O Despertar do Tigre

9 Tomando Decisões Importantes


Notas iniciais
Acho que demorar quase dois anos para postar um capitulo deve ser uma espécie de recorde, decidir voltar a escrever aquela fanfic abandonada talvez seja outro. Se você algum dia acompanhou essa história e teve fé que ela continuasse, gostaria de agradecer imensamente e de coração pela esperança. Se você chegou por aqui agora eu agradeço por dar uma chance a essa fanfic. Assim como o titulo do capitulo, decidi tomar uma decisão e voltar a escrever essa fanfic, a verdade é que eu nunca a abandonei totalmente, apenas dei um tempo. Acho que devo dizer que pretendo termina-lá, pois para mim isso é quase como um desafio pessoal, essa história já passou tantas vezes na minha cabeça que não dar um final a ela seria algo terrível. Talvez eu demore um pouco para postar, mas garanto que já estou trabalhando nos próximos capítulos e tentarei postar o mais rápido possível.

Não sei por quanto tempo fiquei sentada ali.

De vez em quando eu acariciava o tigre que apenas ronronava e esfregava o pelo nas grades, como se pedisse por mais carinho. Eu apenas ria e passava a mão em seu pelo macio.

Estava absorta em pensamentos, internamente tentando me convencer a não seguir minha decisão adiante, a voltar pra casa e dormir. Mas não adiantava mais, de alguma forma sentia que precisava ir nessa viagem, que precisava saber se Nick ficaria bem ou não.

—ENLOUQUECEU? – uma voz gritou entrando na jaula.

Arregalei os olhos com o susto, minha mão ainda na cabeça de Nick. Não tive nem tempo de me virar e senti braços ao redor da minha cintura me puxando para longe das grades e soltei um grito involuntário. Ouvi o rugido de Nick em protesto e vi o rosto de Max me olhando preocupado, os braços ainda me envolvendo.

—Você ficou louca!? Regra número um do zoológico: NÃO coloque as mãos dentro da jaula de um tigre maluco!

Como se reagisse ao insulto, Nick se agachou em posição de ataque e soltou um rugido que arrepiou os pelos do meu braço. Sentia meu coração na garganta, tamanho o susto.

—O ÚNICO MALUCO AQUI É VOCÊ! — gritei, desvencilhando-me do abraço de Max e empurrando-o em seguida. — Quem você pensa que é me assustando desse jeito!? – perguntei colocando a mão sobre o peito, como se pudesse fazer o coração bater mais devagar.

—Desculpe se eu estava salvando sua vida! – rebateu, ofendido. – Ele podia te devorar!

—Por acaso parecia que ele ia me devorar? – perguntei apontando para o tigre.

Max apenas ergueu uma sobrancelha.

—Sim – respondeu em tom debochado.

Olhei para trás, vendo Nick com as dentes à mostra e expressão ameaçadora.

Esse tigre realmente não me ajuda!”, pensei voltando-me para Max.

—Ele está assim porque não gosta de você. Há alguns minutos ele estava bonzinho.

Max fez uma expressão confusa.

—Você está aqui desde àquela hora?

Assenti.

—Fazendo carinho nele?

Assenti novamente.

Ele parecia surpreso, mas apenas cruzou os braços e lançou um olhar irritado ao tigre.

—Tenho que admitir: ele não é um tigre nada bobo!

—O que quer dizer? – perguntei sem conseguir conter a curiosidade.

—Michael e eu temos que tomar todo o cuidado do mundo com ele, sempre parece que esse tigre quer nos devorar bem lenta e dolorosamente. Até Vince, que passa mais tempo com ele é cuidadoso, com as roupas de proteção e tudo mais. Mas é só você se aproximar que ele fica manhoso igual um filhotinho.

—Não vai me dizer que está com ciúmes – disse em tom debochado.

Ele apenas bufou como resposta.

