O Destino de Cada Coração Iv

9 Rivalidade E Fraternidade


A mãe de Kagome havia feito uma mesa farta. A princípio, achou ter exagerado na quantidade de comida, mas depois, percebeu que não, pois Kagome ficou ao redor dela, o resto da tarde, provando o que ela preparava. Setsuna ofereceu-se para ajudar na cozinha, ou para conter Kagome, caso contrário, não haveria jantar. Mais tarde, estavam reunidos à mesa. A mãe de Kagome havia emprestado um quimono a Setsuna, já que o dela estava manchado de sangue. Um quimono branco com delicadas flores douradas estampadas. Inu-Yasha ficou olhando, meio que abobalhado, para a pilha de tigelas que crescia diante de Kagome. E ela não parava de mastigar. Sesshoumaru, que estava de braços cruzados, levantou-se e saiu da casa sem dizer uma única palavra.

– Obrigada pela comida, senhora. Estava deliciosa. Com licença.

Dito isto, Setsuna também se levantou, fez uma breve reverência à mãe e ao avô de Kagome e saiu.

– O que houve com seu irmão, Inu-Yasha? – Perguntou a mãe de Kagome.

– Ele é assim mesmo, não se preocupe.

– Outro mal-educado... Que família... – Ironizou o avô de Kagome.

Inu-Yasha fitou o velho com o canto dos olhos.

– Já entendi o recado... – Se levantou e foi em direção a porta, que ainda estava quebrada. – O que vocês usam aqui para consertar isso? – Disse ele, examinando os destroços.

– Eu vou buscar as ferramentas. – Antes de se levantar, o avô notou sua neta, que ainda raspava, talvez, a sétima tigela de arroz. – Nossa, como come...

Kagome parou com a tigela e o hashi (x) diante do rosto, ao notar que era observada por todos.

– O que foi? – Perguntou ela, meio que sem entender porque era observada.

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Sesshoumaru continuou caminhando e parou com um meio sorriso no rosto ao perceber que

era seguido. Setsuna que vinha logo atrás dele, parou ao seu lado.

– O que houve, meu senhor?

– Tenho estado muito tempo com ele nesses últimos dias. Não gosto disso.

– Não é este o problema... – Adiantou-se e ficou diante dele, encarando-o. – Não queres admitir que gostas da companhia dele e por isto te retiraste.

– Você não sabe de nada, Setsuna. – Avançou um passo, mas ela manteve-se em seu caminho. – Saia da minha frente... – Disse ele em tom severo.

– Acaso eu não saia, o que farás? Inu-Yasha é teu irmão, o sangue que corre em tuas veias é o mesmo que corre nas dele.

– Não, não é. Não me compare a ele.

– Por que também há sangue humano dentro do corpo dele? Tratarás teu filho da mesma forma?

Ele estreitou um pouco os olhos, lançando sobre ela um frio olhar. Cerrou o punho, estalando as garras.

– Não diga besteiras. Não é a mesma coisa.

– E qual a diferença do sangue dele para o sangue de teu filho? Digas-me! Qual a diferença? – Sesshoumaru desviou o olhar. – Não podes, mas eu sei... Orgulho, um orgulho estúpido e frio. Esta é a diferença... Acho que te arrependeste do erro que...

Suas palavras foram interrompidas quando ele ergueu a mão para dar-lhe um tapa no rosto, mas ela rapidamente bloqueou-lhe o punho com seu próprio braço, mantendo-o erguido.

– Acaso queres que lutemos novamente um contra o outro, meu senhor?

– Não use de ironia comigo, Setsuna. Eu conheço bem você.

– Será mesmo? Será que sabes o quanto eu queria poder odiar-te agora?

“Eu também queria que você me odiasse...”, pensou Sesshoumaru. Ele deslizou seu braço pelo dela e segurou-lhe o queixo, acariciando levemente os lábios dela. Ela afastou o braço dele e retornou para dentro da casa. Inu-Yasha percebeu que Setsuna passou por ele mais triste do que quando saíra. “Aquele Sesshoumaru...”. Ele resolveu não perguntar a ela o que tinha acontecido e sim a outra pessoa. A jovem retornou à mesa e sentou-se ao lado de Kagome, quieta, olhando para a mesa. Percebendo que algo estava errado, Kagome rapidamente terminou sua nona tigela de arroz, tomou mais um gole de suco, pegou um bolinho e se levantou. Pegou Setsuna pela mão e, enquanto mastigava o bolinho, conduziu sua amiga até o quarto de hóspedes para conversarem.

