O Despertar do Tigre

8 Conhecendo o Sr. Desconhecido


Notas iniciais
Bem, pessoal, primeiro eu quero me desculpar por não ter postado nada nas férias, eu não escrevi nem metade da metade do que eu planejava escrever, fazer oque. Em segundo lugar, esse capitulo foi o mais difícil pra mim até agora, tive que reescrever ele diversas vezes até ficar do jeito que eu queria, taí o motivo da demora. E terceiro: o universo está conspirando contra mim. Motivo? Eu ia postar esse capitulo ontem. Quando eu ia colar o texto deu um apagão geral aqui e a energia morreu. Mas O.K né. Águas passadas. Enfim, queria agradecer ao pessoal que está acompanhando essa fanfic e dizer que eu amo vocês (SÉRIO). Beijinhos!!!

Sabendo que o tigre não daria uma resposta para minha pergunta, fui preparar sua comida.

Assim que já estava dentro da jaula, colocando a tigela no chão, uma música começou a tocar soando extremamente alta no ambiente silencioso. Arregalei os olhos, me perguntando por que diabos estaria tocando “Under the Sea” no meio de um zoológico, quando notei que o som vinha do meu bolso.

Me sobressaltei com o barulho do telefone tocando e notei que Nick também tinha se assustado, já que parecia pronto para o ataque. Fiquei confusa por um momento, pois ninguém nunca me ligava àquela hora do dia. Enquanto isso Sebastião continuava cantando sobre como o mar era maravilhoso. Finalmente tirei o celular do bolso, vendo a imagem de um Luke sorridente no visor com o cabelo castanho claro bagunçado caindo sobre simpáticos olhos cor de mel.

“Alô?” – disse levando o telefone até a orelha.

“Liah? Liah! Ah, graças a Deus! Achei que você não ia atender” – ouvi a voz de Austin do outro lado da linha, ele parecia um tanto desesperado.

“Austin? Por que está usando o telefone do Luke? Aconteceu alguma coisa?” – perguntei já sentindo o coração apertar pensando em Waverly e já me xingando internamente por ter viajado, deixado-a sozinha. A voz de Austin não ficava fina daquele jeito sem motivos.

“É que o Luke deu um baita mordidão em um doce de amendoim e a cara dele já tá começando a inchar.” – ele respondeu, com urgência.

Soltei um suspiro, um pouco mais aliviada. Era algo preocupante, mas não tão difícil de resolver. Fiquei confusa por Austin estar me ligando por um motivo desses, já que ele sabia, assim como todos, o que fazer numa situação dessas.

“Na terceira gaveta da cozinha tem as injeções anafiláticas. Pega uma e dá pro Luke”. – disse, lembrando-o de onde vovô guardava as injeções de adrenalina caso alguém comesse algo que não devia e tivesse uma reação alérgica por conta disso.

“Não, não tem” – ele falou, a voz ficando mais desesperada a cada segundo.

“Procura direito, Austin. Você sabe que o vovô sempre deixa elas aí em caso de emergência.” – falei com a voz aguda. Mesmo a quilômetros de distancia eu conseguia ver Luke deitado no sofá com a cara inchada igual um balão, tão vermelha quanto um tomate e com uma dificuldade cada vez maior pra respirar, aquela sensação era horrível.

“Não, você não está entendendo! Há uns dias atrás eu fui comer um pastel que tinha camarão dentro! O vovô usou o último em mim.”

“Argh!” – exclamei, já ficando nervosa, Nick me olhava como se estivesse preocupado.

“Liah? O que eu faço? Ele já está respirando com dificuldade.” – percebi o pânico em sua voz e respirei fundo, tentando manter a calma, dois a beira de um colapso nervoso não seriam úteis ao Luke agora.

“Sobe até o meu quarto.” – orientei, ouvindo seus passos enquanto ele corria até lá.

“O que eu faço?” – ele perguntou novamente.

“Abre a gaveta da minha mesinha de cabeceira, tem três injeções aí.” – esperei um momento. “Conseguiu achar?”

“Sim, e agora?”

“Agora você fura o braço do Luke, seu idiota!”

“Eu não sei se consigo fazer isso” – ele falou com a voz fraca.

