ANTES
— Este é o endereço certo? — Pergunto pelo que parece a vigésima vez.
— Bem — Noah não responde pacientemente como fizera da primeira vez —, estamos na Rússia, certo?
— Sim, mas —
— E você me viu dirigir para a placa que dizia "Bem-Vindos a Novosibirsk", não viu?
— Vi, mas —
— E naquela placa ali está o mesmo endereço que neste papel, não é mesmo? — Noah aponta para a folha de caderno que está em sua mão.
— É, mas —
— Mas o quê, Mara Shaw?
Luto para abafar uma risada.
— Não sou Shaw ainda — observo.
— Você é sim, só não oficialmente falando.
— O que quer dizer que eu não sou — insisto, querendo deixá-lo irritado.
— Então você é uma Shaw de consideração.
Acho graça de sua lógica.
— Tipo aqueles primos que não são seus primos de sangue, mas você os considera como sendo?
— Exatamente. Eu já te considero a minha Shaw, então posso te chamar do que eu quiser. — Abro a boca para discutir e ele muda de assunto rapidamente, nervoso — E mas o quê, zhenshchina¹?
Uma gargalhada escapa de minha boca quando avalio seu ar russo. Ele até mesmo está vestindo um casaco pesado de pele e está com um chapéu horrendo que eles costumam usar aqui. E por mais visível que sua aura inglesa esteja, ele faz questão de tentar subjugá-la a uma russa. É hilário.
— Não tem ninguém em casa — revelo.
— Como é que você sabe? — Noah olha pela janela, tentando ver alguém — Está muito escuro lá dentro, não consigo ver nada.
— Exatamente. Está escuro e é noite, Noah. Presume-se que acendam as luzes se há alguém em casa. Além do mais, as janelas estão fechadas e com os trincos bloqueados, e posso jurar que aquele alarme está ligado — aponto para o aparelhinho branco escondido entre as quinas das paredes.
Ele olha para mim, impressionado.
— O quê? Sou observadora.
— Ou apenas assiste muito Sherlock Holmes.
— Sou observadora porque assisto Sherlock Holmes.
— Mara? — Ele me lança um olhar engraçado — Você não é o Sherlock.
— Elementar, caro Watson. Você não pode provar o contrário.
Noah bufa e me olha sério.
— Vou tocar a campainha novamente.
— Vá em frente, mas não adiantará nada — aviso.
Observo-o enquanto ele aperta novamente a campainha. Sorrio cada vez mais conforme o tempo passa e não recebemos uma resposta. Depois de alguns minutos, murmuro vitoriosamente.
— Eu disse.
— Você até parece feliz por termos perdido nossa primeira pista — ele murmura, meio cabisbaixo.
— Não estou feliz por isso, apenas por estar —
Um barulho de chave me interrompe. Olho fixamente para a porta e consigo distinguir uma sombra se movendo quando ela se abre.
— Certa? — Noah completa, sorrindo.
Faço uma careta para ele.
— E você não seria o Sherlock. Eu seria. Sou mais legal que você. — ele cochicha, gozador. Não tenho tempo de dar a resposta que ele merece pois quando o olho, Noah está todo senhor de negócios, com a mão erguida e pronto para cumprimentar a sombra que ainda não se movera — Senhor X?
Senhor X. Tento encará-lo, mas seu rosto está parcialmente nas sombras. Ele foi o primeiro a se corresponder conosco sobre nosso livro. Preferindo não se identificar, adotou este homônimo. É um pouco engraçado, pois ele não parece um senhor. Suas vestes e expressões parecem as de um jovem, aproximadamente da nossa idade, talvez dois anos mais velho. Conforme ele se aproxima, amaldiçoo baixinho.
Sua beleza é quase vítrea. Seus cabelos são tão loiros que parecem acinzentados; entretanto, não fora isso que chamara minha atenção: foram os olhos dele. Eles são vidrados e opacos. Sua retina é quase branca. É como eu imagino os olhos de uma pessoa morta há muito, muito tempo.
— Nem acredito que vocês estão aqui. — a voz dele é jovial, tranquila, contradizendo seus olhos — Por favor, me chamem de Zacariah.
Zacariah. O nome soa arcaico em meus lábios.
— É um prazer. Sou a —
— Mara — ele se apressa a dizer —, e você é o Noah.
Concordando com a cabeça, Noah diz — Mal podemos agradecer por você ter nos escrito, Zacariah. Fora os poucos poderosos que conhecemos, achávamos que éramos os únicos no mundo.
