MARA

O MÉDICO ME ENCARA COM UMA EXPRESSÃO NÃO MUITO AGRADÁVEL. Não sei se ele acha divertido intimidar as pessoas, mas tenho vontade de dizê-lo que não é muito legal agir assim. Tenho vontade de fazê-lo parar com isso.

Contudo, respiro fundo.

Missão Lieben, Mara, relembro pela... não-sei-quanta-trilhonésima-vez porque perdi a conta. Não serei mal educada com este bom doutor. Principalmente se ele tiver boas notícias.

Por favor, Lieben. Faça com que ele tenha boas notícias.

— Faz muito tempo que esses sintomas começaram?

Comprimo os lábios, pensando. A última vez que eu menstruara me vem rapidamente na cabeça, pois já tinha pensado nisso. Fazem três meses — pelo que eu me lembre. Depois de meu desencontro com Lieben, meu organismo ficou uma zona. Minha menstruação não voltara durante meses, uns quatro, se posso ser exata, e ela viera apenas uma vez antes de pausar novamente.

Mas — adoro o fato de poder contar com um mas — também comecei a ter enjoos. Vomitei, até. E essas náuseas horríveis iniciaram-se há pouco mais de um mês.

Levei um tempo até juntar dois mais dois. Assim que suspeitei, corri para cá. Literalmente. Por baixo de minha blusa de moletom, a camisa do pijama que eu usara noite passada descansa confortavelmente contra meu peito. Não contei minhas suspeitas à ninguém. Não quero desapontá-los caso seja apenas isso — suspeitas. Acordei, tive o insight do que esses enjoos e falta de menstruação poderiam significar e vim para cá.

— Bem, senhora Shaw, só esses sintomas não são suficientes para afirmar uma gravidez. Os enjoos podem ser justificados por sua mudança de hormônios, assim como a falta de menstruação. Entretanto, faremos um exame na senhora para garantirmos uma resposta concreta, sim? Aguarde aqui.

Ele levanta para chamar uma enfermeira. Ou talvez para ir dormir. Provavelmente os dois. A cara de sono dele está me irritando e com certeza eu preferiria fazer meu pré-natal com o Hannibal do que com esse cara.

Isso se eu estiver realmente grávida — relembro-me.

É. Obrigada, cérebro.

Bato meus dedos no braço da cadeira, criando uma sinfonia sem ritmo e ansiosa. Meus pés balançam um contra o outro, meu coração não desacelerou um segundo sequer desde que a possibilidade de estar grávida novamente passou por minha cabeça e o suor escorre por minha espinha.

Estou nervosa. Muito nervosa.

Respiro fundo, procurando me acalmar.

— Mara?

Levanto rapidamente minha cabeça, reconhecendo a voz. Ao ver o cabelo loiro e os olhos azuis me avaliando, sorrio, surpresa.

— Jamie! Que bom vê-lo aqui. Quando... quando você voltou?

Ele sorri, lembrando-me do marido de minha querida amiga Juliette Ferrars.

— Retornei há algumas semanas. Queria estudar mais e conhecer o mundo de vocês. Estava mesmo fazendo isso quando ouvi o doutor dizer seu nome e, bem — ele dá de ombros —, achei que seria uma boa te checar. Como você está?

— Bem. Não é nada sério, na verdade.

Jamie olha em meus olhos antes de pegar uma papelada — creio que seja a minha papelada, meu diagnóstico. Seus olhos retornam aos meus, surpresos, depois de ler algo.

— Suspeita de gravidez?

É a minha vez de dar de ombros.

— Pois é.

— Aposto que Noah está muito feliz.

— Ainda não contei nada para ele.

— Bem, será uma notícia e tanto — seus dedos, velozes, preparam a agulha para colher meu sangue e vestem as luvas, tudo numa maestria incrível. Se eu não soubesse que ele é jovem, pensaria que anos de experiência o teriam dado o que sei que é talento nato.

— Como estão as coisas no Setor 45? — Pergunto, ansiosa para saber se meus amigos de lá vão bem.

— Está tudo ótimo. Ju pediu para que eu mandasse beijos caso a visse. Meu irmão, Aaron, mandou um abraço. E Amaya disse precisamente para que eu não lhe cumprimentasse em nome dela, apenas Noah. E é um cumprimento bem específico.

Rio, aquecendo-me com o amor deles. De fato, anos se passaram desde a última vez que os vira. Fora no dia do meu casamento, e depois disso, ficou tudo... corrido demais.

— Estique o braço para mim — James pede, e logo o obedeço. Assisto o tubinho se encher com meu sangue em silêncio. — Está nervosa?

— Mais do que sou capaz de admitir.

James ri. Não apenas uma risadinha, mas uma grande e alta gargalhada. Ah, esse garoto...

— Ria mesmo. Um dia você passará por isso.

— Acho improvável. E sou muito novo para isso, então estou despreocupado.

Mostro a língua para ele.

Ele é, de fato, muito novo.