“Cadê a Wave?” – perguntei, sabendo que ela tinha mais estômago pra essas situações do que Austin ou Luke.

“No balé. Só tem eu e o Luke em casa.”

“Você vai ter que fazer isso sozinho, então.”

“Mas, Liah...”

“Sem ‘mas’.”

Ouvi enquanto ele descia as escadas novamente, soube que ele estava do lado do Luke pela respiração rascante.

“Aperta o braço dele até aparecer alguma veia, não deve ser tão difícil já que os braços de vocês dois tem um monte de veias saltadas.” – falei fazendo uma careta. Odiava quando tinha que enfiar uma agulha naquelas veias, parecia que elas iam estourar igual balões.

“Droga.Droga.Droga” – Austin murmurava como se fosse uma espécie de mantra criado por ele mesmo.

Esperei o que pareceu ser uma eternidade, até ouvir a respiração de Luke, até então descompassada, voltar lentamente a um ritmo mais calmo.

“Pronto” – Austin falou do outro lado e eu soltei um suspiro de alivio, caminhando pala sala depois de fechar a jaula.

“Certo. Agora que estamos todos calmos dá pra você me explicar o por quê do Luke comer um doce de amendoim sendo que ele sabe que não pode fazer isso?” – perguntei, enquanto repirava fundo para que meu coração voltasse a bater em um ritmo normal.

Foi a vez de Austin suspirar.

“Nós fomos até o salão pra provar as sobremesas que iam servir na festa, e aí o Luke viu um garçom carregando alguns docinhos numa bandeja e quando ele quis provar o gerente disse que você tinha mandado que não incluíssem esse doce no cardápio.” – ele foi falando e ouvi Luke bufar. “Ele disse que queria provar um daqueles e o gerente o entregou um, mas a gente tinha que levar a Waverly pro balé, então ele só comeu depois que chegamos em casa. Só depois disso que fomos descobrir que o doce era de amendoim.”

“Será que não passou pela cabecinha oca de vocês que tinha uma boa razão pra eu mandar que não servissem esse doce na festa?” – perguntei, esperando que ele percebesse o obvio. Jane tinha ido até lá comigo e me disse que eu poderia excluir do cardápio qualquer coisa que desse alergia em um de nós. “Não quero meu noivo todo inchado e vermelho, nem meus padrinhos ou minha daminha”, ela tinha dito, rindo.

“Na verdade não, achei que você só tivesse sido má. Tinha muitos pratos bonitos que eles não deixaram a gente provar por ordens suas.”

Nesse momento Max entrou na sala com uma expressão de alguém que tinha corrido muito para chegar ali.

—Sua tia quer te ver no escritório dela. – ele falou, embora eu nem tenha dado atenção, estava irritada demais para isso.

“Por que será, né?” — explodi, minha mão coçando pra bater nos dois por serem tão idiotas.

“Vai ver que é porque eu disse pra não servirem nada que tivesse camarão, nozes, amendoins, pêssego, abelhas ou pelo de animais!” – fui listando a grande quantidade de alergias que nós quatro tínhamos juntos. Era um absurdo pensar que nossa genética fosse ruim a esse ponto, mas infelizmente era.

“Realmente, nossa família tem troço pra caramba.” – falou, provavelmente pensando a mesma coisa que eu.

Max arregalou os olhos, ele nunca tinha me visto irritada. Acho que me ver andando em círculos pela sala enquanto gritava ao telefone não era exatamente o que ele esperava encontrar aqui embaixo.

—Eu vou dizer pra ela que você já está subindo. – ele falou dando meia volta e saindo um pouco assustado.

“Ei, de quem é essa voz?” – Austin perguntou, agora se irritando.

“É com isso que você está preocupado? Se eu não guardasse injeções extras seu irmão podia estar muito ruim agora! Vocês sabem que tem que tomar muito cuidado com comidas que não sabem do que são feitas.” – reclamei, repetindo a mesma coisa que sempre dizia pra eles quando algo assim acontecia, e infelizmente coisas assim aconteciam com muita frequência.

“Ok, eu já entendi, foi mal.” – ele disse, um pouco encabulado, mas ainda parecendo bravo. “Agora dá pra falar de quem é essa voz de homem?” – perguntou, agora bem mais sério.

