O Destino de Cam
2 Um
Enquanto voava avistou uma grande cidade movimentada. Se aproximou mais mantendo distância para que não fosse visto. Seria um lugar perfeito para procurar diversões. Estava anoitecendo e a lua brilhava no céu escuro sem estrelas.
Cam procurou um lugar para parar sem ser percebido. e achou uma rua sem saída que estava aparentemente vazia. Era uma rua muito estreita. Mas serviu para que ninguém o visse escondendo novamente suas asas.
Depois começou a andar para fora de ruazinha.
Parou para observar, lhoou para os lados para ver onde estava e se lembrou imediatamente, estava em São Paulo. A maior cidade do Brasil. Ele amava aquele país. Por causa das riquezas naturais, diverções e também por causa das mulheres.
Depois de um tempo andando viu um bar, era um lugar decadênte. Estava realmente caindo aos pedaços. O letreiro neon vermelho era a única coisa que parecia nova também tinha vários cartazes com mulheres anunciando diferentes marcas de cerveja.
Ele entrou e viu que além dele só havia mais quatro pessoas no bar. Uma loira com uma blusa verde e shorts jeans super curtos que servia dois homens barbudos e largados em uma das mesas jogando pôquer, e um homem grande e careca atrás do balcão limpando alguns copos.
Ele se sentou em uma das mesas e logo a garota se arrastou até ele.
–O que vai querer? — Disse enrolando a ponta do cabelo com o dedo.
Ele leu o nome da garota em uma pequena etiqueta presa em um passante do shorts. CARLA .
–Que tal... uma garrafa do que você tiver de mais forte aí?
A garota riu.
–Não acha que seria muito exagero? — Disse olhando Cam de cima a baixo.
–Não, não acho. — Ele se ajeitou na cadeira — Agora dá para andar logo?.
Ela pareceu furiosa, depois desapareceu por alguns instantes atrás do balcão. Em seguida, apareceu com uma garrafa que deixou sobre a mesa de Cam.
No primeiro copo, Cam ficou com calor e tirou a jaqueta que usava, no segundo foi até a mesa de sinuca e chamou os dois outros homens para jogar com ele. E no fim ele sempre ganhava. No terceiro copo, ele já não estava mais em si.
–Carla... Porque tudo sempre acaba comigo sozinho?
–Cara, você bebeu demais. Acho melhor parar agora e ir pra casa.
–Está me espulsando? Quer saber não tem problema. -Ele se virou e caminhou até a saída.
–Ei, a conta. Você ainda não pagou nada.
Ele se virou de costas e viu que ela o olhava confuso. Ele deu um meio sorriso e piscou para ela.
–E nem vou pagar. — Disse antes de sair.
O dono do bar correu atrás dele, mas quando chegou na saída, já não havia ninguém. Sem que eles percebessem, Cam já estava de volta as nuvens.
Depois de descer, viu um homem na rua com um relógio que marcava uma hora da manhã.
Ele caminhou até chegar em uma estação de metrô. Buscava algum lugar para passar a noite. Pensou se conhecia alguém que morasse por ali. E lembrou da casa de um velho amigo.
Mesmo que não precisasse dormir nem comer queria um lugar para tentar por as suas idéias no lugar, aindaestava um pouco tonto por causa da bebida.
Começou a descer as escadas para chegar ao metrô — uma das escadarias mais sujas que ele já vira. Ao ver que tinha que pagar para passar para o metrô resolveu não perder tempo e pulou a catraca.
Mais a frente viu uma garota com um rabo de cavalo ruivo estava andando com uma rapidez imensa. Ele imaginou que estivesse com medo, afinal, já era madrugada e ela estava sozinha.
Parecia estar com muita pressa para sair dali, mas Cam não reparou nisso. Em vez disso, não conseguiu escapar das lembranças que o atormentavam.
"É ela" ele pensou. Não era possível. Era?
Ela se virou e ele percebeu seu erro.
Ela parecia muito bonita, mas não era ela. Ficou decepcionado, mas desde aquele dia em Jerusalém, não conseguia parar de pensar nela. Todas as garotas ruivas que via chamavam sua atenção. Mas ele sempre sabia que nunca seria ela. Nunca.
