MARA

ENCONTRO-ME AINDA NO BANHEIRO DE CASA, MAS AGORA ELE PARECE MAIS FRIO DO QUE O NORMAL. Meu rosto está úmido e meus braços arrepiados.

Percebi que ficara imersa em minhas memórias por um tempo extremamente longo. Ainda sinto os olhos de Noah em mim, mas não sou forte o bastante para olhar para ele. Minha cabeça zombe e lateja de um jeito frenético, quase musical, embora excruciante.

Estou arrasada, nostálgica com a liberdade e poder do passado, comparando-a ao medo, cru e nauseante medo que sinto no presente.

Pare de zumbir, cabeça.

Estou enlouquecendo.

Pare pare pare.

— Mara — meus olhos estão no chão e não os levanto ao ver os sapatos se aproximarem. São belos sapatos, mas eles me apavoram. Não sei dizer porquê estou os temendo, temendo Noah. Só sei apenas que meus olhos estão arregalados e meus músculos tensos, como se preparados para o pior. Algo chama a minha atenção em meu colo e olho para baixo, observando. Minhas mãos estão de palmas para cima, descansando tranquilamente por sobre as minhas coxas. Elas parecem mais pálidas do que o usual, mas nada realmente alarmante. Volto meu olhar para o chão e logo abaixo das minhas pernas noto um líquido vermelho. Espesso. Cheirando à ferrugem.

Sangue.

Tento rastrear qual a fonte de toda aquela quantidade de sangue quando meus olhos voltam para as minhas mãos. Mãos que, segundos atrás, estavam perfeitas. Agora as pontas de meus dedos estão machucadas, levemente arroxeadas e sangrando. Minhas unhas estão destruídas, completamente quebradas; meus dedos estão arranhados em todo seu comprimento e gotículas de sangue de acumulam, fazendo pequenas poças na palma da minha mão.

Meu coração dispara e tento entender o que pode ter acontecido. Isso... isso não é possível.

Algo deve ter acontecido. Quero dizer, eu não posso apenas ver uma coisa e do nada esta coisa mudar. Não é normal.

Normal.

Talvez não seja mesmo normal. Talvez eu tenha visto o que vi porque... estou alucinando.

Tento raciocinar em meio a tensão.

Como posso ter machucado a mão? Pergunto-me.

Foi na hora em que você caiu do penhasco, alguém responde.

Ergo os olhos, procurando pela voz. Não há ninguém além de Noah. Não há nenhum ser que possa ser o dono dessa voz no banheiro, e algo me diz que não o encontrarei pela casa.

Você caiu de um penhasco, continua a voz, e se machucou na hora em que caiu porque aquele não era um simples penhasco. Ele era o penhasco do seu desespero.

Mais aterrorizante do que ouvir vozes do além é a voz pegar o que você está sentindo, coisas tão indescritíveis e espaçadas e traduzir em palavras.

Ela está certa. Eu tenho visto... Tenho visto um penhasco, do qual agarro-me na ponta, tentando me segurar. E agora consigo ver o resto. Agora faz sentido. Agarrei-me com todas as forças naquela pontinha, segurando-me para não ser engolida por aquela onda devassa de desespero que queria tanto tanto tanto que eu me afogasse nela.

Ela era boa demais, pelo que parece, pois olhe só onde estou agora. Encharcada em meu próprio medo. Alucinando novamente. Balbuciando os últimos gritos do fundo do poço.

Algum instinto faz com que me curve sobre a minha barriga, protegendo-a. Agora meu pescoço também está úmido e o banheiro parece estranhamente brilhante, o que me faz desejar que apaguem aquela luz.

Apaguem a luz. Por favor, apaguem essa luz.

— Mara — Ouço a tensão na voz de Noah, tão dura e pesada em meus ombros.

Levanto meus olhos e encontro Noah olhando para mim. Ele está preocupado. Não gosto de deixá-lo preocupado.

Olhar para cima me deixa levemente tonta. Sinto-me grogue. Não é legal.

— O que você estava pensando?

Não quero dizer a ele que estou vendo coisas. Não quero dizer que estou perdendo para minha própria mente perturbada. Portanto, digo algo mais ameno.

— Estava concentrada em algumas memórias.

— Eram memórias tristes?

— Não, eram memórias muito boas.

— Então, por que você está chorando?

Eu não estou chorando, quero dizê-lo. Passo as mãos por minhas bochechas num reflexo e vejo as lágrimas se espalharem por meus dedos.

É por isso que senti meu rosto úmido, penso. Faz sentido.

Entretanto, as lágrimas em minha mão tornam-se vermelho vivo, vermelho que parece sangue. É sangue, percebo de súbito. Isso não faz sentido nenhum.