Soltei um suspiro, sabendo que ele não ia escutar uma palavra do que eu dizia enquanto estivesse encucando com aquilo.

“Ele trabalha com a tia Emma, tenho que ir falar com ela.” – decidi omitir a parte que eu tinha ido ao cinema com ele, Austin arrancaria todos os fios de cabelo se soubesse.

“Tudo bem.” – ele disse parecendo mais aliviado. “E obrigado.”

“Acho bom vocês começarem a prestar atenção, se eu souber que a Wave teve uma reação alérgica pela irresponsabilidade de vocês...”

“Ei, você sabe que a gente toma todo o cuidado do mundo com ela.” – ele retrucou em um tom ofendido.

“Acho bom. Tenho que desligar, tchau.”

Desliguei, esperando que Austin se sentisse preocupado com minha ameaça. Olhei para Nick, que estava com a cabeça entre as patas e me observava como se eu fosse o filme mais interessante do mundo.

—Viu isso? Se chamam irmãos e conseguem te tirar do sério rapidinho. – falei enquanto ia até a escada. – Prometo que volto logo.

Corri até o escritório, sabia onde era, embora tivesse ido lá apenas duas vezes. Entrei esbaforida no local, encontrando uma tia Emma com cara preocupada. O lugar parecia com qualquer escritório normal à primeira vista; com uma mesa de madeira no meio, abarrotada de papéis e com um telefone, também tinham vários arquivos espalhados pela sala. Mas o que tornava o ambiente especial e realmente interessante eram as dezenas de desenhos infantis, pinturas elaboradas e esculturas realistas de animais que decoravam o lugar.

—Liah, aconteceu alguma coisa? – ela perguntou segurando meus braços.

Notei que o Sr. Vincent estava um pouco atrás dela, e me lançava um olhar tão preocupado quanto o de tia Emma, mas parecia tenso de um modo que eu nunca o tinha visto. Max estava ao lado dele e não parecia estar em uma situação muito diferente.

—Luke comeu um doce de amendoim e Austin não achava as injeções, mas já está tudo sob controle. – completei de forma casual tentando não preocupa-la.

Ela franziu as sobrancelhas.

—E por que não estaria tudo bem? – ela perguntou e eu a encarei incrédula, sua expressão mostrava uma confusão genuína.

—Porque ele é muito alérgico a amendoins e pode morrer se não tomar mais cuidado com o que come.

Ela arregalou os olhos como se eu tivesse acabado de dizer que a terra era quadrada.

—Achei que você que fosse alérgica a amendoins.

Dei um pequeno sorriso, era realmente difícil acompanhar nossas alergias, principalmente quando cada um era alérgico a uma coisa diferente. Comecei a explicar.

—Não. Eu sou alérgica a abelhas. Austin tem alergia a camarão e pelo de animais, Luke de amendoins e nozes. Waverly também não pode comer nozes e recentemente descobrimos que também não pode comer pêssego.

Max soltou um assobio.

—Como é possível existir tantos tipos de alergia? – ele perguntou parecendo bem impressionado.

Apenas dei de ombros. Foi quando notei uma quinta pessoa na sala, era o mesmo homem que tinha estado perto da jaula alguns minutos antes. Lancei um olhar curioso em sua direção, me perguntando se por acaso ele não seria algum novo funcionário contratado para cuidar do tigre, só agora tinha pensado nessa possibilidade. Minha tia reparou que eu o olhava e me lançou um sorriso. Percebi que o Sr. Vince ficou ainda mais tenso com isso.

—Bem, Liah, deixe eu lhe apresentar o Sr. Rajaram. – ela falou apontando para o homem que se aproximou. –Sr. Rajaram, esta é minha sobrinha, Merliah, ela que está tomando conta do tigre.

Olhei para ela, ligeiramente confusa. Isso não era exatamente verdade, existiam outras pessoas responsáveis por ele. Eu apenas lhe dava a comida, não era algo tão extraordinário assim. Mas se formos levar em conta o meu péssimo histórico com peixinhos dourados, então com certeza estou fazendo um ótimo trabalho, pensei.

—Prazer em conhecê-lo. – falei estendendo a mão para cumprimenta-lo.

