Notas iniciais
ANTES
Às vezes quando penso em meu passado e como estou agora, não sei como eu vim parar aqui. Não sei como prossegui tanto para chegar onde cheguei, não sei como os fatos se tornaram contínuos e programados para me trazer aonde estou.
Ajusto o vestido branco na cintura e no meu busto, fazendo com que o desenho das rajadas azuis explodam contra meu peito. É assim que me sinto hoje — serena e flutuante como meu vestido longo e branco, mas pronta para explodir em cores e agitação a qualquer momento.
Conforme tento alcançar o zíper nas costas do vestido, imagino como será ver a minha família após tanto tempo. O único que eu vira com certa frequência fora Daniel, e mesmo assim, tenho certeza que meia dúzia de meses se passaram desde a última vez.
É claro que ele ressaltou que nos veríamos hoje. Ele deixou bem claro que esta data é um dia especial.
Não posso discordar dele.
Formatura. Quem diria.
Fico de costas para o espelho e viro a cabeça para olhá-lo, tentando me certificar de que o zíper não evaporara do vestido e, pelo o que parece, ele continua ali, e intacto, mas se recusa a cooperar comigo. Meu celular vibra levemente, o que me faz desviar os olhos do espelho. Na tela do aparelho há o nome de Noah. É uma sms.
Noah ♥
17:46
*O q vc tá fazendo?*
Para deixar claro, fora ele quem acrescentou o coração ao lado de seu nome. Aparentemente, quando prometi passar o resto de minha vida junto dele, isso comprometeu o meu coração também. Com toda a razão. Meu coração estava comprometido a ele muito antes de nós sermos oficiais, muito antes de nós pensarmos em ser alguma coisa.
—Eu sei como é — ele disse, explicando, enquanto acrescentava a mudança em seu contato –, sei como fica o seu coração quando você está ansiosa. Sei que ele fica apertado, esperando, nada pacientemente. O meu também fica assim. Na verdade, Mara, quando se trata de você, o meu coração não chega nem a apertar: ele se estrangula. Espreme-se. Não apenas para me deixar louco e irracional por você — Noah até mesmo piscou ao dizer isso —, mas para tentar diminuir de tamanho, tentar subir por meu esôfago e sair por minha boca, em direção a você. É isso o que esses pequenos símbolos que formam um coração querem dizer ao lado do meu nome. Sempre que eu te telefonar ou mandar uma mensagem, meu coração estará indo junto. Meu coração sempre quer estar junto de você. E eu não posso e nem quero impedi-lo.
Noah. O que posso dizer? Ele é perfeito.
Respondo rapidamente a sua mensagem.
17:47
*Me arrumando.*
Volto para o espelho e, desistindo por agora do zíper, pego os cílios postiços. Alguns segundos se passam antes do aparelho vibrar novamente.
Noah ♥
17:49
*Posso ir aí para fechar as costas do seu vestido?*
Bufo, mal contendo um sorriso e abafando a surpresa. É lógico que ele sabe que meu vestido tem zíper.
17:50
*Como vc sabe que é um vestido com zíper nas costas?*
Alguns minutos se passam antes da resposta chegar. Posso visualizá-lo prensando os lábios, dando aquele fino e ousado sorriso.
Noah ♥
17:53
*Palpite*
Palpite? Até parece.
17:54
*Vc viu minha sacola com as compras, não foi?*
Noah ♥
17:55
*Eu nunca faria isso >:)*
Ele faria exatamente isso.
17:56
*Não sei se vc merece fechá-lo. Acho q vou procurar alguém p fazer esse servicinho*
Noah ♥
17:57
*Aposto q vc encontrará alguém para ajudá-la. Sei exatamente onde vc pode achá-lo. Saia do quarto e vá à esquerda, em direção ao banheiro masculino*
Oi?
Isso foi específico. Específico até demais.
Penso por uns segundos e dou de ombros. Não custa nada checar o que ele está aprontando.
Pego o cabelo ainda desarrumado e faço um coque rápido no alto da cabeça. Caminho devagar pelos corredores tumultuados dos dormitórios, tentando passar despercebida com o vestido aberto nas costas até a cintura, seguindo as instruções calculadas de Noah. Chegando ao banheiro masculino, olho em volta, procurando quem quer se seja. Provavelmente ele esteja pregando uma peça em mim.
18:01
*A não ser q a pessoa seja a) invisível ou b) tenha a capa da invisibilidade, não há ngm aqui.*
Ainda com os olhos no celular, escuto um assobio. Viro os olhos, pronta para responder àquela gracinha, mas, ao olhar para quem assobiara, toda a raiva se esvai e dá lugar à felicidade.