Engraçado. Engraçado mesmo. Rio de um jeito azedo e em alto som, sem querer abarrotar a loucura que se acumula em mim, deixando-a escapar um pouco.

É irônico.

Jude. Jude não pode ter forjado isso como forjou as minhas outras "alucinações", não é?

Sinto mais lágrimas escorrerem por meu rosto, rindo e chorando ao mesmo tempo, além da borda do controle, além do pior terror que já sentira na vida.

Meu filho.

David Shaw ameaçando meu filho.

Eu tendo casos alucinativos.

Como é que isso está acontecendo?

Estou perdendo o controle e não posso estar alucinando, simplesmente não posso.

Desesperada, tento me acalmar. Fecho os olhos, respiro fundo, conto até dez. Depois até cinquenta. Até cem. Tento me erguer do precipício, tento escapar daquele abismo de medo. Meus dedos estão fraquejando fraquejando e fraquejando. Vou cair. Estou caindo. Abro os olhos e onde outrora havia alguns arranhões, agora há cortes profundos. As pontas dos meus dedos estão em carne viva e minhas unhas estão esfoladas.

Eu caí.

No abismo.

Do pânico.

— Noah.

Noah.

— Estou com medo, Noah.

Choro mais e mais e não sei o que fazer. Não sei o que está acontecendo comigo.

Noah se agacha na minha frente e pega minhas mãos.

Não.

Vou manchá-lo de sangue. Não quero sujá-lo de sangue. Devo limpá-lo, não gosto de vê-lo assim. Tento puxar minhas mãos de seu alcance, mas ele as segura.

— Deixe-me cuidar delas, querida.

Tenho medo desse querida.

Noah não me chama de querida.

Sem se abalar, ele continua. — Deixe-me cuidar das suas mãos. Deixe-me cuidar de você. Dele também.

Tudo bem, penso por entre as lágrimas, não tem problema ele cuidar de mim. Não tem problema cuidar das minhas mãos, também.

Espera.

— Você também está vendo? Você também está vendo as minhas mãos?

— Sim, querida. Você realmente está machucada.

Alívio alívio alívio alívio

alívio.

Não estou louca, afinal.

Mas o que é dele?

Dele também?

Noah aponta para a minha barriga e sorri.

Tenho medo desse sorriso.

Tenho medo do porquê esse sorriso me assusta.

— Estou falando desta aberração crescendo na sua barriga. Deste feto monstruoso.

Tenho um sobressalto. O Noah jamais falaria assim. O Noah não é assim.

Ele não é o Noah.

Noah-que-não-é-o-Noah põe a mão na minha barriga e tento me afastar dele. Ele não toca meu abdomen de um jeito carinhoso. Ele o toca como se quisesse arrancar meu bebê de lá.

Levanto-me, mas não há para onde fugir. Confusão bagunça a minha cabeça. Não há para onde fugir porque é o Noah. Não preciso fugir do Noah.

Vejo suas mãos e sob as suas unhas há sangue, tanto sangue, como se ele tivesse arranhado alguém.

Como se ele tivesse me arranhado, noto de súbito.

Ele aperta mais firme minha barriga e o empurro.

Tem algo muito errado aqui.

— Afaste-se — digo.

Sai. Você não é o Noah.

— Vamos lá, Mara. Vamos cuidar dessa coisinha — ele diz cuidar como quem diria matar.

— Não — digo, recuperando um pouco de lucidez — Não! — digo, decidida, e Noah bufa. Vira os olhos.

E tudo vira um borrão.

Se minha cabeça zumbia antes, agora há uma bateria de samba dentro dela.

Entreabro os olhos e encaro a escuridão à minha frente. Estou num lugar que não reconheço, fechado e sem janelas. O ar é denso em meu nariz e tento combater a vertigem.

— Eu quase consegui dessa vez — Diz uma voz. Uma voz odiosa, que me faz querer arrancar as cordas vocais que a emitem, uma por uma. Procuro na escuridão pelos olhos dele, mesmo sabendo quem ele é, mesmo sabendo que isto está longe de acabar e que, como tudo indica, não terminará muito bem para mim.

Raiva, do tipo mais puro e vivo, se espalha por meu corpo.

— Seu hipócrita ridículo! — O grito torna minha garganta dolorida no mesmo momento em que ele explode por minha boca. Inclino-me o máximo que posso, estando amarrada na cadeira, tentando encarar meu raptor — Como você ousa?!