—Tenho certeza que ele gosta de você. É só uma questão de convivência, entende? – continuei, suavizando a expressão e olhando Nick, que parecia ter se acalmado. –Apesar de não gostar de admitir, acho que Vince está certo, eu venho mais aqui e sou eu quem dá a comida dele. Faz sentido que ele goste um pouquinho de mim, quero dizer, tem como não gostar de alguém que te dê uma tigela de comida todo dia?

Ele me olhou, parecendo incrédulo.

—Acha que eu estou com ciúme do tigre?

Paralisei no mesmo instante e o encarei. Acho que deixei transparecer o choque, porque ele ficou envergonhado e tentou se explicar:

—Desculpe, não quis parecer presunçoso, mas achei que a gente tinha se divertido naquele dia – ele disse me lançando um olhar malicioso.

Minha cara se contorceu em uma careta involuntária. Fechei os punhos para não socar a cara dele e mordi a língua para não responder que assistir a um filme horrível e observar enquanto ele cantava a mim e a moça da bilheteria não era o tipo de programa que eu consideraria divertido. Claro que o depois do suposto encontro também não tinha sido nem um pouco agradável, a cada dia que se passava Max ficava cada vez mais insuportável e difícil de tolerar, lançando indiretas nem um pouco discretas e fazendo piadinhas ridículas.

—Você sabe que o fato de termos ido ao cinema juntos não quer dizer que... – comecei a mexer as mãos, tentando explicar. – Bem, que estamos...

—Namorando? – ele perguntou, me lançando um olhar esperançoso, ganhando um rugido furioso do tigre.

—É. Porque não estamos.

Ele baixou a cabeça.

—Sério. Não estamos mesmo. – repeti para que não restassem dúvidas sobre isso.

—Talvez se...

—Não tem um “talvez”. Desculpe se minha tia te fez pensar que eu estava carente e desesperada por um homem na minha vida, ou algo do tipo, por que eu realmente não estou. Tenho que aguentar cinco na minha cola e, acredite ou não, isso já é mais que suficiente.

Ele me encarou, um misto de surpresa e decepção.

—Achei que esse tempo que passamos juntos...

—Nos conhecemos há menos de uma semana, até pra gostar da minha irmãzinha eu levei mais tempo que isso – falei de bate pronto, não pretendia ser grossa, mas estava fora de cogitação levar aquela situação mais adiante, era melhor cortar esse mal logo pela raiz.

Ele ergueu uma sobrancelha.

—Tá, isso não é bem verdade. Embora eu sentisse um pouco de ciúmes quando descobri que minha mãe ia ter outro bebê e tudo mais... – balancei a cabeça, voltando para o foco da conversa. — Por que eu estou falando disso?

—Mas isso foi tempo suficiente para que você gostasse do irritadinho ai – ele me interrompeu apontando um dedo na direção do tigre.

—Você por um acaso tem noção do que está dizendo? Ele é um tigre, pelo amor de Deus! Parece um bichinho de pelúcia em tamanho real, é claro que é fácil gostar dele – retruquei, surpresa pelo modo como eu estava defendendo Nick. — Olha, Max, eu vou ser direta. Você é um cara legal e tudo mais, só que... Isso não vai dar certo.

—E como você pode saber disso?

Soltei um suspiro pesado.

—Eu só sei.

Ele parecia frustrado e irritado.

Soltei mais um suspiro sem saber o que dizer. Não que eu nunca tivesse dado um fora em um cara antes, mas não queria que ficasse um clima pesado entre nós.

—Espero que fique tudo bem. Quer dizer, continuamos amigos, certo? – perguntei estendendo a mão em um gesto de paz.

Ele estreitou os olhos, deu de ombros e pegou minha mão.

—Acho que sim, não é a primeira vez que levo um baita fora de uma garota bonita.

—E talvez não seja a última – murmurei e vi que ele me lançou um olhar feio. – Desculpe.

Para minha surpresa ele riu.

—Sua tia está certa, você é mesmo uma garota especial.

Dei de ombros.

