Como em todo reino, existem diferenças de classes e problemáticas enfrentadas, e este não é diferente. É um mundo onde os ricos ficam mais ricos e os pobres, mais pobres. Talvez o verdadeiro poder aqui não resida apenas no dinheiro, mas sim na influência. Quanto mais poder você obtiver por meio da magia ou do conhecimento, mais rico você se torna. Além disso, a linhagem é algo extremamente importante o sangue conta.

Ou seja, se você fosse alguém simples de um vilarejo, não seria ninguém. Isso revolta Liz e, de certa forma, me incomoda também. Afinal, ela veio de uma família simples, não é nobre. Tudo o que conquistou foi pelo esforço e talento. Às vezes, sinto-me uma impostora usufruindo das habilidades que ela construiu ao longo dos anos. Posso sentir os calos das mãos de Liz, resultado de tantos treinos com a espada. Ela era uma menina especial. E agora, aos 19 anos, sou eu quem está usurpando essa força dela.

— Você não escolheu estar aqui — aquela voz era familiar. Rosa falou enquanto eu cavalgava em direção à capital.

— Você tem razão, Rosa. Mas não deixa de ser injusto, não acha? Imagino que Liz ficaria feliz em ter uma espada como essa...

— Mas ela não tem... — Rosa mal concluiu, e uma ardência forte tomou conta do meu pulso, como se fosse um aviso de que algo perigoso estava se aproximando. Ainda faltava cerca de uma hora para chegar à capital, e eu estava a caminho de um vilarejo maior que o meu. Vi algumas criaturas mágicas atacando o vilarejo, espalhando fogo e terror. Crianças e mães corriam desesperadas. Desci do meu cavalo, e a espada apareceu em minha mão. Comecei a lutar contra as figuras mágicas. Algumas eram fracas, outras mais fortes. Foi então que vi uma sombra atrás de uma criança. Corri tão rápido que, em segundos, senti a espada cortando a criatura que ameaçava o garoto.

— Você está bem? — perguntei enquanto o garotinho, assustado, abraçava minha perna. Eu o segurei e continuei correndo até encontrar uma mulher para entregá-lo, enquanto continuava a lutar. Eu havia perdido a conta de quantas criaturas enfrentei, até que vi um cavaleiro imponente com o emblema do Reino Umbra-Nor.

— Guerreira do Reino Luminara, este é um aviso. Se eles não cumprirem o acordo, iremos destruir a capital.

— O que vocês querem? — perguntei, tentando recuperar o fôlego.

— Apenas informe ao rei. Ele saberá.

Antes que eu pudesse fazer mais perguntas, o cavaleiro e seu pequeno exército partiram. Não consegui ver seu rosto, apenas um amontoado de armaduras. Assim que a situação na cidade se acalmou, caminhei até um pequeno grupo reunido. Não era apenas eu que estava lutando ali, havia alguns homens da cidade armados para combater as criaturas mágicas.

— Muito obrigada, guerreira. Estávamos cansados, eram muitos — respondeu um jovem do vilarejo.

— O que aconteceu? — perguntei ao pequeno grupo.

— O cavaleiro do Reino Umbra-Nor chegou aqui e, junto com um mago, começou a invocar aquelas criaturas mágicas. Eles perguntaram se havia alguém do exército aqui, mas não havia ninguém.

— Ele queria mandar um recado, mas, infelizmente, quem sofre com as consequências da capital somos nós — respondeu um dos homens.

Entendi que havia pessoas dentro do próprio Reino que não concordavam com a forma como as coisas estavam acontecendo ultimamente. Na verdade, o reino que antes era o mais pacífico deste universo tem se mantido em muitos conflitos, e quem acaba sofrendo no meio disso tudo é a população. Não poderia discordar.

— Muito obrigada, princesa da espada — o menininho correu para me abraçar novamente. Ver seu sorriso, junto com o da mãe, fez meu coração se aquecer. Era por isso que você era tão dedicada, Liz? Para garantir que visse esses olhos e sorrisos das pessoas, livres do medo e do perigo?

Antes de partir para a capital, a mãe do garotinho fez questão de me preparar uma refeição deliciosa, e aproveitei para tomar banho e trocar de roupa. A espada já havia se transformado em um bracelete novamente.

— Seus olhos ficaram muito bonitos— o menino sorriu.

— Meus olhos mudaram de cor? — perguntei ao meniniho.

— Sim... estavam com a cor de ouro e brilhando — ele respondeu, radiante.

Será que era o reflexo da magia da espada? Ela era tão poderosa ao ponto de ter mudado a cor do meu cabelo e ainda continuar refletindo nos meus olhos durante o uso? As coisas estavam começando a complicar mais do que eu imaginava. Após me despedir da cidade, continuei meu caminho em direção à capital.

— O que aconteceu? — Thereon me perguntou assim que comecei a caminhar pelo palácio em busca da sala do exército.

— Eu estava indo agora falar com o comandante Robert Obryan.

Assim que cheguei à sala do comandante de todo o exército de Luminara, Thereon continuou ao meu lado para ouvir. Contei exatamente o que tinha acontecido e o "recado" do cavaleiro do Reino Umbra-Nor.

— Irei reportar isso à Vossa Majestade — o comandante me respondeu.

— Fico feliz que esteja bem, Srta. Lirae.

— Agradeço, Sr. Obryan.

— O que a traz à capital? Soube pelo Sr. Valrik que você retornará às suas atividades na próxima semana — o comandante me perguntou.

— Sim, senhor. Estou aqui no palácio para ver o Sr. Goty.

— Ah, sim. Imagino que deve ter sido pelo incidente — ele sorriu discretamente.

— Sr. Valrik, acompanhe a Srta. Lirae até a sala do Sr. Goty, por favor.

Eu e Thereon continuamos andando pelo castelo. Confesso que estava um pouco cansada. Não era pelo esforço físico, mas tinha certeza de que aquela espada tirava alguma vitalidade minha.

— Você está bem? Foi seu primeiro combate depois do incidente, e já vai fazer duas semanas — ele afirmou.

— Sim, sim. Estou bem. Só preciso voltar a treinar novamente — sorri enquanto caminhávamos.

— Espero que você encontre as respostas que procura com o Sr. Goty — ele suspirou.

— Eu também espero. — Assim que respondi, paramos em frente a uma porta enorme e muito bonita. A arquitetura lembrava os castelos medievais, mas com um toque de magia. Coloquei a mão na porta, conforme instruído por Thereon, e ela se abriu magicamente, como se fosse um encantamento.