— Vocês não são os únicos, nem neste e nem nos outros mundos.
Olho para Noah antes de voltar meus olhos para Zacariah.
Que resposta curiosa.
Notando nosso crescente interesse, ele nos convida para entrar. Mesmo quando passamos por sua porta e adentramos a sala escura, Zacariah não acende as luzes. Ele sabia exatamente por onde andar, então Noah e eu o seguimos. Levando-nos a um cômodo completamente escuro, sem janelas ou velas, ele acende a luz, tornando-me mais cega do que estivera antes.
— Fiquem à vontade — ele diz, ainda na porta —, buscarei um chá.
Deixando Noah e eu sozinhos, pisco algumas vezes, ainda tentando me acostumar com a claridade. Noah já perambula pelo lugar, conferindo livros, analisando papéis sobre a mesa, buscando informações sobre o misterioso Zacariah.
— Meus instintos de Sherlock dizem que ele não é russo — sussurro para Noah.
— Ele tem um pouco de sotaque, mas não é daqui — ele observa —, e o jeito dele se portar... é quase como os personagens dos livros da Jane Austen.
Ergo uma sobrancelha gozadora em sua direção, mas não comento nada sobre sua referência. Olho em volta e noto algo, no mínimo, inusitado. Há várias fotos e porta-retratos neste cômodo; não dez ou quinze: centenas. Mas não é só isso o que o torna curioso: todas as fotos estão viradas, como se ver os rostos nelas causassem uma angústia em nosso anfitrião.
Não posso me impedir de bisbilhotar os retratos. Pelo que posso dizer, são fotos sobre épocas diferentes com pessoas diferentes. Pegando dois retratos feitos à tinta em mãos, observo um mesmo fundo, um mesmo castelo, parecido com aquelas construções antigas da Escócia. Entretanto, no primeiro, o castelo está mais inteiro, sem defeitos e marcas da ação do tempo; no segundo, o castelo que outrora fora impiedoso e grande, agora não passa do que parece um rochedo, só os muros e as entradas reconhecíveis. As pessoas repreentadas neles são diferentes, também. No primeiro, uma moça jovem e bonita olha sorridente em direção a meus olhos. Seu rosto é tão perfeito que fico chocada pela vivacidade nele; no segundo, há uma senhora, por volta de seus oitenta anos. Seu rosto também arde em vida no papel em minhas mãos e meu cérebro queima, tentando entender, tentando raciocinar.
Percebo de súbito que as mulheres nas duas fotos são a mesma pessoa, só que em épocas diferentes de sua vida.
Contenho-me antes de ofegar.
— Você já conheceu a Zípora — ouço Zacariah dizer atrás de mim. Tento não pular com o susto que ele me deu.
Olho do retrato para ele e depois para Noah. Zípora.
Noah, Joseph, Zacariah, agora Zípora. O que as pessoas têm com nomes bíblicos?
— Quem era ela? — Não consigo não perguntar.
— Minha esposa. A terceira. E última.
Pisco algumas vezes, absorvendo a informação. Ele não soou como se tivesse casado muitas vezes em busca da pessoa certa, e sim como se tivesse casado muitas vezes porque vivera o bastante para isso.
Avalio seu rosto em busca de rugas e marcas de expressão. Não há nada. Acima disso, suas costas são retas e seus movimentos ágeis. Apenas seu olhar parece velho e cansado.
— Quantos anos o senhor — engulo em seco, notando meu erro — você tem?
Ele me sorri em resposta. E, apesar de sua aparência jovial, ele senta na poltrona à nossa frente como se carregasse o peso do mundo nas costas. Pela primeira vez na vida, acredito que alguém possa carregá-lo mesmo.
— Direto ao ponto, não é mesmo, sra. Shaw?
Noah ergue uma sobrancelha para mim como quem diz eu não te disse? e não me preocupo em corrigir Zacariah. Espero-o tomar seu tempo para responder minha pergunta.
— A última vez que contei — ele começa —, eu tinha quatrocentos e setenta e dois anos.
Deixo-me cair pesadamente no sofá atrás de mim, surpresa.
— E quanto tempo faz desde a última vez em que o senhor contou? — Noah questiona.
Senhor. Definitivamente, ele é um senhor.
— Fora em 1847 — Zacariah confessa.
Puta merda.
Olho apenas para o chão sob meus pés. O peso desta informação me deslumbra na mesma proporção em que assusta o inferno em mim.
