Sango entrou na cabana de Kaede e notou a falta de Miroku. Shippou já estava adormecido e, ao lado dele, dormiam Jyaken e Rin. Então a exterminadora aproximou-se da velha senhora que estava sentava ao lado do fogo, cautelosamente, para não acordar os demais.

– Senhora Kaede, onde está Miroku?

– Ele disse que ia dar uma olhada no Kouga e nos outros amigos dele, Sango.

Sango assentiu com a cabeça e saiu. Lá fora, uma brisa fria soprou, assanhando-lhe os cabelos. A escuridão da noite era densa e ela mal podia distinguir as casas das árvores ao redor. Caminhou na direção da cabana onde havia deixado Kouga e onde provavelmente encontraria o monge. Mas ao entrar na cabana, surpreendeu-se por encontrar apenas Miroku, sentado no centro dela, olhando para a jaula vazia onde Kouga deveria estar. Ele levantou os olhos e a encarou.

– Acho que o subestimamos, Sango. – Havia uma certa serenidade triste em seu olhar.

– Ele não fez isso sozinho, tenho certeza. Deve ter tido ajuda daqueles dois. – Olhou-o com ternura. – Aconteceu alguma coisa?

– Não é nada, Sango... Acho que vou tomar um banho... – Levantou-se.

– Mas e quanto ao Kouga? Não vamos atrás dele?

– Não precisamos nos preocupar com ele... – Aproximou-se dela e deu-lhe um suave beijo na testa. – Eu volto logo.

– Você está muito estranho...Não confia mais em mim?

O tom sério na voz dela fez com que ele parasse na porta, mas não o fez olhá-la nos olhos.

– Jamais, Sango. A você eu confiaria minha própria vida... Você acha que havia mais alguma coisa que eu pudesse fazer?

– Miroku... – Sango levou a mão ao peito, agora ela se lembrava das duras palavras de Shippou. – Ele estava nervoso e com medo do que pudesse acontecer a Kagome. O Shippou não queria dizer aquelas coisas de você.

– Eu sei... Como também sei que agora a Kagome vai ficar bem, já que Sesshoumaru está por lá... Eu volto logo.

Ele saiu da cabana e Sango permaneceu no mesmo lugar por alguns instantes, com o coração apertado. “Ele está magoado, mas eu não sei o que fazer...”

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Kagome enfaixava com cuidado as queimaduras nas mãos de Setsuna que, apesar da dor que sentia, não emitia nenhum protesto. Estava silenciosa e com ar triste. Seu coração doía mais do que os ferimentos. Ambas estavam sentadas sobre a cama do cômodo que Kagome havia separado para que Setsuna e Sesshoumaru passassem a noite.

– Pronto, Setsuna. Acabei, mas isso pode ficar feio... Acho melhor levar você no hospital pela manhã.

– Hospital? – Perguntou a jovem ruiva com ar distante.

– Sim, o lugar onde se curam os feridos e doentes.

– Que seja...

Ela permaneceu silenciosa e sem olhar nos olhos de Kagome que estava muito preocupada com a situação.

– Ele vai voltar, Setsuna...

– Não quero que ele volte. – Respondeu ela decidida. Só então levantou o olhar. – Não quero que ele ache que tenha qualquer tipo de obrigação comigo. Quero que ele se sinta livre, Kagome. Podes entender isso? Não importa o quanto eu o queira ao meu lado, não posso obrigá-lo a ficar se isso o tornará um prisioneiro de si mesmo, de seus próprios temores. – Setsuna virou o rosto e levantou-se da cama, indo até a janela. – E eu não quero isso...

A jovem ruiva tinha um brilho úmido nos olhos, mas se segurava para que as lágrimas não escapassem deles. Kagome levantou-se da cama e colocou a mão em seu ombro. Setsuna, por sua vez deu um sorriso, um tanto triste, mas ainda era um sorriso. De repente, ambas voltaram sua atenção para a porta do cômodo que se abria. Por ela surgia Sesshoumaru, com uma calma estranhamente perturbadora.

– Saia. – Disse ele asperamente a Kagome.

– Você podia ser um pouco mais educado... – Respondeu Kagome de imediato.

– Por favor...

A voz dele era praticamente um sussurro e parecia haver um nó em sua garganta, o que a deixou desconcertada. Nunca ela poderia imaginar que ele chegaria a dizer aquelas palavras a alguém. “Por favor...”, repetiu ela mentalmente. Também não pôde deixar de perceber que havia um certo desespero. Um desespero que ambos, Sesshoumaru e Setsuna, deixavam transparecer.