– O que houve, Setsuna? – Perguntou a jovem, trancando a porta do quarto atrás de si.

– Não foi nada...

– Sei...

Kagome lançou um olhar desconfiado para Setsuna. Depois caminhou até a janela e notou Sesshoumaru ainda do lado de fora, encostado na Árvore Sagrada. Inu-Yasha se aproximava dele lentamente. Tratou de afastar-se da janela quando percebeu que Sesshoumaru a observava. “Às vezes ele me dá arrepios...”, pensou ela.

– Ele consegue intimidar qualquer um, não é mesmo, Kagome?

– Também intimidou você, Setsuna?

– Não...

– Então por que essa cara fechada?

– Porque ele às vezes consegue tirar até a mim do sério.

– Vocês dois brigaram por acaso?

– Quase isso. Até que foi bem leve desta vez, nem chegamos a lutar realmente...

– Lutar? Sério? Como é que vocês podem ficar brigando desse jeito, Setsuna? Sabe, eu e Inu-Yasha vimos vocês dois brigando uma vez e...

– Eu sei...

Kagome ficou sem graça e tentou se explicar.

– Nós não estávamos espionando vocês. É que Rin estava preocupada, disse que vocês dois estavam brigando, tinha aparecido um bandido e nós fomos verificar e então...

– Está tudo bem, Kagome. – Sorriu.

– Ai, ai... Bem, de qualquer forma, Inu-Yasha me disse que vocês dois não estavam brigando para valer, estavam apenas medindo forças. Por quê? Eu não quero me meter, mas o Sesshoumaru tem mudado bastante, por sua causa, pela Rin... Talvez até pelo Inu-Yasha, mas eu não sei ao certo. Eu sinto como se houvesse alguma coisa que o impedisse de aceitar...

– Ele... – Interrompendo Kagome. – ...é muito orgulhoso e teimoso. Não sabe como lidar com esta situação. Isso também deve estar deixando-o confuso e com raiva. Mas agora não há mais volta.

– Se ele quisesse podia se afastar de Inu-Yasha...

– Não, não poderia.

– Você tem certeza, Setsuna? Eu sei que ele salvou a minha vida, a sua, a de Rin... – Parou um pouco pensativa. – Nossa, ele tem salvado muita gente ultimamente... Isso deve estar sendo meio complicado... – Notou que Setsuna a fitava. – O que foi?

– Ainda não sabes...

– De quê?

Setsuna sorriu e segurou as mãos de Kagome entre as suas. Ambas sentaram-se na cama para que Setsuna pudesse lhe contar a novidade que ela carregava.

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– O que você quer, Inu-Yasha?

Sesshoumaru parecia aborrecido, encostado naquela enorme árvore, com os braços cruzados. Mas isso não foi motivo para que Inu-Yasha se mantivesse afastado. O hanyou também se recostou naquela árvore, ao lado de seu irmão.

– Você sempre arruma um jeito de brigar com ela, Sesshoumaru. Do que você tem tanto medo?

– Eu não tenho medo de nada, moleque. – Encarou Inu-Yasha. – E também não tenho que dar satisfações do que eu faço para você.

– É, realmente não tem mesmo... Você pode fazer da sua vida o que quiser e eu não vou ter nada a ver com isso, Sesshoumaru. Exceto pelo fato de que somos irmãos.

– Não me venha com essa história de família... Nós nunca fomos uma.

– Houve uma época, antes do papai morrer, que nós éramos uma família. E o que nos impede de tentarmos agora?

Sesshoumaru ficou meio que sem palavras por alguns instantes e desviou o olhar. “Ele não pode estar falando sério.”.

– Inu-Yasha, você se lembra da última vez que lutamos um contra o outro? Eu atravessei seu coração e o deixei a beira da morte. E aquela sua namorada atravessou o meu coração com suas flechas. – Começou a se afastar.