—Pode até ser, mas agora a “garota especial” precisa falar com o Sr. Rajaram.

Falando isso, subi as escadas com o objetivo de chegar até o escritório. Mesmo já distante da sala, ainda pude ouvir o rugido que saiu da garganta do tigre, muito provavelmente dirigido à Max.

***

Três dias. Foi o prazo que pedi para decidir se eu viajaria ou não para a Índia. Talvez fosse considerado um tempo muito longo para uma decisão tão simples, pelo menos era assim que os outros viam a coisa toda. Principalmente tia Emma, que a cada cinco minutos arrumava um jeito de entrar nesse assunto. Eu também sabia que o Sr. Rajaram esperava uma resposta o mais rápido possível e não achava justo fazê-lo esperar muito. Na verdade, eu já estava decidida a ir para Índia, embora tentasse convencer a mim mesma de que essa ideia era furada. Não estava tendo muita sorte com isso.

Com toda certeza era uma grande chance. Passar quatro meses na Índia com tudo pago, tendo a oportunidade de conhecer diversos lugares — incluindo os pontos turísticos mais badalados – e ainda receber por tudo isso! Eu sabia que todos me consideravam uma idiota por enrolar tanto para aceitar, mas não conseguia evitar uma sensação estranha no meu estômago que dizia: Vai dar merda! Além do mais eu nunca estive fora de casa por tanto tempo, e a ideia de ficar tão longe assim me assustava.

Decidindo procurar uma opinião que não fosse da minha tia, fui falar com meu avô.

Quando liguei pra ele na mesma noite que tinha recebido a proposta da viagem, descobri que ele já sabia. Tia Emma já o tinha colocado a par da situação, provavelmente na esperança de que seria ele a me convencer. Vovô concordava que aquela era uma ótima oportunidade e disse que se minha escolha fosse ir, ele me apoiaria totalmente, mesmo que isso o deixasse com um nó na garganta pelo fato de que eu ia sair debaixo da asa dele, mesmo eu já tendo feito isso vindo para Seattle. Ele também estava desconfiado e “não concordaria em deixar sua netinha viajar pro outro lado do mundo com um estranho” – palavras dele, não minhas.

Então, como um mega espião de elite, ele começou a pesquisar. Aqui vai uma informação interessante sobre meu avô: ele seria um ótimo agente do FBI. No dia seguinte ele já tinha um dossiê completo sobre o Sr. Rajaram. Tia Emma o ajudou, na esperança de que ele parasse de ser tão paranoico.

A reserva da Índia confirmou toda a história e ele também descobriu que o Sr. Rajaram tinha nascido na Índia, embora também mantivesse uma propriedade nos Estados Unidos. Ele era um grande empresário com um grande patrimônio, era casado, tinha dois filhos e sua sobremesa preferida era biscoitos de chocolate com manteiga de amendoim. É impressionante o que conseguimos descobrir com a ajuda da internet.

Eu podia ainda não ter aceitado a proposta oficialmente, mas era como se tivesse. Minha tia disse que quando o Sr. Rajaram estivesse no zoológico, ela providenciaria uma chamada de vídeo para que meu avô pudesse ameaça-lo frente a frente. Wave vibrou com a notícia, e disse que seria “o máximo”. Jane também, com a única condição que eu voltasse antes do casamento. Austin e Luke disseram que poderia ser divertido, embora não soubessem como eu sobreviveria em um país onde não comem carne (ponto negativo pra Índia).

Tia Emma tentava não me pressionar, mas ela não conseguia conter a empolgação que era bem visível.

***

Acordei na manhã do terceiro dia sentindo um cheiro estranho vindo da cozinha e ouvindo minha tia batendo panelas. Não me incomodei, já estava acostumada a ouvir a luta que ela travava com o fogão todos os dias. Levantei, colocando um jeans e uma blusa roxa de mangas compridas, escovando os dentes e arrumando o cabelo.

