O Despertar da Rosa Branca
17 O Jardim do desejo
Eu estava recostada discretamente em um dos arcos floridos do salão, tentando absorver cada detalhe do baile sem parecer óbvia. Luzes cintilantes dançavam sobre os vestidos e risos preenchiam o ar, a música ritmada convidava todos a dançar. O foco naquele momento parecia estar nos dois príncipes que haviam chegado: Johan e Eryon.
— Ouvi dizer que o príncipe Eryon irá casar com a princesa Lirael — sussurrou alguém de um grupo próximo.
Um frio percorreu meu corpo e meu bracelete da Rosa pulsou intensamente, enviando pequenos choques que eu podia sentir leves fisgadas. Mantive ainda meus olhos no Eryon, ele se movia pelo salão com segurança, sua aura quase intimidante, o bracelete ainda não parava com sua eletricidade.
E então, Lirael apareceu. A princesa se aproximou dele com um sorriso que brilhava, totalmente diferente da imagem anterior. Ela inclinou-se levemente e passando a mão no braço dele enquanto falava. Imaginei que a sua voz era sedutora, convidando-o para a dança.
— Dançará comigo, Eryon? — disse ela, os olhos brilhando com desafio e charme. Consegui ler os lábios dela mesmo de longe.
Eryon apenas confirmou com a cabeça. Engoli seco diante da cena. Ele deu um passo em direção a ela, mas logo desviou o olhar pelo salão, como se estivesse procurando algo. Lirael sorriu inclinando-se ainda mais, e ele finalmente segurou sua mão, conduzindo-a à pista. O gesto era educado, quase formal, cada movimento ensaiado e bem executado, o que era esperado de um príncipe.
Enquanto eles se afastavam dançando, meu pulso ardia e o bracelete latejava intensamente. A Rosa parecia fora de controle naquele momento.
"O que está acontecendo com você, Rosa?" pensei, tentando acalmar a respiração. A dor foi aumentando e ficando insuportável. Isso fez com que eu me dirigisse para fora do salão. O jardim do palácio elfo parecia um refúgio secreto, mesmo depois de toda a agitação do baile. Lanternas pendiam das árvores, espalhando um brilho suave sobre os caminhos de pedra. Caminhei devagar entre flores lilases e brancas, ainda sentindo o perfume da noite e a magia que pairava no salão. Meu pulso continuava ardendo, mas aos poucos consegui controlar a dor. Eu tinha trazido um pouco de flor da lua e isso acabou acalmando.
De repente, ele surgiu entre os arbustos, encostando-se levemente a um tronco. Meu coração deu um leve salto, e não consegui evitar um sorriso divertido.
— Não esperava te ver aqui tão… isolada — disse Eryon, a voz baixa, quase se misturando com o sussurro do vento.
— E eu não esperava vem o príncipe aqui tão cedo — Eu sorri com um tom mais sacárstico.
— Devo admitir… você estava impecável no salão. O rei deve ter ficado impressionado quando foi apresentada. — Ele continuou o assunto. Eu fiquei um pouco impressionada pelo fato dele já ter ciência da notícia. Todos daquele salão já deveria saber que eu era a guerreira da Espada da Rosa, porém ainda assim mantinham distância.
— Impressionado? Espero que não tenha achado um desaforo a minha falta de postura para esses eventos— Eu sorri.
Ele se aproximou um passo e por descuido ou provocação, tocou a ponta do meu braço enquanto passava. Um calor inesperado subiu pelo meu braço e precisei me concentrar para não estremecer. Novamente eu senti que a Rosa começou a arder com um pouco mais de intensidade.
— Rir? Jamais — disse ele.
— Mas confesso que ver você tão… formal, tentando não tropeçar na etiqueta real… foi muito divertido.
— Divertido, hein? — respondi, desviando o olhar e cruzando os braços. — Bom saber que minhas falhas tornam sua noite mais interessante.
— Exatamente — respondeu ele, inclinando-se levemente. O olhar manteve-se fixo aos meus, esboçando um leve sorriso. Nesse momento eu não consegui evitar que o bracelete estava cada vez mais quente e ardia. O que estava acontecendo Rosa? Eu tentei concentrar e disfarçar minhas respirações, mas não estava solucionando o problema.
— Você está bem? — Ele perguntou, e parei, encarando-o. A luz refletia em seus olhos antes tão frios, agora com algo que não conseguia identificar. Meu bracelete deu uma fisgada intensa e minha feição revelou dor.
— O que aconteceu? Está ferida? — Ele olhou preocupado.
