AINDA ANTES
Ter encontrado com Noah antes de vir para cá fez o que nenhuma maquiagem no mundo seria capaz de fazer. Estou corada em minhas bochechas e meu colo, mais animada do que antes e, sem dúvida, mais sorridente também. Minha mão direita está em sua esquerda e meus olhos estão nos dele quando paramos à frente da porta do grande salão em que iremos comemorar o término de uma fase de nossas vidas que nos lançará a novas e diversas fases.
— Estamos aqui — sua voz e seu sorriso indicam que a semântica de sua frase não é apenas literal. Estamos aqui, corpórea e espiritualmente, unidos por nossos objetivos e passos conquistados. Estamos aqui. Lutamos. Vencemos.
Suspiro e olho para baixo, desviando-me dos olhos de Noah. Vejo sua gravata torta e arrumo-a.
— É incrível como parece que já vivemos e vimos tanto — os olhos de Noah estão no céu enquanto seus pensamentos estão tão presos aos meus quanto sua gravata em seu pescoço —, mas ainda não passamos nem por dez por cento do que está por vir.
Apesar do medo que me sobe o estômago, não posso deixar de sorrir.
— É exatamente como me sinto. — Comento, finalizando o nó da gravata e puxando a sua ponta, aproximando Noah de mim. Limpo a garganta pois ela ficara subitamente apertada de emoção e repito a frase que ele dissera mais cedo — Sabe quanta sorte eu tenho?
— Sorte?
— Sim. Sorte por eu ter alguém que compreende meus anseios, os meus sonhos e, acima de tudo, os meus medos. Não é fácil de encontrar alguém assim neste mundo afora, Noah.
— Você não sabe — o indicador de sua mão esquerda delineia a maçã do meu rosto —, você nunca procurou.
— Eu nunca precisei. Sempre encontrei e encontro tudo que necessito em você. Em nós.
Com um suspiro, o polegar que antes traçava meu rosto agora está presente no aperto forte da mão quente e comprida em minha nuca.
— Você quer mesmo se formar agora? Preciso tanto de você.
O sorriso safado em seu rosto me diz que é outro sentido de precisar.
Abafo uma risada.
— De novo?
— O que você quer que eu faça? — Noah parece mesmo exasperado, o que me faz levá-lo mais a sério. Um pouquinho, pelo menos — Saem coisas muito bonitas desses lábios que, por sinal, são mais bonitos ainda. E esses lábios, Mara, estão em um rosto espetacular. Rosto este que pertence a um corpo indescritível, embora o coração seja a peça mais bela e majestosa de toda a conjunção. Portanto, não me peça para ter controle. Eu simplesmente não consigo.
É a minha vez de pensar em não ir à nenhuma maldita formatura. Mas caramba, é a nossa maldita formatura.
Abraço o pescoço de Noah e beijo-o profundamente, lambendo cuidadosamente o lábio inferior e dando toda a atenção do mundo aos mínimos detalhes e centímetros da boca dele. Sua boca recebe a minha em um compasso de movimentos, pequenos toques e golpes que me deixam cada vez mais sem ar. Afastando-me para respirar, observo-o tentando controlar as batidas irregulares de seu coração. Estou sentindo-o em minhas mãos que ainda estão presas no pescoço dele.
Ouço alguém limpar a garganta atrás de nós. Vejo Jamie parado no canto, olhando-nos entediado. Ignorando-o, volto a prestar atenção em Noah, nos seus lábios entreabertos, em seus olhos fechados e seus cílios curvados, em seu peito subindo e descendo sob minhas mãos. Noah parece estar me observando também, mas de um jeito completamente diferente: analisando as reações viscerais de meu corpo, como meu estômago parece cheio de borboletas e meu coração cheio com palpitações. Como se ver não fosse suficiente, Noah me toca, querendo sentir:
Quando seus lábios tocam os meus, sinto aquela pressão de calor em minha barriga que provoca arrepios por todo o meu corpo. É como se eu estivesse me preparando para ele, aquecendo-me e resfriando-me para recebê-lo do jeito que ele gosta — pronta para ser moldada e consumida, das fibras de meus músculos até os ossos;
Quando as pontas de seus dedos zarpam pelos meus braços e arrancam voo por meus ombros e costas, sinto-me grande demais, mal cabendo dentro de mim e crescendo cada vez mais, como se este corpo não conseguisse mais abrigar o tamanho da minha existência, o tamanho de minha essência quando ela se vincula à de Noah. Meu coração parece explodir em meu peito, multiplicando de expansão a cada batida, ficando maior a cada respiração;
Quando Noah beija meu pescoço e seu hálito cavalga por ele, sinto-me tensa e rigída, como se me endurecesse por fora para que minha forma líquida e lânguida interna não me escapasse, como uma calha contendo a correnteza;
Noah sente cada um desses aspectos e percebe até os que não consigo descrever com palavras. Sinto seu sorriso sob meus lábios e, apesar de não ter um dom que me permita ver as coisas como ele consegue, sei que ele sente tudo isso também. E ver que nossas emoções são refletidas como um só espelho o faz tremendamente feliz. Não posso evitar o meu sorriso de surgir também, quando ouço Jamie resmungar.