Desci as escadas pulando dois degraus e fazendo uma careta assim que cheguei ao último. O cheiro estava muito mais forte ali, parecia com coisa queimada.

—Que cheiro é esse? – perguntei entrando na cozinha enquanto levava a mão até o nariz para abafar o fedor.

Vi que tinha uma travessa de comida em cima da mesa. Parecia uma lasanha ao mesmo tempo em que não parecia. Vamos pensar assim: o objetivo de uma lasanha é parecer apetitosa, mas aquela era o oposto. Primeiro: não tinha molho por cima; segundo: ao invés de mussarela e presunto, o meio dela estava recheado com coisas verdes; terceiro: dela saia uma fumaça que fazia meus olhos arderem.

Minha tia sorriu assim que me viu e puxou uma cadeira, indicando que eu sentasse. Sentei ainda olhando torto pra travessa de comida. Observei enquanto minha tia tirava dois pedaços daquela lasanha maligna e colocava em dois pratos. Ela me estendeu um e naquele momento pensei na madrasta malvada entregando a maçã envenenada para a Branca de Neve.

—O que é isso? – perguntei aceitando o prato enquanto o olhava como se fosse minha sentença de morte.

—É uma lasanha vegetariana.

—É... O que aconteceu com os ovos? – perguntei enquanto cutucava a comida no meu prato.

Ela riu.

—Prometo que vai gostar. Coloquei um tempero especial indiano.

Revirei os olhos. Já fazia três dias que ela fazia isso. Tudo começou com uma música horrorosa tocando na rádio do carro. Quando eu perguntei que droga de música era aquela minha tia respondeu que era indiana. Ou quando ela sumiu no domingo e voltou com um vestido de estampa exagerada e me disse com toda a empolgação do mundo que era considerada a última moda na Índia. Digamos que ela não estava ajudando tanto quanto ela pensava.

—E onde você achou tempero indiano? – tentei mudar de assunto, ainda cutucando a comida.

Ela deu de ombros.

—No centro tem um restaurante indiano, eles também vendem os temperos.

—Hum – resmunguei ainda olhando para o prato.

—Acho melhor comer logo ou vamos chegar atrasadas – ela me apressou e pegou sua bolsa, arrumando suas coisas.

—Você não vai comer? – perguntei com um olhar acusador, vendo que ela tinha ignorado o prato dela.

—É que eu comi um pouco da couve enquanto preparava a lasanha. Já estou cheia.

Torci o nariz com o comentário.

—E por acaso tem couve nessa... comida?

—Sim.

Fiz cara de nojo quando ela falou isso e recebi um olhar reprovador.

—Liah, você tem que começar a comer couve. Nunca pensei que diria isso, mas meu pai te mima demais, por isso que você é branca desse jeito. Isso é falta de ferro no sangue.

—Tudo bem. – falei apenas para que ela parasse de brigar comigo e espetei a lasanha com o garfo. Tentei ignorar a sensação de enjoo que sentia no meu estomago enquanto sentia aquele cheiro esquisito. Levei o garfo até a boca em um caminho lento e torturante. Mastiguei apenas um pouco e engoli rápido para não sentir o gosto, minha tia sorriu e balançou a cabeça positivamente, aprovando minha atitude.

No mesmo instante senti minha boca ficar seca. Um calor infernal subiu do meu estomago para minha garganta até chegar à boca. Comecei a abanar meu rosto freneticamente enquanto minha língua ardia como mil tochas. Minha tia me olhava com a cara espantada.

Levantei de um pulo e corri até a pia da cozinha, abrindo a torneira e fazendo uma concha com as mãos. Bebi água suficiente para encher vários copos, até perceber que não estava adiantando nada.

Corri até a geladeira, pegando a primeira coisa liquida que vi na minha frente: leite puro. Eu odiava leite puro quase tanto quanto odiava couve, mas a situação era urgente. Arranquei a tampa da caixa e dei grandes goladas, sentindo a ardência sumir aos poucos. Coloquei a caixa de leite vazia na mesa e encarei minha tia, que ainda estava paralisada no lugar. Estremeci com o gosto de leite puro que ficou na minha boca.

