AINDA ANTES

— Você tem certeza disso? — Pergunto novamente para Noah — É uma tatuagem. Elas, você sabe, são para sempre.

— E nós não somos?

— Sim — respondo sem hesitar —, mas ela estará aí junto com as suas pelancas daqui uns cinquenta anos, e você poderá estar com miopia e outros tipos de problemas de visão a essa altura, mas ainda assim verá minha assinatura na sua pele flácida.

Noah ri.

— Sinceramente, eu poderia tatuar seu nome na minha bunda, um lugar que vai cair bem mais que qualquer outro, que eu não me importaria com nada.

Bufo para sua auto-confiança.

— A sua bunda não será o lugar que mais vai cair do seu corpo —acrescento.

— Ah, não?

— Não mesmo. A gravidade já vai prejudicar o que estava em pé, imagine só quanto ao que sempre fora caído.

— Mara Shaw, você está se referindo ao que eu acho que você está se referindo?

— Com certeza — aponto para a placa em que a palavra TATTOO está escrita em letras caprichosas e coloridas. — Chegamos.

Noah me sorri antes de abrir a porta e entrar. Depois, ele me sorri ainda mais.

Deve ser porque antes eu dissera que esperava que o tatuador fosse gato.

Deve ser porque agora descobrimos que o tatuador é uma mulher. Uma tatuadora. Bem bonita, por sinal.

Ótimo.

Ela se levanta da cadeira e nos olha, como se nos inspecionando. Faço o mesmo com ela, absorvendo desde seus cabelos loiros curtos e sua franja estilosa à ponta de suas botas de couro. Seus olhos azul-bebê encaram Noah por um segundo e me observam em seguida pelo triplo disso.

Acho estranho seu interesse em mim.

Noah acha estranho o interesse dela em mim.

Dou de ombros e trabalho com o pensamento que pode ser descrito com seis letras, um hífen e uma sensação gloriosa: dane-se.

— Meu nome é Ania — ela nos sorri e olha para mim ao perguntar —, você vai querer que tipo de tatuagem?

Franzo os lábios, reprimindo um sorriso. Ela está, claramente, dando em cima de mim.

Eu vou fazer a tatuagem — Noah informa.

— Ah — ela ficou decepcionada, como se o pretexto para tocar a Noah fosse menos atraente que me tocar. — Você sabe que desenho vai querer?

— Estou aqui com ele — colocando a mão no bolso, ele saca o papel vegetal. Quando Noah entrega o papel para a Ania, ela o observa profusamente, o que me dá um momento para observá-la também. Ela tem a imagem que eu vejo ao imaginar uma viking — poderosa, altiva, atraente. Sua pele clara contrasta com o azul de seus olhos, seus cabelos grandes e loiros e livres como ela deve ser. Ela me pega observando e pisca para mim antes de voltar a Noah.

— Você quer manter esta letra? — até o sotaque dela soa atraente em meus ouvidos.

Noah olha para mim antes de respondê-la.

— Sim.

— Tudo bem — ela prende a selva de cachos loiros em um coque desarrumado, aquele tipo de coque que eu não conseguiria fazer nem nascendo mil vezes —, vou preparar os equipamentos. Posso servir alguma coisa para vocês?

— Você tem café? — Pergunto, almejando e temendo o que a cafeína poderia fazer ao meu sistema nervoso, mas solicitando-a mesmo assim.

— Nós temos vodka — Ania sorri com pesar, como se pedindo desculpas.

— O que mais além da vodka? — Quero caçoar de Noah, evidenciando sua vontade de tomar alguma coisa, como se o medo tivesse secado a garganta dele.

— Água.

Vodka e água. A água não me relaxaria. Já a vodka...

— Eu escolho vodka.

Noah me olha surpreso.

— Mara, você está na Rússia.

Olho-o apenas.

— As vodkas daqui são fortes — ele complementa, e posso ver em seus olhos a batalha entre rir e ficar sério que ele está perdendo.

— Ania, as vodkas daqui são fortes?

Ela desdenha com a mão.

— Não. Sempre tomei e nunca me aconteceu nada.

— Viu? Ela sempre tomou e nunca aconteceu nada — Repito para Noah.

— O nível de tolerância à bebida dela deve ser enorme. Aposto que os russos já nascem podendo tomar um litro de vodka sem sentirem o efeito.

Ania parece considerar a questão a sério por uns segundos.

— Há boatos mesmo.

— Viu, Mara? Boatos. Me diga um boato que não fora fundado numa verdade.

