O Destino de Cada Coração Iv

3 Equivalência De Forças


Após dois dias, no final da tarde, o grupo conseguiu retornar ao vilarejo de Kaede, sem maiores problemas. A velha sacerdotisa se surpreendeu por ver Sesshoumaru com eles.

– O que está acontecendo, Kagome?

– Depois eu explico para a senhora, vovó Kaede. Eu queria saber o que tem para jantar, eu estou morrendo de fome!

– Eu estava terminando de preparar um cozido e...

– Que bom! – Entrou correndo na cabana.

– O que deu nela?

– Ela tem comido que nem uma louca ultimamente... – Disse Inu-Yasha ao aproximar-se.

– Inu-Yasha, dê um desconto para Kagome. Afinal ela tem que comer por dois! – Comentou Shippou.

Irritado, Inu-Yasha pisou sobre a raposinha e manteve o pé na posição. O coitado parecia um banquinho de engraxate, embora esperneasse e gritasse muito.

– Inu-Yasha! Me deixa!

– Seu chato!

Inu-Yasha fez da raposa bola e o chutou longe. Depois, entrou também na cabana. Kaede olhou então com uma certa desconfiança para Setsuna e a jovem entendeu o receio dela.

– Sei do que desconfias senhora, mas não causaremos problemas.

– Bem, não sou contra a presença de vocês aqui, desde de que não arrumem confusão. Sintam-se à vontade e fiquem o quanto precisarem.

A jovem sorriu e olhou para Sesshoumaru. Ele, por sua vez, parecia impaciente.

– De quanto tempo mais você precisa, Setsuna?

– Acho que preciso de um banho... – Respondeu a jovem meio pensativa.

– Banho? Não foi o que eu perguntei.

– Rin também... Vou pegar uma toalha emprestada com Kagome.

– Oba, banho!

A menina ficou pulando e batendo palmas enquanto Setsuna entrava na cabana. Ao sair segurava uma toalha. Pegou a menina pela mão e saíram caminhando. Kagome já havia lhe dito onde ficava o riacho que ela mesma costuma tomar banho.

– Sango! Queres vir também? Kagome está muito ocupada comendo!

– Agora não, Setsuna. Também estou com fome. – Percebeu que Miroku a olhava com desconfiança. – O que foi?

– Humm, você também tem andado com muito apetite, Sango...

– Só que é fome mesmo, seu descarado! Eu não fiz nada que sugerisse outra coisa!

– Pelo menos não comigo... – Apoiou o queixo com a mão.

– Grrr... – Acertou o monge na cabeça com seu Osso Voador. – Vê se cresce, Miroku... – Entrou na cabana.

– Foi brincadeira, Sango! – Alisando o galo e indo atrás dela. – Cadê o seu senso de humor?

Kaede balançou a cabeça negativamente.

– Esses jovens... – Olhou para Sesshoumaru, Jyaken e Shippou. – Vocês também... Entrem.

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As duas brincavam dentro das águas do riacho. Não era muito profundo e o local era cercado por um paredão, um morro. Setsuna estava sentada dentro d’água, coberta somente até a cintura. Diante dela estava Rin, cujos cabelos estavam sendo escovados por ela. Notou que o corpo de Rin tremia.

– Rin? Acaso o frio te incomodas?

Virando-se para Setsuna, Rin tinha os olhos cheios de lágrimas.

– Desculpe...

– Meu anjo, o que foi?

– É que eu me lembrei da mamãe... Ela costumava pentear meu cabelo... Foi por causa dela que eu sobrevivi. Quando a feriram, ela se jogou por cima de mim e me disse para ficar quietinha, como se estivesse dormindo e que não importasse o que acontecesse, eu não deveria me mexer. Eu fiz o que ela me pediu e fiquei escutando o coração dela bater até a última vez... Acho que aqueles homens maus acharam que eu estava morta e foram embora. Eu só consegui me mexer novamente quando percebi o corpo dela esfriar. Já era dia e fui até sua casa para vê-la, mas estava tudo destruído e todos mortos pelo chão. Inclusive a senhorita, com este ferimento.

Rin colocou sua mão sobre a cicatriz no peito de Setsuna, que a abraçou com força.

– Minha criança... Deus não deveria permitir que tivesses estas lembranças.

– Deus não é mau... Eu perdi minha família, mas ele me deu o senhor Sesshoumaru, o Jyaken e a senhorita... Ah, tem o Ah-Un também... Posso pedir uma coisa?

