MARA
MINHA GARGANTA ESTÁ SECA.
Meu corpo pesa uma tonelada; meus músculos estão rígidos e quase suspeito que estão atrofiados por falta de uso.
Minha cabeça está estranhamente vazia, contradizendo o peso morto que agora está pendurado no meu pescoço e apoiado em meu peito. Não consigo pensar, não de verdade — sempre que tento calcular um plano, arrumar uma maneira de fugir e até mesmo imaginar (para então concretizar) a morte de David, tudo se liquefaz como se nada tivesse ocorrido. Não sei quem culpar por minha desorientação: o próprio David, por invadir minha mente tantas vezes que não consigo formular um raciocínio completo antes de morrer na praia ou o choque.
Porque é claro que estou em choque.
O frio parece insuportável por debaixo de minha roupa molhada — se por sangue, lágrimas e todas as secreções imagináveis, eu não sei. Lembro-me de ter vomitado algumas vezes. Lembro-me de ter perdido a capacidade de segurar todas as minhas necessidades biológicas — algumas vezes por medo, algumas vezes por não ser mais capaz de contê-las, para minha própria humilhação. Entretanto lembro-me, acima de tudo, do sangue.
Havia tanto sangue. Muito, muito sangue.
Estou aérea, como se olhasse para uma Mara de cima, como se não estivesse mesmo no meu corpo. Mas infernos, todas as sensações são muito vívidas para eu não estar sob minha própria pele e carcaça.
Já perdi a conta de quantas vezes tentei abrir os olhos, nem que seja para avaliar minha atual situação. Tentei tantas e inúmeras vezes sem obter algum sucesso. Agora, antes de abrir minhas pálpebras, tento respirar fundo algumas vezes — embora a dor que eu sinto a cada inspiração seja ácido líquido correndo por meus nervos.
Quando finalmente abro os olhos, não consigo entender o que estou vendo. Tudo é um borrão. Não sei mais o que é realidade e o que é sonho — ilusão.
Tudo parece claro demais, como se fosse cedo ou alguma luz estivesse acesa. Meu corpo parece estar flutuando por sobre — uma cadeira? um banco? a mesa? um colchão de pregos? não consigo distinguir o que está me mantendo acima do chão — o que quer que seja em que estou apoiada. Tento movimentar meus pés, apenas para saber se eles ainda estão lá, no final de minhas pernas, mas ambos pesam como chumbo.
Parei de prestar atenção ao que David estava fazendo comigo depois da primeira facada. Ele a enfiou bem no meio da palma da minha mão direita.
Um golpe misericordioso, ele dissera. Não quero que você pense que alucinou com a mão machucada. Quero que tenha certeza que sou o seu pesadelo vivo.
A dor foi agonizante. E tinha tanto sangue. Tanto sangue. Minha garganta já estava ferida de tanto gritar por ajuda, gritar por socorro, gritar para ele parar com aquilo.
Eu queria saber porquê ele estava fazendo isso. Não poderia ser por simples capricho. David dissera que ele estava exterminando o mal que poderia nascer em mim. Estava livrando a sociedade de um monstro, mas eu sabia que ele queria ferir a mim. Ele sabe que me ferindo, ele machuca o filho no processo.
Quando as palavras foram trocadas e eu não tinha mais forças... forças para falar, para pensar, para lutar, eu apaguei. Perdi a consciência. Provavelmente foi por causa da dor. Meu corpo não soube lidar com ela.
Bem, somos dois, companheiro.
Depois disso, não me lembro de muito mais. Vejo o meu sangue por todos os lados. As paredes parecem pintadas com ele. O chão, como se a cera fosse minhas plaquetas. Meus olhos parecem vermelhos, minha visão no tom mais vivo de púrpura.
Sempre ouvi, durante toda a minha vida, pessoas comentarem sobre como fulano sentira uma dor tão intensa que desmaiara. Como beltrano não tolerou a dor, que era tão forte, que o tirou do ar, extinguindo sua consciência.
Sempre me perguntei o quão intensa a dor teria de ser para fazer com que a pessoa perdesse a cabeça. Sempre imaginei como deve ser senti-la e então ser desligada da tomada por seu cérebro. Agora eu sei como é. Essa dor. Essa dor caustigante que faz com que cada fibra de seu corpo se sinta dolorida. Atrás dos meus olhos dói. O lado esquerdo de minha cabeça. Três costelas do lado esquerdo que provavelmente devem ter perfurado o pulmão, pois quando respiro fundo, sinto uma dor incomum. Minhas pernas, especificamente as coxas e panturrilhas. Meus dedinhos dos pés, frios e imóveis.
Queria que a dor desses locais fossem suficientes. Que eles doessem o bastante para que eu pudesse ignorar a dor em um lugar específico. Mas não são.
De olhos fechados, com a roupa encharcada, o corpo mais ferrado que nunca, sei que David deve ter conseguido o que queria. E não é a dor em meu ventre, perfurado mil — mil não. Não parecem mil. Talvez milhares e bilhares — vezes com aquela faca de cozinha por mim, perfurado centenas de vezes por minhas malditas mãos porque David me conduziu a isso que dói mais, apesar da dor ser absolutamente excruciante, mais real e sólida que qualquer coisa neste imóvel; nesta cidade, seja ela qual for; neste mundo, nesta galáxia.
É o meu coração o mais ferido desta história.
Porque matei a mim ao matar meu filho. Matei a mim e a Noah e ao futuro que construí para nós. Futuro este que construí para nós três. E um plus ainda mais degradante, a única coisa que consegue aquecer minimamente meu corpo gélido — não matei a única pessoa que merecia uma morte.
David. Filho. Da. Puta. Shaw.
David maldito.
