O Despertar da Rosa Branca
11 Novos encontros
A brisa da noite carregava o aroma de pão fresco e ervas secas das casas do vilarejo. Por um instante, senti um calor familiar invadir meu peito: era o cheiro de casa, de pertencimento. As ruas estavam enfeitadas com lanternas que lançavam pequenas chamas dançantes, e o céu se mostrava espetacular, com duas luas enormes e radiantes refletindo suavemente no chão de pedra. Era noite de festividades: risos, cantos, música e aromas de comidas típicas preenchiam cada beco e esquina.
— Está pronta, querida? — a voz de Kaelin me trouxe de volta ao presente.
Olhei no espelho. Meu cabelo prateado estava em uma trança lateral, alguns fios caindo suavemente sobre o rosto. O vestido rosa claro moldava minha cintura como um delicado corset e tinha mangas volumosas que conferiam graça aos meus movimentos. Havia algo em mim que gostava de cuidar de cada detalhe, mesmo sem lembrar exatamente quem eu fora. Era como se flashes da minha antiga essência tentassem se expressar através de gestos, aromas e cores.
— Estou sim, tio — respondi, girando levemente para que ele visse o resultado. Kaelin sorriu com orgulho.
— Uau, você está lindíssima! Sempre foi querida, mas hoje… está de tirar o fôlego.
Ri, elogiando-o também. Ele estava elegante, com calça de alfaiataria bem ajustada e camisa de mangas compridas, um perfume sutil que misturava madeira e ervas, discretamente acolhedor. Quando me aproximou de um frasco com aroma doce e terroso, percebi que era uma loção da loja do namorado dele, Darian.
— Eu preciso muito ir à loja dele. Que horas vamos nos encontrar? — perguntei, animada.
Kaelin riu:
— Aurelis, você está virando adulta…
Caminhando pelas ruas, senti o frescor da noite e a energia vibrante do vilarejo. Cada riso, cada aroma, cada pequena chama parecia dançar com a minha respiração, e por alguns momentos pude simplesmente ser eu mesma, sem passado nem futuro.
Chegamos à loja de Darian, que nos recebeu com um sorriso caloroso. Seus olhos claros transmitiam confiança e gentileza, como se compreendessem silenciosamente nossos pensamentos.
— Muito prazer, Aurelis — disse, estendendo a mão firme e gentil. — Kaelin fala muito de você.
Senti uma energia humana, simples, verdadeira. Nada mágico, nada guerreiro apenas conforto e calor. Me encantei com cada frasco, cada aroma, até que uma loção me marcou profundamente: notas de rosa misturadas a madeira molhada, algo que parecia tocar o bracelete que eu carregava.
— Não, é meu presente — insistiu Darian.
— Você é da família — acrescentou, olhando para Kaelin com emoção e meu coração se aqueceu.
Saímos da loja, caminhando pelas ruas iluminadas. Entre barracas de doces e sucos da estação, senti a leveza do momento invadir meus sentidos. Era um tempo que eu podia chamar de meu.
Ao nos aproximarmos da taverna, uma voz familiar nos cumprimentou:
— Olá, Kaelin… Sr. Darian.
Virei-me e encontrei Thereon. Seu sorriso tímido e o olhar intenso me fizeram sentir novamente aquela curiosidade antiga. Ele estava vestido com uma túnica verde-escura de linho fino, adornada com detalhes prateados que lembravam folhas ao vento, e botas altas de couro, limpas e bem ajustadas. Havia algo em sua postura que mesclava elegância e prontidão, como se cada gesto fosse cuidadosamente medido.
— Não a reconheci — disse ele, sem graça.
— Não sei o que aconteceu com ela nesses últimos dias, mas a Liz realmente mudou — Kaelin comentou.
— Talvez seja porque está chegando aos 20 anos — completou Darian com leveza.
Thereon juntou-se a nós, sentando-se com naturalidade, mas mantendo um certo distanciamento elegante, típico de quem conhece os costumes de um mundo antigo. Conversamos por alguns minutos, até que meu tio e Darian se afastaram para resolver algo, criando oportunidade para que ficássemos a sós.
— Você está bem diferente, Liz — ele comentou, dando um gole na bebida e me observando com atenção à luz suave da taverna.
— O que aconteceu com você? — perguntou, misturando confusão e fascínio.
Hesitei, escolhendo minhas palavras:
— Não sei… talvez seja a idade, ou o cabelo diferente? — esbocei um leve sorriso.
Thereon inclinou a cabeça, estudando meu rosto.
