O Desfastio de Mara Dyer
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NOAH
Não sei lidar com a espera. Nunca soube.
Após Mara deixar a casa, os segundos tornam-se eras para mim, o que faz com que as horas pareçam milênios longos, enfadonhos e preocupantes.
Preocupação.
Não sou capaz de somar, em palavras ou números, o volume de minha preocupação. É exorbitante. Preocupo-me com a saúde de Mara — física e mental; meu pai pode prejudicá-la em incontáveis maneiras, pode magoá-la de forma intrínseca, e não apenas à sua carne. Preocupo-me com a consequência do que a morte — do que matar meu pai — pode fazer a ela. E, por mais que não seja inteligente de minha parte, preocupo-me com meu pai — não tenho medo de vê-lo morrer; David deve ser morto, e não é apenas minha lealdade e confiança em Mara que me faz acreditar que é ela quem deve exterminá-lo. Não. Preocupo-me que, talvez, uma redenção para ele não seja cabível. Não sei se acredito em um paraíso, em um lugar para ficarmos após a morte, mas ao imaginar-me daqui muitos anos, na beira da morte, na fronteira ínfima entre viver e morrer, gosto de pensar em ter um lugar para reencontrar aqueles que me são queridos. Gosto de pensar que as pessoas podem se redimir. Gosto de pensar que elas tenham essa chance.
Mesmo achando que meu pai já ultrapassara este nível.
Sento na janela como um garotinho ansioso. Não sei quanto a parte do garotinho, mas o ansioso é bem real. Observo a movimentação da rua, absorvo aquela calmaria familiar e tento não pensar em como Mara deve estar sentindo o oposto agora mesmo, vingando todo o seu sofrimento, trazendo justiça ao nosso filho, livrando o mundo de um homem como o meu pai.
Pensar no meu filho ainda aperta meu coração. De fato, não sei se algum dia deixará de castigá-lo, se essa oportunidade tirada de mim se tornará menos dolorosa. Tento imaginar como teria sido se meu pai não tivesse interferido, se Mara tivesse voltado para casa e dito que estava grávida. A esta hora, estaríamos deitados abraçados e colados um no outro, mesmo tendo uma cama grande e espaçosa. Minha garganta é bloqueada com o caroço que se forma nela ao visualizar-me acariciando a barriga de Mara, tocando e conversando e sentindo minha pequena criança no ventre precioso de sua mãe.
O trauma de tê-la perdido corrompe meus pensamentos mais esperançosos, pois agora não sei se Mara quererá ter filhos mais tarde. Não sei se para Mara a morte de meu pai será suficiente. Não sei se, agora, eu sou o suficiente para ela.
Não a toquei em dias. Mal troquei dúzias de frases com ela. Os olhos castanhos se mantiveram frios por tempo demais, e quase não me recordo com alegria do que eles outrora foram.
É curioso como memórias felizes se tornam memórias nostálgicas de uma hora para outra.
Assisto um carro preto familiar parar em frente à casa. O carro de Jamie. Mara desce logo depois e caminha pelo jardim, em direção à entrada. Observo-a hesitar na porta antes de entrar em casa. Ela está pálida e, ao pentear os cabelos num gesto de nervosismo, dedos trêmulos brincam com os cachos compridos.
E há sangue. Muito sangue.
Meu coração palpita ao tentar identificar quanto daquele sangue é o dela e sai em uma corrida desenfreada ao perceber que a maior parte — facilmente noventa por cento — daquele sangue é do meu pai.
Era de meu pai — corrijo-me. E dói. Angustia meu coração, comprime meus pulmões e exaure minha mente, mas não chega a ser nem um décimo do que deveria ser, do que seria correto um filho sentir pelo pai. Tenho plena ciência disso.
Noto determinação nos olhos de Mara e vejo-a entrar num rompante, batendo a porta atrás de si. Seus passos pesados e barulhentos no piso de madeira enviam expectativa à base de minha coluna, alimentando ainda mais o monstro enorme que é minha ansiedade.
