O Despertar da Rosa Branca

18 A Verdadeira Identidade


— AURELIS…

A voz cortou o ar como uma lâmina afiada, e o encanto se quebrou. O silêncio que existia entre mim e Eryon ruiu em mil pedaços. Nós dois demos um pulo para trás, como se tivéssemos sido pegos em flagrante. Meu coração ainda palpitava no peito, mas antes que eu pudesse dizer qualquer coisa Alarien surgiu com o semblante duro, quase sombrio.

— Preciso falar com você. Agora. — Sua voz era firme, sem espaço para recusa.

Sem esperar resposta, ela agarrou meu braço e me puxou para longe. Olhei para trás e vi Eryon imóvel, preso no mesmo silêncio que eu.

Seguimos apressadas pelos caminhos sombrios do jardim, as lanternas oscilando ao vento, projetando sombras inquietas ao nosso redor. Eu mal conseguia acompanhar o ritmo dela, ofegante, tentando alinhar meus passos ao peso dos meus pensamentos. Alarien parou de repente. Quando se virou seus olhos faiscavam como lâminas prestes a se cravar em mim.

— Quem é você?

A pergunta me atingiu como uma flecha.

— O quê…? — pisquei, sem acreditar no que ouvia.

— Não me faça de idiota. — A dureza em sua voz não deixava espaço para brincadeiras.

— Você não é Aurelis. Quem é você?

Senti o estômago revirar.

— Rien… sou eu… claro que sou eu.

Minha voz falhou, trêmula, soando mais como um pedido do que uma afirmação. Ela riu, sem humor, um riso cortante.

— Desde quando você e o príncipe Eryon são próximos? Sempre achei que seu coração pertencia a Thereon. —

O nome dele caiu entre nós como uma acusação.

— Rien… eu—

— Não! — cortou-me, impiedosa.

— Eu fechei os olhos para suas mudanças, atribuí à floresta, ao bracelete… Mas hoje, quando vi como você olhou para Eryon, tive certeza.

Ela se aproximou, o olhar implacável.

— A Aurelis que eu conhecia tinha medo dele. Nunca olharia ou estaria perto dele daquela forma.

As palavras dela me despiram da máscara com a qual eu tentava sobreviver. Meu peito doía, como se cada frase fosse uma lâmina cravada em minha carne.

— Eu… — respirei fundo, a voz embargada.

— Eu não sei o que aconteceu com a verdadeira Aurelis.

O silêncio caiu como uma pedra. O rosto dela se endureceu ainda mais até que seus olhos se arregalaram, como se as minhas palavras tivessem quebrado algo dentro dela.

— O que você disse?

As lágrimas já turvavam minha visão.

— Eu vim de outro mundo. Eu… compartilho memórias dela, mas não sou ela. Um dia, acordei na floresta e o bracelete me encontrou.

— Outro… mundo? — a voz dela ficou mais suave pela primeira vez. A incredulidade e a dor se mesclavam em sua expressão.

Assenti, lutando contra o choro.

— O senhor Goty falou de… transplantados. Pessoas que surgem aqui sem explicação. Eu lembro de pedaços do meu mundo, nada inteiro. Mas eu juro, Rien… eu nunca quis enganar ninguém.

Ela fechou os olhos, respirando fundo, como se buscasse forças para absorver aquilo. Quando os abriu, lágrimas brilhavam em seus cílios.

— E… a Liz? — sua voz fraquejou. — O que aconteceu com ela?

Meu coração se partiu.

— Eu não sei. Queria poder responder.

Ela respirou fundo, mas a desconfiança voltou a brilhar.

— Qual a sua ligação com o príncipe Eryon?

Engoli seco.

— Ele me ajudou quando precisei ir a Umbra-Nor. Confiou em mim quando ninguém mais confiaria. Não sei por que… mas perto dele eu sinto que não estou sozinha.

Ela me estudou em silêncio, como se buscasse a verdade por trás das minhas palavras. Eu continuei, num desabafo quase desesperado:

— Rien, eu só quero que a verdadeira Aurelis volte. Eu estou tentando entender, tentando sobreviver… não vim para roubar nada, nem ninguém.

Seus olhos se encheram de lágrimas. A dureza vacilou por um instante, e sua voz saiu em um sussurro trêmulo:

— Eu amava aquela garota. Ela era minha família.

Minhas lágrimas romperam de vez.

— Eu também a quero de volta. Se eu pudesse… eu trocaria de lugar.

Ela respirou fundo, engolindo a emoção e então, firme, declarou:

— Eu vou te ajudar. Mas não por você. Pela Liz. Se houver uma chance de trazê-la de volta, eu não vou descansar.