— Diferente… — repetiu, como se a palavra tivesse múltiplas camadas. — Você não é mais a mesma, não é?
Meu coração acelerou, mas tentei manter a calma.
— Talvez eu nunca tenha sido exatamente a mesma — respondi, cuidadosamente.
Ele se aproximou um pouco, sem quebrar a distância entre nós:
— Isso significa que… você lembra de coisas que eu não deveria saber?
Sorri de forma contida.
— Não exatamente. São sensações, flashes… às vezes parecem sonhos, outras vezes lembranças de alguém que não sou mais.
Thereon permaneceu em silêncio, tentando conectar pontos invisíveis. Então, suavemente:
— Você sempre teve esse olhar… profundo, mas agora há algo mais. Algo que não consigo explicar.
Senti meu peito aquecer. Havia algo no jeito dele falar, na atenção aos mínimos detalhes, que me fazia confiar sem esforço.
— Talvez seja o que sobra de quem eu fui… — murmurei. — Ou talvez seja apenas o que me tornei agora.
Ele sorriu, desta vez com reconhecimento.
— Seja o que for… é impressionante. E, de alguma forma, inquietante.
Um silêncio confortável se instalou entre nós, preenchido pelos sons da taverna: risos e madeira rangendo sob o peso das pessoas.
— Então você vai mesmo para a capital em breve? — ele perguntou, mudando o tom para algo mais leve.
— Sim… — respondi, percebendo uma leve inquietação nele.
— Você está bem? — insistiu.
— Estou sim… até fui para o reino Umbra-Nor — confessei.
Seus olhos se estreitaram, carregando curiosidade e surpresa:
— Como assim, Aurelis? O que você foi fazer lá?
Engoli em seco. Parte de mim queria contar tudo :a serpente, Eryon, a estufa, a magia da flor de lua, mas havia algo nele uma percepção silenciosa, que me fez hesitar. Ainda assim, não podia fugir da verdade por completo.
— Eu… fui buscar os itens para o Sr. Goty — disse, contando sobre o encontro de forma contida.
— A profecia da Espada da Rosa? — ele murmurou, incrédulo.
Observei ao redor e com cuidado, ativei a espada da Rosa. A magia cintilou suavemente, ajudando-me a controlar sua força, mas ainda não era fácil. Thereon desviou o olhar para a espada, claramente impressionado.
— Então você é a guerreira da profecia? — perguntou, incrédulo.
— Aparentemente sim — respondi, escondendo novamente a espada e o bracelete.
Ele respirou fundo, escolhendo as palavras:
— Talvez isso explique as mudanças que percebi.
— Ah é? Quais mudanças, além do cabelo? — provoquei, dando um gole na caneca.
— Você está mais… — fez uma pausa, medindo o impacto.
— Confiante — completou.
— Você me achava tão insegura assim? — perguntei, lembrando a Liz antiga.
— Um pouco. Você sempre foi dedicada aos treinos e ao combate. Mas agora… você está confiante, e talvez a Rosa tenha feito isso.
— Eu acredito que sim. Ela tem um poder incrível, e estou aprendendo a dosar melhor.
Thereon inclinou-se ligeiramente apoiando os cotovelos sobre a mesa e olhou para mim com um misto de curiosidade e cautela.
— Então… se você é a guerreira da profecia, significa que tudo o que aconteceu até agora… cada batalha, cada escolha… foi apenas um começo? — perguntou com a voz baixa, quase um sussurro.
Senti um arrepio percorrer minha espinha. Havia algo em sua pergunta que soava mais profundo do que simples curiosidade. Era um marco na minha história da antiga Liz e o meu eu atual.
— Sim — respondi, hesitante. — Mas ninguém me contou toda a história. Só sei que a Rosa… que ela me guia. E que minhas escolhas vão afetar mais do que apenas minha vida.
Thereon passou a mão pelo queixo pensativo, e depois desviou o olhar para a taverna, como se buscasse nas sombras alguma confirmação do que eu dissera.
— Você sempre tem essa capacidade de… mudar tudo sem sequer tentar — disse, voltando o olhar para mim. — É assustador e fascinante ao mesmo tempo.
Um silêncio confortável se instalou. Olhei para ele, tentando decifrar aquele olhar intenso, que parecia penetrar camadas da minha própria alma.
— Talvez seja porque nunca fui apenas quem você conheceu — murmurei, sentindo o calor subir às minhas bochechas. Ele sorriu de um jeito que fez meu coração acelerar.
— Então… a cada dia que passa, você se torna mais… imprevisível — disse, quase em tom de brincadeira, mas com uma gravidade contida.