—O prazer é meu. – ele respondeu, mas ao invés de apertar minha mão, ele a levou até os lábios, depositando um leve beijo nela.

Arregalei os olhos no mesmo instante e ouvi Max bufar do outro lado da sala. Não foi um gesto romântico nem nada do gênero, apenas era mais cavalheirismo do que eu estava acostumada. Sabia que minhas bochechas provavelmente estavam coradas então balancei a cabeça com o objetivo de espalhar meu cabelo pra cobrir a vermelhidão do meu rosto.

Felizmente tia Emma não deixou que a atenção permanecesse na minha cara vermelha.

—O Sr. Rajaram veio em nome de uma grande reserva de animais na Índia, ele doou uma grande quantia em dinheiro com o objetivo de levar nosso tigre para o lugar dele, onde poderá se adaptar bem melhor do que aqui, e com outros de sua espécie!

Ela falou com um grande sorriso no rosto, tia Emma era uma mulher que se preocupava com os animais e não hesitaria em aproveitar a oportunidade de devolver Nick à natureza, principalmente quando ele parecia tão desconfortável vivendo no zoológico. Seu sorriso diminuiu conforme ela me observava e não recebia uma reação semelhante de volta.

Forcei um sorriso.

—Uau... Isso é... ótimo.

Talvez ela não tenha percebido o tom de desânimo na minha voz ou se percebeu não falou nada. Eu tinha me acostumado com a rotina do zoológico, e não só com a rotina em si, mas também com as pessoas e Nick. Eu não me considerava o tipo coração mole, só que aquele tigre barulhento tinha conseguido algo que eu não imaginava que conseguiria tão cedo: me conquistar. Apesar de ser duro admitir, eu tinha me apegado a ele mais do que deveria. Não que eu não tivesse gostado da noticia de que ele iria viver em uma reserva, era uma ótima notícia. Mas ele iria para o outro lado do mundo, e apesar de eu estar a apenas algumas semanas de ir embora, sabia que não o veria mais caso voltasse para Seattle um dia. Também sabia que esse era um pensamento muito egoísta, mas não conseguia apaga-lo de minha mente.

Um silêncio se seguiu após o meu breve comentário sobre a grande novidade e apenas foi interrompido pelo Sr. Rajaram, que pigarreou chamando minha atenção.

—A questão é que preciso que um representante do zoológico me acompanhe nessa viagem, de preferência alguém que já esteja acostumado à rotina do tigre e suas necessidades, para ajudar na adaptação quando chegarmos à Índia. – ele me explicou enquanto tia Emma apenas assentia, notei que ela estava com uma pose muito profissional. Não que eu duvidasse de sua competência, mas conhecendo ela como eu conhecia, não entendia como não estava babando pelo Sr. Rajaram. Homens de quarenta e poucos anos não faziam o meu tipo — se é que eu tinha um — mas até um cego veria que ele era muito bonito. Observando-o foi que caiu a ficha do por quê do Sr. Vincent estar tão incomodado, ele também tinha percebido isso e não tinha gostado nem um pouco.

Demorei um pouco para processar a informação que o Sr. Rajaram tinha me dado, então estreitei os olhos e voltei minha atenção para o Sr. Vince.

—O senhor vai? Parece divertido.

Ele arregalou os olhos.

—O que? Não, eu não posso, tenho muito trabalho para fazer aqui.

Me virei para Max antes que Sr. Vince pudesse falar qualquer outra coisa.

—Então é você que vai?

Ele apenas balançou a cabeça negativamente.

—Estou fazendo alguns cursos extras para a faculdade, então tenho que ficar por aqui. Além do mais você sabe que aquele tigre me odeia, ou já se esqueceu do dia que ele ficou rugindo pra mim? – ele perguntou em tom ofendido e eu não contive a riso.

—Talvez não seja uma boa ideia. – admiti.

—Com toda a certeza não seria uma boa ideia. – interpôs Sr. Vince. – Ele deve ir com alguém a quem tenha certo contato diário e confiança.

Concordei com a cabeça.

—Provavelmente seria o melhor.

Vi que ele e tia Emma trocaram um olhar conspiratório e imediatamente me senti incomodada, toda essa conversa estava tomando um rumo muito estranho. Por que eles me chamariam para discutir sobre esse assunto?

