O Despertar da Rosa Branca
10 Um novo amigo
Alguns barulhos começaram a me incomodar. O fato de ter apagado tão rápido, mesmo após um momento de constrangimento com Eryon, era sinal de que meu corpo estava exausto. Apesar das porções, chás e toda a magia, meu corpo ainda era humana e inevitavelmente, precisava descansar.
Várias vezes senti a cama se mover, como se Eryon estivesse se remexendo demais. Eu não queria acordar... meus olhos ainda estavam pesados. Aos poucos, ouvi ele murmurar algo. Pela escuridão, parecia que ainda era alta madrugada. Quando finalmente criei coragem, abri os olhos. Ele estava deitado de barriga para cima, o corpo coberto por suor.
— Eryon... — pronunciei seu nome, baixinho. Não houve resposta.
— Não faz isso... — ele murmurou e então compreendi a frase. Sentei-me na cama e o encarei. Seu rosto estava contraído em dor, a respiração pesada. Sua testa ardia. Ele estava com febre.
Apesar dos remédios e da magia, o corte que ele sofreu era profundo. Ambos estávamos esgotados sem forças nem energia vital suficientes. Quando tentei me levantar, ele segurou meu braço com força surpreendente.
— Mãe... não me deixa... — sussurrou.
Meu coração disparou.
Eu sabia que sua mãe havia falecido quando ele ainda era pequeno. Sabia, também, que sua infância havia sido marcada por dor. Mas não conhecia a profundidade das cicatrizes que ele carregava além daquelas visíveis em seu rosto.
— Está tudo bem, querido... Eu já volto — respondi suavemente, e senti seu corpo relaxar um pouco.
Levantei-me e fui até o banheiro. Encontrei uma tigela e um pano limpo. Enchi a vasilha com água fria e voltei para junto dele. Com cuidado, mergulhei o pano e o coloquei sobre sua testa. Repeti o gesto algumas vezes, esperando que o alívio chegasse.
Foi então que notei minha bolsa irradiando um leve feixe de luz. O que era aquilo? O bracelete estava quieto e a rosa... não havia sinal de que estivesse despertando. Aproximei-me com cautela. A luz vinha do meu caderno.
Era a pétala prateada. Aquela que peguei no encontro com a bruxa vidente.
Será que ela teria algum poder de cura?
Peguei-a ainda brilhante e me aproximei de Eryon. A luz se intensificou. Eu hesitei. Será que ele teria de ingerir como no chá de flor da lua? Mas ele estava dormindo e mais cedo, a pétala estava completamente apagada.
Decidi colocá-la na bacia com água. Como mágica, a água se tornou brilhante e cintilante. Mergulhei o pano e passei delicadamente por seu rosto, depois pelo pescoço. Engoli em seco. Sua camisa estava entreaberta, revelando parte do peitoral, até a linha dos mamilos. Tentei não me distrair.
Aos poucos Eryon foi se acalmando. Depois de alguns minutos, a pétala voltou a ser prateada e a água, clara. Como se a reação mágica tivesse chegado ao fim. Toquei sua testa com os dedos ainda frios. A febre havia passado. Suspirei, aliviada e intrigada. Coloquei a tigela ao lado da cama, deixei o pano úmido repousar sobre sua testa e o cobri cuidadosamente. Voltei para o outro lado da cama, sentindo o peso no corpo retornar. Meus olhos ardiam. E então, dormi outra vez.
****
Abri os olhos devagar. O quarto ainda estava na penumbra, mas a luz da alvorada começava a se filtrar pelas cortinas finas. Eryon estava sentado na beira da cama, olhando para mim com um brilho estranho nos olhos algo entre surpresa e ternura.
— Você cuidou de mim... — ele disse, como se ainda não acreditasse.
Assenti, ainda sonolenta.
— Você estava com febre. Agitado... — minha voz saiu rouca, arrastada pelo sono.
Eryon baixou os olhos. Por um instante, sua expressão endureceu como se erguendo uma muralha familiar.
— Desculpe por isso. Eu sou um peso pra você — murmurou.
— Claro que não é. Por que pensa assim? — perguntei, me ajeitando para sentar na cama ao lado dele.
— Primeiro foi a fera mágica, ontem... depois, a febre — ele continuou num tom baixo quase envergonhado.
— E eu fiz o que fiz porque quis. Eu salvei um amigo ontem. E continuarei fazendo isso — afirmei com convicção.
Será que ele era isso mesmo para mim? Um amigo? Talvez fosse essa a melhor definição agora. Estávamos nos aproximando, confiando um no outro, salvando um ao outro. Não conseguia mais enxergá-lo como o príncipe frio e intocável do Reino Umbra-Nor. Mesmo com toda a sua posição na hierarquia, Eryon parecia... próximo.
