O Despertar da Rosa Branca
9 A cabana da flor de lua
— Ninguém entra no setor das flores sem a permissão da guarda real — afirmou um guarda enquanto caminhávamos em direção à colina.
Gentilmente, retirei o capuz deixando meus cabelos à mostra. Foi então que percebi Eryon dando um passo à frente e também tirando o capuz que ocultava seu rosto.
— Sr. Eryon, claro...
— Ela está comigo — respondeu Eryon e os guardas nos deixaram passar. Seguimos por um trecho da floresta que precisávamos atravessar para alcançar a estufa, onde várias espécies de flores eram cultivadas, incluindo a flor de lua.
Caminhávamos lado a lado em silêncio. Não era um silêncio incômodo era curioso sentir-me tão à vontade assim com um estranho. Tive um breve vislumbre do meu eu antigo, lembrando-me das manhãs silenciosas que passava com minha mãe durante o café da manhã. Contudo, não conseguia recordar seu rosto, apenas a saudade. Como pode existir um sentimento tão complexo?
— No que está pensando? — ele interrompeu o silêncio.
— Apesar de ser mais frio, seu reino tem um céu muito bonito. Três luas? Nunca vi isso — comentei e isso fez com que ele sorrisse novamente.
— Eu acho uma das noites mais bonitas de todos os reinos.
— Você tem razão — continuei caminhando ao seu lado.
— É uma estrada tão longa até a estufa de flores? — perguntei.
— Está entediada com a minha presença? — Ele virou o rosto, sorrindo de forma sarcástica.
— É que estou ocupando o tempo de um príncipe. Não quero ser presa por isso — respondi, soltando um sorriso irônico.
— Desculpe por aquilo — ele respondeu, mudando completamente a expressão e tornando-se sério e distante.
— Não tem problema. Eu também interpretaria daquela forma.
Assim que virei o rosto para ele, notei uma névoa densa se formando ao nosso redor. Era uma... fera mágica? Uma enorme serpente lilás surgiu do chão em milésimos de segundo, tão rápida que eu não consegui identificar o perigo. Naquele momento, perdi de vista Eryon. Segurei a espada e comecei a lutar contra a serpente. Após algum tempo, percebi Eryon caído no chão.
— ERYON! — gritei ao notar que ele estava inconsciente. A serpente estava atrás dele, mas agora havia me encontrado e desta vez eu não cederia. Lutei contra a serpente por um tempo, mas a cada golpe que desferia parecia que ela se regenerava rapidamente.
— Você está bem? — gritei enquanto ele se levantava e pegava a espada em direção à serpente. Nossa batalha conjunta durou mais alguns minutos e após vários golpes, conseguimos atingir o núcleo dela, localizado atrás da cabeça e a derrotamos. Assim que a ferimos, a serpente simplesmente explodiu, como se seu corpo não fosse real. A pedra do núcleo caiu no chão.
— Alguém quer te matar — disse, entregando o núcleo a ele, ainda ofegante. Ele continuou me olhando fixamente antes de voltar a olhar para a espada.
— Meus olhos estão brilhando agora, não estão? — perguntei e ele apenas confirmou com a cabeça.
— É o poder da espada Rosa. — Aos poucos, fui me acalmando e respirando para concentrar a magia da espada. Consegui transformar a Rosa em um bracelete novamente.
Não consegui dizer mais nada senti como se alguém tivesse apertado o botão de desligar em mim. Apaguei naquele momento e a última coisa que me lembro foi uma voz distante me chamando:
— Aurelis...
Aquele cheiro novo e ao mesmo tempo familiar foi se intensificando até eu sentir um gosto um pouco amargo. Aos poucos, meus sentidos foram voltando. Era como se aquela flor tivesse um efeito mágico em mim, permitindo que minhas forças retornassem gradualmente. Era um pouco mais fraco do que o chá, talvez porque o chá fosse mais concentrado. Abri os olhos e o vi ali, ajoelhado, segurando a metade do meu corpo em seus braços enquanto colocava a flor em meus lábios. Será que ele... estava bem também?