– Acho que vocês dois têm muito o que conversar. Eu vou buscar um chá e assim vocês podem conversar com calma. Volto logo. – E dirigiu-se rapidamente para a porta. Deu uma última olhada naqueles dois, que pareciam hipnotizados pelo olhar um do outro, antes de fechar a porta e descer as escadas para ir até a cozinha.

– Onde está Rin? – Perguntou Setsuna, de forma seca.

– Inu-Yasha foi buscá-la...

Antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, Sesshoumaru sacou sua espada e a golpeou. Ela chegou a erguer os braços, como reflexo de autodefesa, cerrando os olhos. Quando os abriu, sentiu que os ferimentos em suas mãos haviam sido curados e ele ainda empunhava sua espada, observando-a tão profundamente, que era como se estivesse olhando dentro de sua própria alma.

– Esta espada me foi dada não para que eu apenas devolvesse a vida a quem a perdeu, curar feridas, mas também para que eu pudesse ver o que meu pai queria que existisse dentro de mim mesmo. Minha própria alma, assim como agora posso ver a sua, tão pura e brilhante... – Guardou a espada. – Você despertou algo que eu jamais achei que pudesse existir dentro de mim, Setsuna.

Ela rapidamente aproximou-se dele e lhe cerrou os lábios com uma das mãos, embora mantivesse sua cabeça baixa e repousada suavemente no peito dele. Lágrimas desciam dos olhos dela, enquanto os brilhantes olhos dourados dele a observavam, silenciosamente. A envolveu em um terno abraço, enquanto acariciava seus cabelos cor de fogo.

– Só agora entendo o que se passou com meu pai porque... Porque eu também não quero perder você... O desprezo que antes eu sentia pelos humanos é nada, comparado ao sentimento que eu tenho agora por você.

Ela ergueu a cabeça lentamente e, como que atraídos por um imã, seus lábios se encontraram novamente. Ávidos pelo sabor um do outro, procuravam sorver a sensação do toque e calor que aquele beijo proporcionava. A cada segundo, o beijo tornava-se mais profundo, mais tenso. E, logo, apenas isso não era suficiente para saciar a vontade de estarem nos braços um do outro.

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Inu-Yasha havia saído do poço há algum tempo e caminhava pela trilha de volta ao vilarejo para buscar Rin. O vento que soprava era frio e uma beleza mórbida tomava conta da paisagem. As árvores desfolhadas tinham aparência assustadora. Não que ele fosse o assustado, mas o silêncio era perturbador. Andava com cautela, pois ainda se lembrava das palavras de Sesshoumaru: “Pude ver um pedaço dele escapar e sumir na floresta. Outros pedaços dele também podem ter escapado do golpe e talvez sejam suficientes para que ele se reconstrua, vitimando algum outro ser.”

– Aquele maldito Naraku! Nem mesmo depois de morto nos dá sossego! – Blasfemou o hanyou.

Ele mantinha sua mão sobre a espada, de prontidão, pronto para revidar qualquer ataque. Foi então que notou uma sombra passar rápido por trás dele. Rápido demais para que ele pudesse visualizar o espião.

– Quem está aí? Saía logo ou vou fazer picadinho de você!

Inu-Yasha estava de muito mau humor. A criatura que se escondia nas sombras parecia brincar com ele, o que o deixava cada vez mais irritado.

– Você está ferido... – Disse uma voz jovem na escuridão da noite.

– Hã? Ferido? – Só então se lembrou do seu próprio ombro, que Sesshoumaru havia acertado com o chicote. “Por que isso agora?”

Por entre as árvores, uma forma começou a surgir e Inu-Yasha sacou sua espada. Diante de si, surgiu um menino, Kohaku, que o observava tristemente.

– Kohaku? Sango tem procurado por você desesperadamente. – Inu-Yasha deu uns dois passos adiante, aproximando-se do garoto e guardando sua espada.

– Eu não posso voltar para ela... Aqui é perigoso, por favor, vá embora. – Sua voz era trêmula.

– Mas por quê? Ela não culpa você pelo o que aconteceu. Foi aquele Naraku quem enganou a todos!

O garoto deixou lágrimas escaparem e encarou o hanyou.

– Não posso voltar para ela porque ainda não estou livre. Me desculpe!

Kohaku ergueu o braço e abriu a mão, mostrando a Inu-Yasha o que parecia ser um pequeno pedaço de sangue coagulado. Mas este pulsava e moveu-se ao perceber o cheiro do sangue do ferimento que Inu-Yasha tinha no ombro.

– Mas que porcaria é essa? – Perguntou Inu-Yasha, fitando curiosamente o item que Kohaku tinha na mão.