Mara para no batente da porta ao me ver. Parar é menosprezar seus gestos, pois ela praticamente congela, como se não me esperasse aqui, como se não quisesse me enfrentar agora.
— Mara — não pergunto, não constato, não peço, não repreendo. Apenas digo seu nome.
E isso a faz quebrar em um milhão de pedaços, como se esperasse outra reação por minha parte.
— Não — ela balança a cabeça, dizendo não a querer me aproximar dela, dizendo não à minha preocupação, dizendo não à urgência que sinto de tocá-la, senti-la.
Sendo assim, continuo na janela, observando-a respirar fundo, seus olhos avaliando a sala como se nunca a tivesse visto, seu corpo exausto se preparando para uma outra batalha.
— Eu fiz coisas horríveis hoje — sua voz está engasgada, carregada de culpa —, coisas que eu não precisaria ter feito, mas fiz mesmo assim.
Pisco algumas vezes, tentando entender.
— Não a culpo por matar meu pai, Mara. Já era para ter acontecido há anos atrás e ele merecia este fim.
— Mas eu não apenas o matei — ela suspira antes de confessar —, eu o torturei. Muito. De várias maneiras diferentes.
Fico em silêncio, as palavras aos poucos fazendo sentido em meu cérebro.
— Não fora uma morte limpa, Noah. Eu o fiz sofrer. Machuquei-o sem sentir remorso. Para falar a verdade, ainda não me arrependo.
Fito-a sem compreendê-la. Por que então a culpa está em seu olhar e obstruindo sua garganta?
— Só pensei depois o quanto minha... minha desumanidade com seu pai poderia te fazer sofrer. E este pensamento só me veio à mente porque Jamie interferiu. Provavelmente, se ele não o tivesse feito, eu estaria até agora descontando meu ódio em seu pai.
Pressiono a ponte de meu nariz e respiro fundo, organizando meus pensamentos e tentando sintonizá-los com minhas emoções.
— Não direi — começo, pesando cada palavra — que esperava que você encerrasse a vida dele de forma rápida, pois nunca achei que acabar rapidamente com ele fosse justo. Entretanto, Mara, nunca pensei em um enterro com o caixão aberto. Não esperava menos que destruição total com você.
É a vez dela me encarar sem entender.
— Sinto-me um péssimo filho e ser humano por dizer isso em voz alta, mas não me importo que você o tenha torturado. Meus... sentimentos estão muito embaralhados quanto a isso ainda, mas tenha certeza de uma coisa — desencosto da janela, meu dedo erguido ressaltando o argumento — eu nunca a culparia por arruinar cada fibra, osso e articulação de David. Nunca.
Ela acena com a cabeça, desconcertada. Posso ver que Mara está desconfortável com minha aceitação, seus olhos caindo em todos os lugares da sala, exceto em mim. Ela começa a caminhar lentamente pelo cômodo, e acaba indo até a lareira e acendendo-a. Em seguida, Mara senta no tapete em frente àquela chama. Nas suas roupas há sangue, em suas mãos há sangue, em suas feições há sangue. Até mesmo seus olhos estão sanguinários.
Jogo-me mentalmente sobre ela antes que a parte física o possa fazê-lo. Curo seus dedos feridos, cuido de sua costela quebrada, junto os cacos de seu coração partido.
Caminho lentamente até ela. Não porque estou com medo, não porque não tenho pressa — caminho lentamente porque cada passo que dou, menos sangue escorre de suas cicatrizes, de seus medos, das partes fragmentadas que restaram.
Um passo — seus ombros relaxam.
Dois passos — as mãos que estavam em punhos jazem com as palmas para cima em seu colo, como se pedindo misericórdia, como se pedindo redenção, como se me convidassem a ser o juiz, o juri e o executor.
Três passos — as sobrancelhas franzidas e unidas se separam e se espaçam, destroçando a expressão furiosa de Mara e aflorando os olhos castanhos reluzindo com a luz das chamas, os lábios curvos e convidativos e meus, lábios tão meus que os conheço em cada dimensão, cada milímetro e centímetro de seu perímetro; conheço seu sabor e sua essência e sua magnificência sem pedir desculpas pela rima; se algo no mundo pode ser poesia, eles o são. Os lábios de Mara são pura e maciça poesia.