A garota olhou para trás novamente e quando viu Cam atrás dela parou e o olhou confusa.
Ele também ficou olhando-a, até perceber que ela estava querendo saber o por quê dele estar ali observando-a. Ele olhou para o outro lado e ela recomeçou a andar atravéz de corredores que estavam vazios.
Ele foi atrás dela e entrou no metrô também. Ele tinha um amigo que morava na zona norte que talvez pudesse deixar ele passar a noite em sua casa.
Quando entrou no metrô, algo lhe chamou atenção. Estava praticamente vazio — no vagão só estava ele, a garota ruiva e um homem sentado atrás dela que usava um sobretudo preto que lembrava o dos anjos da Balança.
Assim que as portas se fecharam o homem se levantou e calmamente se arrastou até perto da garota ruiva e se sentou ao seu lado, ela se afastou indo para mais perto de Cam, mas ele a segurou e em seguida colocou a mão no bolso e tirou uma arma.
– A senhorita pode me passar essa sua bolsa?- ele riu amargamente. — Eu não irei machucá-la. Basta me passar a bolsa.
Assustada e provavelmente com muito medo, a garota foi dando a bolsa para o bandido. Cam quis bater naquele cara. Mas esperou até ele sair de perto da garota.
Logo ele estava caminhando até Cam.
– Quer por favor me dar tudo que você tem de valor aí? Celular, carteira, relógio, tudo... — Falou o bandido de um jeito que deixava qualquer um com nojo.
–E se eu não quiser? -Provocou Cam rindo
–Bem... vamos dizer que a garota não vai mais sair daqui viva.
O bandido puxou a garota e segurou seu braço com tanta força que agarota começou a chorar. Passou a arma no rosto da garota e riu.
Cam não conseguiu se segurar e simplesmente caminhou até o ladrão, pegou a arma de sua mão e a amassou como uma simples folha de papel.
Tudo foi tão rápido que nem mesmo o ladrão entendeu. Ele soltou a garota — que caiu no chão — e começou a praguejar enquanto Cam andava atrás dele.
Ele pegou o ladrão pela camiseta e retirou a bolsa dele. Retirou seu sobretudo e com ele amarrou o ladrão como os anjos da Balança faziam — mas não com os mesmos nós que davam — A garota sorriu, mesmo não entendendo nada.
Cam a levantou do chão e devolveu-lhe sua bolsa.
–Obrigada. — Disse ela um pouco assustada.
–Não precisa agradecer... — ele sorriu.
Assim que o metrô parou, ele jogou o homem para fora e esperou as portas se fecharem novamente.
–Como você fez aquilo? — disse ela se sentando novamente
–O quê? — disse ele querendo fingir que nada de mais havia acontecido.
O silêncio continuou até a última estação onde os dois se levantaram para sair.
Os dois saíram e andaram até a saída . Mas ninguém disse uma palavra. Quando saiam para a rua, a garota se virou para ele e sorriu.
–Meu nome é Monique, obrigada... eh...
–Cam.
–Queria lhe agradecer, podemos marcar de ir...
–Não. Desculpa, mas eu não posso. — ele deu as costas para a garota sem ligar por não ter deixado que ele terminasse de falar e seguiu em frente deixando-a boquiaberta.
Caminhou na direção da casa de seu amigo. Carlos. Ele se lembrava daquele garoto. Hoje ele já devia estar um pouco... velho. Mas ainda era seu amigo.
Ele se lembrava de todo o caminho até a casa dele. provavelmente não devia ter se mudado. A última vez que fora ao Brasil havia o visto em sua velha casa.
Então caminhou pelas ruas escuras de São Paulo na esperança de encontrar Carlos.
***
Cam chegou na casa de Carlos menos de 10 minutos depois. Era um lugar simples. As paredes estavam descascando e o amarelo da pintura — que mais parecia verde — estava desbotado e manchado pela chuva. Era uma casa térrea e bem pequena, pelo que Cam se lembrva tinha somente três cômodos apertados.