— Com quantos anos você está? Dezenove?

Ele ri novamente, zombando de mim.

— Mara, eu tinha dezenove na última vez em que nos vimos.

Percebo que Jamie tem razão.

— Ah, bem. Então, com quantos anos você está agora?

— Vinte e três.

Vinte e três anos. Uau. Não tão novo assim, então.

Fico presa em meu choque até que ouço-o me dizer que logo retornará com os resultados.

— Quanto tempo levará?

— Normalmente, de vinte a trinta minutos. Mas, para você, faço em dez.

Exclamo um obrigada para ele.

— Ah, e Mara... Como está Katie?

É isso. Aí está. A pergunta que temi que ele fizesse.

Umedeço os lábios e tento não demonstrar nada em minhas feições.

— Bem. Ela está bem. Obrigada por perguntar.

Ele apenas sorri, acanhado, antes de se retirar.

Droga, Katie, xingo-a mentalmente. Maldita seja por fazer tudo mais difícil. Com um toque rápido em minha bolsa, alcanço meu celular. Já há mensagens de Noah na caixa de entrada, mas escrevo uma para minha cunhada antes.

09:33
James está aqui.

Não preciso esperar muito por uma resposta.

Katie
09:34

*olha para tela do celular sem entender nada*

Bufo, humorada. Só Katie para escrever o que ela realmente fizera ao ler a mensagem.

09:34

James. James Anderson/Warner/Kent. O q vc preferir. Ele está AQUI.

Desta vez, observo a tela do meu celular por alguns segundos. Temo que Katie tenha morrido com o choque. Os segundos se tornam minutos e nenhuma resposta aparecera.

09:37

Katie?

Silêncio. Nada de James. Nada de Katie. Parece até que ambos combinaram em tentar me deixar louca.

09:40

Katie????????????????

Ouço a porta do consultório abrir e escondo meu celular rapidamente entre as pernas. Jamie sorri com o envelope em mãos e, ao entregar para mim, apenas fica mais contente.

— Você está me assustando — confesso na frente daquele sorriso que não fraqueja por um segundo.

Tenho vontade de perguntar-lhe aonde fora parar o médico que me atendera, mas fico calada, encarando-o.

— Abra — ele me entrega o papel branco. Queria poder dizer que abri-o cuidadosamente, sem rasgá-lo ou amassá-lo, mas bem... não fora o que ocorrera. Após dilacerar todo o papel em pequenos pedaços, seguro o resultado em mãos, lendo e lendo e lendo e —

Olho para Jamie.

Olho para as palavrinhas que acabara de ler.

— Isto está certo? — questiono-o.

— Sim, está.

Sinto meu celular vibrar e olho para baixo, conseguindo ler a mensagem de Katie.

Katie
09:45

*desmaiada*

Quero rir dela. Gargalhar.

Somos duas, cunha. Somos duas.

Alguns copos de água depois e após respirar ar puro por dez minutos, estou mais calma. Já deixara o hospital para trás e caminho devagar pelas ruas de Miami. O calor não está tão sufocante nesta época do ano, mas está abafado o suficiente para ser infernal. Paro em um banco perto de casa por alguns segundos e descanso, limpando o suor que se acumulara em minha testa.

Corro meus dedos pelos menus do celular, pensando. Abro novamente as mensagens que Noah enviara e as leio. Uma fora enviada na parte da manhã, logo depois de sua saída para o trabalho.

Noah ♥

07:26

Vc estava dormindo quando acordei, e mesmo babando, descabelada e com os olhos amassados com o resquício do sono, vc estava linda. Quase te acordei p dizer td isso. Eu te amo.

Não é a primeira vez que leio esta mensagem, embora meu sorriso é tão genuíno quanto fora da primeira.

A outra foi encaminhada a mim algumas horas mais tardes — e minutos antes do resultado chegar até mim, percebo.

Noah ♥

09:21

Eu não te acordaria apenas p dizer td aquilo. Provavelmente tentaria abusar de vc tbm. E te amo ainda mais pq sei q se eu provavelmente tentasse abusar de vc, vc provavelmente deixaria.

E há mais uma.

Noah ♥

09:27

E, para vc saber, eu tbm deixaria vc abusar de mim.

Rio mais uma vez e olho para o céu azul claro, recheado de nuvens fofas e branquinhas. Uma vez li que os nossos olhos veem as nuvens como elas são, e o nosso cérebro se encarrega de atribuir formas que conhecemos nelas. Agora, por exemplo, meus olhos veem uma nuvem em forma de cone e com pequenas curvas sobre a parte superior, na menor reta daquele triângulo, mas meu cérebro enxerga um sorvete em casquinha gigantesco e branquinho sobre minha cabeça, no lugar da imagem real. Contudo, vejo algo mais no céu cheio de nuvens. Algo que me faz querer saber em qual momento meu cérebro trocara de lugar com meu coração para que eu visse o rosto de Noah nas nuvens. Para que quando perguntam o que é amor para você a primeira resposta ser o nome dele.