— Aurelis...
— Eryon... — respondi enquanto mastigava a flor.
— Ainda bem que funcionou. — Ele sorriu, um pouco aliviado, embora sua expressão indicasse cansaço e que ele havia se machucado bastante.
— Mastigue um pouco também — afirmei.
— Sim, Srta. — Ele sorriu, ainda aliviado, e aos poucos fui recuperando as forças, levantando-me do chão com a ajuda dele.
— Você machucou a perna — constatei.
— Eu lamento, não consegui te carregar — ele falou, um tanto frustrado, enquanto caminhávamos em direção à estufa.
— Poxa, eu realmente queria ser carregada por um príncipe. Logo eu... uma princesa que não sabe usar uma espada — comentei ironicamente, fazendo-o sorrir diante da nossa situação.
— Sr. Eryon... Srta.... vocês estão bem? — Um dos senhores que trabalhava na estufa correu em nossa direção.
— Sim, Jones, estamos bem agora. Ela se chama Srta. Aurelis e me salvou da fera mágica. Era uma serpente muito forte.
— Sr. Eryon, eu lhe avisei para ter cuidado. O reino está muito instável e... — Ele ia concluir, mas preferiu permanecer calado na minha presença. Pegou uma cadeira para acomodar Eryon. Graças ao Sr. Jones e seu conhecimento em plantas, preparou uma poção que nós dois tomamos e colocou uma pasta de folhas (espécie de remédio natural) na perna dele.
— Muito obrigada. — Eu o agradeci.
— Jones, nós vamos dormir aqui na cabana hoje. Acredito que até amanhã a perna já estará melhor, não é?
— Sim, Sr. Eryos. A srta...
— Ela ficará comigo — ele respondeu rapidamente.
— Ok, Sr. Eryos, vou levar vocês lá e já trago algo para comer.
— Não se preocupe com nada elaborado, Jones — ele afirmou, levantando-se um pouco melhor.
Caminhamos em direção a uma pequena cabana, muito simples por fora, mas por dentro achei mais espaçosa que minha própria casa. Ao abrir a pesada porta de madeira, uma brisa suave tocou meu rosto, e o aroma acolhedor da madeira queimada na lareira invadiu minhas narinas. O quarto era iluminado por uma luz suave de velas, lançando sombras dançantes nas paredes de pedra. À esquerda, havia uma cama grande com cortinas de tecido fino, e uma mesa robusta de madeira antiga repleta de pergaminhos e canetas. Alguns documentos estavam espalhados.
— Aqui é seu esconderijo? — perguntei enquanto entrávamos e observava cada detalhe.
— Sim — ele respondeu com um breve sorriso.
— O banheiro é logo ali no lado direito. Fique à vontade. Tem algumas loções que o Jones prepara lá. E há roupas limpas também.
— Muito obrigada, Vossa Majestade — fui um pouco irônica, e isso deixou o clima mais leve. O banheiro era lindo, com janelas grandes, embora com vidros turvos que davam para o mato. Havia uma grande banheira de madeira, pilhas de toalhas limpas e algumas loções para lavar o corpo. Assim que terminei o banho, notei alguns roxos na minha perna, provavelmente causados pela serpente. Ela era ágil e pesada. Como eu estava sem a armadura, meu corpo sofreu um pouco mais com o impacto, assim como o dele.
Depois de tomar banho, vesti um blusão grande e preto. Meus cabelos ainda estavam molhados, mas sequei-os bem com a toalha. Ao entrar no quarto, senti o calor aumentar, aquecido pela lareira. Olhei para Eryon, que fez uma expressão estranha, como se estivesse um pouco sem graça. Ele caminhou até o banheiro, e logo ouvi batidas na porta.
— Sr. Eryon...
— Olá, Sr. Jones — abri a porta, permitindo sua entrada.
