O Despertar da Rosa Branca
5 Segredos entre livros e Magia
Assim que a porta se abriu, pude adentrar a biblioteca mágica do Sr. Goty. Era iluminada e repleta de livros do chão ao teto, com inúmeras prateleiras dispostas em seu interior. As janelas enormes ofereciam vista para a área externa do castelo, mas o que mais me impressionou foi uma pequena cachoeira no centro da biblioteca como se uma minifloresta tivesse sido inserida naquele ambiente repleto de livros.
— Srta. Aurelis — chamou uma voz suave. Um senhor baixinho, vestido com uma túnica clara de linho, pronunciou meu nome esboçando um sorriso. Era careca e usava óculos redondos. Percebi que Thareon já não estava mais comigo.
— Estava ansioso para vê-la — disse ele enquanto eu me aproximava da mesa, onde fez questão de que eu me sentasse.
— Aceitaria um chá? — perguntou gentilmente.
— Aceito, sim. Obrigada, Sr. Goty — respondi, sentando-me.
— Também estava ansiosa para falar com o senhor.
Algo naquela sala era diferente. A magia era tão intensa que, de repente, a espada apareceu sozinha em meu punho. Era como se a Rosa quisesse se revelar antes mesmo que eu pudesse explicar qualquer coisa.
— Como eu havia imaginado. Posso ver mais de perto? — ele disse, ajustando os óculos enquanto se aproximava, examinando a espada e o bracelete com atenção aos mínimos detalhes. Observou também meus cabelos e fixou os olhos nos meus.
— Muito interessante — murmurou com empolgação. Eu, por outro lado, permanecia assustada. Ao olhar para trás, vi as xícaras flutuando em direção à mesa.
— Eu a encontrei na floresta. Ela falou meu nome e, desde então, tem me emprestado seus poderes — Tentei ser o mais breve possível.
— Muito interessante, Srta. Aurelis. E quem mais viu você assim?
— O pessoal do vilarejo viu a espada hoje — respondi com firmeza.
— Vai ser impossível esconder isso daqui em diante. Mas você vai precisar de treinamento para controlar o poder da Rosa — concluiu.
Enquanto falava, tomei o chá e, instantaneamente, senti minha vitalidade voltar por completo. Tinha um toque floral suave, como jasmim recém-aberto, mas com uma profundidade misteriosa, semelhante ao cheiro da terra molhada depois da chuva como se carregasse memórias do orvalho em florestas encantadas.
Havia também um leve traço adocicado, mas não enjoativo algo entre a baunilha selvagem e o néctar de frutas prateadas, com um fundo levemente mentolado, que refrescava os sentidos ao mesmo tempo que aquecia o peito. Ao inspirar, sentia-se uma calma imediata, como se o próprio tempo abrandasse por alguns segundos. Era o tipo de aroma que fazia o coração desacelerar, os pensamentos silenciarem, e a magia do corpo começar a se recompor em silêncio.
— O que é isso? — perguntei surpresa.
— Que bom que funcionou — ele respondeu, satisfeito. Eu começava a ficar impaciente por ele entender tudo, enquanto eu mal compreendia o que estava acontecendo.
— Srta. Aurelis, esse é um chá de flor de lua. A magia consome muita energia e vitalidade. Esse chá ajuda a restaurá-las.
— Como posso conseguir mais? Terei que tomá-lo todos os dias? — perguntei, sentindo o calor do chá percorrer meu corpo.
— Posso lhe dar algumas flores, mas o ideal é comprá-las no mercado do Reino Umbra-Nor. Lá você encontrará uma grande variedade com preços acessíveis — respondeu, entusiasmado.
— Você não precisa tomá-lo todos os dias em grande quantidade, mas, nas lutas, ao menos uma xícara será essencial — completou.
— Estou confusa com o que aconteceu na floresta. O senhor sabe algo sobre a Espada da Rosa Branca? — fui direta.
— Oh, claro, Srta. Aurelis. Nosso reino é cheio de profecias. A Espada da Rosa Branca não é comum, mas ela existe. É mencionada em uma antiga profecia, bastante popular na época dos avós do príncipe Johan, o atual príncipe de Luminara.
— A profecia fala de um guerreiro que despertaria a Espada da Rosa Branca e estaria ligado à Guerra do Caos. Diz ainda que o mundo entrará em colapso, e esse guerreiro, com a alma dividida entre os mundos, despertará.