—Que bom que concorda. – ele sorriu. – Foi por esse motivo que sugeri que fosse você a escolhida para ir nessa viagem.

— Boa piada, Sr. Vince. – falei com um sorriso debochado no rosto, embora não tenha achado muito engraçado.

—Liah, isso não é uma piada. Nós conversamos e achamos que a pessoa mais apta para essa viagem é você. – minha tia disse me encarando e não vi nenhum traço de humor no seu olhar. Meu sorriso sumiu na mesma hora. Quem em sã consciência confiaria a mim uma tarefa daquela?

Fiquei um bom tempo olhando de minha tia para Vince e dele para o Sr. Rajaram, esperando o momento que eles iam começar a rir da minha cara dizendo que aquilo era só uma brincadeira bem combinada, estranha e de muito mal gosto. Nada aconteceu. Eles não podiam estar realmente falando sério!

—Não, isso só pode ser uma piada! – afirmei, ainda confusa.

—Merliah, essa é uma grande oportunidade para você. – começou Sr. Vince e encolhi pela forma que ele falou meu nome, sentia que estava prestes a fazer um discurso. — Sei que ainda não sabe o que pretende fazer na faculdade, mas talvez com esse pequeno estágio você acabe gostando dessa área e descubra que cuidar de animais é sua vocação – ele não notou a careta que eu fiz quando falou essa parte. – Além do mais, essa é uma chance de experimentar algo novo. Conhecer um novo país, com uma língua e cultura diferentes!

—E-Eu... não sei. Quero dizer, não me parece uma boa ideia.

—É a ideia perfeita! – exclamou tia Emma com um grande sorriso. — E então? O que acha? – perguntou me pressionando, como se em dois segundos eu já tivesse uma opinião formada.

—Não sei se isso soa muito convidativo pra mim. – falei. Não queria ser grossa, mas queria que ela visse que aquela não era uma batalha muito justa. Eles me jogavam uma bomba dessas e queriam que eu já arrumasse as minhas malas e entrasse em um avião com um tigre e com um homem que apesar de educado continuava sendo um desconhecido.

—Você acabou de dizer que parecia divertido. – opinou Max.

—E parece, mas não sei se tanto assim.

Eu sabia que isso era uma grande oportunidade e que muitas pessoas não hesitariam nem um minuto em aceitar uma proposta dessas, mas duas coisas me impediam de dizer um “sim” imediato: a ideia de passar um longo período de tempo dentro de um avião – já que a Índia ficava do outro lado do mundo — e de cuidar de um tigre sozinha. De resto eu não via problema, a perspectiva de me encontrar sozinha em um país diferente, com pessoas falando uma língua que eu não tinha a menor noção de como falar, não era exatamente meu sonho de vida ou algo do tipo, embora parecesse ao mesmo tempo emocionante e assustador.

—Liah, pelo menos pense um pouco na proposta. – minha tia falou, carrancuda.

—Sei que é uma grande decisão para ser tomada em pouco tempo, — disse o Sr. Rajaram em tom de desculpas – mas talvez devesse pensar um pouco mais...

—Sr. Rajaram, com todo respeito, eu sou a pior escolha que alguém poderia imaginar para uma tarefa dessas. – falei com toda sinceridade, ganhando olhares surpresos e reprovadores de todos na sala, exceto do homem à minha frente, que apenas sorriu com o comentário.

Tia Emma soltou um suspiro exasperado, colocando as mãos na cintura.

—Você está se saindo muito bem por aqui. – minha tia disse, negando minha afirmação anterior.

Confirmei com um aceno de cabeça.

—É. Só que aqui tem você, o Sr. Vince, a Dra. Alexia e Max para ajudar em qualquer coisa. — Sozinha eu não duraria uma semana, e Nick também não. – falei, pela primeira vez pensando no tigre de olhos dourados desde que essa proposta tinha sido feita, senti um pequeno aperto no peito ao pensar que ele seria cuidado por pessoas desconhecidas e se ele ficaria bem com elas, mas com certeza estaria em mãos melhores que as minhas.

—Nick? – perguntou o Sr. Rajaram, confuso.