— Parece que toquei na ferida — vejo-o se aproximar de mim —, desculpe usar a visão de meu filho para conseguir matar o seu. Cheguei tão perto, Mara. Você está ficando fraca demais. Fui capaz de me infiltrar tão profundamente na sua cabeça que trouxe à superfície memórias e diálogos de vocês.

— David Shaw — Digo, entredentes. Vejo vermelho enquanto ele se aproxima —, vai se foder.

Rindo, ele ignora meu convite — O inferno é infinitamente mais doce do que o lugar em que te levarei, Mara. Comece a rezar para que seu Deus tente fazer a proeza de te carregá-la até o diabo, porque eu sou muito pior que ele.

— Você vai morrer — minha respiração está agitada, meu coração está se recuperando da última alucinação e se preparando para a próxima que está por vir.

— E quem vai me matar? Você? — ele gargalha alto e interminavelmente — Eu já estaria morto, se fosse tão fácil. Muitos já tentaram. Todos falharam.

— Você entrou na cabeça deles — percebo, sentindo-me derrotada.

Ele dá de ombros apenas e caminha em direção a uma maleta de prata. Ouço o barulho de metal encontrando com metal e vejo-o com duas facas na mão, como se decidindo qual das duas usar. Ele escolhe a menor.

— Estou pensando — sua voz envia arrepios por todo meu corpo. A bile já está parada em minha garganta e mal posso lembrar qual fora a última vez que senti tanto medo assim —, que alucinação eu poderia criar para que você pegue esta faca e esfaqueie seu abdômen?

Esfaqueie seu filho, leio em seus olhos.

— Faça com que eu pense que sou você. Pode ter certeza que eu quereria me matar na mesma hora — respondo-o, tentando afrouxar as cordas que me seguram no lugar.

David Shaw tem a capacidade de rir do que eu disse. Ele se aproxima e tenho vontade de correr, mas como nada posso fazer, apenas impulsiono-me para frente, encobrindo e deixando meu abdômen o mais inacessível que posso.

— Aqui — ele prende a faca em minha mão direita e a fecha em punho. Posso tentar soltá-la agora, mas sei que quando ele tomar controle da minha mente novamente, ele me fará segurá-la como se minha vida dependesse disso —, um presentinho. Quero fazê-la sofrer, e quero que seja devagar; afinal, temos todo o tempo do mundo e ninguém para me interromper.

Noah. O que ele fez com Noah?

— Não fique pensando no meu filho — ele diz brandamente, como se estivesse me aconselhando —, aproveite seus últimos momentos de vida sem preocupações e estresse. Talvez assim sua passagem não seja tão ruim quanto eu pretendo.

Ele se aproxima o bastante para eu dar uma cabeçada nele. Minha testa encontra a dele em um rompante de força e quero agradecer aos meus amigos do setor 45 por terem me treinado. Ele cambaleia para trás, mas logo se recupera. Vejo estrelas por um momento, embora David não me dê tempo para pensar. Revidando, seu punho vem à toda velocidade em direção a meu rosto e não consigo desviar rápido o bastante.

Ouço o barulho aterrorizante de um osso se quebrando.

Sangue escorre do meu nariz.

Minha cabeça cai para trás e o ambiente que outrora estava enegrecido, agora está completamente preto.

— Obrigado por facilitar meu trabalho — ouço-o dizer em meio a dor — , nem precisarei te sedar para a próxima e, com sorte, última alucinação. Até nunca mais, Mara Dyer.

A certeza em sua voz faz com que eu trema e um pensamento percorre minha mente antes de eu perder completamente a lucidez.

David Shaw fez mais que me abordar naquele dia. Ele me sequestrou.

Ele tentou, por várias vezes, matar meu filho.

Por várias vezes, eu consegui superá-lo. Por várias e várias vezes lutei contra ele em minhas visões idiotas, mas ele é ambicioso. Ele é sagaz. David percebeu o quanto deturpar a imagem de Noah faria mal a mim, como eu perderia a perspectiva diante de uma recusa dele quanto ao nosso filho. Por várias vezes, combati o que David me sobrepujava pois tinha o amor de Noah como aliado, o tipo que não morre, o tipo de aliado que não estremece diante do perigo.

E agora não há nada mais. Nada além da escuridão.

Notas finais
Parece que o bicho pegou pra Mara. Será que o David conseguirá o que ele tanto deseja? E foi impressão minha ou a Mara fez uma referência ao lugar onde a Juliette Ferrars vive com o deuso grego aka Warner? Sinto cheiro de crossover no ar. Enquanto isso, digam-me o que vocês acharam e o que diabos está prestes a acontecer. Espero que vocês entendam que a escrevi esse capítulo de um jeito diferenciado para mostrar de verdade como a Mara estava pensando no momento. Beijos para todos.