ANTES

Estou deitada na cama com Noah, minha cabeça apoiada em seu abdômen enquanto leio um livro da Virginia Woolf para a faculdade. Alguns podem pensar que deve ser desconfortável o sobe e desce incansável da respiração dele, de acompanhar as subidas e descidas da barriga de Noah, mas eu discordo. Adoro ler assim. Me acalma, me concentra.

— Vamos brincar de uma coisa.

Olho-o e vejo um sorriso maroto em sua boca, sorriso que promete muita diversão e nenhum arrependimento posterior.

— Do quê?

— Chama-se vinte e uma perguntas. Cada um faz vinte e uma perguntas um para o outro.

Tento ver aonde ele quer chegar com isso, mas desisto. É muito difícil resistir a seus planos.

— E qual é a regra?

— Regra? — ele arqueia uma sobrancelha — Por que tem de haver uma regra?

— Toda brincadeira tem regras. — Dou de ombros.

— Certo. — Ele parece considerar a questão por alguns segundos — A única regra é que não podemos mentir.

— Okay — olho para ele, desconfiada — Eu começo, então. Primeira pergunta: por que eu sinto que você pegou essa brincadeira de algum livro de sacanagem e adaptou com perguntas?

Noah prensa os lábios, contendo o sorriso — Porque você me conhece bem.

Eu sabia. Gargalho da sua falta de vergonha.

— Minha vez. — Ele me olha profundamente, como se estivesse pensando em uma pergunta. Tenho certeza de que ele já tem as vinte e uma perguntas prontas em sua linda cabeça, mas querer fazer mistério é parte do que Noah planeja — Você tem algo planejado para depois da faculdade?

É a minha vez de olhar profundamente para ele. Nós dois estamos no final de nossos cursos — eu, o de letras, e Noah de medicina. O foco dele no curso, além de usar seu dom para o bem, são os poderes terapêuticos da música —, faltando um pouco mais de um mês para finalizarmos nossas provas finais. Por causa do livro que escrevi — o nosso livro —, eu queria sair por aí, divulgá-lo, usar o pretexto que posso para descobrir mais sobre os que tem a G1821 ou o que quer que tenhamos. Mas nada está confirmado ainda.

— Não tenho nada na agenda. — Digo-lhe então — Por quê?

Essa é a sua segunda pergunta?

— Você — ponho o indicador em seu peito, aproximando-me dele — é esperto demais para o seu próprio bem. E não, essa não é a minha segunda pergunta. Você vai acabar me falando o que você planeja, mais cedo ou mais tarde.

Noah semicerra os olhos e o canto da sua boca se curva em um sorriso ousado. Filho da mãe bonito.

— Tudo bem.

— Tudo maravilhosamente bem — ecoo, fechando o livro e ficando de joelhos, aproximando-me dele.

— Continue — ele me incentiva. Sua cabeça está apoiada em sua mão, seu cotovelo mantendo-o erguido e assegurando o acesso de seus olhos aos meus. Essa expressão impertinente em seu rosto é como energético em meu corpo; me deixa inquieta, faz com que eu mude de posição e palpita meu coração — o que, é claro, Noah nota.

— Por que você é tão gostoso?

— Essa definitivamente é uma pergunta.

— Não é nada — começo —, é mais uma retórica do que tudo.

— Já deixei você se safar na anterior, Mara. Não vou deixar novamente.

Ele passa o dedo pela barba rala que começara a aparecer em seu queixo, espelhando o fim de semana preguiçoso que compartilhamos.

— Bem, não sei realmente explicar o porquê de eu ser tão gostoso. Talvez seja meu cabelo, meu jeito de me portar ou minha aura de conhecedor. Sem contar que sou extremamente sexy, principalmente quando fumo. Provavelmente, a resposta é a soma de todos os fatores.

Ele tem razão.

Entretanto, não o deixarei saber disso.

— Eu discordo.

— Você discorda, é? E por quê?

Sorrio maliciosamente para ele — Essa é a sua pergunta?

