O Despertar do Tigre

10 Preparativos para o Desastre


Notas iniciais
Olá, olá, moçada! Acho que deu pra ver que pretendo começar a postar um capitulo por semana, já que ai vou ter tempo de ir fazendo os outros e não fica tão pesado quando voltar as aulas da faculdade. Obrigada por não terem desistido dessa fic!

A garota corajosa estava surtando.

Os últimos dias tinham sido uma correria. Com várias idas à ala veterinária do zoológico, arrumando os últimos detalhes para a partida do tigre, e ao shopping, para me preparar para minha partida.

Tia Emma tinha me liberado do trabalho, dizendo que eu deveria estar com a cabeça fria para a viagem. Digamos que isso não tinha dado muito certo. Eu estava surtando. Parecia que nada saia como eu queria.

Cheguei ao zoológico, estacionando o Limãozinho na sua vaga. Tia Emma tinha me emprestado seu carro para que eu comprasse coisas básicas que eu talvez fosse precisar na Índia, como pasta de dente e shampoo.

Encontrei o tigre e minha tia na jaula. Ela estava colocando a tigela de comida dele no chão e sorriu assim que me viu.

—Oi, Liah! Está tudo bem?

—Não – respondi na lata, jogando minha bolsa na bancada e sentando no banco.

—O que aconteceu? – ela perguntou enquanto saia da jaula e apertava o botão para subir a grade.

—Nada está dando certo – falei, colocando o rosto entre as mãos, me sentindo quase a beira do desespero. Quase.

—Como assim? – ela sentou ao meu lado e acariciou meu cabelo.

Levantei e comecei a andar de um lado para outro enquanto listava as desgraças dos últimos três dias.

—Eu perdi meu carregador, meu último frasco de shampoo caiu na privada eu não achei a minha marca em nenhuma loja, meu fone de ouvido novinho quebrou, eu já li todos os livros que eu trouxe e a maior parte das minhas roupas são de frio. E pra piorar: não achei um protetor fator 70. Quer dizer, qual o problema com o povo de Seattle? Será que nunca faz sol por aqui?

Ela apenas riu, se levantando e colocou as mãos em meus ombros.

—Você só precisa relaxar.

Soltei um suspiro pesado.

—Não acho que consigo. Talvez seja melhor achar outra pessoa para ir no meu lugar.

—Merliah Elisabeth Kailina Morrison, — fiz uma careta assim que ela terminou de pronunciar meu nome completo – que era enorme — já com medo do que viria a seguir. — O que está acontecendo com você? Nunca pensou em desistir de nada e agora fica com essa conversa?

—É que parece que tudo está dando errado. A viagem é depois de amanhã – falei sentando desanimada no banco. – Sem meu carregador fico sem celular, e sem celular não posso ligar pra casa. Há 14 anos uso mesmo shampoo, porque eu amo o cheiro! Parece sorvete, faz parte da minha identidade! Sem fone não consigo encarar uma viagem de avião e sem meus livros vou ficar entediada! E prefiro nem falar do protetor, a menos que você queria ver o camarãozinho Merliah de volta.

Tia Emma sorriu, provavelmente se lembrando de quando eu era pequena e passei 6 horas debaixo do sol sem ter passado protetor solar. Ainda tinha pesadelos com as queimaduras.

—E as roupas? – ela perguntou.

—O que?

—Você não falou nada sobre as roupas.

—Mala com roupas de frio e Índia com um calor infernal, já dá até pra ver o desastre. Acho que só um milagre pode ajudar agora – falei colocando a cabeça entre as mãos e suspirando.

Nick — que até então tinha se mantido quieto — começou a grunhir e fazer alguns sons que eu nunca tinha ouvido antes. Estava prestes a perguntar para minha tia o que era aquilo, quando o Sr. Rajaram entrou na sala. Esse fato em si não era muito impressionante, eu sempre o encontrava muito nesses últimos dias: sentado no banco ou no escritório arrumando os preparativos para a viagem. O que tornava tudo bem estranho era que ele tinha uma mochila rosa nas costas e carregava uma mala (também cor de rosa) extremamente grande que parecia pesar uma tonelada, apesar dele não parecer se importar com isso. Encarei a mala muito familiar, até perceber que era minha.