Tomando um pouco mais de água da garrafa que trouxe comigo, observo mais uma vez o papel branco e grosso jazer entre minha carteira e um livro. Um papelzinho que tem tanto peso, tanto valor sentimental. Absorvo a luz do sol junto da quietude e tranquilidade daquela tarde, sabendo que a calmaria é a transferência lenta e espirituosa para a mudança.

Mudança. Definitivamente, haverá uma mudança muito em breve.

Caminho pesadamente pelas últimas quadras até casa, tentando significar e traduzir tudo o que estou sentindo. Abrindo a porta e indo até o quarto de hóspedes, sento-me na cama grande e observo as paredes pouco decoradas, apenas a tintura creme cobrindo-as. A janela tem vista para uma parte arborizada da cidade, o verde se sobrepondo ao cinza dos prédios, casas e do asfalto. Sem dar muita atenção sobre o quão racional estou sendo ou não, pego algumas ferramentas na garagem e começo a desmontar a cama, soltando os pés um a um, cada peça sendo deixada o mais afastado do centro do quarto que minha força conseguisse carregar.

Terminada a cama, fito o móvel com gavetões em um tom de madeira escuro. Ele poderia ser útil. Se eu forrasse e o deixasse confortável o suficiente, poderia utilizá-lo como fraldário —

— Mara?— ouço Noah me chamar da entrada. Olho surpresa para o relógio e constato que as horas voaram desde que eu começara a mexer no quarto.

— Estou aqui — aviso-o. Ele segue o som de minha voz e eu respiro fundo, sentindo-me cansada e suada, os braços e ombros doloridos pelo esforço de carregar tanto peso.

Ao chegar no cômodo, ele me olha de um jeito que me faz pensar que estou bem pior do que imaginara. Penteio inutilmente meus cabelos embaraçados e assisto a confusão em seu rosto ao ver a bagunça do quarto.

— O que está acontecendo?— suas sobrancelhas estão franzidas juntas, os lábios compridos de forma preocupada.

— Por que você está me olhando como se eu estivesse em um ataque psicótico?

— Por que parece que você está tendo um ataque psicótico.

Sorrio e balanço a cabeça, rindo de sua capacidade de observação. Ver-me rir parece tirar um peso dele, o que o faz se aproximar, curioso.

— Por que você desmontou a cama? Aliás, você poderia ter se machucado.

Ignoro a última parte.

— Precisaremos desse espaço.

— Precisaremos?— A sobrancelha direita dele está arqueada, alta, desconfiada.

— Sim. E colocaremos um papel de parede aqui. Além de quadros. Com certeza, quero quadros.

— Espaço. Papel de parede. Quadros. — Noah cita pausadamente — Qual o motivo da reforma?

Considero se devo dizê-lo agora sobre o resultado. O que ocorrera da última vez está muito recente em minha cabeça, assim como as consequências de não ter dito logo a ele sobre a gravidez. Talvez, se eu o tivesse contado logo, agora Lieben estivesse aqui. É um talvez muito ínfimo, mas é alguma coisa.

— Fui ao hospital — começo.

— Hoje?— A expressão preocupada retornara ao seu rosto.

— Sim, logo depois que você saiu.

— Você está bem?

Mordo o lábio, pensando em como posso dizer sem fazê-lo surtar.

— Fui fazer um exame. Tenho percebido alguns sintomas ultimamente, e suspeitei.

— Deus, Mara. Diga logo. Você está doente?

Só se for de ansiedade.

— Não, eu não estou doente.

Noah solta a respiração que estava segurando.

— Então, o que é?

— Acho que, quando Lieben disse que em breve um anjo estava a caminho, ele tinha razão.

Noah fica desnorteado. Os olhos, arregalados, tentam me ler, tentam entender o que estou dizendo.

Alcanço o bolso traseiro de minha calça jeans e tiro o papel, já marcado por ter sido tantas vezes aberto e então dobrado e fechado só para eu repetir todo o processo. Sem mais uma palavra, entrego-o para Noah. Ele se apoia na parede, como se precisando de reforços para ficar em pé, e desdobra delicadamente o papel.

Assisto-o ler o resultado sem ao menos piscar. Os olhos dele estão selvagens e brilham de um jeito inacreditável, como se fossem faróis.

— Este exame — tenho quase certeza que vejo suas mãos tremendo levemente —, ele está certo?

Tento impedir o sorriso que ameaça destruir minha expressão séria, mas fracasso. Sinto-me sorrir não só porque os músculos de meu rosto se contraíram e minha boca se abriu; sinto meus olhos, contentes, sorrirem em forma de lágrimas. Meu peito, tentando aguentar as batidas desesperadas do coração, se aperta, agitado, trazendo oxigênio nas inspirações e soltando fagulhas quentes e alegres na expiração, levando este sentimento para cada célula e membro do meu corpo.

Estudando-o, digo:

— Está certo. Cem por cento certo. Certo para caralho.