MARA
AMEAÇAS NÃO SÃO ESTRANHAS PARA MIM. Elas me são fiéis amigas, sempre companheiras e fadadas a encontrarem a mim. Nunca tremi ao encarar de frente tais intimidações. Tantas lições eu já aprendi com elas, tantas quedas já tomei, tantas batalhas já travei. E agora, nesse banheiro cheio de sombras e preenchido de tensão, mal posso olhar para mim mesma. Não consigo ver minha expressão enquanto fraquejo diante esta advertência que foi dada a mim, enviada como um presente.
Um presente embrulhado em impiedade e cheirando a morte.
Lavo o meu rosto pelo que parece ser a décima vez hoje, buscando sair deste estado atordoado e catatônico e sabendo que, no fundo, só quero despertar deste momento que me persegue como se fosse um pesadelo. Vejo meus olhos no espelho do banheiro, reconhecendo o olhar que me encara de volta. Não é o mesmo olhar que me acompanhou por esses tantos anos, mas sim um olhar antigo, uma visão apavorada, lentes que não uso desde...
Desde que Jude me aterrorizou. Desde os dias em que minha mente era grande demais, devastadora demais; ela se alimentava de minhas angústias e engolia o pouco que havia de mim.
Desnecessário dizer que, agora, há pouco de mim nesta casca em que me tornara. Sou pura angústia e terror. Como se fosse constituída de números binários e 1 fosse medo excruciante e 0 o pavor debilitante. Eu não deveria me preocupar com nada do que me fora dito, avisado, prometido. Meus ombros deveriam estar erguidos, assim deveria também a minha cabeça. Intimações nunca foram suficientes para me desestabilizar — minha mãe bem sabe disso. Desde Kelsey, a vaca da doutora Kelsey, tenho desafiado cada grande e pequeno demônio com que me deparo, em minha mente ou fora dela. Desafio-os sem pensar duas vezes, sem dar com o pé para trás, sem questionar-me se sim ou se não. O medo que senti naquela época fatídica nunca mais me afligira.
Anos se passaram. Muito mudou.
Agora há mais terreno para as pequenas pragas crescerem e se embolarem nas plantações. David Shaw sabe disso. Ele sabia ontem. Provavelmente sabe desde quando eu fui ao médico fazer meus últimos exames. E ele veio fazer pequenas objeções, como se fosse da conta dele o que eu e Noah fazemos e como nós vivemos. Com o cérebro mal-intencionado dele, ele pegou pequenos argumentos, quase como se fossem sementes, e semeou-os cuidadosamente.
E agora o medo se enriquece dos minerais da terra, se alimenta dos bons frutos, apodrece os maduros, interrompe a germinação de novos vegetais.
Faz tempo que não sinto isso. Essa sensação de ser menor, de ser pequenina, de não ser forte o bastante. Sentir este temor é quase como boiar. Você está acima da água, não exatamente aquecida, mas não inteiramente domada pelo frio; os braços e as pernas não parecem estar ligados ao corpo, gelados e inertes. Você está respirando, não totalmente exposta à profundidade que está abaixo de você, embora esteja ciente de que ela existe, esteja ciente que ela te engolirá no segundo em que a chance aparecer. Ela te toma aos poucos, quase como uma onda que é soprada pelo mar, se quebrando e diminuindo e invadindo a praia; você se sente afogar aos poucos. É mais torturante assim, sentir seu coração indo em direção às profundezas, encharcado em cada milímetro de seu comprimento, ficando cada vez mais pesado, cada vez mais frio, cada vez mais fundo. Ele parece uma pequena moeda se comparado a expansão do espaço a sua volta, se comparado ao tamanho daquilo que o puxa cada vez mais para baixo. A pressão da desoxigenação o faz bater descompassado, faz os pulmões clamarem por ar, torna a respiração impossível. Ele pesa como se houvesse areia, e não sangue, dentro dele. É essa a sensação que tenho ao conter meu fôlego sob as camadas de desespero, segurando com as pontas dos dedos todo o controle que ainda resta em mim. Meus olhos ardem com as lágrimas não derramadas enquanto me perco em mim mesma, submersa em meus pensamentos sem estar consciente disso, sendo tomada cada vez mais, naufragando em mim mesma.
Várias ânsias sobem do fundo do meu estômago em direção à meu esôfago e carregam nada a não ser um peso invisível que me leva cada vez mais para baixo. O ácido da bile deixa aquela sensação de queimação que não disfarça o frio que assola minha pele e minha derme e sinto chegar aos meus ossos. Sinto-me mentalmente nauseada, como se até minha mente estivesse sôfrega com toda a situação.