Quatro passos — ela suspira, exala, evacua, joga para fora toda a pressão e raiva e decepção e depravação. Quatro passos fora o que o bastou para que ela tirasse de seu corpo e consciência tudo de mal que o mundo lhe havia implantado. Quatro passos fora o necessário para que o coração batesse para fora todo o pessimismo, para sua corrente sanguínea todo o medo e para seus pulmões todo o infortúnio, para sua narina e sua boca a soma de todos os fatores. Quatro passos fora o que eu tive que caminhar para ouvir de seus lábios o definhamento da dor em meu nome.
— Noah — ela sussurra.
Um nome, quatro letras, duas vogais e duas consoantes — fora o que ela precisou expelir para que eu corresse em sua direção, ajoelhando-me na frente dela, puxando-a para mim, agarrando-me em cada porcentagem de sua existência para não deixá-la ir nunca mais.
Os dois lábios dela, os dois lábios meus — fora o necessário para nos unir e ela gemer e meus sentidos gritarem furiosamente cada sensação e reação para que meu cérebro interpretasse-os corretamente. Duas bocas, dois corações, dois segundos, duas horas, duas eras.
Nosso beijo se aprofunda quando a puxo sobre minhas pernas, suas mãos em minha nuca, seus calcanhares em minhas costas, seu coração em minhas mãos. Tomo cuidado para não estilhaçá-lo conforme tiro sua blusa molhada com o sangue dela, molhada com o sangue dele. Deixo-o em meus lábios enquanto agarro-a com mais força em minha boca, quase para fixar mais seu sabor no meu paladar, quase como se eu já tivesse provado muito do amargor e agora almejasse algo doce o bastante para aplacá-lo, algo doce o bastante para superá-lo, algo tão doce que só a mais doce das almas e um dos mais doces corações e lábios e seios e barriga e umbigo e âmago poderia me oferecer tamanho júbilo, tamanho desfastio, com o sentido dúbio da palavra. Porque é prazeroso e porque me supre, deixando-me sem fome, deixando-me satisfeito, deixando-me completo.
Os meus dedos correm para o botão e o zíper de sua calça, mas não parecem correr rápido o bastante; minhas mãos descem pelas pernas de Mara levando consigo o tecido esfolado e molhado e sujo para fora dela, deixando-a nua, despida, vestida apenas em nossos sentimentos tumultuados e pesados, como uma massa de cobertores que aquecem e abrigam e acolhem.
Deixando-a de costas para o chão, deito Mara e desfaço o laço e aumento o espaço e faço rápido o meu percurso até o epitáfio de nós dois. Minha vez de tirar as calças, minha vez de tirar a camisa, minha vez de ficar desnudo e vestido ao mesmo tempo.
— Noah — um nome, uma prece, uma exclamação, uma exigência, um pedido.
— Mara — uma força incontida, uma admiração enlouquecida, um amor resplandecente, uma promessa infindável, um elo com a vida e a morte, uma definição nova e complementar de Noah, de mim, de ser.
Olhamos-nos fixamente por alguns segundos e um pouco mais enquanto penetro-a lenta e inteiramente. Sinto nossos corpos, nossos corações, nossas mentes e nossos cernes reclamarem um ah! junto de nossas bocas.
Mara beija meus lábios, meu queixo, a assinatura sobre minha clavícula, o meu pescoço, beija-me incessantemente até que eu começo a beijá-la incessantemente. Nossos movimentos viram uma fusão de respostas vorazes às perguntas que nossas mentes possam ter levantado, devorando as suposições e mitigando os talvezes. Cada penetração é uma mistura de morte e renascença — morte das dúvidas, das frustrações, dos e se e dos pensamentos forjados na ira e na insegurança; renascença das certezas, da confiança em nós dois e em nós mesmos, a restauração e a amplificação do amor que compartilhamos e pavimentamos durante muitas quedas e múltiplos voos.