— Você não é a verdadeira Aurelis Lirae, é? — ele foi tão direto que arregalei os olhos. Um arrepio percorreu minha espinha, e um frio tomou meu estômago. Como ele descobriu meu segredo tão rapidamente? Permaneci em silêncio.
— Fique tranquila, Srta. Aurelis. Seu segredo está seguro comigo. Você não é a primeira.
— Como assim? Não sou a primeira?
— Chamamos de transplantados. Pessoas que surgem aqui com uma nova memória em um novo corpo.
— Mas eu não me lembro de nada da minha antiga vida. E eu… — Tentei concluir
— Você se lembra de muitas coisas da Aurelis, não é? Mas não são memórias suas, verdadeiramente. -Ele me interrompeu.
— Sim… — concluí, ainda em choque com a revelação.
— Outros transplantados também apareceram nas profecias. Ainda não sabemos como isso ocorre, nem o que acontece com a vida anterior.
— Quer dizer que não sabem o que houve com a verdadeira Aurelis? — perguntei, mais incisiva.
— Exato. Não sabemos sobre o "eu" original. O lendário cavaleiro da montanha, que matou o dragão, também era um transplantado, segundo meu antigo mestre.
Antes que eu fizesse mais perguntas, o Sr. Goty mudou o tom.
— Srta. Aurelis, sabe que neste mundo a informação tem seu preço, não é?
— Sim, Sr. Goty. Sei como funcionam as coisas, tanto no meu mundo quanto neste. O que deseja em troca?
— Na verdade, tenho uma lista de especiarias que preciso do Reino Umbra-Nor — disse ele, sorrindo. Que velho astuto. Aproveitaria minha viagem para lá e traria tudo o que desejava.
— Você vai me pagar indo até lá e trazendo o que preciso, com discrição, claro. Tome esta quantia de moedas também — ele entregou uma bolsa. Apesar de parecer mercenário, ele não era. Eram apenas negócios.
— Certo. Só me diga uma coisa. Como posso controlar meu poder?
— Depois que trouxer os itens da lista, poderei lhe contar mais. Por enquanto, continue tomando o chá e pratique meditação.
— Não precisa ter medo, Srta. Aurelis. Você foi escolhida pela Rosa Branca. E ela é extremamente poderosa — disse, entregando a lista de ingredientes e a bolsa com moedas.
— Nos vemos em breve, Sr. Goty — despedi-me, agradecida pelas informações.
— Até logo, Srta. Aurelis — respondeu com um sorriso gentil enquanto eu caminhava até a saída da biblioteca.
Minha cabeça doía com tantas informações. Será que havia outras pessoas como eu nesse exato momento? Eu desejava que sim. Onde estaria a verdadeira Aurelis?
Fui interrompida em meus pensamentos enquanto caminhava, perdida, pelos corredores do palácio. O lugar era imenso. Vi algumas pessoas elegantemente trajadas seguindo por um caminho.
— Ah… hoje deve ser dia de baile — pensei alto, virando rapidamente para outra direção, acreditando ser o salão. No movimento brusco, acabei colidindo com alguém.
Ele era muito alto. Instintivamente, minhas mãos se apoiaram em seu peitoral. Senti um de seus braços envolver minha cintura, impedindo que eu caísse para trás.
— Me desculpe, eu… — comecei, mas ao levantar os olhos, meu corpo congelou. Seus olhos frios e escuros pareciam hipnotizantes. Uma cicatriz que ia da bochecha até o maxilar dava um ar ainda mais aterrorizante. Aquele rosto era conhecido. Causava medo em todos — e, estranhamente, em mim provocou algo diferente. Era como se a Rosa tivesse emitido uma descarga elétrica.
— O Sr. Eryon Thorne precisa passar — disse impaciente o guarda atrás dele.
— Está tudo bem, Liam. A moça não percebeu — ele respondeu com um sorriso discreto, quase indiferente.
Afastei-me rapidamente, me desculpando mais uma vez, e segui em direção oposta.
Eryon Thorne.
O futuro sucessor do Reino Umbra-Nor. Ouvi rumores de que havia sérios conflitos políticos entre ele e sua madrasta, a atual rainha Morwenna. Será que o cavaleiro estava a serviço dela… ou de Eryon?
Continuei caminhando até encontrar meu cavalo, mas uma única frase martelava em minha mente:
Eu era uma transplantada naquele mundo.
E não era a primeira.
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