Corei mais uma vez.

—É como eu o chamo. – dei de ombros como se não tivesse importância, embora ele parecesse estar realmente curioso sobre isso.

—Entendo...

—Ainda acho uma péssima ideia. Com certeza o Sr. Rajaram iria preferir outra pessoa para esse trabalho. – disse como se estivesse encerrando o assunto e vi tia Emma bufar.

O Sr. Rajaram deu um passo a frente, tomando a palavra.

—Muito pelo contrário, por tudo que o Sr. Vincent me contou do seu trabalho aqui até agora, penso que é a pessoa ideal para isso. Visto que o tigre parece ter se afeiçoado a você, e se me permite a ousadia, vejo que também possui certo carinho por ele – fiquei mais vermelha do que já tinha estado até então. — Seria bom tê-la nesta viagem — completou.

Arregalei meus olhos olhei para o homem de olhos azuis escuros na minha frente, que parecia acreditar totalmente nas palavras que dizia. Não consegui evitar e lancei um olhar feio na direção do Sr. Vincent. Desde o dia em que Nick fez uma algazarra dentro da jaula, ele acreditava que o tigre me via como uma mãe ou uma amiguinha ou qualquer coisa do gênero. Não adiantava quantas vezes eu tentasse convencê-lo de que essa conversa era besteira e que a melhor explicação para tudo era alguma doença grave ou algum problema com a comida, ele se negava a acreditar e dizia que não existia nenhum problema com o tigre e nem com sua comida.

—Desculpe, Sr. Rajaram, mas uma viajem até o outro lado do mundo com certeza está fora das minhas possibilidades. – disse dando um passo para trás. Perguntei-me se sair correndo igual uma maluca seria considerado como uma falta de educação.

Ele deu um sorriso compreensivo e amigável.

—Não se preocupe, os custos da viagem serão totalmente cobertos por mim e outros detalhes como acomodação e passaporte também não serão problema.

Franzi as sobrancelhas ao ver que tudo parecia já estar planejado, mesmo que eu não tivesse aceitado nada ainda. Balancei a cabeça em negativa, indicando que aquele não era o problema. Minha família não era exatamente rica, mas eu tinha algumas coisas que poderiam ser consideradas como um grande privilegio, como um passaporte que permitia minha entrada em diversos países ao redor do mundo (o que (in)felizmente incluía a Índia), talvez eu também deva mencionar que nunca tinha feito uso dele. Meu pai sempre tentou fazer com que eu viajasse para outros países, mas o simples pensamento de estar em um avião por um período de tempo maior que duas horas já me deixava em um estado de desespero bem grande.

—Acredite, Sr. Rajaram, esse não é o problema.

Minha tia estreitou os olhos.

—Então, o que é?

—Muitas coisas.

—Uma delas?

Soltei um suspiro pesado, sabia que ela não deixaria o assunto como estava.

—Bem, a primeira é que eu não posso jogar tudo pro alto e ir pra Índia. Hoje o Luke quase morreu por causa de um doce de amendoim e o casamento dele está perto; Austin, bem, nem preciso dizer nada sobre ele, você já sabe como ele é, consegue perder até o caminho de casa; e ainda tem a Wave, ela só tem 13 anos, não posso viajar pro outro lado do mundo e deixar ela sozinha. O vovô não pode cuidar de tudo.

Ela olhou nos meus olhos e sua expressão se suavizou.

—Ele é perfeitamente capaz de cuidar de tudo, já passou da hora de parar de pensar em seus irmãos e começar a pensar em si mesma.

Ignorei seu comentário e continuei:

—A segunda coisa, como eu já disse antes, é que não acho que eu seja a melhor opção pra cuidar de um tigre sozinha.

—Liah... – não esperei que ela completasse a frase e a cortei:

—E terceira: você sabe muito bem que eu ODEIO andar de avião. E por acaso você sabe onde fica a ÍNDIA?

Ela fez uma careta e ia abrir a boca pra responder quando eu interrompi:

—NEM EU! – falei com a voz um pouco histérica. –O que eu sei é que fica do outro lado do mundo. Sabe o que isso significa?

Ela balançou a cabeça em negativa.

—Significa atravessar um oceano. UM OCEANO! Água por todo lado! BUM! Morte na certa!