Meu peito se encheu de gratidão e dor. Eu desabei em lágrimas, e foi então que ela me puxou para um abraço forte, quase desesperado. Choramos juntas, duas almas perdidas, sob a luz vacilante das lanternas. E no silêncio que seguiu, juro que ouvi o farfalhar suspeito de galhos ao redor. Alguém teria escutado?

***

O peso daquela conversa me acompanhou até o quarto. Não vi mais o príncipe Eryon para me despedir. Subi antes, ansiando apenas pela solidão. Quando mergulhei na água quente da banheira, deixei que ela aliviasse o corpo cansado, mas minha mente continuava em turbilhão.

O bracelete estava silencioso, inerte.

— Rosa… quem sou eu? Onde está a verdadeira Aurelis? — perguntei ao vazio, mas recebi apenas o silêncio como resposta.

Passei os dedos sobre a rosa incrustada no metal, e estremeci ao lembrar do toque de Eryon. Sacudi a cabeça, aflita.

— Não… não posso pensar nisso. — sussurrei. — Preciso encontrar a Aurelis verdadeira. Preciso voltar ao meu mundo. Não há espaço para… isso.

Meus pensamentos ainda estavam confusos quando terminei o banho e fui para a cama. Minutos depois, Alarien entrou também em silêncio, até que sua voz rompeu a escuridão.

— Como é o seu nome? — ela perguntou, quase num sussurro.

— Não sei. — respondi baixo.

— Vocês chamam Aurelis de Liz… então peguei o nome emprestado. Para mim, ela é a Liz.

— Faz sentido. — murmurou, pensativa.

Ficamos um tempo em silêncio, até que ela voltou a perguntar:

— Você tem todas as memórias dela?

— Fragmentos. Não tudo.

Ela soltou um suspiro.

— Eu percebi. A Liz era canhota. Você luta com a mão direita.

Pisquei, surpresa.

— Eu… não sabia disso.

— Existe muita diferença entre nós duas? — Eu engoli seco.

— O olhar lembra muito da Liz, a intensidade e profundidade. A Liz era mais introspectiva, calada com desconhecidos e tagarela com pessoas próximas. Ela sorria sem mostrar os dentes.

— Eu sou um pouco exagerada então? — Eu a perguntei. A minha memória era sempre observando as pessoas ao redor da Liz, mas nunca observando ela. Então era difícil saber.

— Eu diria que você é mais confiante, sorri mostrando mais os dentes e é bem habilidosa na luta. — Ela concluiu.

— Acho que sou só boa na luta graças a Liz e a Espada Rosa. Sem elas, não poderia ser tão boa.— Fui sincera.

— O que o Sr. Goty disse sobre transplantado? — Ela me perguntou curiosa. Eu pensei que se houvesse algum momento que a Alarien poderia ter me entregado ao príncipe, ela já teria feito e não estaríamos tendo essa conversa. Eu senti que poderia confiar nela.

— Ele disse que pessoas que surgiram aqui nesse mundo com uma nova memória e novo corpo. Mas que não tem mais informações. — Eu conclui.

— Sobre a profecia da Espada Rosa. É possível que a Liz esteja.... morta? —Ela foi bem realista nessa pergunta. Eu já havia pensado nessa possibilidade, um corpo sem uma alma. Será que entrei naquele corpo, ela havia morrido? Era uma possibilidade bem racional.

— Eu... não sei. Mas é uma possibilidade também. Mas... se fosse assim, eu não teria memórias.

—Verdade. Faz sentido. —Rien suspirou.

—O Sr.Goty me disse que a Espada da Rosa é uma ponte entre os mundos, tempos e almas que se perdem e se reencontram. E parece que uma parte da profecia é de conhecimento dos Elfos.

— Eu cresci no reino Luminara, então desconheço pouco da profecia. Mas acho que entendo você estar aqui nessa missão.— A Rien era bem inteligente e sagaz.

— Amanhã o que acha de ir na biblioteca deles? — Ela sugeriu.

— Mas e o príncipe? — Eu a perguntei.

— Eu dou um jeito e te dou cobertura. Na biblioteca deles, acho que você vai encontrar mais respostas.

— Tem certeza? Não quero te envolver em problemas.

— Claro que não. Acho que vai ser muito útil.

— Vai sim, muito obrigada Alarien. — Eu suspirei quase aliviada.

— Não vai achando que é de graça, depois eu vou cobrar. — Ela tentou ser mais ríspida.

— Boa noite Aurelis.

— Boa noite Alarien, obrigada.

Talvez o destino fosse realmente feito de encontros inevitáveis, mas naquela noite, eu entendi que também era feito de escolhas e de mãos firmes que nos sustentam quando tudo dentro de nós parece vacilar. De alguma maneira eu me sentia aliviada, como se eu pudesse ser apenas eu e não uma imitação da Liz. Talvez fosse assim que eu me sentia com o Eryon.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.