— Sem problemas, demorem o que for preciso. Ninguém precisa se formar mesmo.
Noah respira fundo e se afasta apenas o suficiente para me olhar. Ajeitando uma mecha de cabelo que caiu do meu coque atrás da orelha, ele diz — Está pronta?
É a minha vez de respirar fundo.
— Com você? Sempre.
Com um último beijo em meus lábios, ele pega a minha mão e dá um passo em direção ao salão.
— Então vamos nessa.
Começamos a caminhar e finjo não ouvir Jamie sussurrar um amém.
~~
O salão está lotado de pessoas, e as vozes agitadas criam uma nuvem de animação no ambiente. Jamie nos guia até nossas famílias, e fico feliz ao ver a Ruth e a Katie aqui para prestigiarem Noah. O pai dele sumiu depois de tudo o que aconteceu anos atrás, e me preocupava com o que seria de Noah sem a presença de sua família por perto. Embora os meus pais e meus irmãos o tenham adotado como sendo parte integral de nossa família, sei como é importante para Noah ter seus entes queridos próximos dele.
Abraço-as com vontade, tentando passar pelo gesto meu agradecimento por elas estarem aqui. Tomo mais cuidado ao abraçar a Katie, com medo de apertá-la e fazer o conteúdo de sua barriga grande vazar. Ela está tão grande que não sei como Katie está conseguindo andar por aí.
— De quantos meses você está?
— Sete e meio — ela sorri, seus olhos cálidos com felicidade. — Sinto-me como uma elefanta.
— Não existe elefanta — Noah a corrige —, e sim elefante fêmea.
Ela dá de ombros. — Eu estou grávida, Noah Shaw, e se eu quiser falar a maior besteira do mundo e taxá-la como certa, eu com certeza o farei.
Seguro a risada enquanto adiciono — Acho melhor você não discutir com ela.
— Você acha? Eu tenho certeza.
— Cada um tem a irmã que merece — Ela pisca pra ele.
— Não sei o que fiz para ser merecedor da minha, então — ouço uma voz dizer. Viro-me e dou de cara com o Joseph, ou melhor dizendo, com um Joseph mais velho e bonito do que o irmãozinho caçula que eu encontrara alguns meses atrás.
— Meu Deus, garoto. Você está tomando hormônio do crescimento? — Pergunto depois de abraçá-lo, ou melhor, tentar abraçá-lo. Tive que testar os limites do meu equilíbrio ficando nas pontas dos pés enquanto passava os braços pela cintura dele. — Você está tão bonito. Como você foi de um garotinho que tirava sujeira do nariz e comia a um homem tão rápido?
Joseph torce o nariz para mim.
— Eu nunca fiz isso.
— Tenho certeza que você fazia. E o que é isso nos seus dentes? — finjo ver algo — Parece-me que você ainda as come.
— Deve fazer sucesso com as meninas — Noah caçoa.
— As meninas não ligariam nem se esses lábios aqui passassem no esterco antes de encontrar os delas — Joseph retorque.
É a minha vez de torcer o nariz.
— Que nojo, Joseph. Aposto que é exagero seu.
— Exagero? O que você acha que a combinação de inteligência, beleza e charme fazem com as meninas? — Joseph pergunta. Olho para Noah e vejo o retrato do que J dissera ali mesmo.
— É. Você tem razão.
Com um sorriso confiante, ele adiciona, seguro de si — Eu sempre tenho razão.