— Este é o seu dom? — Noah, que ainda não perdeu a capacidade de falar, pergunta. Imortalidade seria um dom fantástico, mas também um dos piores castigos.
Pensando nisso, não espero Zacariah responder a pergunta de Noah ao perguntar:
— É por isso que os retratos e as fotografias estão viradas? — Pela dor que eles causam, por levantar os fantasmas das pessoas que o senhor já perdeu de seus túmulos? é o que não digo, mas Zacariah parece ler em meus olhos.
Ele apenas acena com a cabeça, respondendo a mim e a Noah ao mesmo tempo.
Jesus Cristo. Como deve ser? Perder todas as pessoas que amamos consecutivas vezes, até que seja insuportável a oportunidade de olharmos para nossas lembranças, impossível a possibilidade de sairmos para conhecermos novas pessoas apenas para vê-las morrer em algumas décadas?
— Quando você vive muito, você vê muita coisa, escuta muitos boatos. — servindo o chá em três xícaras, ele continua — Nunca parei muito tempo em um lugar só. As pessoas dificilmente notam as mudanças do tempo quando convivem diariamente com você, mas, quando não há mudanças, elas percebem. Portanto, descobri várias culturas, diversas lendas. Vi com meus próprios olhos; olhos agora que estão velhos por tantas coisas que já vivi, coisas que seriam impossíveis, coisas inacreditáveis; posso afirmar, com toda a certeza, que vocês não são os únicos. Nem agora, nem no passado, nem no futuro.
Lembro-me do que ele dissera sobre outros mundos e levanto a questão.
— O senhor quer dizer sobre outros planetas? Marte, Júpiter, Vênus?
Ele lambe os lábios antes de dizer — Outros mundos não quer dizer outros planetas. Universos paralelos são outros mundos, mas se ambientam na Terra.
— O senhor já viu um? — Noah está na beirada de seu assento, tão extasiado quanto eu.
— Não, mas ouvi dizer que tem alguém que pode não apenas vê-los, como visitá-los. Há algum tempo ouvi sussurros sobre como um outro mundo está lotado de pessoas com dons.
— Quem te disse isso? — Aí está o homem de negócios em Noah novamente.
— Um conhecido meu. Ele mora na França e descobriu isso por outro conhecido dele, sabe-se lá Deus de onde.
Um disse-me-disse. Olho para Noah ao mesmo tempo em que ele olha para mim.
Dificilmente algo espalhado pelos ventos é apenas burburinho. Eu sei disso. Noah sabe disso.
— Seu amigo... ele se importaria de nos encontrar?
Zacariah pensa um pouco antes de responder.
— Acredito que não. Ele tem muita informação que pode ser do interesse de vocês, também. Aqui — ele aponta pro bloquinho de notas que Noah tem em mãos —, deixe-me anotar o endereço para vocês.
Minha mãe costuma dizer que as mãos das pessoas, e não os olhos, são o retrato da alma. Observo as de Zacariah: são calejadas, leves e rápidas, mas ele as move de um jeito debilitado, quase como se as articulações de seus dedos doessem, quase como se ele tivesse agarrado com força muitas coisas que ele sabia que a vida tiraria dele alguma hora, independente do quão ele lutasse e segurasse o que queria.
Conversamos com ele mais um pouco, mas não consigo me concentrar de verdade na conversa depois disso. Tomo um pouco de chá, tentando fazer descer o caroço grudado em minha garganta.
Na hora de ir embora, Zacariah nos acompanha pelo caminho escuro de sua casa, e agora posso compreender porque ele não acende as luzes, porque suas cortinas e janelas não estão abertas — a escuridão é mais confortável que a luz.
Chegando na porta, Noah dá um aperto de mão rápido e acena um agradecimento. Alheia a todos os meus pensamentos que diziam para não tornar as coisas mais difíceis do que já são, paro na frente de Zacariah e observo seus olhos secos e desgastados.
— Como é — pergunto genuinamente, sem querer causá-lo dor ou sofrimento, apenas querendo saber como ele aguenta e suporta aquilo todos os dias —, ver todas as pessoas com que você se importa morrerem?
Os olhos castanhos ganham um pouco de brilho com a vinda de lágrimas não derramadas sob suas pálpebras.
— É a pior angústia que alguém pode sofrer.
Respiro fundo, os meus próprios olhos castigados com as lágrimas salgadas.
— E como você aguenta?