Ele se aproximou da porta de madeira e tocou a campainha ao lado que tinha um pequeno desenho de um sino e estava escrito com caneta permanente azul CARLOS. alguns minutos depois, a porta se abriu, e apareceu um senhor de aproximadamente cinquenta anos de idade. Ele estava com uma camiseta preta do Nirvana toda amassada e uma calça jeans desbotada com a parte do joelho esquerdo rasgada.
Seu rosto parecia cansado e triste. Cam não se lembrava dele ter tão pouco cabelo,e jurava que tinha menos barriga, na verdade, na época que o conhecera era tão magro que dava dó.
–Oi, como vai? — disse Cam sorrindo com medo de não ser reconhecido. — Se lembra de mim?
–Cam? é você? — O senhor parecia muito confuso. Esfregou os olhos parecendo não acreditar que estava vendo se velho amigo.
Cam deu um pequeno sorriso de lado confirmando. Carlos era um velho amigo, ele era humano, mas sabia que Cam era um demônio. Fazia muitos anos desde que o vira pela ultima vez. Cam havia ajudado Carlos depois de uma briga na escola contra alguns valentões. Depois disso se tornaram amigos.
Não se viram mais do que três dias, mas Carlos era um dos únbicos amigos de Cam, afinal ele não simpatizava muito com os humanos.
Carlos fez sinal para que Cam entrasse. Guiou o amigo até a sala, que estava totalmente bagunçada, mas Cam não ligava e nem se importava, já que ele mesmo vivia deixando coisas jogadas por todos os cantos.
Depois de uma longa conversa, Carlos deixou que Cam se ajeitasse para dormir na sala em um colchão — fino e empoeirado- que estava guardado em um armário velho.
Carlos dormia cedo, e Cam entendia, afinal, o senhor já não tinha idade de ficar abusando muito.
Depois de se arrumar, Cam se deitou. Não precisava dormir, mas queria esquecer tudo que havia feito nos últimos tempos. Então resolveu que dormiria. Assim como Daniel, também podia dormir por um longo tempo, mas só queria descansar por aquela noite.
Ele olhou para o teto branco — Descascando por causa da umidade e adornado por algumas rachaduras. — Seu amigo não era rico, era somente um homem que vivia sozinho que não tinha muito dinheiro para arrumar a casa e mesmo que tivesse, Cam duvidava que ele iria arrumar aquilo.
Estava muito calor, então tirou a jaqueta e jogou sua camiseta preta sobre uma pequena cadeira de medeira que estava jogada sobre um sofá rasgado que provavelmente não era nenhum pouco confortável.
Ele olhou sua camiseta, a mesma que usava quando foi apresentado a Luce por Ariane em uma das salas de aula da Sword&Cross.
Ele se lembrou do cabelo da amiga recém-cortado. Luce que havia feito aquilo. Ele achava que combinava perfeitamente com o estilo de Ariane, mas mesmo assim teve que dizer que parecia uma vassoura.
As imagens daqueles dias depois da chegada de Luce na Sword&Croos rodeavam sua cabeça toda hora. Era algo que o irritava, ele se sentia um completo idiota agora. Estava seguindo ordens o tempo todo, em nenhum momento queria magoá-la, mas ele realmente havia se divertido com ela.
Ele tinha sentimentos, mas buscava não demonstrar tanto. Ele era um demônio e sabia o que aquilo significava. Não poderia deixar seus sentimentos transparecerem e não era tão difícil assim.
Sabia que seria assim quando fez sua escolha, achou que assim poderia não amar mais ninguém. Achou que assim não sofreria como Lilith o havia feito sofrer.
Depois que Lilith o deixou ele se sentiu no fundo do poço e para fugir, acabou fazendo a maior bobagem de sua vida. Ele fez sua escolha e escolheu o inferno, pois lá ele sabia que não amaria ninguém.
Depois disso, ele continuou a se divertir, não se importava com mais ninguém, pois aprendera que todos sofreriam uma hora ou outra, então não se importava mais. Não se prenderia a mais nada.