Fiquei estática, com vontade de perguntar o que significava aquilo, mas com medo da resposta.

Notando que eu o observava, Sr. Rajaram sorriu e se aproximou, depositando a mala na minha frente.

—Sua irmã me disse que você iria precisar dessas coisas. Ela também me pediu para lhe entregar isto – e ele estendeu uma carta fechada com um adesivo da Ariel.

Peguei a carta com a mão um pouco trêmula, sem acreditar. Tirei o adesivo e abri, a letra miúda e fina de Waverly cobria uma folha de caderno, provavelmente também da Ariel.

—O que diz aí? – perguntou tia Emma, curiosa.

Fui lendo o conteúdo da carta em voz alta:

“Querida Maninha,

Sei que está preocupada com a viagem, mas acredite: nós vamos ficar bem e você também. Aposto que vai se divertir muito! Ameacei Convenci o senhor Rajaram de que você ia precisar dessas coisas na sua viagem, sejamos sinceras: sabemos que é verdade. Aí tem tudo o que você vai precisar para te manter viva e entretida por três meses longe de casa, (esse é o momento que você abre a mala para ver o que tem dentro).

Obedecendo a carta, deitei a mala no chão, abrindo-a para ver seu conteúdo.

Como eu dizia, tem shampoo e creme pra dar e vender. Também comprei seu protetor (cortesia da Jane, ela disse que se você ousasse aparecer no casamento dela toda queimada você ia ver), peguei seus livros favoritos, suas roupas (sim, coloquei um pouco de tudo que achei no seu guarda roupa), seus biquínis da sorte (na Índia tem praia?)...

Sorrindo, fui revirando todo o conteúdo, vendo todas as coisas que ela tinha mandado. Wave sempre conseguia pensar em tudo quando queria. Peguei o shampoo toda feliz, como uma criança que tinha acabado de ganhar o tão esperado presente de natal. Abri a tampa e levei a embalagem até o nariz para sentir o cheiro, até hoje não sabia identifica-lo, mas sempre me fazia lembrar sorvete.

Vi várias blusas, jeans, pijamas, biquínis e uma sacola de tecido apenas com calcinhas e sutiãs. Peguei outra sacola para conferir o que tinha dentro, apenas para ver meu All-Star e meu salto preto (que eu tinha esquecido de trazer propositalmente).

... também coloquei seu fone de concha (Austin disse que o outro chiava pra car****) e depois vovô bateu nele por falar palavrão. OK, agora abre a mochila. Ah, também coloquei algumas injeções anafiláticas (afinal nunca se sabe quando se vai encontrar abelhas furiosas).

Mais uma vez obedeci, pegando a mochila que o Sr. Rajaram me oferecia e abrindo-a.

Os livros estão aí, coloquei umas guloseimas que você costuma comer aqui, mas não sei se existem lá (Austin sugeriu que eu colocasse um bife grande, mas o Sr. Rajaram disse que eles comem carne, então deixei de lado, até por quê iria estragar...). Também tem um presente do papai, uma dica: combina com o nosso (pra você não se esquecer da gente). Resumindo: boa viagem, se divirta muito (mas não demais, OK) e volte antes do casamento! Já estamos morrendo de saudades!

XOXOXO

Wave

Ps: Quero ver muitas fotos!

Pss: É melhor você não se esquecer de ligar, ou vovô jurou que ia atrás de você.

Psss: Acho que o carregador do Luke foi junto, devo ter colocado por engano e quando ele me cobrou apenas disse que não ia revirar a mala só pra achar um fio, então ele tá por aí.”

Terminei o bilhete e fiquei olhando as coisas que Waverly tinha me mandado, sabia que tinha um dedo de todos nisso e mais do que nunca senti vontade de voltar para casa, nem que fosse apenas para dar um abraço apertado em todos e já embarcar de novo em um avião.