— É o bracelete… não sei o que há de errado hoje. — Levantei o braço, mostrando o bracelete da Rosa. Quase imediatamente, seus dedos percorreram meu punho e como num toque mágico, a dor diminuiu. Meu corpo reagiu, e meus olhos seguiram cada movimento dele. Um nó se formou em meu peito.
— O que você fez? — perguntei em sussurro.
— Ainda dói? — Ele fixou os olhos nos meus.
— Não… melhorou. — Suspirei, estremecendo por dentro com aquela sensação inexplicável.
— Príncipe Eryon… desculpe. — Retirei o braço e deixei ao lado do corpo.
— Príncipe? Achei que éramos amigos — disse ele, com um sorriso sarcástico. Aquela lembrança da minha posição social me atingiu. Ele poderia se casar com a Princesa Lirael.
— Preciso reconhecer meu lugar, Vossa Majestade. — Respondi, engolindo seco.
— Você com essa formalidade da capital de novo… O que aconteceu, Aurelis? — Ele parecia impaciente e seus olhos não eram mais tão gentis.
— Não quero que a princesa Lirael ou as pessoas interpretem nada errado — falei. Talvez fosse verdade sobre o casamento deles.
— Ouviu rumores de que vamos nos casar? — Ele suspirou.
— Sim — confirmei.
— É por isso que está agindo assim? — Ele continuou.
— Sim — respondi, engolindo seco. Ele soltou uma gargalhada inesperada.
Aquela reação me surpreendeu. Como o Sr. Coração Gelado, temido por todos, agora ria como se eu tivesse contado a piada do século? Ele ainda ria quando comecei a caminhar ao seu lado pelo jardim, tentando disfarçar meu nervosismo.
— Rindo de quê exatamente? — perguntei, arqueando uma sobrancelha.
— De mim?- continuei
— Não exatamente — disse ele com o olhar fixo no meu, com aquele meio-sorriso provocador.
— Mas você tem um talento impressionante para me deixar sem palavras e ao mesmo tempo, irritado. — Ele continuou.
Balancei a cabeça, divertida e irritada ao mesmo tempo.
— Sem palavras? Que honra… mas posso me sentir ofendida por estar irritando o grande príncipe?
Ele não respondeu de imediato e o silêncio pareceu pesar mais do que qualquer palavra. Paramos de caminhar. Eryon virou-se de frente para mim, aquele olhar sombrio e atento, voltou a deslizar os dedos pelo bracelete da Rosa em meu pulso. Um arrepio percorreu meu braço inteiro. Por um instante temi que ele fosse se revelar enfim o vilão de tantas histórias. Era um paradoxo vê-lo assim: o homem diante de mim era tão real, tão gentil no toque, mas ao mesmo tempo carregava em si todo o peso dos rumores.
Os dedos dele exploravam cada detalhe da joia com uma delicadeza quase reverente e com a outra mão ele segurou os meus dedos, como se quisesse ancorar aquele contato. Minha respiração falhou tornando-se curta e descompassada. O que estava acontecendo comigo? Era como se meu corpo reconhecesse aquele toque mesmo que minha memória insistisse em negar.
— Está melhor? — perguntou ele, ainda com os olhos fixos na joia, mas a voz carregada de uma curiosidade.
— Sim. Não sinto mais dor. — minha voz tremeu, denunciando que dor não era exatamente a única coisa que eu havia perdido naquele instante.
Ele ergueu os olhos e me atravessou com um olhar que parecia desnudar meus pensamentos. Porém manteve-se em silêncio.
— Você já teve algum contato especial com esse bracelete? — Eu o perguntei.
— Nunca. — sua boca se curvou em um sorriso quase imperceptível.
— Por isso estou curioso… não apenas sobre ele, mas sobre a sua dona. — Ele afirmou.
O mundo pareceu silenciar ao redor. As lanternas do jardim, até mesmo o eco distante da música do baile tudo se dissolveu. Só restava aquele olhar fixo nos meus, que me prendeu de uma forma da qual eu não queria escapar. Senti que meu peito esquecia de respirar. Nossos rostos estavam próximos demais, próximos o suficiente para que eu sentisse seu perfume: um misto de especiarias quentes, fumaça de madeira queimada e algo mais profundo, como terra molhada depois da chuva. Estávamos perto demais... o que estava acontecendo? Eu não tinha forças o suficiente para sair, minhas pernas não respondiam o meu comando. Mas uma parte de mim queria permanecer ali. Eu conseguia sentir sua respiração sobre meu rosto, ele havia inclinado seu rosto em direção ao meu.
— AURELIS....
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