— Você tem razão. Todos os boatos foram fundados em uma verdade. E há boatos de que eu preciso de uma vodka.

Khoroshiy vybor* — Ania diz, batendo palmas —, irei buscá-la para vocês.

Quando ela nos dá as costas e se vira para ir embora, chego a pensar que nunca vi pernas mais longas em toda a minha vida.

— Por que você quer tanto essa vodka? — Noah questiona, seus olhos inquisitivos nos meus.

Sorrio amarelo.

— Porque deu vontade — eu faço soar como se fosse uma pergunta. Odeio quando eu faço afirmações soarem como perguntas.

Seus dedos se agarram em meu queixo com um toque de aço, indissolúvel; e, ao mesmo tempo, é um toque que me recompõe, que me tranquiliza, que me assegura sem proferir uma palavra.

O mundo seria um lugar melhor se alguma bebida tivesse o mesmo efeito que Noah tem.

— Conte. — Ele pede ordenando.

O que ele não me pede ordenando que eu não faço sorrindo?

— Estou com medo, ok? — A confissão sai quente de meus lábios, como se ela estivesse queimando meu esôfago e fosse me consumir em chamas se eu não a liberasse logo.

— Medo de quê?

— De não me controlar caso eu ouça você com dor.

Ele me olha inexpressivo, absorvendo o que eu dissera.

— Mara —

— Eu não sou a melhor pessoa do mundo com controle. Você sabe disso. Não quero arriscar essa deusa viking inocente para testar se evoluí alguma coisa nesses últimos anos.

— É por isso que você queria se distrair.

Não confirmo, entretanto também não nego.

— Eu não vou sentir dor nenhuma — Noah me consola —, mas sei um jeito de distrair nós dois.

— Um jeito? Que jeito? — Tento não soar tão desconfiada quanto estou.

Ele sorri de lado. Aquele maldito sorriso de lado.

Ouço Ania chegar antes de vê-la. Ela entrega dois copos para nós e nos serve com aquele líquido transparente que não parece um por cento tão assustador quanto dizem.

— Saúde — Ania serve uma dose para ela e a vira num gargalho só.

Noah a olha surpreso e eu dou de ombros. Se ela consegue, eu consigo também.

Imito-a só para sentir o líquido castigar as paredes do meu estômago e enviar calor em bolas de fogo para meu peito. Fecho os olhos e gemo baixinho.

— Ela é durona — Ouço Ania dizer.

— Sim, ela é. Não é mesmo, Mara?

O calor da bebida começa a fazer seu efeito, me deixando lânguida e tranquila.

— Durona sim — ouço-me dizer —, durona quase sempre. Na maior parte das vezes. Menos agora.

Sinto-me quente por dentro.

— Menos agora? — Ania parece estar achando graça.

— É. Agora estou me sentindo como um marshmallow.

Noah sorri mais e beija a minha testa. Ele não parece ter tocado na dose dele.

— Vamos logo fazer essa tatuagem — Ele diz enquanto me guia pela mão com Ania na dianteira. Entramos em uma sala colorida, as paredes cheias com papéis e esboços de desenhos.

— Foi você quem fez esses? — Pergunto a Ania, apontando para a infinidade de rabiscos.

Konechno — ela diz enquanto arruma o assento para que Noah pudesse sentar —, com certeza. Tatuar é a minha profissão, mas desenhar é a minha arte.

— Legal.

— Obrigada. — sentando na cadeira de frente para o assento, ela chama Noah — Deite-se.

Ele a obedece, mas não larga a minha mão. Tento dar algum espaço a ele, mas Noah me mantém perto.

— Esse não é o meio mais confortável de fazermos isso — Ania prevê o que Noah está tramando antes mesmo de mim.

— Não importa. Não iremos te atrapalhar.

Ela acena com a cabeça, autorizando, e Noah me deita sobre ele, apoiando minha cabeça em seu ombro direito. Concentro-me nas batidas de seu coração quando o zumbido da máquina nas mãos de Ania enche o cômodo e meus ouvidos. Conto cada respiração de Noah, seu peito subindo e descendo relaxando e me assegurando. Quando Ania passa a agulha repetitivas vezes em algum detalhe da tatuagem, sinto-o tensionar sob mim. Reparo que ela está sobre o osso, mas Noah nem pisca. Beijo seu ombro, a pele dele quente em meus lábios.

Ouço-o suspirar e onde outrora havia tensão, agora ele está relaxado.