—Pelo visto aí tem tudo o que você precisava, certo? – perguntou tia Emma com um sorriso feliz no rosto. Eu ainda olhava todas aquelas coisas, surpresa como tudo de que eu precisava estava ali.

—É... Quer dizer, sim. Nem dá pra acreditar.

Sr. Rajaram pigarreou e virei em sua direção.

—Eu tinha dito pra sua família que talvez você precisasse de algumas coisas, para deixar a viagem mais confortável. Espero que isso ajude – ele disse isso de um jeito esperançoso. Ele sabia que eu estava mais nervosa do que deveria com a viagem e queria que eu me sentisse bem.

—Com certeza. Eu... – levantei, ficando de frente pra ele. – Eu... só queria agradecer. Pela paciência, por isso, – apontei as coisas – e pelo que decidiu fazer pelo Nick. E todo o resto.

Nick fez um barulinho. Nunca o vi tão quieto quanto hoje. Ele parecia realmente interessado na nossa conversa.

Sr. Rajaram assentiu, com um sorriso carinhoso. Parecia um pouco sem jeito.

—Só mais uma coisa.

Olhei para minha tia, que tinha o bilhete de Waverly na mão e o lia atenta.

—Seu pai te mandou alguma coisa – ela falou apontando para dentro da mochila com curiosidade.

Arregalei os olhos e peguei a mochila nas mãos. No meio de tantas coisas, eu tinha me esquecido dos presentes que Wave mencionara no bilhete. Tirei dois embrulhos de tamanho médio (quanta coisa cabia naquela mochila!?), um estava cuidadosamente enrolado com papel colorido, sabia que Jane quem tinha feito o pacote, já o outro era uma confusão de jornal, barbante e fita adesiva, com certeza de papai.

Peguei o embolado de jornais e comecei a abrir cuidadosamente, mesmo que ele já estivesse um caos total. Quando todo o papel se encontrava espalhado no chão ao meu redor, pude ver que tinha em mãos uma pequena maquina fotográfica daquelas instantâneas, e vários pacotes do papel utilizado nela – polaroides. E então entendi o que Wave quis dizer com querer ver várias fotos.

Sem perder tempo abri o presente de Wave, tirando um livro grosso e de aparência antiga. Abrindo na primeira página, percebi que se tratava de um álbum de fotos, a primeira foto era um retrato de família com o vovô, papai, mamãe, os garotos e Wave, até mesmo Charlie estava na foto!

Não pude conter o sorriso. Minha família sabia que a separação temporária seria difícil. Até mesmo tomar a decisão de passar as férias com a tia Emma tinha sido demorada. Eu tinha sido criada no meio do calor e proteção de uma família grande e por isso a ideia de ficar tão longe deles era angustiante, mas ficaria feliz sabendo que ao menos um pequeno pedaço deles estaria comigo.

Decidi fechar o álbum. Veria as fotos depois, no momento que mais sentisse saudades deles.

—Bom, — falei me virando na direção do tigre. — Acho que isso significa que vamos para a Índia.

E pela primeira vez, acho que escutei um rugido de felicidade.

***

Dois dias passaram voando e quando eu percebi já era o dia da viagem.

Minhas malas se encontravam arrumadas e já no andar de baixo. Minha nécessaire estava na poltrona e minha roupa de viagem pendurada em um cabide dentro do guarda-roupa. Bolsa e documentos de viagem também já se encontravam preparados na cômoda, já que na noite passada eu arrumei tudo diversas vezes até estar tão cansada que capotei na cama.

Me arrumei lentamente, já que tinha acordado bem mais cedo que o necessário. O resultado foi simples: uma calça jeans de tecido mais fino (pensando na chegada à Índia), uma blusa de mangas curtas rosa clara e os cabelos loiros e ondulados soltos, batendo até o meio das costas.

O nosso ponto de encontro era o zoológico, de lá iríamos até o aeroporto e pegaríamos o avião para a Índia.

