O Despertar da Rosa Branca
2 Memórias Confusas
— Aurelis?
Era uma voz grave e familiar. De quem seria...? Aos poucos, a imagem de um homem começou a se formar em minha mente. A voz ainda soava distante, mas eu respondi.
— Aqui! — gritei, elevando a voz. Os passos se aproximaram lentamente, e mesmo sem a rosa iluminando o caminho, eu conseguia ver a floresta sob a luz das duas luas.
— Você está bem? O que aconteceu com seu cabelo?
Thereon Valrik
O nome dele surgiu em meus pensamentos, quase como um sussurro da antiga Aurelis. Ele se aproximou, com um semblante desconfiado. Segurei meus cabelos, que estavam metade presos e metade soltos, e olhei para os fios, agora quase brancos.
— Liz... o que aconteceu? — A voz dele soou mais doce e familiar.
— Eu... não sei. Acordei aqui e... — Naquele momento, como um impulso, a rosa parecia me impedir de falar mais. Minha garganta se fechou, e eu não consegui pronunciar mais nada. Continuava confusa.
— Você se machucou? — Ele colocou a mão em meu ombro, observando a armadura que parecia intacta, e eu não sentia dor. Seu olhar estava preocupado. Ele era um pouco mais alto que eu; minha testa chegava ao seu queixo. Seus cabelos eram escuros, caindo até os ombros, e seus olhos, amendoados. Depois que a rosa se transformou em bracelete, parecia que tudo em meu corpo havia sido restaurado. Uma espécie de magia de cura?
— Estou bem — respondi, ainda confusa.
Quem era ele, Liz? Thereon Valrik. Senti um aperto dentro de mim, como se o corpo dela estivesse acostumado a essa sensação provocada por ele. Quais sentimentos ela nutria por ele? Algumas memórias surgiram enquanto caminhávamos pela floresta em direção ao cavalo, e montávamos juntos. O silêncio reinou durante o retorno, enquanto eu permanecia perdida em tantas recordações.
Ele era alguém que ela conhecia desde a infância. Sabia que Aurelis pertencia a um dos exércitos de Luminara. O reino era vasto, com quatro cavaleiros principais, e Thereon era um dos capitães. Nesse universo, onde a magia dominava, não havia muitas distinções entre homens e mulheres; ambos eram avaliados por suas habilidades. Aurelis era extremamente habilidosa. Uma imagem dela lutando em um campo florido com um homem mais velho me trouxe um sentimento de saudade. Seria ele o pai de Liz?
— Aurelis... você realmente está bem? Sua cabeça não está doendo? — Thereon interrompeu o silêncio.
— Estou sim... Não sei muito bem o que aconteceu. Estou confusa e meu cabelo ficou assim. — Preferi não mencionar a espada e a rosa branca. Havia uma sensação dentro de mim de que aquele não era o momento certo para falar; a rosa se revelaria quando fosse necessário.
— Também não faço ideia. Vamos conversar com Goty sobre isso amanhã.
— Tudo bem... Quanto tempo fiquei desaparecida? Lembro de estar lutando com vocês contra aquela besta mágica e depois acordei na floresta.
— Você ficou dois dias — ele respondeu.
— O quê? — Olhei para ele, surpresa. Para mim, havia se passado apenas uns 10 a 30 minutos, no máximo. Estava sentada à sua frente, com as pernas pendendo ao lado do cavalo. Thereon me olhou, um pouco surpreso pela minha reação.
— Não sabe o que aconteceu nesse tempo? — ele perguntou.
— Eu... acho que bati a cabeça. Estou um pouco confusa e meus pensamentos estão embaralhados. — Levei minha mão esquerda à lateral do meu rosto, e foi então que senti a ponta dos dedos dele tocando meu rosto direito e subindo para minha cabeça, como se estivesse procurando vestígios de machucados ou sangue. Naquele momento, senti um choque elétrico.
Ah... Liz estava apaixonada por ele. Tudo fazia sentido agora. Mas... e ele? O meu eu atual não achava nada de especial; para mim, ele não era nem um pouco atraente. Thereon era um jovem bonito, com uma personalidade expansiva e alegre, mas não se comparava à beleza de Aurelis. Era a sensação que eu tinha dentro de mim. Talvez, ao chegar em casa, eu pudesse avaliar melhor o rosto que surgia em minhas memórias.
— Kaelin está bem preocupado com você.
Demorei um pouco para responder, pois, apesar de uma parte de mim não entender nada do que estava acontecendo ou de quem eram essas pessoas, eu conhecia muito e sabia quem era. Os pais de Aurelis faleceram quando ela era bem pequena, talvez com uns 6 a 8 anos. Seu tio Kaelin, irmão de sua mãe, a criou.
— Estamos chegando? — perguntei, um pouco impaciente. Ele me olhou surpreso, continuou olhando para frente, mais sério, e apenas balançou a cabeça, afirmando que estávamos próximos.
Quanto mais eu me esforçava, mais as lembranças de Aurelis surgiam em minha mente. Sabia que meu nome não era Aurelis, que aquela não era minha vida e que eu não pertencia àquele universo. A magia, as criaturas mágicas, tudo aquilo era real naquele mundo, mas não no meu. Olhei para o bracelete prateado em meu punho, e novamente a imagem da rosa e da espada apareceu em minha memória.
Rosa... você me deu uma paz indescritível. Mas estou com medo e muito confusa. É como se não adiantasse perguntar um milhão de coisas; não havia respostas naquele momento. Mas, Rosa, por favor, me guie até essas respostas.
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