—Acho que acabei de descobrir que eu odeio tempero indiano.

Minha tia passou o caminho inteiro de casa até o zoológico se desculpando pela lasanha bomba de fogo.

—Tia, já disse que está tudo bem – falei pela milésima vez.

—Tem certeza? Seu rosto ainda está muito vermelho.

Franzi as sobrancelhas e me olhei no espelho do carro.

Eu estava vermelha. Não era um vermelinho como se eu estivesse corada ou algo do tipo. Parecia com o vermelho de “fiquei o dia todo no sol e não passei protetor” em um tom só um pouco mais claro. Suspirei.

Logo ela parou o carro e nos separamos, ela foi para o escritório e eu fui cuidar do tigre.

Entrei na sala, notando que Nick não estava no seu canto, mas sim em pé no meio dela, sorri para ele e fui até a bancada. Inconscientemente comecei a cantarolar “Eye of the Tiger”, nunca fui fã do filme Rocky III, mas o meu avô gostava, então eu era obrigada a assistir.

Coloquei a comida na tigela e me virei para apertar o botão que desceria a grade de segurança. Dei um pulo de susto e quase derrubei tudo no chão. O Sr. Rajaram estava sentado no banco e parecia absorto em pensamentos, talvez nem tivesse notado que eu estava ali.

—O senhor quase me matou de susto – disse me aproximando e apertando o botão azul.

Ele arregalou os olhos e me encarou, finalmente notando minha presença ali. Ele se levantou parecendo envergonhado e me dirigiu um pequeno sorriso.

—Lamento por ter invadido o lugar. De novo.

—Tudo bem, agora sei que o senhor não é um maluco ou algo assim.

Ele sorriu com o comentário enquanto me observava colocar a senha no painel e entrar na jaula para colocar a comida do tigre.

—Quer ajuda? – ele perguntou e eu apenas sacudi a cabeça.

—Não precisa, obrigada – coloquei a tigela no chão e sai, fechando a jaula e subindo a grade de segurança.

Olhei para o Sr. Rajaram e vi que sua expressão calma mudou assim que me olhou.

—Você está bem? – ele perguntou parecendo preocupado.

—Estou, por quê?

—Você está um pouco vermelha.

—O quê? – perguntei, confusa.

Peguei meu celular e me encarei no reflexo. Àquela altura o efeito da pimenta já devia ter passado, certo? Errado. “Um pouco vermelha” era uma forma educada de dizer. Não estava tanto quanto antes, mas ainda era bem perceptível.

Ele esticou a mão, pousando-a delicadamente na minha testa.

—Você está quente. Acho que isso é febre. Não é melhor ir ao medico? – seu tom de voz mostrava uma preocupação genuína, mas eu apenas neguei com a cabeça.

—Não precisa – ele não parecia convencido. — Tudo bem, sério. É que minha tia fez uma lasanha com tempero indiano e estava um pouco apimentada demais.

Ele fez uma cara culpada.

—Sinto muito.

Dei um sorriso.

—Tudo bem – falei dando de ombros, para que ele soubesse que não tinha problema.

—Minha mulher também não gosta dos temperos de lá, ela acha que são muito ardidos.

—Acho que consigo entendê-la — falei, fazendo com que ele risse.

Um grunhido fez com que minha atenção voltasse à jaula. Nick tentava espremer a cabeça entre as grades (de novo). Parecia que o tigre também estava tentando me convencer a ir. Desde o dia que eu o tinha tocado sem supervisão, ele parecia ter ficado manhoso e carente em nível extremo. No dia anterior ele fez a mesma coisa quando o Sr. Vince estava ali e só parou quando eu me aproximei da jaula e fiz um carinho rápido nele. Vince ficou encantado e claro que isso só serviu pra reforçar a opinião de que eu era a escolha perfeita para ir com ele até a Índia, e eu nem ao menos levei uma bronca por me aproximar do tigre sem a roupa de proteção.

