O Despertar da Rosa Branca

12 Fragmentos de uma Profecia


A capital se revelou diante de mim com uma imponência que quase tirava o fôlego. Era familiar, mas ao mesmo tempo era algo novo. Dessa vez eu caminhei observando melhor os detalhes: torres altas cortavam o céu, ruas largas se estendiam em avenidas iluminadas por lanternas mágicas flutuantes, que lançavam uma luz quente e oscilante sobre o chão de pedra polida. Havia uma energia vibrante ali, muito mais intensa e viva do que em qualquer outro lugar que eu conhecera e, ao mesmo tempo, uma sensação sutil de perigo, como se a qualquer momento tudo fosse acabar ali.

Antes de me apresentar ao comandante Sr. Obryan, caminhei em direção à sala do Sr. Goty. Carregava comigo os itens mágicos que haviam sido cuidadosamente preparados pelo Sr. Jones, junto com os adquiridos no mercado do reino Umbra-Nor. Meu coração batia acelerado, cada passo me aproximava do mago e da possibilidade de compreender um pouco mais sobre a profecia. Estaria pronta para isso? Respirei fundo, tentando reunir coragem.

As portas de madeira escura rangiram suavemente ao abrir. O aroma de pergaminhos antigos misturado a incenso me envolveu imediatamente. Goty estava ali, encostado em sua mesa, olhos penetrantes fixos nos mapas e livros abertos à sua frente.

— Aurelis — disse, sem levantar os olhos do pergaminho. — Veio mais cedo do que eu esperava.

Ele sorriu, gentil, fazendo um gesto para que eu me aproximasse da mesa. Coloquei cada objeto diante dele, observando suas mãos experientes tocarem cada cristal e frasco com reverência. Seus olhos brilharam ao analisar as essências das flores.

— Excelente… — murmurou. — Você trouxe exatamente o que era necessário.

Ergueu a cabeça, e sua expressão adquiriu uma solenidade que me fez arrepiar.

— Mas a profecia… — começou, pausando deliberadamente — não termina apenas na Rosa. Há outra camada que você precisa compreender.

Meu coração disparou.

— Outra camada? — perguntei, tentando conter a ansiedade.

— Sim. — Ele se inclinou, voz baixa e grave. — Aquela que empunhará a Rosa não será apenas uma das salvadoras na guerra do Caos, mas também uma ponte entre mundos, entre tempos… entre almas que se perdem e se reencontram.

— Como assim, Sr. Goty? — murmurei, processando a ideia. — Existe algum portal?

— Muito perspicaz. — Ele assentiu. — Alguns magos acreditavam que, na profecia das Rosas, havia um portal no Reino Arenlindor — o reino dos elfos.

— Existe uma profecia da Espada da Rosa nos reinos élficos? — perguntei, surpresa.

— Exatamente. — Goty respondeu. — Eu nunca procurei informações detalhadas, pois são muitas profecias, mas meu antigo mestre me disse que há registros no reino élfico.

Fiquei em silêncio, absorvendo cada palavra. Como eu faria para ir até lá?

— Não se preocupe. O príncipe Johan irá ao reino, e pedi ao Sr. Obryan que você faça parte da escolta.

— Como… sabia? — perguntei, incrédula. Era como se ele pudesse ler meus pensamentos. De fato, o príncipe estava prometido à princesa da família Elenvan.

— E quanto ao Sr. Eryon? Como foi o encontro? — Goty perguntou, com curiosidade. Surpreendi-me, pois não havia mencionado nada.

— Quem mais sabe? — perguntei.

— Não se preocupe, meus informantes são discretos. — respondeu.

— Ele foi cordial — respondi brevemente, existia algo que me fazia confiar parcialmente nele.

— Apenas tome cuidado com sua aproximação com ele. A negociação entre Umbra-Nor e Luminara não anda bem. — Ele falou sério.

— Você se refere aos ataques? — perguntei. — Para mim, ficou claro que é coisa da rainha Lady Morwenna.

— Concordo. Mas nem todos veem assim. Existe polaridade política, e qualquer momento podemos entrar em guerra.

— Obrigada pelo aviso. — Eu disse, aproximando-me da porta.

— Srta. Aurelis… — ele chamou.

— Sim? — me virei para ele.

— Esta será a última vez que mencionarei… mas há uma ligação muito forte entre você e o Sr. Eryon. E não se limita a este tempo.

Senti um frio percorrer meu corpo, seguido de calor súbito nas bochechas e pulsação acelerada. Havia algo em suas palavras que confirmava minhas intuições. Então, ainda que buscasse respostas, mais dúvidas surgiam.

Recebida a missão na sala do comandante, fui aos treinamentos. Partiríamos para Arenlindor em dois dias. Questionei-me sobre a ausência de magias de teletransporte, mas logo compreendi ouvindo meus companheiros comentando sobre tótens mágicos espalhados entre cidades e vilarejos, que encurtavam distâncias sem exigir grandes quantidades de energia vital. Sem eles, a viagem seria de dias ou meses a cavalo. Um flash antigo me invadiu: eu caminhava por uma nave grande um “avião”, um transporte entre países em um mundo sem magia. Fragmentos de memórias surgiam involuntariamente, lembranças de um passado que não compreendia completamente. Era muito fácil acessar a memória da antiga Aurelis, porém quando tratava-se do meu eu original, tudo era difícil e fragmentado.