— Aí é que está: eu não aguento. Eu não fujo da dor. Escondo-me aqui diariamente para senti-la sob minha carne, apavorando até o último grama de cálcio dos meus ossos. Não sei mais como viver sem a dor, portanto me afundo nela.
— Mas os quadros...
— Eles estão virados para que as pessoas nos retratos não sejam os alvos de minha amargura. Depois de um tempo, você não sabe mais diferenciar o que é bom ou ruim para você. Só há o gosto rançoso e pesado da dor, seu cheiro fétido e intragável; depois de um tempo, você vira a dor. Não há mais distinção do que você é sem a dor, apenas o que você fora antes dela. Por isso, Shaw, receba um conselho de uma velha alma: — ele segura meu ombro, se para firmar a mim ou a ele, eu não sei bem — ame. Sem limites e hesitação. Ame, pois sem o amor, só há a dor. Não é coincidência os dois rimarem. E sempre tome as melhores decisões que você puder, principalmente se forem por amor.
— E no que essas coisas ajudam?
— Elas são o cessar-fogo das piores guerras que travamos com nós mesmos.
— E que guerras são essas?
— Morrer pelo amor ou viver por ele, por exemplo.
Algo se aloja em meu peito e olho em seus olhos assustadoramente tristes mais uma vez antes de me despedir. E Zacariah não diz adeus, não deseja boa sorte, nem acena em minha direção. Ele só me olha compenetrado, parecendo até mais angustiados do que antes.
Saio da casa com o coração apertado, as lágrimas borrando minha visão por alguma razão que não sei compreender. Caminho até Noah e o abraço firme, tentando acalmar meus pensamentos.
— Eu sei, Mara. Eu sei. — Ele está sentindo todo o fervor de sentimentos que me assola, também. Não posso pôr em palavras o quão bom é tê-lo comigo neste momento, entendendo o que eu estou sentindo quando nem eu mesma o faço. Ele traduz tudo o que eu sinto em palavras e converte-as para gestos. Sei que o beijo que ele dá em minha testa quer dizer não há motivos para se preocupar, Mara; seus dedos se abrindo por meus ombros e descansando em minhas costas querem dizer estarei aqui sempre por você; e eu apenas espero que ele entenda o abraço forte que lhe retribuo como a forma mais crua e real que posso dizer eu te amo.
Ao nos afastarmos, vejo nos olhos dele. Está ali, brilhando. Noah recebeu o recado, e seu olhar diz eu te amo também, Mara, mais do que você imagina ser possível. Beijo o canto de sua boca e o mesmo pensamento que tem rondado minha cabeça há semanas surge em minha mente, mas desta vez não o afasto de foco, deixando-o para mais tarde. Decido verbalizá-lo.
— Noah?
— Sim, Mara?
— Não vamos demorar com os preparativos para eu me tornar oficialmente sua Mara Shaw, tudo bem?
Seus dedos acariciam meu pescoço e seus olhos acariciam-me com seu olhar de adoração.
— Claro, Mara. — Suas mãos escorregam até minha cintura e ele ergue as sobrancelhas, seus olhos sugerindo alguma ideia — Aliás, acho que posso iniciá-los agora mesmo.
Olho-o curiosa enquanto o vejo caçar algo em sua carteira. Ele tira de lá um papel vegetal e mostra para mim.
— Eu já tenho sua assinatura. Agora só falta torná-la eterna.
Continuo apenas olhando para ele.
— Vi um estúdio de tatuagens quando estávamos vindo para cá. Está na hora de tatuar sua marca visível em mim, Mara, pois quero mais do que as marcas invisíveis.
Minha respiração se esvai de uma vez dos meus pulmões.
— Como ele é?
— Ele quem?
— O tatuador.
Noah me olha confuso.
— Não sei, eu não o vi. Por quê?
— Espero que ele seja bonito. Algo vai precisar me distrair dos seus gemidos de dor.
— Mara, eu não vou gemer de dor.
— Isso — digo, sorrindo, o peso de meu coração diminuindo —, eu quero ver.
De mãos dadas, caminhamos até o carro.
Agora que olho para trás, vejo que eu estava curiosa não apenas por admirar a força da mente humana, e o conselho de Zacariah faz muito mais sentido agora do que naquela época porque tudo estava destinado a uma coisa.
Preparar-me.
Não para morrer.
Mas para a chance de eu perder pessoas que amo.
E eu sei como é esse medo, essa dor. Eu sei.
Agora eu sei.
Morrer por amor é fácil, o difícil é viver por ele.
*mulher em russo.
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