Fitando-me sem expressão por um tempo, ele apenas me observa, seus olhos fixos nos meus.

Meu coração começa a se acelerar, como de praxe.

Minha respiração começa a se alterar, como sempre.

E ele, obviamente, percebe. Aproveitando-se disso, ele se senta e puxa-me para seu colo, nossos narizes a centímetros de distância.

— Sim, essa é a minha pergunta. Por que você discorda?

E o feitiço se voltou contra o feiticeiro.

Aconchego-me mais nele.

— Para começar, você não é tão conhecedor assim.

— Sou muito conhecedor, principalmente do corpo humano, ressaltando o corpo humano feminino. Sabe por que eu não fiz ginecologia?

— Tenho até medo de perguntar.

— Porque eu daria aula até para o professor. Sinceramente, a possibilidade de eu receber meu diploma por correio qualquer dia desses é muito grande.

— Cala a boca — comento, rindo. Levanto minha mão para empurrar seu ombro, porém Noah interrompe meu movimento, segurando meu pulso.

— Ou o quê? — Seu tom não é mais brincalhão, o que faz meu sangue correr mais rapidamente por minhas veias, meu coração disparado com o que sua voz e suas palavras prometem.

Fico em silêncio, tentando conter a selvageria de minha respiração.

— Diga o quê por bem, Mara — seu polegar desenha pequenos círculos em meu queixo, minha bochecha —, ou a farei implorar.

— Eu não imploro.

— Então a farei implorar duas vezes.

Umedeço meus lábios em expectativa.

— Noah Elliot Simon Shaw — digo, sussurrando —, fique à vontade para tentar.

— Você não sabe como mexe comigo, sabe? — Onde outrora seus dedos acariciavam minha bochecha, agora seus lábios suspiram carícias e segredos em meu rosto, o hálito quente e mentolado de Noah zumbindo por minha pele, sibilando por meu rosto e assobiando canções em meu pescoço.

— Essa, por um acaso, seria outra pergunta? — minha voz sai baixa, meu fôlego escasso.

— Não — ele praticamente soletra a palavra, seus lábios beijando onde antes seu hálito havia sensibilizado — você não terminou de responder porquê discorda. Estou ansioso para saber.

— Seu cabelo não é tudo isso — digo, apesar de achar o cabelo dele tudo isso e mais um pouco —, e você se porta como...

— Como? — Ele espera, beijando o canto direito de minha boca, os olhos fechados. Seus cílios curvos me encantam de um modo assustador. Fazem-me querer tocá-los, querer beijá-los, saber se eles são reais ou obra de minha imaginação.

Engulo em seco, procurando onde a minha linha de raciocínio pode ter ido parar.

— Como... um filho da mãe metido. E esnobe.

— E bonito pra caralho.

— E boca suja.

— E alguém que não perde nenhuma discussão nunca. Tipo essa.

Suspiro e pego em seu queixo. O meu nariz toca no dele, mas não me deixo distrair por seu toque. Corro meus lábios até sua orelha.

— Eu não discordo totalmente, Noah. Essas coisas te fazem sexy. Só não concordo que são apenas elas que passam essa imagem. Você é muito mais do que isso. Essa é a parte superficial de você. A profundidade é mais bela, mais interessante, e infinitamente mais sensual.

Sinto sua mão passar por baixo da barra da minha camiseta, cruzando minha cintura e indo em direção às minhas costas, pequenos arrepios acompanhando seu toque.

— E o que faz parte da minha profundidade?

— Nananina — sorrio para ele enquanto traço sua linha do queixo com o polegar —, é a minha vez de perguntar.

— Vá em frente — diz ele com os olhos semicerrados.

— Seu computador. Ele tinha uma senha.

Ele acena com a cabeça, concordando.

— Era MARASHAW. Mara, o meu nome, e Shaw, o seu sobrenome.

Noah apenas me olha.

— Por quê? — A questão de um milhão de dólares.