Antes que pudesse processar tudo, a porta do refeitório se abriu. Uma figura entrou silenciosa: alta, esguia, cabelos prateados, olhos verde-esmeralda que pareciam enxergar a alma. A leveza de seus movimentos denunciava sua linhagem élfica e as cicatrizes discretas em seu braço e rosto contavam batalhas vividas. Mesmo armada, havia algo em sua presença que transmitia respeito e confiança.

— Aurelis. — Sua voz era calma, firme, com autoridade silenciosa.

— Alarien. — Respondi.

Alarien Miravell.

Ela sempre estivera próxima a Liz, diria que elas eram melhores amigas.

— Você está diferente… mais bonita, eu diria — disse Alarien, segurando delicadamente uma mecha do meu cabelo.

— Obrigada… eu sei que estou. — Sorri, um pouco sem jeito, terminando minha refeição.

— É verdade sobre a profecia da Espada? — Ela se aproximou, olhos fixos nos meus.

— O que? Como… — comecei, mas ela continuou antes que pudesse perguntar.

— O castelo inteiro já sabe da profecia.

Um calafrio percorreu minha espinha.

— E como você está se sentindo? — Ela perguntou, preocupação evidente. — Procurei você bastante na floresta.

— Estou bem… talvez um pouco confusa. — Sorri, tentando disfarçar.

— Irei na escolta do príncipe. — Mudei de assunto, buscando aliviar a tensão.

— Jura? Eu irei também. — Ela sorriu entusiasmada, e não pude evitar sorrir de volta.

— Ah, o príncipe… — suspirou Alarien, sonhadora. — Aqueles olhos cor do oceano… e cabelos dourados, quase ouro.

— Ele vai se casar, sabe disso, não é? — lembrei-a, trazendo-a de volta à realidade, porém em um tom descontraído.

— Claro que sei. — Ela se recompôs, mas ainda havia um brilho nos olhos. Era engraçado ver alguém tão forte e destemida como Alarien derretida pelo príncipe do Reino Luminara.

O silêncio caiu entre nós, preenchido apenas pelo crepitar distante das tochas do salão. Por alguns momentos, senti o peso de todas as responsabilidades que a profecia impunha sobre mim. A Rosa, a Espada, a ligação entre mundos… tudo parecia maior do que eu mesma.

— Rien… — murmurei, quase inaudível — você já sentiu que algo em você mudou, mas não sabe se é você mesma ou outra versão sua?

Ela me olhou com intensidade e por um instante, parecia que podia enxergar não apenas o que eu sentia, mas também tudo que eu escondia de mim mesma.

— Sim — disse, baixando a voz.

— Já senti. E sei que é assim que se sente alguém que carrega a responsabilidade de mais do que apenas lutar. Mas você… você não está sozinha nisso. Eu estarei ao seu lado.

Um calor estranho subiu pelo meu peito. Aquela promessa silenciosa me deu força e pela primeira vez, senti que podia respirar sem ser esmagada pelo peso da profecia.

— Obrigada, Rien. — Sorri, ainda um pouco hesitante. — Preciso aprender a controlar tudo isso… a Rosa, a espada …

— E você vai aprender. Não se cobre tanto, Liz— Ela assentiu firme, com convicção. Ela tinha razão. Eu sentia o peso da profecia, apesar de ser um pouco mais confiante do que a Liz, eu estava confiando totalmente nas habilidades dela e da Rosa. Eu teria também que me esforçar.

— Obrigada, estou tentando. — Sorri novamente.

— Nós só precisamos ficar atenta. A profecia da Rosa está se espalhando e há sempre quem esteja vigiando.

Minha respiração ficou mais pesada. O perigo parecia se aproximar, mesmo naquele instante aparentemente seguro. Ela trouxe um ponto que me fez pensar que mesmo no reino dos elfos existia a espada da Rosa. Será que o Umbra-Nor havia também?

— Então, animada para à missão da escolta do príncipe amanhã? — perguntei, tentando mudar o foco e acalmar meu coração.

— Sim — respondeu Alarien, erguendo um sorriso leve —

Sorri, e por um momento, senti que talvez pudesse suportar tudo. A Rosa, a profecia, os fragmentos da antiga Liz. Tudo parecia menos assustador com Alarien ali.

Mas algo no olhar dela me lembrava que isso não seria fácil. Que o perigo não vinha apenas de batalhas físicas, mas de segredos, alianças políticas e escolhas que poderiam mudar o destino de vários mundos. E enquanto nos levantávamos para encerrar a refeição, senti um frio percorrer minha espinha. Porque mesmo com força e aliados, o futuro ainda parecia incerto. Mas pela primeira vez em muito tempo, não estava sozinha.