Tia Emma não estava em casa, provavelmente ela teve que acordar mais cedo para resolver os detalhes da viagem do tigre, que deviam ser mais complicados do que comprar shampoo.

Quando ainda eram 6:30 chamei um táxi. O encontro estava combinado para 7:30, mas eu sentia que surtaria se ficasse mais um minuto dentro daquela casa, conferindo meus documentos a cada minuto que passava. Eu sabia que estava mais nervosa pelo avião que por qualquer outro motivo.

O taxista colocou as malas no carro e antes que ele arrancasse o carro de frente da casa da minha tia, eu pensei se não tinha esquecido nada. Decidi que precisava relaxar e coloquei meus fones de ouvido em formato de concha, selecionando a playlist “avião”, que tinha criado ontem e continha músicas agitadas.

O caminho, que sempre me pareceu curto, pareceu durar uma eternidade,mas logo vi o zoológico surgir na minha frente.

Assim que o táxi parou, sai com minha bolsa de mão e mochila nas costas. O taxista pegou minha mala no porta-malas e me desejou boa viagem. Entreguei a ele o dinheiro da corrida mais uma gorjeta, já que ele era muito simpático.

Fui entrando arrastando minha mala e logo trombei com minha tia.

—Oi, tia! Tudo bem?

—Oi, querida. Estou um pouco ocupada, por que não vai ver se Nick está bem enquanto eu termino de ajeitar as coisas? — ela disse, mal parando para olhar na minha direção, em seguida tomando a direção do escritório.

Dei de ombros e segui o caminho da toca do tigre.

Chegando na sala que ficava a jaula, vi que Nick estava inquieto. O tigre andava de um lado para o outro sem parar, vez ou outra soltando um rugido baixo que mais parecia um resmungo.

—Ansioso também, amigão? – perguntei largando as coisas no chão e na bancada, me aproximando e sentando na parte do banco que ficava mais próxima ao tigre, colocando a mochila ao meu lado.

Ele parou no mesmo instante e me encarou, em seguida se deitou colocando a cabeça entre as patas, sorri.

—Sabe, não tem problema ficar nervoso com a viagem, afinal, vai ser uma grande mudança para nós dois – falei enquanto ele continuava me observando, já há um tempo não me sentia mais idiota quando falava com ele, por que de certa forma sabia que ele me entendia.

—Mas não precisa ficar nervoso – continuei e o ele me olhou, jurava que aquela era a expressão de deboche dos tigres.

Eu não podia culpa-lo, tinha os dedos já com as unhas no toco entre os dentes e meus pés pareciam estar fazendo o chão de bateria.

—Tá, olha eu morro de medo de aviões, tá legal? Só de pensar em andar em um, eu já fico suando frio.

Ele soltou um rugido baixo pra mim, como se me entendesse.

—Nem vem com essa, você não parece do tipo que tem medo, pelo menos não de aviões.

Ele jogou a cabeça para o lado, concordando.

Suspirei.

—Seu metido.

Dessa vez o rugido veio em alto e bom som. Revirei os olhos.

—Desculpe, é que ainda temos mais de uma hora até o vôo e essa espera está me matando.

Deitei no banco olhando para a luz do teto.

—A primeira vez que eu andei de avião eu chorei e esperneei tanto que minha mãe me prometeu que eu nunca mais teria que voar de novo, depois disso as únicas viagens que fazíamos eram de carro, pro desgosto do meu pai – falei rindo.

O tigre me olhava do mesmo jeito que vovô costumava olhar para um quebra cabeça de 5.000 peças que tinha comprado uma vez e desistido de tentar montar.

Tirei o álbum de fotos da minha mochila e peguei minha câmera de presente.

—Já sei! O que acha da nossa primeira foto pro álbum da viagem? – perguntei e ele rugiu em concordância.

Sentei ao lado da jaula e Nick enfiou o focinho e as patas pelas grades. Levantei a câmera no alto e com um sorriso bati a foto. O polaroid saiu imediatamente, o tirei e sacudi até ver a imagem se formando, mostrei ao tigre.