— Você realmente não sabe, não é? Você mexe intensamente comigo, Mara. Sempre mexeu. Sempre mexerá. Nada mudou durante todos esses anos. E, desde que nos conhecemos, você fora tão intrinsecamente minha. Minha amiga. Minha confidente. Minha igual. Minha Mara. Não pude deixar de te imaginar como minha em todos os sentidos possíveis e cabíveis, até mesmo naqueles que vão além da imaginação. Te quero para ser minha, Mara. E Mara Shaw é um nome do caralho.

Sorrio, encabulada com a sua confissão. Beijo sua bochecha, grata por sua sinceridade.

— Sua vez — aperto a ponta do nariz dele.

— Você gosta?

— Do quê?

— Mara Shaw. O que você acha?

Meu cérebro vira gelatina na minha caixa craniana.

— Noah...

— Logo nos formaremos, Mara. Temos uma vida estável como casal há anos.

Olho para ele, surpresa, sem saber o que dizer.

— Te perguntei antes quais são seus planos para depois da faculdade. Se você ainda não sabe, me dê o prazer de formulá-los para você. Nós iremos viajar por todo o mundo, Mara. Conheceremos cada lugar que nós desejarmos; a longitude e a latitude do globo serão insuficientes para nós dois. E depois disso, ou até mesmo durante, quero fazê-la minha. Quero te possuir no papel, quero possuir seu nome, quero tudo de você. Sou muito feliz com seu amor, sua alma e seu corpo, não me entenda mal. É egoísta da minha parte, mas sempre o sou quando se trata de você. Eu só quero ter o prazer de ser a única pessoa em todo o universo a te ter, total e permanentemente.

Pensamentos e emoções me atingem num alvoroço.

— Isso é um pedido de casamento?

Ele sorri, seu polegar brincando com meu lábio inferior. Minha boca se abre para ele, receptiva, e beijo levemente a ponta de seu dedo.

— Não é para ser, se você não quiser. É mais um pedido de seja-para-sempre-minha-Mara do que qualquer outra coisa.

— E se eu quiser? — Sorrio para ele. Só a ideia me deixa zonza e estupefata.

Mara Shaw. É possível você apenas descobrir que desejava tanto uma coisa só quando ela cai a seus pés?

— Minha vez de fazer a pergunta, Mara.

Droga. Nem sabia que ainda estávamos brincando.

— Faça a pergunta, então — digo, ansiosa.

— Não garanto que nós seremos felizes o tempo todo, Mara, mas seremos sim felizes para sempre. Não posso prometer que nosso amor sempre será a maior de todas as forças, mas ele superará cada pequeno obstáculo que possa ser colocado em nosso caminho. Nem a morte fora capaz de nos separar, Mara. Você tem dúvidas de que nós pertencemos um ao outro?

— Não — respondo, segura —, não tenho dúvidas.

— Então por que você está hesitante?

— Porque — passo minha mão por sua bochecha, indo em direção a seu couro cabeludo —, eu já me entreguei para você há muito tempo, Noah. Estou pasma e hesitante porque eu já pulei deste penhasco, já mergulhei e me afoguei, encontrando em você tanto a boia que me iça para superfície como a âncora que me afunda cada vez mais. Entretanto, o que mais me surpreendeu fora o gosto que tomei por estar submersa, inundada e alagada por você. Sou sua em tantos meios que será difícil encontrar um novo para me possuir, Noah, mas eu topo me entregar a você em cada um deles.

Sorrindo, ele pergunta — Isso é um sim?

— Depende.

— Depende do quê?

— Você ainda me fará implorar duas vezes?

— Com certeza.

— Então sim.

Noah ri, deslumbrando-me com o alívio em sua expressão.

— Você quer isso, não é?

— Quero tudo e qualquer coisa que se relacione a você.

— Sei. O que me lembra — ele começa a subir minha camisa lentamente, sem pressa nenhuma, sabendo que temos todo o tempo do mundo juntos —, eu te fiz uma promessa antes.

— Que promessa?

— Que te faria gritar meu nome. Um grito audível e penetrante, que ressoaria por todas as paredes.