– Mas, de certa forma, Setsuna também atravessou seu coração, não foi, Sesshoumaru? Ela o curou...

Sesshoumaru interrompeu seus passos, mas manteve-se de costas para Inu-Yasha.

– Não é dela que estamos falando. Não se meta no que não é da sua conta. – Virou-se, encarando Inu-Yasha. – E eu sou sozinho, é assim que tem que ser.

– Correção... Você era sozinho... E as coisas mudam, as pessoas mudam. Eu sei como você está se sentindo. Está com medo de perder. E, embora não queira admitir, dentro do seu coração o que você mais temia já aconteceu. E é por isso que, mesmo querendo desesperadamente estar com ela, você a magoa e a afasta de você. Eu sei porque eu já fiz isso. Mas não importa o quanto você se recuse, esse sentimento não vai simplesmente abandonar você ou ela. Será que você não consegue perceber isso?

– E você por acaso é o dono da verdade? Não banque o senhor sabe tudo para cima de mim!

– Sou eu, – Aproximou-se, encarando Sesshoumaru seriamente. – não é mesmo?

– O quê?

– É por minha causa que você se recusa a aceitá-la, não é?

– Humfh, você se dá muito valor, Inu-Yasha.

– Espero que você não esteja com medo de mim, Sesshoumaru...

O hanyou mantinha um ar confiante e irônico e isso irritava Sesshoumaru. Os dois se encararam alguns instantes antes que Sesshoumaru erguesse seu punho e um par de dedos começassem a ter um brilho verde em sua mão. Ele mantinha-se sério e calmo.

– É assim que você quer acertar as contas, mano?

– Inu-Yasha... Como você é irritante!

Sesshoumaru lançou seu chicote contra Inu-Yasha, que desviou, recuando alguns passos. Logo, em seguida, avançou contra o irmão mais velho, usando suas garras. O barulho dos dois lutando acabou por chamar a atenção das duas jovens no quarto. Kagome, que estava feliz por saber da gravidez de Setsuna, foi até a janela e o sorriso em seu rosto se desfez ao ver aquela cena.

– Mas o que eles dois pensam que estão fazendo? – Percebeu Setsuna ao seu lado, muito séria. – Setsuna...

– Vou acabar com isso de uma vez.

E sem dar chance a Kagome de responder, saiu rapidamente pela porta afora. No pátio, Sesshoumaru conseguiu acertar de raspão o ombro de Inu-Yasha. Um ferimento mínimo, mas que fez com que os dois finalmente se encarassem, interrompendo a briga.

– Está satisfeito agora, Sesshoumaru?

– Moleque...

Sem se dar conta de quem se aproximava, Sesshoumaru lançou novamente seu chicote, mas Setsuna se jogou diante de Inu-Yasha e amparou o impacto do chicote com o braço. Porém, por ser um golpe venenoso, seu braço começou a ser queimado, apesar da barreira de energia que ela evocou para sua proteção. Surpreso, Sesshoumaru tentou recolher o chicote, mas Setsuna o segurou, inclusive com a ajuda da outra mão. Ela segurava aquele chicote que queimava sua carne com as duas mãos.

– O que você pensa que está fazendo, Setsuna? Largue isso ou ficará sem os braços!

– Valeria a pena?

Os dois ficaram se encarando mutuamente. Kagome chegou e pediu a Setsuna que soltasse aquilo antes que perdesse os braços, mas a jovem só o fez quando Sesshoumaru cedeu um pouco. Ele abaixou as mãos, parando aquele cabo-de-guerra entre ambos. Quando ela finalmente soltou o chicote, caiu sentada sobre os joelhos, observando as mãos tomadas por queimaduras. Sesshoumaru aproximou-se já com a mão sobre sua espada Tenseiga, mas, antes de sacá-la, Setsuna levantou-se e segurou-lhe a mão.

– Mas você está muito ferida...

– Não podes curar com tua espada o que já fizeste em meu coração, meu senhor... Mas poderias fazer-me um favor?

– Qual?

