscado pelo resto da vida – Só que a ligação demorou e eu já nem lembrava disso.

— Entendo. – Disse Silmara, desconfiada. – Mas, você acredita mesmo no que ele disse? Acha mesmo que ele tem razão sobre você? Você acredita em você?

Dália estava com a cabeça sobre o colo da mãe. Nesse momento, ela levantou-se, olhou-se num espelho em seu quarto e recordou rapidamente a sua vida: suas brincadeiras de menina, sempre protagonista de suas novelas próprias, que encenava com as crianças do bairro (ela era bem mais popular naquela época); todas as vezes que deixou de lanchar na escola pra juntar dinheiro pra assistir peças de teatro, e de como olhava maravilhada pra aquelas pessoas sobre o palco, desejando estar no lugar delas; as entrevistas das atrizes na TV; as histórias que sua mãe contava de quando seu pai era ator ... Tudo isso passou na mente dela como um filme de memórias, cuja cena final era a conversa incentivadora que teve com o homem na praia.

— Dália? Então, você acredita? – Perguntou a mãe acordando a filha de seu longo devaneio.

— Sim, mãe, eu acredito. Eu acredito nele. Eu acredito em mim. – Respondeu Dália, determinada.

— Então qual é a sua dúvida? Vá lá! Faça o teste! Não se importe com o que acharem de você, do seu jeito, se você acredita em si mesma, tudo vai valer a pena! Se você for reprovada, guarde as críticas deles, e na primeira oportunidade volte lá de novo, faça outros testes, insista! – Disse Silmara, cheia de esperança e orgulho da filha.

— Eu te amo, mãe! – disse Dália, abraçando a mãe.

O teste estava marcado para sexta-feira. Dália anotou algumas orientações sobre o teste ditas ao telefone, e já ia ensaiando em frente ao espelho o que iria fazer. Teria que interpretar uma adolescente em dúvida sobre a escolha profissional. Durante a semana, assistiu a vários vídeos de jovens relatando coisas desse tipo. Quando o medo apertava seu peito, lembrava das palavras e do olhar daquele estranho da praia que já tinha virado tão familiar em seus pensamentos. Esperava encontrá-lo por lá, e isso era outro motivo para sua empolgação: ver ele outra vez.

A semana passou voando. Arrumou-se, pegou o ônibus, foi. No caminho, ouvia sua playlist no modo aleatório. A música que veio não poderia ser mais adequada:

Queira! (Queira!)
Basta ser sincero
E desejar profundo
Você será capaz
De sacudir o mundo
Vai!
Tente outra vez!
Humrum!

Tente! (Tente!)
E não diga
Que a vitória está perdida
Se é de batalhas
Que se vive a vida
Han!
Tente outra vez!

(Raul Seixas — Tente Outra Vez)

Sim, Raul sabe do que está falando.