Engulo em seco com expectativa.

— Não lembro de tal promessa — minto.

— Você lembra sim. Você lembra muito bem, e imagina todas as noites o que eu faria a você para que essa promessa se cumprisse. Será que eu apenas faria amor com você, ou amaria ardentemente cada centímetro seu, tomando e me embebedando de cada suspiro, cada gemido, cada respiração?

Respiração. No momento, desconheço o que é respirar. O que é piscar. Pensar.

— Será que eu te faria cobaia de cada fantasia minha? Será que eu te imobilizaria e experimentaria com você todas e cada posições existentes? — Ele continua e, conforme fala, minha mente dá às suas possibilidades imagens coloridas de nós executando tudo o que ele diz — Será que eu te consumiria até nossos traços e definições não serem mais distinguíveis, tornando-nos uma sólida massa de membros, ossos, corações e desejos?

Tirando minha camisa, ele me observa fascinado enquanto suas palavras tomam conta de mim.

— A resposta, Mara, é que eu faria tudo isso com você. E não apenas uma, duas, ou três vezes. Eu faria diariamente, incansavelmente, como se isso fizesse parte de votos sagrados. Eu o faria para sempre e um pouco mais depois disso.

Fico em silêncio, como se já me preservando para tais circunstâncias.

— Você não vai dizer nada? — Noah pergunta, convencido de que eu perdera a língua em alguma parte de seu discurso. Eu mesma não posso deixar de pensar o mesmo.

— Onde eu assino para concordar logo com esse pedido-de-casamento-mas-só-que-não? — Falo, ansiosa.

Ele sorri e tira a camisa branca com a qual estava vestido.

— Aqui — depois de pegar uma caneta tinteiro, ele aponta para lado esquerdo de seu tronco, em direção ao osso de sua clavícula.

Olho-o por alguns segundos antes de assinar meu nome sobre sua clavícula, seu osso servindo de linha para minha assinatura; não imaginava que futuramente ele faria uma tatuagem sobre a tinta da caneta, tornando eterno o que era removível.

— Acho que tenho que assinar aqui também — aponto para seu ombro —, mas com os lábios dessa vez.

Um sorriso zombeteiro atravessa seu rosto.

— Vá em frente.

Beijo seu ombro, minhas mãos traçando seu abdômen firme e plano.

— Seu outro ombro também precisa ser assinado. Ele pode ficar com ciúme — comento enquanto vou para o outro lado.

A risada que atinge seu peito faz nossos corpos oscilarem, porém continuo.

— Seu peito idem — beijo acima do coração, sentindo em meus lábios o doce martelar da vida da pessoa que mais me é cara em todo o mundo, senão no universo.

— Assine meu corpo todo, Mara — sua mão penteia meus cabelos —, reivindique cada parte dele, tome-me para você. Deus sabe que já o sou.

— Eu sei também, embora ouvir você dizendo isso nunca perde a graça.

Noah morde o polegar que deslizava por sua bochecha e seu toque perpassa por toda a extensão do meu ser.

— Sou seu, Mara. Para sempre. Não importa o que aconteça.

Toco sua calça, meus dedos esbarrando em botões e zíperes.

— Ainda estamos brincando do jogo das perguntas?

Ele nega com a cabeça — Não.

— Ótimo. Vamos brincar de outra coisa então — e encontro os lábios dele, tirando sua calça e dando o primeiro passo para o nosso sempre.

Notas finais
Bem, começo dizendo que minhas fontes de inspiração foram a música Principles of Lust (indicação da Ester) e o livro Sempre, da J. M. Darhower (indicação da Vivi), onde eu vi essa brincadeira das 21 perguntas. Queria abordar um pouco do relacionamento MADNESS sem colocar muito hot em respeito a vocês. Afinal, vocês querem hot na fanfic? Não sei o que vocês esperam, então me digam, por favor. E por me aguentar incessantemente, devo agradecer a Ana e a Ester. Não sou fácil de tolerar, viu. Alguém está preparado para uma formatura da faculdade com muita família reunida?