— Jamie! — não contenho meu grito ao vê-lo sair do banheiro masculino. Minha respiração se desestabiliza e sinto meus batimentos até em minha cabeça. Corro para abraçá-lo e o cheiro de seu perfume parece contraditória às minhas narinas. Dou um passo para trás, avaliando-o. Ele está com um paletó creme sobre a camisa branca com gola em v. Seu jeans está rasgado aqui e ali, assim como um pouco apertado nos lugares certos.
— Você está bonito —observo sagazmente.
— E você está surpresa —sua sobrancelha esquerda se arqueia e ele ri.
Uau.
— Alguma coisa mudou em você.
— Andei malhando. Perdi uns quilos.
— Não é isso. — observo-o atentamente mais uma vez e vejo algo em seu dedo. Algo que meu cérebro entende como aliança, mas estou surpresa demais para verbalizar. — Você... a aliança... você conheceu alguém!
— Mara, você articulava melhor antes da faculdade. Acho que ela destruiu seus neurônios.
Empurro seu ombro em resposta.
— Não fuja do assunto. Você conheceu alguém?
— Bem, eu não diria conheci porque ele já está em minha vida a algum tempo, M.
— Eu sei quem é? —quando Jamie permanece em silêncio, sei que a resposta para essa pergunta é sim. Estou preparando alguma frase espertinha quando vejo a porta do banheiro começar a abrir novamente. Vou pro lado, dando espaço para quem for sair e prontamente peço desculpas por obstruir a passagem.
— A faculdade te sensibilizou, ou foi o Noah que colocou um pouco de delicadeza nessa cabeça? —Desvio o olhar de Jamie, que me sorri, para encontrar o de quem acabara de falar.
— Daniel! — dou um pulinho antes de jogar meus braços em volta dele, segurando-o forte contra o meu corpo.
— Você vai me matar assim, mana.
— Cala a boca. — respondo, sentindo o sorriso dele aquecer meu coração — Eu senti tanta falta de vocês!
Pego Jamie e puxo-o para um abraço a três, emocionada com a presença deles aqui. Percebo uma movimentação de braços e noto que eles estão de mãos dadas por entre o abraço.
Sorrio ainda mais com essa demonstração de carinho entre eles. Então Daniel é a pessoa misteriosa com quem Jamie está. Eu não diria que estou surpresa, só apenas que não esperava. Após reencontrarmos Noah naquela disputa de vida ou morte com David, eu quis passar cada segundo possível com ele, e acabei por deixar Daniel e Jamie sozinhos. Naquela época eles se firmaram em uma relação de forte amizade, mas agora...
Finjo ignorar por agora o que se passa entre eles, mas prometo a mim mesma que irei conversar com os dois mais tarde.
— Como foi a viagem? — pergunto, sorrindo. Provavelmente minha bochecha terá cãibras mais tarde, embora eu não me importe. Estou extremamente feliz por tê-los aqui.
— Foi boa. O voo foi muito confortável — Daniel responde.
— Claro que foi. Você dormiu a viagem toda. Aquela bugiganga de metal poderia ter caído que você não teria notado. —Jamie diz a Daniel antes de olhar para mim e dizer — Pegamos sérias turbulências. Foi horrível.
—Não foi tudo isso, J. E o Joseph adorou.
Joseph.
— Onde ele está? —pergunto, olhando em volta.
— Com a mamãe. —Daniel diz — O voo para ele fora mais divertido que todas as idas a montanhas-russas que já fizemos. Pensei que, quando ele estivesse no ensino médio, sua capacidade para ser uma enciclopédia ambulante diminuiria, mas pelo contrário. Aposto que ele sabia mais sobre o avião em que estávamos do que o próprio piloto.
— Aposto que ele sabia mais sobre o avião do que a pessoa que o arquitetou — comento.
— Vocês são estranhos — Jamie aponta para nós —, vocês sabem, não é?
— Coisa de família — Daniel e eu falamos em uníssono, o que torna tudo mais estranho e engraçado.
— Vocês combinaram com Noah que estariam aqui?
— Não exatamente. Estávamos vindo por conta própria e ele mandou um sms dizendo onde você estaria — Daniel explica — , não sei como ele descobriu que viríamos te fazer uma surpresa.
— É o Noah. Não dá pra esconder nada do Noah —Jamie murmura.
— Isso não é cem por cento verdade —Daniel começa — vocês não o enganam porque não conseguem enganar ninguém.
Com um sorriso de lado, Jamie replica, dizendo — Eu consegui enganar você.