Continuamos assim por alguns minutos, apenas focados um no outro, e não noto quando Ania desliga a máquina até que sua voz se contrapõe à nossa sintonia silenciosa.

Gotovy — Ania sorri para nós dois —, está pronta.

Ergo-me o suficiente para ficar sentada no colo de Noah. Ele acompanha o meu movimento e encaramo-nos de frente. Olho para sua clavícula e em cima da pele irritada, vejo minha assinatura em tinta preta. Não posso explicar o que sinto ao ver minha letra — o meu nome — marcado eternamente no corpo do homem que amo, mas é resplandecente. Toco o local levemente, sem querer feri-lo, e ele chia com o meu toque.

— Está ardendo?

— Um pouco, sim.

Aproximo-me da região irritada e assopro suavemente sobre a pele. Noah exclama seu alívio e se remexe abaixo de mim.

— Mara.

— Sim?

Ele se remexe novamente e seguro uma risada.

— Você está...

— Sim? — Pisco meus cílios rapida e inocentemente antes de voltar a soprar.

Sinto-o excitado antes mesmo de me dizer.

Ele limpa a garganta. Abre a boca. Fecha. Abre de novo.

— Você está me deixando excitado.

Beijo o local da tatuagem e sorrio para ele.

— Posso dizer o mesmo — ouço uma voz atrás de mim. Ania está observando-nos atentamente, o que me faz rir mais.

— Ficou linda — digo a ela —, obrigada.

— Eu que agradeço.

Fico meio aérea enquanto Noah faz o pagamento à Ania e ela nos passa o cartão dela.

— Para o caso de você querer fazer uma tatuagem futuramente, zamechatel'nyy.

Sorrio e aceno para ela em agradecimento.

Noah e eu saímos do estúdio de mãos dadas, a neve cobrindo o chão e refletindo a claridade do céu.

— Temos de cuidar disso aí — digo.

— Da tatuagem? Ania disse que tenho que lavar só daqui três horas.

— Não da tatuagem. Do seu amiguinho — indico sua excitação.

— Ah — Noah me observa e um sorriso maquiavélico surge em seu rosto —, então vamos logo pro hotel. Acho que nunca te vi tão corada assim antes.

— É porque nunca tomei vodka antes. E o que Ania disse antes de sairmos?

— Zamechatel'nyy? — ele repete o que Ania dissera.

— Isso mesmo.

Maravilhosa — ele diz —, ela te chamou de maravilhosa.

— Uau.

— Pois é.

Caminhamos por mais alguns quarteirões.

— O que faremos à seguir? — Pergunto.

— Vamos pro hotel. Vou tirar sua roupa. Vamos para a banheira. Depois pra cama. Ou vamos pra cama e depois pra banheira. Não importa a ordem.

— Não, bobo. Depois daqui, da Rússia.

Noah coça o queixo, pensando.

— Iremos pesquisar mais sobre esse homem que diz poder ir à outros mundos e aprender mais sobre pessoas como nós no processo. Acredito que o próximo passo seja a França.

Aceno, concordando.

— França. Bom. Mas, Noah... e se acharmos esse homem e ele puder nos levar para outros mundos?

Ele considera a pergunta por alguns segundos.

— Então nós iremos.

Não evito meu sorriso satisfeito de desabrochar.

— Perfeito — beijo sua bochecha. — Acho que quero fazer uma tatuagem.

Noah passa o braço por meus ombros.

— Uma tatuagem? Qual?

— Ainda não sei — confesso —, mas quando souber, farei.

— Ótimo. — abrindo a porta do quarto do hotel, ele diz — Chegamos.

— Hmmm... — passo os braços em seu pescoço —, o que faremos primeiro?

Noah me beija profundamente antes de me responder.

— Não sei. Não importa. — As mãos de Noah exploram minha pele por baixo da camiseta — Nós temos todo o tempo do mundo.

E eu concordei.

Eu concordava, na época.

Mas agora, com o sangue se espalhando por minhas roupas, os segundos tiquetaqueando em minha cabeça, cada milésimo deles podendo ser gasto para me salvar, para nos salvar, sendo esvaído de mim...

Não temos todo o tempo do mundo.

Não mais.

Tento ficar consciente por mim, por meu bebê, embora seja inútil. Assim como o tempo, minha consciência é tirada do meu alcance. Vejo um relance de David Shaw — um David Shaw ensaguentado com uma faca na mão, na minha frente — na escuridão.

E depois nada.

Nada.

*boa escolha.