— Talvez você não precise acompanhar tudo — respondi, baixando o olhar e esboçando um leve sorriso.
Ele respirou fundo e desviou o olhar para a chama da vela à nossa frente, o reflexo dançando em seus olhos. Sorri levemente, percebendo que, apesar de tudo, havia uma ligação silenciosa, quase invisível, crescendo entre nós. Um fio de compreensão que nem a magia, nem o tempo, poderia quebrar. Por um breve momento como aquele talvez eu entendesse a antiga Liz. Será que eram essas palavras profundas, repletas de mistérios que faziam o coração dela acelerar? Era como se tudo estivesse nas entrelinhas.
— Então me diga — ele continuou, levantando os olhos para mim com intensidade — você vai para a capital sozinha? Ou… vou ter a chance de ver a Rosa em ação?
Senti meu corpo estremecer. Havia algo em seu tom que misturava desafio e preocupação. Nós dois levantamos daquela taverna e caminhamos em direção a saída.
— Talvez seja melhor que você não veja tudo — respondi, quase sussurrando.
Thereon inclinou-se, aproximando-se o suficiente para que eu percebesse o calor da respiração dele.
— E se eu disser que não tenho medo? — provocou, com um meio sorriso.
Eu senti um calafrio percorrer e o coração acelerar. Liz era você? Era como se meu corpo respondesse a ele, sem que eu ao menos sentisse algo. O que o Thereon provocava em mim era algo familiar, como se meu corpo estivesse acostumado.
— Então terá que provar — murmurei confiante e isso o fez recuar, talvez não estivesse esperando aquela resposta. O que será que a Liz faria? Ela abaixaria a cabeça para as provocações dele?
Lá fora, a noite continuava viva com risos e música, mas ali. Aos poucos eu percebi que meu tio e o Darian caminhava em nossa direção.
— Bem, acho que é hora de encerrar a noite — disse, com um sorriso cansado.
— Precisamos nos preparar para a viagem de amanhã, não é mesmo, Darian?- Darian assentiu, olhando para nós com carinho:
— Sim, vai ser cedo. Mas fiquei feliz em ver todos se divertindo. Aurelis, sua energia iluminou a noite.
Sorri timidamente, sentindo o calor da aprovação deles.
— Então… — disse Thereon, inclinando-se levemente em um gesto discreto. — Você vai mesmo partir para a capital amanhã?
Assenti, sem desviar o olhar. Kaelin bateu no ombro de Thereon com leveza:
— Você já conhece Aurelis há anos, Thereon, mas está aprendendo agora que a menina que você viu crescer tem muito mais coragem do que aparenta.
— E muito mistério — acrescentou Darian, com aquele sorriso caloroso.
Thereon esboçou um leve sorriso, mas mantinha o semblante sério.
— Mistério é sempre bom… desde que não nos mate antes do esperado — murmurou, provocativo.
Kaelin olhou para mim com orgulho, e então para Darian, antes de suspirar:
— Bem, então vamos. Amanhã será cedo, e a capital não espera por ninguém.
Saímos pelas ruas, a brisa fria da noite envolvendo-nos novamente. As lanternas do vilarejo ainda lançavam suas luzes dançantes, e o aroma de pão fresco e ervas secas parecia mais doce, quase nostálgico. Caminhei ao lado do meu tio e do Thereon.
— Sabe — disse Thereon, quebrando o silêncio, — é estranho pensar que em poucas horas você estará na capital, e eu aqui, ainda preso a meus afazeres…
— Mas você vai me acompanhar, certo? — brinquei, tentando aliviar a tensão, embora soubesse que ele não poderia ir.
— Talvez não fisicamente — respondeu, com um leve sorriso triste.
— Até breve, capitão. — Fiz um sinal para descontrair o momento.
— Até breve, soldado — Ele sorriu repetindo o gesto.
Darian e Kaelin nos observaram à distância, compartilhando um olhar cúmplice. O vilarejo estava silencioso agora, exceto pelo suave murmúrio do vento entre as árvores. Assim que chegamos em casa, me despedi do Darian com um abraço e dei outro abraço no Kaelin.
— Durma bem, Liz. Amanhã começa uma nova etapa — murmurou dando-me um beijo na testa.
Ao fechar a porta do quarto atrás de mim, respirei fundo. Estava pronta para enfrentar o que viesse. E, pela primeira vez, senti que não precisava temer sozinha. Porém, ainda assim tive uma impressão de que havia algo observando-me no vilarejo, como se fosse uma sombra nos becos escuros.
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