Assisto a troca de olhares entre eles e, se houvera alguma dúvida de que eles estão juntos, ela se exaure.
Daniel deixa os olhos entreabertos, encarando sério a cara zombeteira de J.
— Isso foi diferente.
— O que foi diferente? — Sou curiosa demais para deixar essa conversa passar em branco.
Escondendo o sorriso com os dentes, Jamie me passa a sensação de que há uma grande história por trás de tal gozação. Seus olhos brilham com carinho quando sua mão toca o ombro de Daniel, confortando-o, segurando-o, apoiando-o acima de tudo.
— Nós te contaremos tudo mais tarde, M.
— Estou ansiosa para saber, mas infelizmente preciso terminar de me arrumar. Vejo vocês depois?
— Claro — ele me abraça novamente e Daniel me beija na testa. Continuo parada, vendo os dois se afastarem. Eles parecem mais íntimos um do outro. Como se conhecessem bem demais, bem o suficiente para pairar na órbita do outro sem tocar, para sentir o que o outro sente sem ver, para ouvir o que o outro diz sem ser necessário falar. É lindo.
— Ei! — chamo a atenção deles enquanto caminho de costas. Os dois olham por sobre os ombros e sorrio para eles —, estou muito feliz por vocês dois.
Dan dá uma olhadela em J antes de responder.
— Nós também.
— Nós também estamos felizes por nós dois ou nós também estamos feliz por você? — questiono, confusa.
— O que você preferir — J completa —, ambas são verídicas.
Gargalho e fico de frente para o corredor, andando corretamente desta vez. Volto para meu quarto e é só quando abro a porta que noto que esqueci de pedir para algum deles fechar meu zíper.
Típico, Mara.
Dou meia volta para tentar encontrá-los, mas uma mão me para, puxando-me para trás.
— O quê...
A mão segura a minha boca, abafando minha voz, e o dono dela fica atrás de mim.
— Parece que este vestido ainda precisa de ajuda.
Noah. Viro os olhos e suspiro, automaticamente relaxando contra seu corpo.
— Você não pode relaxar assim, Mara. Eu sou seu captor. Você tem que ser agressiva e tentar fugir de mim.
Olho para trás, tentando encontrá-lo. Meus olhos ficam presos aos dele enquanto ele continua a falar, ainda com a mão em minha boca.
— O que me garante que você não sofrerá uma síndrome de Estocolmo¹? — Ele beija a minha cabeça e sorri.
Bufo e respiro fundo, sentindo o contato de seu corpo contra o meu. Um de seus braços está segurando-me firme pelos ombros, agarrando-me junto a ele num gesto de posse e de proximidade, como se Noah quisesse que eu me fundisse a ele.
Acaricio o braço forte que me mantém cativa e prisioneira, sentindo os músculos sob minha mão se contraírem ao meu toque. Depois, toco a mão que tampa a minha boca, sentindo os dedos longos e finos e que modelaram tantas vezes meu coração. Mordo de leve a palma dela, sentindo a reação de Noah percorrer todo o meu corpo. Tiro-a de minha boca e beijo onde outrora mordi, o calor de sua pele convidando-me a entrar em um estado de exultação da qual não poderei sair.
— E o que te garante — viro-me para ele, colocando meus braços em seus ombros, sobre a gola da camisa branca e minha mão em sua nuca — que eu já não esteja sofrendo-a? Afinal, você raptou o meu coração há tanto tempo atrás, Noah. Você me tem por um longo período agora e meu amor por você não fraquejou uma vez sequer, não diminuiu ou se aterrorizou em nenhum momento. Você me sequestrou e eu não me importei de ser sua refém.
Meus polegares se posicionam como parênteses em suas bochechas como se para ressaltar e guardar entre eles toda a nossa conversa, todas as nossas reações.
— Mara — sua voz é suave como um suspiro, seu hálito efervescente como a luz do sol, seus olhos brilhantes do jeito Noah de dizer que me ama. Seus olhos derramam amor por toda a superfície e lugar, enchendo-me de uma sensação gostosa no peito que só cresce cada vez mais.
— Sim, Noah.
— Desse jeito, não fecharei o zíper do seu vestido. Não ajudarei você a se vestir. Ajudarei apenas a tirá-lo de você. Tirarei cada peça de roupa em que você estiver.
— Bom — olho para o relógio —, não temos muito tempo. Tenho que terminar de me arrumar e encontrar meus pais.
Ele segura meu queixo e fala sobre meus lábios, sussurrando os dele nos meus.
— Não vou demorar muito.