– Poderias trazer-me Rin pela manhã? Ela ficaria segura comigo... – Sua voz agora nada mais era do que um sussurro, embargado pelas lágrimas. – Mas... não precisas voltar para nos buscar...

Ele sentiu como se o chão fugisse de seus pés. Respirou fundo, mas o ar doía ao entrar em seus pulmões e ainda havia aquela enorme dor que ele sentia em seu peito.

– Você não pode estar falando sério, Setsuna... Você... – Sentiu uma pontada de ira ao vê-la balançar a cabeça negativamente. – Se é assim que você quer... Pelo menos não terei que aturar aquela menina agora...

Ele se afastou um pouco dela e deu-lhe às costas, seguindo para o poço por onde viera. Setsuna cambaleou um pouco, quase caindo, mas conseguiu manter-se de pé, observando-o. “Por favor... Não ajas desta maneira...”. Kagome aproximou-se dela e colocou a mão sobre seu ombro.

– Setsuna...

– Eu estou bem, Kagome.

Ela seguiu para dentro da casa e Kagome lançou um olhar sobre Inu-Yasha, que entendeu o que ela queria dizer. Logo, ele seguiu rapidamente atrás de Sesshoumaru.

Já a beira do poço Come-Ossos, Sesshoumaru observava a palma de sua própria mão que lançara o chicote e atingira Setsuna. Fechou a mão com força, tanta, que suas próprias garras o feriram e sangue acabou por escorrer pela mão, manchando a beirada do poço. Surpreendeu-se ao escuta a voz de seu irmão atrás de si.

– Você já foi muito mais inteligente, Sesshoumaru.

– O que você quer, Inu-Yasha?

– Isso que você está fazendo é uma grande burrada!

– Inu-Yasha... – Encarou o irmão e o hanyou percebeu o quão triste era aquele olhar. – Você não faz idéia...

– Então porque você não me explica? Por que você está indo embora se a ama?

“Eu a amo...”, pensou o youkai consigo mesmo. Pegou os dois fragmentos da jóia e os observou em sua mão.

– Com estes fragmentos posso trazer Rin, como ela pediu. – Sentiu Inu-Yasha colocar a própria mão sobre a dele, enquanto o fitava profundamente.

– O que ela pediu a você é o que ela acha que você quer e, por amá-lo tanto, ela está disposta a abrir mão de você. Só que eu sei que você não quer deixá-la, meu irmão.

Havia muita dedicação no olhar de Inu-Yasha e, pela primeira vez, depois de muitos anos, Sesshoumaru se sentiu à vontade na presença do irmão mais jovem.

– Inu-Yasha, nosso pai...

– Você não é ele, Sesshoumaru.

– Não, não sou... – Respirou profundamente e olhou para dentro do poço. – Setsuna está esperando um filho meu.

– Hei, mano! Por que não falou antes? – Perguntou o hanyou, abrindo um sorriso de um canto ao outro do rosto. – Parabéns!

Sesshoumaru sorriu de forma gentil, talvez achando graça da situação, o que Inu-Yasha estranhou. Não estava acostumado a ver seu irmão sorrir. Pelo menos não de forma sincera. Então o mais velho lembrou-se das almas no corpo de Kagome.

– Inu-Yasha, sobre a gravidez daquela garota...

– O que foi? Você viu alguma coisa errada, não viu? Eu sabia!

– Não, não é isso. Os seus filhos estão bem.

– Ah, que b... – Inu-Yasha parou, um pouco confuso, para analisar aquela frase. – Filhos?

– Aquela garota, Kagome, está carregando duas crianças em seu ventre, Inu-Yasha.

– Eu... eu... – Não sabia o que dizer, estava perdido com as palavras. “Gêmeos... Isso é maravilhoso!”

– Me faça um favor. Preciso conversar com Setsuna. Quero que traga a minha garotinha.

Inu-Yasha assentiu com um sorriso e, por um instante, Sesshoumaru fez o mesmo e entregou-lhe os fragmentos que tinha. Sem mais qualquer palavra, o youkai saiu do templo, enquanto o hanyou saltava para dentro do poço e retornava ao passado para buscar Rin.

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(x) Hashi – São os “pauzinhos” japoneses usados como talher.

-x- Continua no próximo cap -x-