Passei minha mão em sua cabeça discretamente com esperança de que ele parasse com aquilo e me dirigi até o freezer que eu tinha deixado aberto. Virei com a intenção de fazer uma pergunta ao Sr. Rajaram, mas parei assim que vi o tigre.

Travei a mandíbula vendo a cena. Ele estava esfregando o corpo nas grades enquanto soltava um rugido que se parecia com um lamento. Aquele tigre só podia estar me provocando, primeiro na frente do Sr. Vince, e agora do Sr. Rajaram?

—Ele está bem? – Sr. Rajaram perguntou, olhando preocupado para o tigre.

Eu estava paralisada vendo a cena, mas consegui balançar a cabeça.

—Claro – falai tentando parecer convincente enquanto tentava ignorar o tigre de 300 kg que tentava passar por um espaço de 15 cm.

Ele alternava o olhar entre mim e o tigre. Demorou cerca de alguns segundos para que eu tomasse uma atitude, lançando um olhar irritado ao tigre, me aproximando e ajoelhando no chão. O tigre parou de andar para lá e para cá e enfiou o focinho entre as grandes, me olhando. Soltei um suspiro leve e estiquei a mão para coloca-la sobre a cabeça do tigre, que aquela altura emitia um som muito parecido com um choro, na esperança de que ele parasse com aquilo. Toquei seu pelo macio, acariciando-o e ele se calou no mesmo instante. Ele era só um gatinho muito manhoso que gostava de provocar de vez em quando.

—Quantas vezes eu tenho que dizer que você tem um cabeção muito grande pra passar por aqui? – falei com um suspiro, recebendo uma lambida na mão como resposta. -Acho que eu também já disse que não sou muito fã de baba de tigre.

Sabia que o Sr. Rajaram observava a cena, mas não me importei. Tá, eu falava com o tigre, e daí?

—Pronto – me levantei enquanto dava tapinhas carinhosos na cabeça do tigre. – Agora chega de manha, o.k? Vá comer sua comida – me surpreendi quando vi que ele me obedeceu, indo até sua tigela.

Levantei sacudindo a poeira da roupa e encarando o homem indiano a minha frente. Para minha surpresa, ele não me olhava como se eu fosse uma louca que conversava e fazia carinho em um tigre gigante, pelo contrário, tinha um sorriso bobo — eu diria até carinhoso — no rosto enquanto olhava o tigre ir até sua comida, parecendo verdadeiramente impressionado.

—Pelo visto ele realmente gosta de você.

Sorri com o comentário.

—Acho que sim.

—Existe uma lenda no meu país que diz que apenas mulheres de grande coragem e sabedoria podem conquistar um tigre branco.

Eu teria corado se meu rosto já não estivesse vermelho.

—O senhor só diz isso porque não viu o medo que eu tinha dele no começo – falei sorrindo com a lembrança. Minha eu do passado teria um ataque se soubesse que minha eu agora já até acariciava o tigre pelas grades.

—Mesmo assim, você conseguiu conquistá-lo.

Dei de ombros.

—Enfim, não acho que “branco” seja a melhor definição. Talvez cinza – falei ignorando a primeira parte do comentário enquanto analisava o felino que parecia bem interessado na conversa. – Ou degradê.

Sua pelagem era diferente de qualquer outro tigre, eu já tinha perguntado sobre isso a Dra. Alexia. Ela disse que algumas vezes podiam acontecer mutações genéticas que acabavam alterando a pigmentação natural de um tigre, causando a mudança na cor. Nick tinha listras pretas como qualquer outro tigre, mas em alguns pontos a cor branca se tornava mais escura, passando de um cinza claro até um tom mais forte.

—E isso o torna ainda mais especial, assim como você. Não é todo mundo que tem coragem para cuidar de um tigre, acredite no que eu digo.