Aperto a bochecha dele, o que deve ser um dos últimos aspectos infantis que restaram nele. Ele reclama, o que me entusiasma a apertá-la mais.
— E diga para essas meninas que você tem uma irmã que se preocupa muito com você e que ficará muito brava se alguma delas pisar na bola.
— Eu já disse para elas — Joseph responde, me surpreendendo.
— Disse?
— Sim, mas foi a versão diminuta e verdadeira da história.
Noah começa a rir e eu olho-os, desconfiada.
— Como assim?
— Bem — Joseph hesita, coçando a cabeça —, eu disse que você é louca.
O que era uma risadinha, agora virou uma gargalhada. Lanço um olhar sujo a Noah, o que o faz parar na hora. Certificando-me de vestir o olhar mais maníaco que posso fazer, volto-me para Joseph.
— Eu? Louca?
J dá um passo para trás.
— Não — ele nega com a cabeça —, imagina. Eu nunca diria isso.
Aproximo-me dele, o que o faz dar mais um passo para trás. Quando estou prestes a me lançar sobre ele para mostrar bem o quão louca posso ser, vejo meus pais se aproximando. Joseph aproveita a minha distração e foge de mim, indo para o lado da mamãe.
— Isso vai ter volta — aviso-o quando abraço a mamãe e fico cara a cara com ele.
— O quê? — Mamãe não entendeu o que eu disse, então mudo rapidamente o rumo da conversa.
— Como vocês estão? — Beijo a bochecha de papai, notando as bolsas abaixo de seus olhos — Trabalhando muito?
— Não — ele responde, ao mesmo tempo que mamãe diz sim.
Mamãe fuzila-o com os olhos e comprimo os lábios, segurando uma risada.
Adotando a mesma tática que eu usara mais cedo, papai diz — Estávamos com saudade de você.
Pego a mão dele e aperto na minha.
— Eu também senti saudade de vocês — umedeço os lábios com a língua, livrando-me da secura que chegara a eles —, mais do que vocês podem imaginar.
— Queremos conversar com você mais tarde. Com você e Noah — mamãe aponta para ele, que está abraçado com Ruth, conversando.
Pisco, tentando conter a surpresa.
— Ok. Veremos-nos assim que a cerimônia acabar.
E, como se o professor responsável pelo discurso tivesse escutado a conversa, ele diz — Formandos, por favor, se reúnam nas primeiras fileiras e tomem seus lugares para iniciarmos nossa formatura.
Dou um beijo rápido na mão de papai e abraço mamãe antes de começar a caminhar para onde me fora ordenado.
~~
Não houve nada de inesperado. O discurso foi como todos esperavam que fosse — motivacional, chato e irritantemente emocionante. Ao final das palavras do professor e com as lágrimas ainda escorrendo pelas bochechas, jogamos os capelos para o alto, observando sua trajetória pelo ar. Fico nas pontas dos pés para alcançar o meu, mas um braço o intercepta antes — Noah.
Devagar, ele coloca o capelo novamente em minha cabeça, olhando-me por completo. Seus olhos jorram amor à sua volta; suas mãos, eletricidade. Com o polegar na minha bochecha e os lábios em meu ouvido, ele sussurra:
— Mais tarde, quero fazer amor com você usando só este capelo.
Gargalho e olho para baixo, tentando conter os pensamentos oriçados que espetam cada superfície sã de minha mente, como se eu tivesse pisado em um ouriço que em seus espinhos houvesse dopamina e hormônios do prazer semelhantes.
— Você diz as coisas mais bonitas.
Ele beija a curva do meu maxilar.
— Só por você e para você, Mara.
Abraço-o por alguns segundos, pressionando-o contra meu peito, unindo o que há de mais precioso no mundo junto às batidas do meu coração, acalmando-me e reverberando vida ao mesmo tempo. Tudo parece certo quando estou assim, com ele. Não há inseguranças e incertezas, nem interrogações ou reticências. Há apenas pontos finais, frases completas, confirmatórias.
— Eu te amo — Noah diz a única afirmativa que levanta tantas exclamações que me faz querer gritá-las, com todas as forças dos meus pulmões.
— Eu te amo mais — sussurro apenas, não por querer assegurá-lo ou confrontá-lo, mas por ser verdade. Amo o Noah mais do que todas as coisas boas que conheço da vida pois fora ele quem me mostrara cada uma delas.