David, meu sogro, o pai do homem que amo, o avô do nosso filho, o desgraçado que matou o neto e deixou a nora para morrer sabe–se Deus onde.
Mesmo no meu estado semiconsciente de dor, sinto minha mandíbula se tensionar. Meus olhos se comprimem sob as pálpebras novamente e um grito penetrante invade o ambiente, o grito mais horrível que já ouvi em toda a minha vida.
Não preciso dizer que fiquei surpresa por aquele grito ser meu, no final do meu fôlego deficiente, ao sentir minha garganta rasgar ainda mais, meu coração batendo descompassado em meu peito.
Escuto meu nome ser soprado pelo vento e fecho os olhos com mais força, querendo sair do meu atordoamento, querendo que essa loucura pare de vez. Um grito rouco sai da minha garganta no mesmo instante que as lágrimas deixam os meus olhos mais uma vez.
Não que eu precise me desidratar mais do que já estou desidratada, mas tudo bem. Há jeitos piores de morrer.
Desidratada não é um deles.
Nem mesmo por hemorragia.
Em meio às lágrimas, consigo sorrir.
A morte me seria bem vinda. E, dessa vez, sinto-a chegar. Prevejo seus passos serenos e silenciosos até mim, cobrando pelo nosso último encontro adiado há tantos anos atrás quando aquele prédio caiu sobre a minha cabeça.
Ouço-a me chamar. Doce, tentadora, provocativa. Ela tem a voz de Noah, o que a torna torturante também. É injusto ela usar a voz da única pessoa que me faria fugir do meu destino fatal.
Ela me chama, meio grita, meio canta, mais uma vez. Novamente com a voz de Noah. De novo me torturando. Sinto minha cabeça pender para trás, leves toques em meu queixo posicionando-me deste jeito, como se avaliando o tamanho do estrago feito.
Aguardo por ela, merecedora. Eu a mereci há alguns anos quando minhas amigas morreram. E agora que meu bebê, meu pequeno e inocente filho se juntou a elas, eu mereço mais ainda. Porque eles não apenas morreram — eu os matei. Eu os matei. A morte é pouco de comparado ao que mereço. Eu mereço... eu mereço —
— Mara.
Meu coração recebe uma força extra de vida, um fluxo forte de sangue, um novo estoque de ar. Não é a morte. É o Noah. Sua voz firme me chama como o canto de sereias deve ter encantado tantos homens em direção às profundezas, embora seja o inverso com Noah — ele está me içando em direção a superfície.
Abro os olhos com um gosto acre na boca e meus eles ardem levemente com o que quer que seja. Minha primeira reação é notar que tudo dói infinitamente mais quando estou de olhos abertos, porque tudo parece infinitamente mais real deste jeito.
Minha segunda reação é olhar para Noah — ou ao menos tentar. Os olhos dele estão preocupados e aflitos, perscrutando cada ferimento do meu corpo que eu sei, eu sinto, que está sendo curado por ele neste exato segundo. Seus dedos apalpam alguns lugares, se certificando que os ossos estão em suas respectivas posições e tendo a certeza que alguns estão definitivamente fora delas.
Meus olhos estão pesando novamente. Não sei se isso é bom ou ruim. Noah parece achar que não é bom, mas diz repetidamente a frase que eu só consigo entender depois da quinta vez que ela fora por ele proferida.
— Mara. Mara, fique comigo. Droga, Mara, fique comigo!
Eu estou. Eu sempre estarei — é o que quero dizer, mas minhas pálpebras são atraídas rapidamente, fechando-se, quase como se um imã puxasse-as juntas.
Respiro profundamente uma vez. Depois mais uma. Sinto meu coração cair em uma corrida que só desacelera.
Outra respiração irregular, outra batida fraca.
Eu deveria saber que iria terminar assim mais uma vez, deveria prever que morrer é quase como dormir — que num momento você está alí, e depois não está mais.
Que em um segundo há tudo, e depois...
Depois não há nada.
Delicio-me com o prazer de não sentir, não ver, não ouvir e não degustar nada por um segundo.
Um segundo que se torna dois. Três. Quatro. Oito. Dez.
Escuridão plena. Vazio absoluto.
Quinze segundos.
Vinte.
Escuridão plena e vazio absoluto sem volta.
Vinte e cinco.
Sem retorno.
Como um epitáfio, a voz de Zacariah vem até minha mente, seus olhos assustadores brilhando como faróis em meio ao breu. A frase que ele dissera para mim naquele dia há alguns anos retorna a seus lábios castigados, sussurrando-as para mim.
Morrer por amor é fácil, o difícil é viver por ele.
Eu, como a covarde que sou, escolhi o mais fácil. Estou abraçada com o sucesso de minha escolha, rodeada pela segurança da morte.
Entrego-me àquela sensação, ao nada absoluto naquele vácuo onisciente, perdendo a conta de quantos segundos se passaram, perdendo os sentidos e perdendo, por fim, a mim.
Até que.
Sempre há um até que.
Uma pressão explode em meu peito e faíscas se espalham por cada membro do meu corpo.
Meu coração volta a bater. Meus pulmões voltam a se expandir.
— Você não vai morrer hoje, Mara — ouço em meio a minha salvação, em meio a minha maldição.
Retornando a todo o tumulto de sensações, quero quase suspirar de pesar para Noah, quero chorar de desespero, quero gritar de frustração, quero sorrir e chorar e estrangular o meu lindo e persistente Noah. Porque eu quisera provar do fácil, e ele, teimoso, não deixou. Ele não permitiu. Então, agora fui desafiada a superar o difícil.
Infernos, penso antes de me entregar ao cansaço absoluto que é voltar da morte e ser sobrecarregada com a potência instigante da vida, sou péssima em negar desafios.
E, respirando novamente, entrego-me à fadiga e às mãos exigentes de Noah.
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