—Confesso que não é tão difícil quanto eu imaginava. Nick é bonzinho – como uma deixa, o tigre veio para perto, sentando no canto mais próximo de nós. – Na maior parte do tempo ele se parece mais com um gato gordo e manhoso do que com um tigre feroz.

Nick rugiu em resposta, como se tivesse ficado ofendido com o comentário. Apenas revirei os olhos.

—Tudo bem, um gato gordo bem irritado.

Isso só serviu para que ele rugisse ainda mais alto.

—Acho que isso significa que você é mais do que capaz de cuidar dele.

Entendi a alfinetada por trás dessa afirmação. Esse era meu último dia e era claro que o Sr. Rajaram esperava por uma resposta. E eu já a tinha. Para ser realista eu já a tinha desde o momento que ele fez a proposta, e como eu mesma não tinha conseguido mudar minha decisão, então já sabia o que responder.

Sentei em cima da bancada e encarei o homem de olhos azuis diferentes, fazia três dias que estava tentando lembrar o nome daquela cor. Acho que passar tanto tempo olhando paletas de cores para vestidos e decoração tinha me deixado maluca.

—Eu andei pesquisando muito sobre a Índia – admiti.

—E o que descobriu? – ele perguntou parecendo interessado e se sentou no banco.

—Bem, descobri que não gosto de comida apimentada e as músicas são estranhas. Mas tirando isso, acho que parece ser um lugar legal, apesar da viagem de um dia de avião, claro.

—Lamento não poder fazer nada quanto a isto. – ele disse parecendo realmente culpado, embora seu tom fosse bem-humorado.

Dei de ombros com um pequeno sorriso.

—Mas mesmo assim... Quanto tempo o senhor disse que duraria o estágio, mesmo? Quatro meses?

Ele assentiu, confirmando.

—Eu nunca fiquei tanto tempo longe de casa sem alguém da minha família por perto. E, sem querer ofender, mas a Índia também parece ser um lugar meio maluco, com pessoas dirigindo feito loucas e outras coisas.

Notei que o sorriso dele murchou e vi que o tigre baixou as orelhas, como se tivesse ficado triste de repente. Mesmo assim continuei:

—Então acho que preciso de uns dois dias pra resolver tudo. O que inclui comprar várias embalagens de filtro solar fator 70 e conferir se está tudo certo com meu passaporte.

—O quê? – ele perguntou, claramente confuso.

—Para a viagem.

—Isso quer dizer que já decidiu? Você vai? – ele perguntou com o rosto se iluminando em um sorriso.

—Sim, mas eu tenho uma condição. Na verdade é mais um pedido – falei mexendo as mãos com nervosismo. Fazia três dias que tentava ensaiar um bom inicio para essa conversa.

Ele franziu a testa, sem entender aonde eu queria chegar, mas fez um gesto para que eu continuasse.

—É que meu primo vai se casar com minha melhor amiga. No meio de junho e eu precisava voltar para casa duas semanas antes disso. – ele continuava me olhando com ar confuso. – Só que a viagem vai até essa data.

Ele assentiu.

—Entendo.

—E eu sou a madrinha. – tentei reforçar o argumento. – Então será que minha volta podia ser adiada?

Ele sorriu mais uma vez.

—Tenho certeza de que isso não vai ser um problema.

Soltei o ar, aliviada. Uma questão já havia sido resolvida, agora só faltava outra, e essa era a que mais me preocupava.

—Também tem mais uma coisinha.

—Pode falar.

—Tudo bem. Talvez essa pergunta soe um pouco boba ou talvez muito desrespeitosa, mas porque na Índia não comem carne?

Ele riu.

—Não se preocupe. Sua tia me perguntou sobre isso também. Ela me disse que você é... Como foi que ela disse mesmo? Lembrei! Extremamente carnívora – ele disse não contendo o riso.

Não pude deixar de rir junto.

—Existem diversas religiões e culturas diferentes na Índia, uma boa parte das pessoas segue a religião hindu, que não aceita o consumo de carnes bovinas, mas não são todos. Existem também os cristãos, judeus e islâmicos, que comem carne normalmente.