O hanyou mal teve tempo de reagir, pois aquela coisa saltou sobre ele; sobre seu ombro ferido. Aquele ser pequeno entrou pelo ferimento facilmente e enquanto Inu-Yasha lutava contra aquele corpo estranho, Kohaku observava a tudo, com lágrimas nos olhos.

– Não! – Gritou o hanyou.

Em desespero, Inu-Yasha começou a bater-se contra os troncos das árvores, com tamanha violência que chegava a derrubá-las, na tentativa de se livrar daquele ser. Acabou por deixar a Tessaiga cair. Ele parou ofegante recostado a uma árvore, olhando para sua espada. Foi quando uma idéia macabra lhe passou pela cabeça. “Se eu cortar meu braço, talvez ele não se espalhe...”

– Nem pense nisso... – Disse Kohaku pegando a Tessaiga do chão. – Meu mestre tem outros planos para você.

– Mestre? – Ele mal conseguia falar. Na verdade, seu corpo parecia não mais responder a sua vontade. Só então notou o quão vazios estavam agora os olhos de Kohaku. Olhos sem vida própria, como que presos a alguma espécie de transe. – Kohaku?

Sentiu então uma pontada de dor lancinante no peito. Um frio percorreu sua espinha ao escutar uma voz em sua mente: “Mate-a!”

– Matar...?

“Mate a sacerdotisa!” Era o que ele escutava repetidamente em sua mente. Cerrou o próprio punho, com tanta força, que o sangue escorreu por entre seus dedos.

– Não... Eu não quero!

– É inútil lutar... – Disse Kohaku, aproximando-se. – Cedo ou tarde, ele vai dominar você, assim como fez com o lobo. Assim como fez comigo...

Inu-Yasha arregalou os olhos encarando o menino a sua frente. “Não pode ser... Eu caí na mesma armadilha que o Kouga?” Perguntou-se o hanyou.

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Sango abriu seus olhos, preocupada. Na verdade, sequer havia conseguindo pegar no sono ainda e olhou para o futon vazio ao lado. “Ele ainda não voltou...”, pensou ela. Levantou-se sorrateiramente para não acordar os demais e colocou um xale no ombro para proteger-se do frio lá fora. Afinal, para não despertar ninguém, saiu vestida do jeito que estava; apenas com um simples quimono branco usado para dormir, o que não oferecia muito calor.

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Kagome estava na janela da cozinha, observando a escuridão fria do lado de fora.

– O que foi, minha filha? – Perguntou-lhe a mãe.

– Eu não sei, mamãe... – Suspirou um pouco e apoiou o rosto sobre as mãos e com os braços apoiados no parapeito da janela. – Já faz algum tempo que Inu-Yasha foi buscar Rin. Ele está demorando, não acha?

– Bem, eu não sei a distância do poço até o local onde está a garotinha, Kagome. Mas ele deve voltar em breve. Não se preocupe, afinal Inu-Yasha é muito forte.

– Eu sei, mas... – Encarou a mãe. – Eu sinto um aperto muito grande no coração. Mas eu sei que ele vai brigar comigo se eu for até lá, assim, desse jeito. Ele vai ficar preocupado.

– Isso é porque ele te ama muito, minha filha... Olha, se distraia um pouco com sua amiga Setsuna, tente não pensar nessas coisas, está bem? Eu fiz o chá e também tem uns bolinhos.

– Obrigada, mamãe.

A jovem pegou a bandeja que a mãe exibia e retomou o caminho ao cômodo onde havia deixado Sesshoumaru e Setsuna conversando. “Só espero que aqueles dois não tenham brigado de novo...” Ao chegar diante da porta do quarto, ajeitou a bandeja para segurá-la com uma única mão e, com a outra mão livre, abriu a porta. A visão que teve a deixou completamente envergonhada e vermelha. Tratou de fechar a porta e caiu sentada sobre os joelhos, fazendo um esforço para não deixar o conteúdo da bandeja cair e também para evitar fazer barulho. Finalmente colocou a bandeja apoiada no chão e levou as mãos ao rosto.

– Ai, meus Deus! Que vergonha! Por que eu não bati nessa droga de porta primeiro? – Levou as mãos à boca, cobrindo-a. “Espero que não tenham me visto...”

Dentro do quarto, Sesshoumaru estava deitado sobre a cama, com Setsuna adormecida sobre seu peito, ambos despidos, apenas com uma coberta cobrindo-lhes a nudez da cintura para baixo. “Que menina mais estranha essa que Inu-Yasha arrumou...”, pensou o youkai enquanto alisava os longos cabelos cor de fogo da jovem adormecida sobre si.