— Obrigado — ele ergueu o olhar. Seus olhos escuros, antes tão fechados como muralhas, pareciam mais humanos agora.
— Ninguém nunca me disse isso — ele sussurrou. — Que eu sou um amigo.
Silêncio.
Então ele estendeu a mão devagar e tocou a minha.
— Obrigado, Aurelis.
Senti um aperto no peito ao ouvir aquelas palavras. O quão solitário você foi Eryon? Era essa muralha de sentimentos fruto de uma infância sem calor? Talvez sua mãe tenha sido o único refúgio. Talvez tudo o que um menino desejava fosse apenas... ser amado. E, de alguma forma, ele não conheceu esse amor. Eu ainda lembrava como era mas ele, não.
— Eryon... — comecei, mas ele me interrompeu com um olhar curioso, voltando os olhos para a tigela com o pano úmido.
— O que era aquilo? — ele comentou, franzindo a testa, observando a água om a pétala — Eu tive sonhos estranhos. Vi luz... e cheiro de flor.
— Era a pétala prateada — respondi. Eu o expliquei como havia recebido a pétala e da bruxa vidente. Assim como toda a situação na noite anterior.
Ele olhou para mim em silêncio, como se processasse cada palavra com cuidado.
— Eu nunca vi algo assim. — Ele segurou a pétala prateada entre os dedos.
— É sua — Eu afirmei
— O quê? — Ele ficou surpreso.
— A magia dela se ativou com você. Talvez a pétala tenha respondido apenas pra você. E além do mais... agradecer a hospitalidade.
Ele sorriu, mas foi um sorriso curto e contido. Ele gentilmente pegou a pétala e colocou entre um lencinho de bolso e a guardou no casaco.
Pouco tempo depois descemos as escadas até o térreo da estufa. O cheiro das flores da lua ainda pairava no ar e o som suave da água correndo nos tubos mágicos preenchia o ambiente com serenidade. O dia ainda conseguia ser muito bonito naquele lugar.
O Sr. Jones já nos esperava, com sua postura curvada e gentil. Ele nos saudou com um leve aceno e um sorriso discreto. Ele havia preparado uma mesa com algumas iguarias para nos alimentarmos. Após comermos na mesa ele quebrou o silêncio.
— Espero que tenham descansado bem. Vi que o calor do sol já alcança os vitrais da estufa... — ele disse com sua voz pausada.
— Obrigada, Sr. Jones. Sua ajuda ontem salvou nossas vidas.
— Ora, ora... não exageremos. Apenas fiz o que me cabe — ele respondeu, com um brilho sagaz nos olhos.
— Eu preciso ir, se não vai ficar muito tarde. — Eu respondi olhando para os dois. O Sr. Jones fez um sinal para esperar, como se fosse me entregar algo.
— Eu ainda tenho curiosidade sobre uma coisa — Eu o perguntei enquanto ele estava tomando um gole de chá.
— Pode perguntar, Srta. Aurelis — Eryon ficou com uma expressão mais serena.
— Houve um ataque na vila esses dias no reino Luminara. Eles falaram que eram do seu reino... — Eu entrei com um pouco mais de detalhes. Conhecendo tudo que eu vi no príncipe Eryon, era muito contraditório imaginar que ele planejada esse ataque.
— O nosso reino atual está dividido, nem sempre concordo com as ações da rainha.— Ele me respondeu, eu senti que ele iria falar mais coisas, porém fomos interrompidos pelo Sr. Jones. Ele entregou uma pequena bolsa de couro, contendo os itens mágicos que faltavam na lista do Sr. Goty (soube que um guarda real trouxe para o Sr. Jones) e um frasco médio com néctar de flor da lua.
— Cuide bem disso, Srta. Aurelis. A noite passada pode ter sido apenas o início de algo maior.
Assenti em silêncio. Eu sentia isso também. Eryon se aproximou de Jones e murmurou algo que não consegui ouvir. O velho sorriu, colocou a mão em seu ombro e fez uma reverência respeitosa. Um gesto raro de servo para príncipe, isso indicava muita proximidade dos dois. Olhei para Eryon uma última vez antes de partir. Não falamos nada, apenas acenamos um ao outro em sinal de despedida.
O sol já despontava no horizonte. O céu começava a tingir-se de dourado, segui meu caminho sentindo o vento frio da manhã tocando o meu rosto. Meus dias estavam acabando e em breve eu iria para capital. Eu sabia no fundo, que depois daquela noite... nada mais seria igual.
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