—E qual é a religião que o senhor segue? – perguntei curiosa e com uma ponta de esperança crescendo.

—Essa já é outra história – ele respondeu e devo ter feito uma cara bem feia, porque ele logo completou com um sorriso:

—Meus pais vinham de duas culturas diferentes, sendo assim, religião é algo difícil de discutir. Mas enfim... acho que em questões de crença, posso dizer que sou devoto a deusa Durga. Já ouviu falar sobre ela? – ele perguntou e seus olhos cintilaram.

Tentei pensar um pouco. Conhecia muito de mitologia, na maior parte grega, – sim, eu lia muito Percy Jackson, uma das minhas sagas preferidas – mas o nome “Durga” não me soava nada familiar.

—Sinto muito. – disse balançando a cabeça em negativa.

—Durga é uma grande deusa guerreira que derrotou o monstro demônio Mahishasur em uma grande batalha, — ele explicou. — Ela é conhecida por possuir habilidade com diversas armas e está sempre acompanhada de um valente tigre negro. Dizem que ela é capaz de acabar com a fome e a sede da população inteira apenas com seu fruto mágico.

—É uma história realmente muito interessante. – falei impressionada. Eu gostava muito de ouvir historias, e saber sobre uma deusa mega forte e poderosa era sempre bom.

Ele concordou com um aceno de cabeça e eu já me sentia confortável o suficiente para perguntar diretamente e sem vergonha:

—O senhor não mencionou nada sobre a deusa Durga ter vacas sagradas ou algo do tipo, isso significa que eu vou poder comer um hambúrgão na Índia?

Ele riu da pergunta.

—Claro que sim.

—Ufa... Não sabe como é um alivio ouvir isso – falei, sentindo um grande alivio, pelo menos de fome eu não morreria.

—Não se preocupe, já estou providenciando tudo para que sua estadia seja a mais confortável possível – Sr. Rajaram disse em tom cortês e seu olhar revelava que estava realmente falando sério.

—Obrigada, mas acho que é melhor avisar minha tia e começar a ajeitar tudo logo – falei já começando a fazer uma lista mental do que precisaria, era uma lista bem grande. Foi quando um pequeno detalhe, na verdade talvez o ponto mais importante, me veio à mente. Pigarreei para chamar a atenção do Sr. Rajaram.

—Bem, Sr. Rajaram, não querendo incomodar, mas acho que meu avô provavelmente vai querer falar com o senhor – falei meio encabulada. –E talvez ele não seja a pessoa mais calorosa do mundo nessa situação, mas é só....

—Não se preocupe, eu já falei com seu avô.

Acho que ele notou como essa frase me pegou de surpresa, pelo modo como olhei para ele, alarmada. Não achava que tia Emma tinha falado sério quando disse que daria um jeito dos dois ficarem frente a frente e muito menos que seria tão rápido!

—Meu Deus!

Ele riu da minha cara de espanto.

—Achei que seria melhor adiantar tudo para quando aceitasse.

—E ele, sei lá, não ameaçou te perseguir com um taco de beisebol ou algo do tipo? – perguntei surpresa pelo semblante inalterado dele, como assim vovô Kale não tinha distribuído nenhuma ameaçazinha gratuita?

—Não. Posso assegurar que ele foi bem gentil e que sua preocupação é totalmente normal.

Ainda estava atônita quando ele se levantou e fez uma mesura.

—Acho melhor eu ir e continuar a arrumar os preparativos para a viagem.

Assenti, ainda atordoada, mas o chamei antes que ele chegasse à porta:

—Sr. Rajaram?

—Sim? – ele perguntou se voltando para mim.

—Como podia ter tanta certeza de que eu aceitaria ir?

—Como eu disse antes, a senhorita é corajosa. Sei que não recusaria uma aventura.

Notas finais
Beijos de luz a todos que acompanharam até aqui.