—Até que você é um tigre bem fotogênico – comentei, enquanto também olhava a foto. Meus cabelos estavam ondulados e comportados, os olhos verde mar brilhavam e o sorriso, apesar da preocupação com o avião, era verdadeiro. Nick parecia um verdadeiro bichinho de pelúcia, com os olhos dourados também brilhantes.

Sentei no banco novamente e abri o álbum de fotos, folheando rapidamente até encontrar as páginas em branco. Colei a foto com o “kit do álbum” – que era formado por cola bastão, canetinhas e adesivos fofos – e embaixo escrevi: A garota de Malibu e o tigre corajoso prestes a embarcar em uma aventura!

Virei o álbum para mostrar ao tigre.

—E então? O que acha? – perguntei e ele rugiu em aprovação.

Olhei novamente e franzi as sobrancelhas, peguei do meu kit um adesivo de coração e coloquei ao lado da frase.

—Muito melhor, não acha? – perguntei novamente e ele balançou o corpo.

Dei risada e fiquei olhando a foto por um tempo, me encontrava tão distraída que não notei quando Sr. Rajaram entrou no aposento.

—Atrapalho? – perguntou enquanto eu guardava o álbum e tirava a mochila do banco para que ele também pudesse sentar.

Balancei a cabeça em negativa.

—Merliah, quero que saiba que preparei tudo para a viagem ser o mais confortável possível, não precisa ficar nervosa.

—Quem disse que eu estou nervosa? – tentei dar uma risada convincente, mas soou histérica demais até para mim. Ele apenas ergueu as sobrancelhas, indicando meus pés batendo no chão de forma ritmada e meus dentes, que ainda tentavam tirar alguma coisa dos tocos de unha.

—Ok, admito. Estou nervosa. Sendo mais sincera ainda, estou uma pilha de nervos desde ontem.

Ele apenas me encarou um pouco encabulado, devia ser complicado para ele lidar com a loucura alheia, ainda mais quando ele não tinha nada a ver com isso. Tudo bem, ele tinha uma parcela de culpa no cartório, já que a viagem estava sendo organizada por ele.

—Posso ajudar em alguma coisa?

—Não acho que tenha algo que o senhor possa fazer para ajudar com isso – falei encostando a cabeça na parede e fechando os olhos.

Ficamos em silencio por alguns instantes enquanto eu apenas mantinha os olhos fechados.

—Me conte uma história – pedi.

—Como? – ele perguntou confuso.

—O senhor perguntou como podia ajudar. Apenas me conte alguma história.

Ele me olhou com curiosidade.

—Sobre o que?

Dei de ombros.

—Como é morar na Índia? E como é sua família? E o que te levou a querer ajudar o Nick?

Ele deu um sorriso triste.

—Essa é realmente uma longa história, mas podemos começar pelo inicio. Sabia que minha esposa também é americana, como você?

Arregalei os olhos, surpresa com a nova informação.

—Sério?

Ele assentiu.

—Ela é do Oregon. Até moramos um tempo lá, mas depois decidimos ficar um tempo na Índia e acabamos nos mudando de vez.

—Gostavam mais da Índia? – perguntei, sem intenção de ser enxerida, apenas um pouco curiosa.

—Mais ou menos, era melhor. Eu podia passar mais tempo em casa e menos viajando entre Índia e Oregon, até pensamos em mudar de novo, mas infelizmente não aconteceu.

Franzi as sobrancelhas, não queria ser intrometida, mas parecia que ele estava me obrigando a ser.

—Por quê?

Ele desviou o olhar de mim para o tigre e suspirou.

—Problemas familiares.

—Entendo – falei, numa tentativa meio idiota de conforta-lo.

Ele ia continuar, quando quatro homens apareceram vestidos com roupas de proteção e correntes, um deles carregava algo que se assemelhava a uma guia de cachorro, só que bem maior. Levantei de um pulo e então percebi que eram Max, Vince, Michael e um outro que eu não conhecia.

