O Destino de Cada Coração Iv
7 A Alma De Uma Criança
Fora da cabana estavam Kaede, Miroku e Sango. A visão de Sesshoumaru trazendo Setsuna naquele estado era perturbadora. Kaede aproximou-se para saber o que tinha acontecido.– Mas o que aconteceu? Onde estão Kagome e Inu-Yasha?– Estão lá atrás. E aquele lobo também, desacordado.– Kouga? Meu Deus, Kagome! – Exclamou a preocupada Sango.A exterminadora saiu correndo na direção da horta, seguida por Miroku. Kaede permaneceu onde estava, com os braços cruzados atrás das costas e um semblante muito sério.– Lamento por Setsuna, Sesshoumaru.– Ela não precisa do seu lamento, velha.Finalmente Rin, Shippou e Jyaken saíram da cabana. A menina ainda esfregava os olhos, espantando o sono, mas logo teve os mesmos olhos cheios de lágrimas ao ver Setsuna.
– Senhorita Setsuna! Não!Ela correu e segurou a mão de Setsuna. Sesshoumaru a encarou.– Não se preocupe, Rin. – Disse ele.– O senhor vai usar sua espada?Ele consentiu com a cabeça e ela alegrou-se um pouco. Enxugou as lágrimas do rosto e beijou a mão de Setsuna. Silenciosamente, Sesshoumaru começou a caminhar, seguido por Rin e Jyaken. A menina virou-se e acenou com um dos braços.– Shippou! Vovó Kaede! Até logo!– Até logo, Rin! – A raposinha os observou até desaparecerem no horizonte. Notou a preocupação no rosto de Kaede. – O que foi, vovó Kaede? – Nada, Shippou... Mas eu acho que está história está muito estranha. Tenho um mau pressentimento.– Eu espero que a Kagome esteja bem...-x-x-x-x-x-A noite já havia caído e o frio atormentador tinha chegado. A neve formava um tapete pelo chão da floresta. As copas das árvores, praticamente desfolhadas e cobertas de branco, reluziam a luz do luar. Já não mais nevava, o céu estava limpo, exibindo as estrelas. Setsuna também escutou o barulho das águas de um pequeno riacho. O som de uma espada sendo guardada em sua bainha também lhe chamou a atenção. Foi quando ela se levantou e sentou sobre os joelhos. Jyaken e Rin estavam diante dela, com os olhos rasos de lágrimas. Sesshoumaru estava ao lado, ainda com a mão sobre a Tenseiga, mas não olhava para ela. Ele olhava para o riacho e havia muita tristeza naquele olhar. Rin, empolgada, pulou no colo da jovem e a abraçou fortemente.– Mamãe! Que bom que está bem!– Minha criança...Jyaken enxugava as lágrimas dos olhos enquanto as duas se abraçavam. Sesshoumaru afastou-se um pouco e sentou-se diante do riacho. Logo Rin acalmou-se e Setsuna pediu a ela e a Jyaken que a deixassem conversar com Sesshoumaru. Os dois se afastaram com Ah-Un, para dar-lhe o que comer. Setsuna então se levantou e foi até a margem do riacho. Ele mantinha fixo seu olhar nas cálidas águas, que carregavam pedaços de gelo e folhas mortas. Ela respirou fundo e sentou-se ao lado dele. Permaneceram em silêncio alguns instantes.– Obrigada... Por terdes devolvido minha vida... – Mais alguns segundos se passaram e só o vento gelado quebrava o silêncio entre ambos. – Este teu silêncio é perturbador...– Como pôde?...Ele voltou seu olhar para ela, encarando-a. Ela sentiu-se confusa e surpresa.– Como assim? Acaso achas que sou culpada de minha própria morte?– Não é disso que estou falando. Se aquele monstro resolvesse usar seu corpo, não haveria nada que eu pudesse fazer para salvá-la. A não ser que você mesma pudesse expulsá-lo. Caso contrário, a única maneira de derrotá-lo seria destruindo por completo o corpo hospedeiro. E como eu poderia trazer de volta da morte alguém cujo corpo já não mais existe? – Eu entendo, mas este teu olhar de decepção não é justo... – Tinha lágrimas nos olhos.– Não estou falando de justiça. – Voltou a fitar o riacho. – Por que não usou sua esfera ou a barreira, Setsuna?Ela hesitou um pouco na resposta. Ela já sabia o que estava acontecendo. “Ainda está muito cedo para que ele perceba. Como posso contar a ele?...”. Observou um pouco as águas correntes e deixou escapar algumas lágrimas, que caíram sobre suas mãos repousadas em seu colo.– Insetos venenosos anularam minha barreira. – Explicou ela. – Kouga não nos permitiria fugir, então o mantive distraído enquanto pude.– Você aprendeu como fazer aquela tal poção?– Sim...– Então o veneno desses insetos não será problema novamente, não é mesmo?– Não... Por que saímos do vilarejo?– Entenda uma coisa, Setsuna. Não importa os laços de sangue que eu e Inu-Yasha possamos ter, jamais seremos amigos. Ele é a lembrança da maior fraqueza de meu pai, da fraqueza que o levou a morte...Ela ficou olhando para ele. “Ah, meu senhor... Como posso pedir que entendas e que aceites o que está acontecendo aqui dentro de mim se já não aceitas a humanidade de teu próprio irmão?...”. Ela levantou-se e começou a caminhar para dentro da floresta.– Aonde vai, Setsuna?– Vou procurar algumas ervas. Preciso fazer a poção ou do contrário minha energia não será restabelecida rapidamente. Volto logo.