Sua boca encontra a minha e beijo-o profundamente enquanto suas mãos correm por meus ombros, sob o vestido, fazendo-o cair. O toque de Noah é tão sutil quanto o murmúrio do vestido escorregando por meu corpo. Ele acompanha a trajetória da roupa, traçando minhas costas e meus seios, minhas costelas e barriga, pintando com as pontas dos dedos cada singular emoção, cada peculiar sentimento, cada pequena e incandescente sensação enquanto passa por minha cintura e alcança minhas coxas.
O vestido corre livre por minhas pernas e Noah continua abaixado, olhando para mim, sorrindo de modo surpreso e encarando-me zombeteiramente.
— Eu deveria ter dito que o vestido era a única peça de roupa que eu estava usando — comento.
Noah ri e beija meu ombro esquerdo.
— Sabe quanta sorte eu tenho?
— Sorte?
— Sim. Estou no dia da minha formatura em Medicina com a garota dos meus sonhos, literalmente, em meus braços, e estamos prontos para consumar nosso amor agora mesmo. É muita sorte.
Beijo o queixo dele e acho-o, de súbito, muito vestido.
— Sabe quem não está com sorte?
— Quem? — Os olhos de Noah estão aguçados pela imagem de nós dois, vidrados pelo calor que transferimos um ao outro.
— Esta camisa — começo a desabotoá-la, minhas mãos passando pelo tecido macio —, ela é muito bonita, aliás.
— Obrigado. A propósito, não a amasse. Tenho uma formatura para ir.
— Sim, senhor.
Termino de desabotoar e livro primeiro seus ombros, aproveitando para descer minhas mãos por seus braços no processo. Tiro a camisa e dobro-a cuidadosamente.
— Onde está o seu terno e sua gravata?
— Na sua escrivaninha — ele a indica com a cabeça.
Coloco suas coisas juntas enquanto Noah tira a calça preta de linho e passa para mim.
Olho para o relógio uma última vez — faltam quinze minutos para o evento começar.
— Você tem cinco minutos, Noah.
Um sorriso cresce por seu rosto. Ele me puxa em direção à parede, seus braços agarrando meu joelho e erguendo minha perna direita enquanto a esquerda fica presa, dando a volta em sua cintura. Suas mãos estão em meu pescoço e em minha bunda, apoiando e agarrando-me a ele e, ao mesmo tempo, abrindo-me, libertando-me, emancipando-me de toda hesitação e escrúpulos e pensamentos — não sou mente, não sou cérebro; sou coração, sou trapo e corda e fio que Noah pode tecer e tricotar como bem entender. O frio da parede contrasta com a quentura dele e eu suspiro, sentindo suas mãos tecerem como massinha todos os meus nervos e tendões, modelando-me de modo que cada grama e átomo do meu corpo esteja implorando por ele.
— Estaremos prontos em três — ele diz e, como se para confirmar, entra profundamente em mim, de uma só vez, unindo-nos em corpo e mente e espírito e respiração. Gememos juntos e encontro sua boca na minha, beijando-o de modo angustiado, quase violento. Sua mão aperta e alisa e acaricia como se averiguando se eu sou real, se o que temos e sentimos é real. Já eu mordo-o e lambo-o e saboreio-o como se confirmando que Noah não é só Noah assim como eu não sou só eu; somos uma combinação, uma só aglutinação em que nossos gostos estão imbuídos e em minha língua sinto a enormidade do que hoje somos. Cada estocada me lembra do que conquistamos juntos e continuo neste processo até ser difícil demais raciocinar. A tensão em nós cresce proporcional à nossa euforia. Abafo minhas exclamações na boca dele, que as converte para pontos finais com agilidade e habilidade fenomenais.
Sentindo que o fim de nossa sentença estava próximo, Noah acessa minha orelha e sussurra — Eu te amo, Mara.
— Eu amo o quão bom você é nisso, Noah.
— Em que? Em te fazer perder todos os sentidos? Em afogá-la em mim e em endorfina e em tamanho prazer que consegue amar o quão bom sou em te encaminhar a este estado? Mara — sua respiração sai de uma vez —, antes de me formar em qualquer profissão, eu me formei em você. Em seu corpo. No seu prazer. Sou profissional em Mara Dyer.
— Você é PhD em Mara Dyer — murmuro com a voz abafada.
— Tenho tantas graduações em você que não há concorrente no mercado que possa me bater, Mara. E aí vem mais um diploma.
— Qual seria?
— Como Levar Mara À Loucura Em Tempo Recorde.
E, por Deus, ele conseguiu. Ficamos prontos em dois — deliciosos e tortuosos, grunhidos e murmurados — minutos.
O que posso dizer?
Somos pontuais.
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