—Vocês estão indo para guerra ou o que? – perguntei zombando do modo como estavam vestidos.

Vince foi o único que sorriu, os outros realmente tinham os semblantes de alguém que ia para a guerra.

—Temos que levar o tigre até lá fora, para o caminhão.

—Certo... e precisa dessa produção toda?

—Talvez essa ainda não seja o suficiente – murmurou Max.

Franzi as sobrancelhas, mas resolvi não falar mais nada.

Michael foi na frente, apertando o botão para abrir a grade de segurança. Vince e Max entraram logo em seguida. O homem que eu nunca tinha visto ficou fora, fechando-os junto com o tigre. Quando a grade que os separava do tigre se levantou, observei enquanto os homens se aproximavam, Michael tentava distraí-lo enquanto Max se esforçava para colocar a coleira nele.

Em uma dessas investidas, Max deve tê-lo machucado, pois Nick começou a rosnar de modo ameaçador e puxou a guia das mãos dele, jogando-a longe. Observei a cena com choque quando Max se assustou e tropeçou nos próprios pés, caindo no chão enquanto o tigre o olhava e se aproximava de forma ameaçadora.

Sem pensar duas vezes, me aproximei do homem que nunca tinha visto antes.

—Abra a jaula.

—Mas...

Ignorando-o completamente, enfiei a mão no botão fazendo a jaula se abrir, a grade de segurança se encontrava levantada e não tinha mais nada entre o tigre e a saída. Correção, tinha uma garota idiota e provavelmente muito saborosa entre ele e a saída.

Acho que todos que estavam no lugar prenderam as respirações. Engoli o nervoso e ergui a cabeça. Tinha lido uma vez, talvez em alguma matéria boba da internet, que você sempre devia mostrar confiança quando tentava fazer um animal te obedecer.

—Nick – chamei com toda confiança que tinha, mesmo que ela tenha aumentado bastante quando ele se virou na minha direção e ficou me observando, talvez esperando a próxima instrução.

—Calminha – falei com os braços estendidos enquanto me aproximava da guia que ele tinha jogado longe. Abri e me aproximei dele, eu era a única na sala que estava me movendo.

—Merliah – Max murmurou em advertência.

—Cala a boca – sussurrei.

Ele apenas encolheu ainda mais onde tinha caído.

—Calminha – repeti enquanto me ajoelhava na frente de Nick.

Comecei a ajeitar cuidadosamente a coleira presa à guia ao redor do pescoço dele.

Quando terminei de arrumar tudo, ele apenas deu uma lambidinha carinhosa na minha mão. Levantei e baguncei os pelos de sua nuca, do mesmo modo que Vovô costumava fazer quando éramos pequenos.

—Bom garoto.

Agarrei a guia e olhei para os homens que me olhavam com olhos espantados.

—Acho que já podemos ir, não? – sem esperar uma resposta, Nick começou a me puxar delicadamente em direção à escada. Apenas dei de ombros e o segui. Antes que eu sumisse totalmente da vista deles, ainda pedi: — Tem como alguém subir minhas malas?

Chegando ao topo, vi minha tia esperando ao lado do caminhão, cuja carroceria era como uma jaula comprida, embora a mesma estivesse coberta. O aeroporto ficava a 25 minutos do zoológico e a lona servia para as pessoas não se assustarem com um tigre enorme no caminho.

Nick entrou sem problemas na jaula e eu tirei a guia do pescoço dele, deixando a coleira para ficar mais fácil na hora de tira-lo do caminhão.

—Te vejo no aeroporto – falei fazendo um carinho nele e desci pela rampa que tinham instalado.

Os homens fecharam as portas da jaula e a trancaram. Ainda consegui dar um tchauzinho para o tigre antes de cobrirem a jaula e prenderem a lona para que o vento não a levasse.

Entrei no Limãozinho no banco de trás com minha tia e Vince, sabendo que o próximo passo daquela viagem seria o pior: o avião.

Notas finais
Beijos pra todo mundo e até a próxima semana! Ps: Tigres cinzentos amam comentários!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.