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A trilha pela floresta até o rio era sombria e assustadora. Mas isso não impediu que Sango se aventurasse por ela, à procura de seu amado monge. “Espero que você esteja bem, Miroku...” Por fim encontrou-o, meditando, em sua posição de lótus. Estava sentado dentro de um rio, de costas para o ponto onde ela se encontrava. A água cobrindo-lhe o corpo até a cintura e apenas o ar gelado da noite cobrindo-lhe a parte de cima. Ela estancou um instante, antes de esconder-se atrás de uma árvore. Permaneceu meio que agarrada ao tronco, com o rosto colado nele. Era a primeira vez que via o monge sem aquelas vestes sagradas.

“Eu não deveria ter vindo até aqui...” Embora achasse ser um tanto errado, resolveu escorregar a cabeça um pouquinho para o lado, o suficiente apenas para livrar a visão de um de seus olhos para poder vê-lo. Ele permanecia calmamente dentro do rio. Aparentemente não a tinha visto. Ela sentia um misto de culpa e euforia, embora, na verdade, não estivesse vendo muito mais do que as costas nuas dele, que o luar parecia fazer questão de salientar. Ela percebeu que ele relaxou o tronco e virou-se o suficiente apenas para pegar uma cuia que ele mesmo havia deixado sobre uma pedra ao lado. Novamente ela escondeu-se totalmente atrás da árvore, com receio de ser pega. Mas, apesar do receio, permanecia ali, às escondidas.

Escutou o barulho de água e arriscou-se novamente com o olhar. Lá estava ele, utilizando-se da cuia para jogar água sobre seu corpo. Eram gestos lentos; parecia haver um grande peso naquele objeto ao invés de apenas água. Mas, naquele primeiro instante, Sango não notou esse detalhe. Seu coração batia um pouco mais forte a cada vez que percorria e memorizava cada curva das costas dele. Tão forte a ponto de, por um segundo ou dois, poder ouvir apenas o seu próprio coração batendo. Tudo o mais na floresta parecia haver se calado diante da beleza que ela presenciava.

Subitamente, ele levantou-se e ficou a fitar o céu. Ela corou diante da nudez dele, mas dessa vez, permaneceu com os olhos vidrados nele. Só que seu transe foi interrompido quando percebeu que ele agora havia direcionado seu olhar para ela. Era como se houvesse descoberto que ela o estava espionando. Com os olhos esbugalhados, encolheu-se o mais que pôde, colada de costas ao tronco da árvore que lhe servia de obstáculo aos olhos dele.

“Que droga! Eu sou uma idiota mesmo! Onde é que eu estava com a cabeça? Agora ele vai dizer que eu é que sou pervertida...” Ela resignou-se e suspirou, olhando ao redor. Não havia como sair dali sem ser notada, uma vez que a vegetação era extremamente escassa. “Pode ter sido apenas impressão minha... Talvez ele não tenha me visto”. Ficou repetindo para si mesma que era apenas uma enorme coincidência o fato dele ter olhado justamente na direção dela naquele momento. Estava decidida a permanecer ali, escondida, até que ele fosse embora sem ter percebido a presença dela. Ledo engano.

– Desculpe pela preocupação...

Ela cobriu a boca com as duas mãos. “Ele sabe que eu estou aqui!” Agora sim ela sentia que seu coração iria escapar pela boca, de tanto que palpitava em seu peito. Tentou se acalmar respirando profundamente, ela já havia sido descoberta, não adiantava esconder-se mais. O jeito seria tentar agir da forma mais natural que a situação permitisse. Ela levantou-se e ficou escorada de costas contra o tronco da árvore. Permaneceu parada em silêncio, ainda estava tentando criar coragem para ir falar com ele. “Sango, como você conseguiu se meter nessa situação?”, perguntou-se ela.

Ela escutou ruídos de passos pelo solo e o leve vestir dele. Esperou mais alguns segundos, dando-lhe tempo para terminar de vestir-se quando ela fosse falar com ele. Decidiu olhar quando escutou o barulho do Shakujou (x). Saiu de detrás da árvore e ficou olhando para ele silenciosamente. O monge, já vestido, por sua vez não estava mais olhando na direção dela, era como se ela sequer estivesse ali. A atenção dele estava voltada novamente para o céu. Só então ela pôde perceber o quão triste era a expressão no perfil do rosto dele.

– Pai, será que alguém pode falhar tantas vezes? – Olhou para a palma de sua mão direita. – Se eu ainda o tivesse, talvez pudesse ter feito mais alguma coisa... – Calou-se e cerrou o punho.