— Srta... — Ele olhou para minha roupa, parecendo envergonhado.
— Desculpe minha falta de educação. — Peguei minha capa e a coloquei cobrindo mais meu corpo.
— Srta... trouxe algumas coisas para vocês comerem.
— Muito obrigada, foi muito gentil, Jones.
— Eu trouxe um chá de flor da lua, como o Sr. pediu.
— Nossa, isso vai me recuperar bastante. Muito obrigada.
— Srta... o que aconteceu? — Jones estava atento. Compartilhei poucas coisas sobre o ataque da serpente no caminho.
— Então você veio buscar a flor da lua aqui e o Sr. Eryon estava vindo buscar?
— Isso. Eu ajudei ele com algumas tarefas na cidade. Foi uma troca de favor — sorri gentilmente.
— Ah, faz sentido agora. Ele nunca trouxe ninguém aqui — Jones disse, sorrindo enquanto se afastava pela porta, como se sentisse que o Sr. Eryon sairia do banheiro a qualquer momento.
— Boa noite, Srta. No que precisar, estarei aqui. — Jones fechou a porta de forma muito educada. Ele era um senhor na faixa dos 60 anos, mas parecia viver tranquilo e feliz naquela floresta com a estufa. A porção que ele fez me ajudou bastante, mas nada se comparava ao chá de flor da lua. Dei um gole profundo enquanto sentia seu leve toque de baunilha.
— Jones trouxe algumas coisas para comer — falei quando percebi que ele havia saído do banheiro. Sem conversarmos muito, consumimos algumas frutas e coisas leves. Após o chá, observei o quarto e caminhei até a cama. Apesar de ser uma cama de casal, era bem grande. A convivência com muitos homens e a vida no exército às vezes me faziam esquecer que eu ainda era uma mulher. Eu tinha esse sentimento muito forte por causa da Liz.
— Onde você vai dormir? — perguntei, vendo Eryon pegar o travesseiro e colocá-lo perto da lareira.
— Desculpe... eu não consigo dormir sabendo que sua perna está ferida e você está no chão. — Ele tentou ser durão, mas fez isso de forma parecida com uma criança de castigo, voltando a colocar o travesseiro na cama. Já estava deitada, coberta, pois fazia muito frio.
— Convivo com muitos homens no exército, Sr. Eryon.
— Eles são seus colegas? — Ele virou-se, olhando-me e me provocando.
— Claro que são meus colegas. Jamais aconteceu nada com nenhum deles sempre foi tudo com respeito e...
— Srta. Aurelis, você está dividindo a sua cama com um homem e não com seu colega de exército. — Ele foi tão frio e direto que me fez estremecer. O fato era que eu nunca havia experimentado nada com relacionamentos. Nem na vida anterior, nem com a Liz. Era o nosso ponto em comum.
— Eu sei, Sr. Eryon. Só não consigo deixá-lo dormir machucado ali. Eu... posso dormir no chão. — Levantei-me para sair da cama e quando isso aconteceu, senti sua mão segurando meu braço, impedindo-me.
— Por favor, fique. Eu... não vou dormir tranquilo sabendo que você vai dormir no chão. — Ele parecia mais sereno e gentil.
— Tudo bem. — Sorri, um pouco sem graça, e retornei a me deitar. O que antes não era um problema, agora se tornara. Senti um frio percorrer meu corpo com o toque dele. O que era aquilo?
— Obrigada pela hospitalidade — encarei-o enquanto sorria.
— Obrigado por salvar minha vida hoje — ele devolveu o sorriso, virando-se de costas para mim e se preparando para dormir.
O que foi aquilo? Meu corpo sentia calafrios ainda estava com o bracelete estranho quente. Meus olhos foram ficando pesados e adormeci com essa frase da vidente :
O que unirá vocês será suave como brisa… e cortante como lâmina.
Cuidem-se.
Pois até flores podem sangrar.
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