O tempo passou até que Bill deu ao seu anjo leal a tatuagem de sol negro, que era o símbolo dos demônios mais confiáveis de Bill. Cam já havia se esquecido o que era o amor.
Mesmo assim nunca deixou seus irmãos: Daniel, Roland, Molly, Ariane e Gabbe. Eles brigavam e eram como irmãos. Os únicos sentimentos de Cam, era pelos irmãos, mesmo que nunca demonstrasse.
Quando souberam que Lucinda havia voltado, Daniel resolveu fugir dela -assim como já havia planejado depois de sua última morte — e foi para o lugar que ele mais achava impossível Lucinda aparecer.
Alguns dias depois Cam, Ariane, Molly, Gabbe, Roland e Daniel foram para Sword&Croos.
Mal sabia ele que Bill já estava tramando algo. Ele convocou Cam e Molly para uma reunião. Ele deu uma missão para os dois. Bill sabia que essa Luce era diferente e então armou o plano perfeito...
Cam reabriu os olhos e se sentou. esfregou os olhos, respirou fundo e voltou a se deitar. Fechou os olhos e mergulhou na escuridão profunda.
***
Na manhã do dia seguinte, Cam se levantou e arrumou tudo que havia bagunçado.
Carlos já havia se levantado e foi até Cam. Ao vê-lo sem camiseta, pegou uma — também preta — que estava em uma pilha de roupas limpas e jogou para ele vestir.
–Obrigado. — disse Cam pegando-a. — Você teria uma tesoura?
Carlos assentiu e entregou uma pequena tesoura que estava sobre a mesa.
Cam usou para fazer dois pequenos furos na camisa, onde suas asas se localizavam, com os anos, já havia ficado fácil fazer os rasgados no lugar certo de maneira que as pessoas não percebessem.
–Você vai tomar café da manhã?
–Bem... eu não preciso. — Cam gostava mesmo de ficar com um amigo, mas não queria ficar por muito tempo.
Ele se sentou na ponta do sofá e pegou a jaqueta.
–Por favor. Eu moro sozinho e nunca tenho companhia, você não pode fazer esse esforço por um velho amigo? Eu nunca tenho ninguém para conversar- O senhor sorria e olhava Cam com tristeza, como se dissesse que aquilo faria se sentir melhor.
Cam sorriu e seguiu o senhor até a mesa. Ele se sentou e para não fazer desfeita, pegou uma xícara com café com leite. O senhor fez o mesmo. Cam riu baixinho.
–Do que está rindo?- Perguntou o senhor com seu rosto envelhecido pelo tempo.
–De como o tempo passa rápido. E de como as coisas mudam de repente. Um dia eu estava cuidando de você depois de uma briga e você pediu para que te levasse em casa já que você estava... bem machucado. — Cam riu — E agora aqui está você um velho, que um dia foi um jovem, que corria por aí e vivia feliz. Eu o invejo.
Cam se levantou e seguiu para a saída. Não queria ser visto daquela maneira.
–Cam... o que você está dizendo. Você tem a imortalidade, tudo que uma pessoa comum desejaria. Você pode ter tudo.
–Não. Não posso ter tudo. Não posso nem mesmo ter a pessoa que amo. Nunca. Mas... obrigado. — Cam saiu da casa batendo a porta.
Seguiu seu caminho até achar um lugar com poucas pessoas. Não queria deixar o amigo, mas não poderia ficar perto dele também. Queria tentar esquecer que não era como ele, que havia feito escolhas erradas e que perdera seu grande amor.
Quando encontrou uma pequena rua vazia entrou e se certificou de que não havia ninguém por perto. Abriu suas asas, ele adorava aquela sensação de liberdade. Suas asas se abriram ao máximo. Ele começou a subir e subir até atingir as nuvens. Lá ele começou a voar na direção do vento.
Ele iria para um lugar onde não conhecesse ninguém e ficaria lá. As nuvens eram um lugar ótimo para se esconder no céu. Cam fechou os olhos cor de esmeralda e simplesmente continuou a voar.
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