Os desconfiados olhos dele a seguiram até que ela desaparecesse na escuridão da floresta. Horas se passaram e Setsuna mantinha aquela caminhada triste e silenciosa. Sabia o que tinha que fazer, mas não queria. Caminhava analisando os troncos das árvores até finalmente encontrar o que procurava. Uma espécie de cogumelo, colado ao tronco de uma delas. Ela passou a mão esquerda por ele levemente, sentindo a textura.– É este... Logo tudo vai estar terminado. – Arrancou-o da árvore e ficou olhando-o na palma de sua mão. “Após comer isso poderei usar minha esfera quando quiser, mas...”. – Mas vou perdê-lo... – Passou a mão direita sobre o ventre.– Perder quem?Apesar de se assustar, ela manteve-se imóvel, enquanto Sesshoumaru se aproximava por trás dela. Ele notou o que ela tinha na mão e ficou ainda mais desconfiado. Parou bem atrás dela, há poucos centímetros de distância.– O que é isso, Setsuna?– Tantas perguntas... A qual devo responder primeiro? – A que quiser.Ele a surpreendeu retirando um pequeno pedaço do cogumelo em sua mão e examinando-o de perto.– É parte da poção, meu senhor...– Você tem certeza? Como isto poderia fazer algum bem a você? É venenoso. Não percebeu?– “Que droga! Ele está desconfiado...”. Plantas venenosas também têm suas utilidades.– Por acaso ainda está sentindo alguma dor, Setsuna? – Jogou fora o pedaço que segurava.– Por quê?– Sua mão sobre sua barriga...Só então ela se deu conta de que ainda alisava inconscientemente seu ventre. Tratou de abaixar a mão.– Não é nada que não possa ser resolvido com isto e outras ervas.Ela tentava segurar as lágrimas, mas era difícil. Nem mesmo conseguia virar-se e encará-lo. “Por favor... Não quero que me vejas fazer isto!”. Assustou-se quando ele colocou a mão dele sobre aquela na qual ela segurava o cogumelo. Ele permanecia calmamente atrás dela. – Você pensa que eu não sei o que está acontecendo, mas está enganada, Setsuna... Não quero que faça isso.– Do que estais falando?– Do nosso filho... Foi por isso que não conseguiu usar sua esfera, não foi? Porque ele está utilizando toda a sua energia...Ela respirou fundo, mas mesmo assim, era difícil achar o ar. – É necessário... Do contrário, não passarei de uma simples humana... E se tivermos problemas novamente com Naraku, não poderei proteger ninguém. Nem Rin, nem eu mesma. Não quero atrapalhar-te.– Você jamais será uma simples humana, Setsuna... Não se preocupe com isso. Eu protegerei vocês três.Ele colocou sua outra mão sobre o ventre dela e puxou a que segurava contra o peito dela, envolvendo-a em um abraço. Ela se entregou e deixou as lágrimas que segurava escaparem.– É recente... A temperatura e o cheiro do seu corpo sequer mudaram ainda. Por que não aconteceu na primeira vez?– Eu usava uma poção para impedir que isto acontecesse, mas de alguma forma, a poção que me foi dada por Kagome para que eu me recuperasse, não só recuperou minhas forças, como também minha fertilidade. Ironicamente, a poção que me salvou também foi a causa da minha morte.– Naraku foi a causa de sua morte...Ela se soltou de seu abraço e largou o cogumelo, que caiu ao chão. Deu uns dois passos, pisando sobre o fungo, virou-se e encarou Sesshoumaru.– Como disseste, está muito recente. Como pudeste então perceber?– Acho que finalmente consegui compreender porque meu pai me deixou a Tenseiga como herança. O golpe da espada de Inu-Yasha está muito melhor do que antes, assim como o meu. – Colocou a mão sobre sua espada. – Agora posso ver algo mais além dos emissários do outro mundo que ficam espreitando os corpos dos mortos. Posso ver as almas que eles desejam levar... Cada ser vivo possui uma única alma, não é mesmo?– Sim, mas não entendo aonde queres...– Então como eu pude ver duas almas no seu corpo?Ela ficou surpresa por um instante, mas depois se comoveu.– Viste a alma de nosso filho...– Sim, eu vi... Nunca mais se arrisque daquela maneira novamente. Percebi que não há limites para a quantidade de vezes que possa salvar a vida de alguém, mas... – Aproximou-se dela e tocou-lhe a face. – Mas vê-la morta é muito doloroso, Setsuna...– Meu senhor...Primeiro ela passou a mão pelo peito dele e depois o abraçou carinhosamente. Ele passou a mão pelos cabelos dela e, lentamente a envolveu com seus braços.-x- Continua no próximo cap -x-
Fale com o autor