– Claro.

– A senhorita quer ser a minha mãe?

Aquela pergunta fez o coração de Setsuna bater forte. Ela acariciou o rosto da menina e consentiu com a cabeça. Uma voz familiar a assustou e ela tratou de erguer sua barreira de energia. Diante delas, rindo feito um louco, estava Tatsuyo, o bandido que havia liderado o ataque a casa de Setsuna.

– Que cena comovente! E eu? Posso ser o seu papai, menina?

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Inu-Yasha notou a face de Sesshoumaru, sentado de braços cruzados no canto da cabana.

– Você está muito quieto, Sesshoumaru. Algum problema?

– Não é da sua conta, Inu-Yasha. – Levantou-se.

– Aonde você vai?

– Resolver um problema. – Saiu.

Kagome, com o prato na mão e, entre uma mastigada e outra, conseguiu espaço para perguntar.

– Que problema será esse? Ele nem esperou Setsuna e Rin voltarem.

– Hunfh... Como se você não soubesse... – Percebeu que ela o olhava meio confusa. – Kagome, pelo amor de Deus! Você não percebeu que ele vai espiar?

– Espiar? – Caiu em si. – Inu-Yasha! Rin é só uma garotinha!

– É, mas Setsuna já é uma mulher de corpo bem feito.

– E por acaso você já ficou reparando no corpo dela?

Inu-Yasha ficou sem graça e corou.

– Kagome! Se meu nome fosse Miroku provavelmente já teria tentando até passar a mão!

Miroku interrompeu sua bebida, com um pequeno engasgar.

– Não me meta nesta história, Inu-Yasha. Eu sou um outro homem agora.

Sango virou-se para Kagome e cobriu os lábios ao falar.

– Até parece...

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Setsuna puxou Rin para trás de seu corpo.

– O que queres, Tatsuyo? Não foi suficiente o estrago que causaste?

– Olha, garota, se eu soubesse que era tão bonita, ao invés de matá-la, teria feito de você minha escrava... – Sacou sua espada. – Só que agora a única coisa que eu quero é ver a sua cabeça rolando pelo chão. Sua maldita... Por causa da sua maldição não tenho conseguido um minuto de paz sequer. Todas as vezes que eu fecho os olhos, vejo todo aquele pesadelo se repetir, comigo!

– E o que fizeste a mim e a esta criança? Não existe punição no mundo que possa reparar teus atos!

– Eu posso dar um jeito nessa criança. – Sorriu maldosamente, o que deixou Setsuna revoltada. – Ela é bem jeitosa, vai crescer bem bonita. Bem, talvez eu não espere até ela crescer...

– Como ousas cobiçar minha criança, seu monstro?

– Vou fazer muito mais que cobiçar, sacerdotisa. – Retirou de sua cintura uma pequena bolsa de couro. – Isso me foi dado há muito tempo pela pessoa que me contratou para matá-la. Ele disse que era uma poção capaz de neutralizar temporariamente os poderes de uma sacerdotisa. E eu só preciso que essa barreira caia por um segundo...

Com os dentes, Tatsuyo retirou o lacre da bolsa. Rin abraçou Setsuna fortemente por trás.

– Senhorita Setsuna...

Setsuna levantou sua mão, mas antes que gerasse a esfera da alma, um vulto passou rapidamente por elas e atacou Tatsuyo. Puderam então perceber Sesshoumaru segurando o bandido pelo pescoço com sua mão direita e prendendo-o contra uma parede rochosa. Com o ataque surpresa, Tatsuyo acabou soltando sua espada e a bolsa de couro. Ao encarar Sesshoumaru, Tatsuyo se lembrou dele e da noite em que seu acampamento foi atacado e arrasado.

– Me lembro de você... Estavam juntos quando ela me atacou...

Sesshoumaru se mantinha frio e encarava Tatsuyo assustadoramente.

– Existe uma chance de você sair com vida daqui... Vai depender da resposta que elas me derem...

– Resposta?

– Ele machucou vocês duas?

Apesar de ter feito a pergunta para as duas, Sesshoumaru manteve seu frio olhar em Tatsuyo. Este, por sua vez, desviou seus olhos de Sesshoumaru para olhar aquelas duas jovens despidas dentro do riacho. Setsuna o olhava com imenso desprezo e ele achou que seria seu fim, até escutar sua resposta.

– Ele sequer chegou perto, meu senhor...

– Está certo... – Disse Sesshoumaru, fechando os olhos.