— Vamos lá, pombinhos! — Ruth nos chama — Temos um jantar para comer!
Noah sorri e beija o canto da minha boca.
— Acha que consegue comer um pouco?
— Não sei — respondo como se estivesse considerando à sério a pergunta —, mas acho que preciso, já que você fizera a promessa de uma noite agitada e enérgica para mim.
— Para você e o capelo — ele diz.
— Acredite, o capelo não esqueceu uma palavra que você disse, e muito menos eu. Vamos logo jantar, antes que eu largue tudo e te arraste para algum cantinho solitário e vazio.
— Eu não te julgaria por isso, sabe — Ele brinca, arrastando-me em direção aos carros em que nossas famílias nos aguardam.
— Eu sei que não, e é por isso que devemos ir comer o mais rápido possível. — Vendo a expressão confusa dele, esclareço — Sou mais racional de barriga cheia.
Ele me olha sério por uns instantes.
— Vou me lembrar disso.
— Eu sabia que você é inteligente — caçoo.
Separamo-nos para irmos até o restaurante. Ele foi com a madrasta e a irmã, e eu com meus pais e Joseph, enquanto Daniel fora com Jamie. Ao chegarmos lá e sentarmos para comer, as conversas atravessavam a mesa, todos interagindo entre si. Após as bebidas serem servidas pela segunda vez, levanto a pergunta que tem consumido partes do meu pensamento desde a hora em que mamãe tocara no assunto.
— O que vocês queriam falar conosco? — Por algum motivo, seguro a respiração.
— Bem, vocês viajarão mesmo pelo mundo, conhecendo os leitores do seu livro que se corresponderam com vocês? — Mamãe tenta esclarecer tudo enquanto olha profundamente para meus olhos, seu lado psicóloga aflorando.
— Sim. Começaremos semana que vem pela Rússia — Digo.
— Fico feliz que vocês estejam com os planos encaminhados — papai diz, sorrindo.
Concordo com a cabeça e sorrio, como se agradecendo por amenizar a conversa para nós.
— E depois disso?
— Bem — olho para Noah, em busca de ajuda —, não temos nada verdadeiramente planejado ainda.
— Só sabemos que iremos viajar por alguns meses — Noah adiciona, segurando a minha mão por baixo da mesa.
— Entendo — mamãe aproveita o momento para tomar um pouco de água —, tenho uma pergunta para vocês.
Respiro fundo, enchendo os meus pulmões de ar. Ao liberá-lo, digo:
— Pergunte, então.
Ela lambe os lábios e respira fundo. Noah olha para mim como se dissesse "o que vocês têm com respirar fundo toda hora?" e ignoro-o, observando mamãe.
— O que vocês acham — ela começa, ansiosa — de voltar para casa?
Olho-a, surpresa.
— Para a casa de vocês?
— Não para casa casa, oras — mamãe diz —, com para casa quis dizer para nossa cidade.
Bem. Isso faz mais sentido.
— Há uma casa à venda em um dos bairros próximos do nosso, — papai assume a rédea da conversa — e queríamos dá-la a vocês de presente.
Ouço minha voz acima do choque — Mas pai —
— Sem mas, Mara. É um presente.
Pisco algumas vezes, muda.
— Nós sentimos mesmo muita saudade de vocês. Queremos vocês de volta — mamãe diz.
— Todos nós queremos — Ruth diz.
Olho para Noah. Noah olha para mim.
E como se para finalizar o assunto, ele diz — Nós também adoraríamos voltar para casa.
E eu sei que é verdade, pois sinto exatamente a mesma coisa.
— Então, que assim seja — papai conclui.
Todos nós erguemos nossas taças e brindamos, comemorando.
Não consigo esconder o sorriso babaca que está presente em meu rosto.
Casa. Ir para casa, depois de tanto tempo.
Aperto a mão de Noah na minha e beijo seu ombro.
Contradizendo minha felicidade, um sentimento de aviso tenta subir minha garganta, como se quisesse dizer para não ficar tão feliz assim, como se dissesse para ter cuidado, pois algo dará tremendamente errado.
E eu, como sempre, o ignorei, sorvendo a taça de champagne, afogando o que quer que seja no líquido alcoolico e borbulhante.
Queria eu não ter feito isso. Mas é tarde demais.
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