Quero rir amargamente por ter pensado que eu conseguiria. Por ter pensado que eu não permitiria que isto acontecesse novamente.
Nada ocorre como nós esperamos. Não sei como isto ainda chega a ser uma surpresa para mim, mas é. Estivera tudo tão bem, e hoje... O peso da desesperança está notoriamente consumindo minhas energias, o que faz com que tudo pareça infinitamente confuso para mim. Embora os segundos transcorram devagar pelo relógio, me sinto uma velha, como se tudo o que já vi na vida tivesse me envelhecido e me endurecido, convertendo-me mais rapidamente ao pó.
Minha mão acaricia inconscientemente minha barriga, como se invocando um escudo nela para protegê-la do que está por vir.
O maldito do David não dera as caras durante todo esse tempo. Ele ficou de fora, apenas vigiando, apenas esperando para se envolver quando achasse que fosse necessário. Não tinha como eu saber que ele vigiava nossas contas no banco, nossas correspondências e históricos médicos. Não tinha nem como eu saber que David estava vivo — porém, nunca deixei de suspeitar. Só esperava, com o fundo de meu ser, que ele tocasse a vida para frente como Noah e eu fizemos.
Eu pressenti que algo estava errado — errado não, diferente — há seis dias atrás.
Cinco dias atrás, eu fiz os exames. Há cinco dias atrás, descobri o que de fato estava acontecendo.
Há quatro dias, eu ainda estava digerindo todas as novas informações, acostumando-me a elas.
Há três dias eu estava pronta. Estava feliz. Estava arranjando tudo para contar as boas novas a Noah, estava programando como iria dizê-lo e quando iria dizê-lo.
Ontem, David Shaw me encontrou na rua. Ou melhor, me esperou, escondido e misterioso, na rua. Pronto para assustar-me, pronto para me seguir até em meus sonhos.
É com um enorme pesar que digo que ele conseguiu.
E as chances... elas não são boas. Visualizando todas as existentes, apenas duas delas são possíveis. Apenas duas delas podem ser executadas.
Ambas acabam com morte.
A de David.
A minha.
E a mais inaceitável de todas: a do bebê.
Não posso deixar que David saia vitorioso. Não posso deixá-lo prosseguir com seus planos, não posso dar tempo para que ele esteja pronto.
Em outras palavras: não posso deixar que ele viva.
Eu poderia matá-lo agora mesmo. Rápida e eficientemente.
Mas matá-lo não calará a voz em minha cabeça, repetindo tudo o que ele já dissera.
Monstro.
Monstro, ele dissera. É um monstro.
Eu não sou um monstro, eu respondi.
Você é, ele continuou, inabalável, mas não estou falando de você. Estou falando do feto que você está gerando em sua barriga. Ele sim será um monstro. Um monstro pior do que tudo que você imaginou.
Sua boca despejou em meus ouvidos blasfêmias e absurdos, porém eles soaram terrivelmente reais. Terrivelmente possíveis.
E, para quem não pensara mais em se sim e se não, me tornei uma craque em pensar e se.
E se.
Abaixo a tampa da privada e sento, segurando meus joelhos, juntando fisicamente as partes que me faltam metafisicamente.
A porta do banheiro se abre e um par de sapatos pretos entram em meu campo de visão. Não levanto os olhos. Não ergo a cabeça.
E se. E se. E se.
— Mara — a voz de Noah está tensa, preocupada —, o que houve?
Ele sabe que algo está errado. É claro que ele sabe. Pergunto-me quanto tempo levará para que ele ouça um novo coração se formando, quanto tempo levará para que ele ouça mais um batimento cardíaco ligado a mim.
— Vamos brincar de uma coisa — ele sugere após perceber que estou irredutível —, chama-se vinte e uma perguntas.
Sorrio involuntariamente, lembrando-me da primeira vez que nós brincamos disso. Lembro-me daqueles dias finais da faculdade e da formatura, aquela época distante que marcara o fim de um ciclo e o início de outro.
O dia da formatura volta à minha mente como um filme, envolvendo-me no que eu estou acostumada a ser. Agarro-me a essas memórias enquanto abraço-me protetoramente, querendo envolver a mim e ao bebê nesta bolha de calor e conforto.
E volto a uma época em que os e se não me atormentavam de modo algum. As possibilidades não me atormentavam porque eu fazia parte delas. Elas me eram intrínsecas, portanto, não me eram assustadoras. E agora as possibilidades foram arrastadas de mim, me deixando com poucas alternativas.
Devo matar o David.
Não há e se nessa constatação. É uma afirmação. Uma certeza. Uma certeza que devo buscar e que pode custar qualquer coisa — a mim. A minha vida, que seja. Mas não ao meu bebê.
Não ao meu filho.
Não ele.
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