Percebi que ela estava tentando segurar o riso, o que apenas me deixou mais irritada. Olhei pra ela com cara feia e ela se recompôs.

—Liah, querida, já passou da hora de superar esse medo bobo de avião. – ela falou com um tom sério.

Ia dizer alguma coisa, mas parei assim que olhei pelo seu ombro e vi que os três homens tinham as atenções voltadas para nossa conversa, embora tentassem disfarçar. Não achava que isso era possível, mas fiquei ainda mais vermelha assim que lembrei da presença deles ali, sabendo que minha conversa histérica sobre medo de aviões tinha sido ouvida por todos.

Minha tia colocou a mão em meu ombro.

—Não precisa decidir nada agora, apenas pense no assunto, OK?

Assenti.

—Tudo bem.

—Ótimo.

Senti o olhar de todos na sala sobre mim, como se esperassem uma resposta imediata. Mas isso não era possível, pelo menos não por enquanto. Eu precisava pensar e sabia qual o melhor lugar pra isso.

—Acho melhor ver se Nick está bem. – disse virando as costas e abrindo a porta.

—Até mais tarde. – escutei minha tia gritar quando já estava saindo.

E aí eu saí correndo.

***

Entrei na jaula ofegante. O lugar estava silencioso e eu jurava que podia ouvir as engrenagens do meu cérebro trabalhando, me dando motivos tanto para ir quanto para ficar. Nenhum dos lados estava ganhando por enquanto.

Sentei no banco e coloquei a cabeça entre as mãos, os pensamentos fervilhando. Ainda estava assim quando ouvi um som baixo vindo da jaula. Nick tinha se aproximado e me olhava com aqueles olhos grandes e dourados, parecia ser o único que não estava me pressionando.

—Me desculpe. – sussurrei com a voz fraca, olhando em seus olhos. Não sabia o por quê das desculpas, mas me pareceu algo necessário.

Ele apenas fez aquele barulho de novo, não soava como um rugido, era mais suave. Um ronronar?

Me levantei do banco e sentei perto da jaula, de frente para ele.

—Acho que isso significa que você vai pra casa, né?

Ele bufou e colocou a cabeça entre as patas.

—Ei! Aposto que você vai gostar da Índia. – ele virou a cabeça na minha direção, prestando atenção ao que eu dizia. – Lá é quente e tem florestas.

Ele continuou me encarando.

—Aposto que vão cuidar muito bem de você lá.

Nick tombou a cabeça para o lado e (como no outro dia) começou a querer enfiar a cabeça entre as barras. Bufei.

—Já disse que você é muito cabeçudo pra passar sua cabeça por aqui. O máximo que vai conseguir é se machucar – falei colocando a mão em sua cabeça e empurrando levemente de volta, fiquei surpresa quando ele não demonstrou resistência e ainda mais surpresa quando percebi que coloquei minha mão dentro da jaula por impulso.

O tigre fechou os olhos e balançou a cabeça sob minha mão. Entendi aquilo como um recado para acaricia-lo. Passei minha mão por seu pelo, sentindo como era macio. Ao contrário de antes, eu não me sentia com medo, não achava que ele fosse me machucar. Já tinha passado um dia inteiro ao lado dele sem que barras estivessem entre nós e ele não fez nada, então tomei isso como um sinal de que estava tudo bem.

Me sentindo um pouco mais ousada, estiquei minha mão até seu pescoço e segui uma linha com o dedo. Seu pelo era incrivelmente macio. Decidi que ia perguntar ao Sr. Vincent se eles passavam condicionador no tigre.

—Você me lembra um daqueles cobertores felpudos. – soltei sem pensar.

Ele lambeu minha mão como resposta. Tá, confesso que eu também não fui muito simpática.

Limpei a mão na minha roupa com uma careta e o encarei. Os olhos dele pareciam tristes, como na primeira vez que eu o vira. Fiquei com o coração apertado ao ver isso. Sentia que precisava saber se ele ficaria mesmo bem e sabia que só tinha uma forma de fazer isso.

—Não acredito que estou mesmo pensando em ir pra Índia.

Notas finais
Beijo. Beijo. Coração. Até a próxima ♥ ♥