Tatsuyo respirou aliviado. Então se apavorou ao notar Sesshoumaru erguer sua mão esquerda e dois dos dedos dela começaram a emitir um brilho esverdeado.

– Espere! Você disse...

– Eu disse que sua vida dependeria da resposta delas... – Abriu seus olhos. – Mas não precisava olhar para elas...

Sesshoumaru cravou seu par de dedos no rosto de Tatsuyo, um em cada olho.

– Oh, meu Deus...

Setsuna virou-se e abraçou Rin, escondendo-lhe o rosto, para que a menina não visse aquela cena. O ataque foi tão súbito que Tatsuyo sequer teve tempo de gritar. Soltou um ganido de dor, seu corpo estremeceu por um momento e parou. Seus olhos e seu rosto derreteram por causa do contato com as garras venenosas de Sesshoumaru. Quando percebeu que aquele corpo estava completamente sem vida, o jogou atrás de uma moita, como se fosse um saco de lixo imprestável. Ele cruzou os braços e permaneceu de costas para elas.

– Vistam-se.

Setsuna, completamente indignada com a ação dele, levantou-se com Rin no colo e foi para a margem. Enrolou a menina em uma toalha para secá-la e a ajudou a vestir seu quimono.

– Quero que voltes para Kagome agora... Eu preciso conversar como o nosso senhor.

– Por favor, não brigue com ele. – Suplicou Rin.

A menina percebeu como Setsuna estava séria e resolveu obedecer. Saiu correndo em direção ao vilarejo e à cabana onde estavam Kagome e seus amigos. Setsuna levantou-se, segurando a toalha que usou em Rin, apenas para cobrir a parte da frente de seu corpo. Sesshoumaru permanecia em silêncio, de costas para ela. Vez por outra, raios iluminavam o local, um sinal de que a chuva não estaria longe.

– Não precisavas ter assassinado aquele homem. Ele não poderia fazer-me mal algum... Como soubeste?

– Eu sempre fico por perto... E quanto àquela poção?

Ela olhou para a bolsa de couro, com o conteúdo espalhado pelo chão.

– Achas mesmo que ele poderia ter me derrotado com esse artifício? Talvez pudesse ter funcionado há quase um ano atrás, quando fui morta pela espada dele, mas não hoje.

– Você ficou muito forte, Setsuna... – Virou-se para encará-la. – E também ficou esperta... Pensa que eu não percebi o seu jogo?

Setsuna fechou os olhos e sorriu. Um silêncio tomou conta do local.

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Rin entrou correndo na cabana de Kaede.

– Senhorita Kagome! – Pulou no colo dela. – Por favor! Não deixe que eles briguem! Por favor!

– Calma, Rin! Quem está brigando? – Indagou Kagome.

– O senhor Sesshoumaru e a senhorita Setsuna estão brigando!

– O quê?

– Provavelmente ela o pegou espiando... – O comentário de Inu-Yasha fez com que Kagome o olhasse com repreensão, pois a menina estava assustada.

– Rin, acalme-se e me diga o que aconteceu.

A menina respirou fundo para recobrar o fôlego após a corrida que dera.

– Tinha um bandido... Aquele que matou a família da senhorita Setsuna. Ele queria machucá-la de novo. O senhor Sesshoumaru apareceu e acabou com ele, mas eu acho que ela ficou chateada com ele. Ele foi...

Ela não pôde continuar sua frase, mas Inu-Yasha a completou.

– Um assassino impiedoso? Novidade! – Levantou-se.

– Inu-Yasha, espera! – Kagome levantou-se também, mas, antes de sair, acariciou o rosto choroso da menina. – Não se preocupe, Rin. Vai ficar tudo bem. Já voltamos. – Foi atrás de Inu-Yasha, que já estava do lado de fora da cabana.

– Vamos logo, Kagome! – Percebeu que ela se aproximou meio triste. – O que foi? Está preocupada com sua amiga?

– Para falar a verdade... Eu queria comer mais um pouco...

Inu-Yasha agarrou a jovem pelo braço e ambos seguiram caminhando.

– Se você não abrir os olhos vai ficar igual à velha Kaede! Gorda!

– Grosso! – Kagome mostrou a língua e os dois seguiram resmungando um para o outro.

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De volta às margens do rio, Sesshoumaru e Setsuna continuavam com o clima mórbido entre eles.

– Sabia que não poderia enganar-te por muito tempo... Mas, pelo menos, pudeste desfrutar da companhia de teu irmão.