Uma brisa fria soprou e Sango ajeitou o xale, tentando aquecer-se. Mas seus olhos permaneciam fixados no monge. Só então ela buscou em suas lembranças dos últimos minutos o que ela havia deixado passar. Todo o desânimo da forma como ele se banhava, a tristeza nos seus olhos quando olhou na direção dela. Na direção dela, não para ela. Ele sequer havia notado a presença dela, estava falando consigo mesmo o tempo todo. “Como eu sou idiota...”

Notou que ele deu mais uma profunda respirada e pegou a cuia que serviu-lhe durante o banho. Para retornar ao vilarejo teria que passar por ela e tomou um susto quando a viu.

– Sango?... – Deixou a cuia cair. – Há quanto tempo você está aí?

– Eu acabei de chegar... – Ele respirou aliviado, mas só até que ela completasse a fala. – Mas eu escutei o que você disse. – Caminhou ate ele e segurou a mão direita dele entre as suas. – Aquela maldição o atormentou durante muito tempo e também custou a vida de pessoas queridas para você. – O abraçou com os olhos cheios de lágrimas. – E também iria tirar alguém muito querido de mim... Eu não quero perder você...

Ele ficou um pouco surpreso, mas depois a envolveu com seus braços, soltando o Shakujou que caiu ao chão. Ela mantinha a cabeça encostada no peito dele enquanto soluçava. Miroku então subiu a sua mão direita e ficou a acariciar gentilmente a nuca e os cabelos dela.

– Você não vai me perder...

– Mas você disse que queria de volta aquela coisa... – Ela foi interrompida pela mão esquerda dele, que lhe cessou as palavras tocando-lhe os lábios.

– O que eu disse é que eu talvez pudesse ter feito algo mais se ainda o tivesse... Eu tenho falhado com meus amigos muitas vezes nos últimos tempos, Sango... E não tenho sido capaz de fazer absolutamente nada para ajudar...

– Mas do que você está falando? Você é importante para todos nós!

– E o meu maior medo é falhar com você... – Ela o abraçou fortemente enquanto o escutava confessar-se. – Dou graças a Deus que Setsuna esteja do nosso lado agora, porque, caso fosse o contrário, não haveria nada que eu pudesse fazer para impedi-la. Ela é poderosa demais, Sango, e, ao contrário de Kagome, ela sabe usar o poder que tem. Confesso que isso me deixa um pouco desconfortável...

– Desconfortável?

– Sim... Pode parecer egoísmo da minha parte, mas daquela vez que fui dominado apenas pela presença dela, quando ela queria levar Kagome para Sesshoumaru, pude perceber o quão fraco eu sou.

– A senhora Kaede também foi dominada...

– A senhora Kaede é idosa. Não há desculpas para mim. – Ele soltou-se do abraço dela e sentou-se encostado ao tronco de uma árvore, olhando para o chão. – Está frio aqui, é melhor voltar senão pode se resfriar.

Ela se aproximou e sentou-se próxima a ele, a sua frente. Ele ainda permanecia sem olhar nos olhos dela e, com um gesto delicado, ela acariciou o queixo dele e o ergueu, fazendo-o encara-la.

– Talvez nada do que eu diga faça com que você se sinta melhor, mas não me peça para deixá-lo sozinho agora. Sempre que eu precisei você esteve ao meu lado, mesmo que não houvesse nada que pudesse fazer. Isso me trazia conforto, apenas a sua presença. Então me deixe fazer a mesma coisa por você...

Sem esperar pela resposta, ela se aninhou no colo dele, abraçando-o carinhosamente e repousando novamente a cabeça em seu peito. Ele abaixou a cabeça, apoiando-a no ombro dela e escondendo os olhos, enquanto a abraçava fortemente.

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O vento gelado da noite soprava ao redor do poço Come-Ossos, formando pequenos redemoinhos de vento e sujeira. O hanyou permanecia de pé, diante do poço, hesitando em entrar. Sua respiração era ofegante e pesada. Mais parecia não encontrar o que respirar no ar. Seus olhos estavam vermelhos; vermelhos do sangue que agora dominava seu corpo, embora sua mente ainda estivesse quase consciente. Infelizmente, para seu maior desespero, mais consciente ainda era a presença que o comandava.

“Mate-a! Mate a sacerdotisa!”

E, enquanto saltava para dentro do poço, lágrimas vermelhas como sangue caíam de seus olhos.

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(x) Shakujou – Bastão de monge, como o que Miroku usa.

-x- Continua no próximo cap -x-