Exploro cada centímetro do corpo dela, olhando até onde me era possível e tocando até onde não é. Seus seios clamam sob meu toque, sua barriga se tenciona em minhas mãos, suas pernas se erguem quando assalto a parte mais doce e mais quente e mais minha e dela e nossa e de mais ninguém de seu corpo.
— Noah — um nome, uma dádiva, uma declaração, infinitas sensações —, eu te amo.
Eu te amo também respondo quando concentro-me em seu corpo, dedicando a atenção que ela merece a cada pequena parte erógena de sua pele.
Eu te amo também lhe digo quando firmo-me novamente entre suas pernas, minhas mãos em suas mãos, meus joelhos entre os dela, meu coração perdido e derramado e consumado em cada movimento que fazemos juntos, só para ser forjado e unificado novamente.
Eu te amo também lhe sussurro enquanto nós dois lutamos pelo fôlego que nos falta embora o ar nos encha, nos entorpeça e nos amplie, pois há muito tempo não conseguimos respirar desse jeito, cheios de alívio e de vida, o meu ar e o ar dela se contrapondo e se misturando, se erguendo e flutuando, um espelho de nós dois.
Eu te amo mais do que você jamais saberá é o que falo quando chegamos ao ápice juntos, cinzas e chamas, ávidos por viver e despreocupados com o morrer.
Descanso a testa no ombro de Mara e sei que selamos outro voto neste momento. Ultrapassamos o limite do que nos mantinha como dois e chegamos à fase incomparável do um. Uma só unidade, um só objetivo, uma só função.
Amar. Amar-nos. Amarmos.
E subitamente entendo porque Mara chegara e acendera a lareira em pleno verão, no meado da tarde, no pico de calor.
David Shaw nos profanou.
E agora, depois de tudo, a chama nos salva. Purificando. Redimindo. Sublimando.
— Eu te amo também, Mara Shaw — afirmação. Sem dúvidas, sem contrapontos, sem hesitação.
Genesis. Apocalipse. Início. Fim.
Não é porque é o fim que acabou.
Não é porque é o apocalipse que se colapsou.
Não é porque é o início que se é inédito.
Não é porque é o genesis que é a origem.
Não é porque se é previsível que acontecerá.
A vida é cheia dessas pequenas surpresas. Essa é a graça e a agonia de viver.
Respiro profundamente na pele de Mara, contente em poder tocá-la, feliz em ter passado e concluído uma fase desagradável de nossas vidas.
— Nunca mais — seguro o queixo dela enquanto falo, todo seriedade —, nunca mais me afaste, Mara Shaw.
Ela comprime os lábios e seus olhos imploram desculpas, mas quero ouvi-la dizer.
— Prometa. Prometa, Mara.
Respirando fundo, ela cede.
— Eu prometo.
Deito-a em cima de mim, apoiando meu queixo em sua cabeça, meus dedos penteando as madeixas rebeldes.
— Você é um delicioso colchão — o nariz dela brinca com meu peito, deixando-me arrepiado.
— Você é um delicioso cobertor — digo em resposta, minhas mãos demonstrando porquê ela é tão esplêndida assim.
Em dias, essa é a primeira vez que consigo um momento de calmaria, de sobriedade. Tê-la em meus braços faz com que tudo entre nos eixos mais uma vez. A gravidade não parece mais me diminuir e me entorpecer, nem mesmo me sobrecarregar.
David, meu pai, está morto.
Mara, minha mulher, minha amiga, meu amor, está aqui.
— Nós ficaremos bem, Mara — digo em seus cabelos —, tudo dará certo.
Em meio ao sono, acho que a ouvi dizer que tudo já estava dando certo. Percebo então que tudo vem dando certo desde que a conheci, apesar dos fatores que podem argumentar contra isso.
Tudo vem dando certo porque Mara é a mulher dos meus sonhos, e tudo continuará dando certo porque ela é melhor do que qualquer sonho que um dia já tive.
— Nós ficaremos bem.
Certeza. Afirmação. Esperança.
Prendo-me ao futuro, deixando o passado jazer esquecido e intocado.
Esperança.
Sei que o amanhã será melhor que hoje. Apenas sei.
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