– E isso é bom?

– Por que me fazes uma pergunta para a qual já sabes a resposta?

Sesshoumaru se aborreceu. “Ela sempre me enfrenta desse jeito.”. Começou a caminhar.

– Acaso te deixei sem graça, meu senhor?

Ele interrompeu seus passos, mas permaneceu de costas.

– Você às vezes é tão irritante. Se fosse outra pessoa já teria saído correndo de medo.

– E te irritas com isto? Por que eu permaneço contigo?

– Quero saber se a promessa que me fez é a razão de ainda estar comigo.

– Uma promessa só tem valor se for feita com sentimento. Se não consegues entender porque a fiz, é porque és um cego.

– Sim, eu estou cego... – Virou-se e a encarou. – Você me cegou...

– Apenas porque permitiste...

Sesshoumaru sorriu com o jeito confiante dela.

– Você tem sempre uma resposta na ponta da língua. Mas você deveria estar andando com humanos. Estaria mais segura...

Setsuna deixou cair a toalha e pegou seu quimono no chão, vestindo-o.

– Humanos não me agradam tanto quanto um youkai. Me sinto segura ao teu lado.

– Você é imprevisível.

Ele aproximou-se dela. Ainda havia sangue em sua mão e foi justamente esta que ele ergueu na direção dela para acariciar-lhe o rosto. Ela fez uma cara de reprovação e deu um tapa na mão dele, afastando-a.

– Já matei por muito menos que isso, Setsuna... – Disse ele, irritado.

– Me matarias agora?

– É isso o que quer?

Ele ergueu sua mão e seus dois dedos começaram a brilhar. Setsuna afastou-se um pouco, confiante. Inu-Yasha e Kagome chegaram naquele momento, no alto do morro e se esconderam.

– Meu Deus! Inu-Yasha, eles estão brigando mesmo!

Inu-Yasha olhou desconfiado para aquela situação. Sesshoumaru avançou sobre Setsuna e ela desviou com facilidade. Ele virou-se e lançou seu chicote que ela repeliu com sua barreira. Imediatamente o atacou com a esfera da alma, mas ele esquivou-se dela.

– Não acredito que eles estejam lutando... – Comentou Kagome com pesar.

– Não é para valer... – Concluiu ele.

– Como assim? – Encarou Inu-Yasha, com surpresa.

– Se qualquer um dos dois estivesse lutando para valer, isso já teria terminado. Eles são muito mais rápidos e fortes do estão demonstrando, não acha?

– Mas então por que estão lutando?

– Vai saber, Kagome... Sesshoumaru é muito orgulhoso... Você acha que ele admitiria uma mulher fraca do lado dele?

– Se ele matá-la não vai ter ninguém do lado dele, Inu-Yasha...

– Eles não vão se matar...

– Espero que tenha razão.

Continuaram observando aquela demonstração de forças. Logo começou a gotejar e um vento frio tomou conta do local. Sesshoumaru e Setsuna pararam diante um do outro, encarando-se. A chuva apertou um pouco mais e um raio iluminou suas faces.

– Isso poderia durar a noite toda...

– E valeria a pena, meu senhor?

– Não... – Desfez seu chicote e ela recolheu sua esfera. – Você é uma adversária formidável... – Foi até o riacho e lavou o sangue de sua mão.

– Não quero ser tua adversária...

– Nem eu quero que seja... – Ao virar-se, surpreendeu-se com ela tão próxima dele que, apesar do corpo molhado pela chuva, podia sentir seu calor. – Você e seus truques.

– E isto importa agora? – Acariciou o peito dele.

Kagome sentiu-se desconfortável com a situação.

– É melhor nós irmos agora, Inu-Yasha...

O hanyou olhou meio confuso para ela. Não sabia porque ela queria ir embora, já que era ela quem estava tão preocupada. Só se deu conta do que estava acontecendo quando notou a armadura de Sesshoumaru ir ao chão, justamente com a parte de cima de suas vestes. Instintivamente, cobriu os olhos de Kagome com as mãos.

– Hei, eles não têm vergonha de fazer isso na nossa frente?

Kagome cruzou os braços, aborrecida. Depois, livrou-se da mão dele que cobria seus olhos, o segurou pela orelha e saiu arrastando-o.

– E por acaso eles sabem que nós estamos aqui? Vamos logo...

Setsuna mantinha a cabeça encostada no peito de Sesshoumaru.

– Eles foram embora, meu senhor...

-x- Continua no próximo cap -x-