O Desenhista

8 Capítulo 8 - O Ladrão


Dias depois do ocorrido na casa de Máscara da Morte, Athena voltara para falar com ele, acompanhada dos gêmeos, Saga e Kanon. Giovanni aparentava frieza e também parecia ter emagrecido. Ele bebia cerveja enquanto a Deusa falava.

– Sei que minha decisão causou confusão entre você e Afrodite. Não era minha intenção! – Athena disse.

Giovanni parecia não dar a mínima para o que ela dizia.

– Ele não teve culpa, apenas quis evitar uma confusão maior.

– Veio para falar dele? – perguntou de forma seca.

– Na verdade, vim dizer que quero que você volte ao Santuário, para sua morada. É claro, se assim quiser.

Ele a olhava de cima a baixo. Estava visivelmente bêbado. Deu um risinho sarcástico e colocou a garrafa na mesa. Sem se virar para ela, deu sua resposta:

– Eu vou voltar, mas não porque você quer. Simplesmente porque eu não tenho mais nada pra fazer aqui.

Ela sorriu. Virou-se e, escoltada pelos gêmeos, foi embora. Sabia que Máscara da Morte era arrogante e lutar contra tal comportamento era tolice.


Enquanto arrumava suas coisas para ir embora, Giovanni achara um dos desenhos que começara de Afrodite. O único que não jogara fora. Cogitou amassá-lo e se livrar dele, mas doeu muito em si mesmo. Se arrependera de ter falado daquela forma com o pisciano e de ter destruído tudo o que fizera. Não conseguia esquecer o brilho de medo que vira nos olhos de Afrodite, mesmo que tenha sido tão rápido, nem da ultima olhada que o amante dera nele, pegando o quadro que estava menos estragado. Ele o humilhara e sabia que isso era pior, muito pior, do que o que Afrodite fizera.

Sentou-se numa cadeira e, com uma das mãos livres, puxou seus próprios cabelos. Sentiu algumas lágrimas rolarem por seu rosto. Afrodite era a única pessoa que, mesmo a distância, o fazia chorar. Nunca chorara por nada nem ninguém, mas o pisciano tinha esse poder sobre ele. Enxugou-as e levantou-se. Se alguém o visse agora poderia dizer que era fraco. As lágrimas haviam secado, mas o sentimento de magoa permanecia.

– Burro! Burro! – repetia para si mesmo. – Você tinha a pessoa que mais amava no mundo e foi um verdadeiro idiota!

Empacotou o que restara de qualquer forma, sem se importar se algo ali quebraria, ou não. Colocou tudo para fora e, depois de trancar tudo, pegou suas caixas e pertences nos braços, e subiu em direção ao Santuário.


Ao chegar à primeira Casa, Áries, quase passou reto, porém, resolver ser educado e pedir passagem, a qual foi cedida amigavelmente. Na Casa de Touro, Aldebaran fez questão de ajudá-lo, mesmo que não precisasse. Kanon também o recebera contente. A única coisa que estranhou foi a ausência de Saga.

– Cadê seu irmão, Kanon? Te deixou de castigo e saiu pra passear, foi?

Ninguém respondeu nada, como se quisesse esconder algo.

– Perguntei onde ele está. É difícil responder?

– Ele... ele saiu... – mentiu Aldebaran.

– Saiu? Em missão? – indagou Giovanni, curioso com a resposta.

– Exatamente. Agora, vou para minha casa.

Deu um tapa nas costas de Kanon e sumiu dali. Para o tamanho dele, era bem rápido. O geminiano olhou feio para o brasileiro.

– Não sei pra que tanto mistério... É só dizer que ele saiu em uma missão secreta. Não vou perguntar missão de quê. – Máscara da Morte o repreendeu.

Kanon meneou a cabeça; se fosse ele a mentir, conseguiria esconder a verdade do italiano, mas, como Aldebaran se metera na conversa, estragou tudo. Se dissesse onde Saga estava poderia causar uma confusão até pior.

Ele ajudou-o guardar e arrumar tudo. A única coisa em que não mexeu foi numa caixa com materiais de artesanato. Ele não sabia que era isso que estava guardado ali, mas Giovanni fez questão de guardar sozinho. Era ali que estava seu único desenho de Afrodite, um pouco amassado pelo local em que estava, mas guardado com carinho.

Ao abrir a porta dos fundos, para que entrasse ar no local, Kanon avistara seu irmão descendo a escadaria de Leão. Estava indo em direção a morada de Câncer. Como Saga ainda não sabia da desculpa esfarrapada dada a Giovanni, tratou de correr.

– Ei! – ele pegara Giovanni pelo braço – Vamos sair e beber alguma coisa.

O italiano se soltara dele com um movimento brusco.

– Bebeu, homem? Acabei de voltar por bom comportamento. Quer que eu seja expulso de vez? Não vou a lugar nenhum. Vou ficar aqui.

Saga, então, entra na morada de Câncer. Ele próprio não esperava que o defensor dela estivesse ali, naquela hora, mesmo assim teria de falar com ele, de qualquer forma. Deu um sorriso e o cumprimentou.

– Você não havia saído em missão, Saga? – questionou, olhando para Kanon.

– Não. Quem te disse isso?

– Umas pessoas... – ele continuava a olhar para Kanon.

– Em minha defesa, eu não disse nada. Quem disse foi o Aldebaran.

– Isso não vem ao caso, agora. Preciso falar com você, Máscara da Morte. A sós.

Kanon fez um gesto com a cabeça e saiu, deixando os dois sozinhos.

– Sobre o quê? – Giovanni esperava que fosse algo sobre sua volta ao Santuário, mas a coisa era mais séria pelo olhar de Saga.

– Afrodite.

Ele dera um longo suspiro e Saga esperou que se sentisse confortável. Voltou, então, a falar.

– Ele ficou bem triste depois do que houve entre vocês, sabia? Antes ele ia aos treinamentos, conversava bem contente comigo, mas agora anda deprimido.

– Eu fui um verdadeiro idiota com ele. O tratei tão mal. Mas, ele também aprontou.

– Aprontou, sim. Eu dei uma bronca nele por isso. Não se envenena alguém, mas ele fez por um bom motivo. Você é esquentado e poderia ter feito alguma besteira, como fez tantas outras vezes.

– E agora você quer que eu vá me desculpar com ele, não é?

– Não. Você vai se achar que deve. A consciência é sua. Mas, quero que você o perdoe, pois sei que ele já te pediu perdão.

Ele tinha razão. Afrodite lhe pedira perdão e, por puro orgulho, lhe negara.

– A hora que eu o ver, conversarei com ele.

– Seja gentil. Não quero o Afrodite sofrendo por causa de seus coices.

Ele se levantou e rumou em direção à porta, mas não sem antes ouvir uma pergunta de Giovanni.

– Por que defende o pisciano? Vocês têm algum parentesco?

– Conheço Afrodite há mais tempo que conheço você. Sei muitas coisas sobre ele. Não quero que o pisciano termine como começou.

E saiu, sem dizer mais nada. Máscara da Morte ficou pensativo. Não era de estranhar que fossem amigos, afinal, o geminiano era mais velho que muitos ali e, portanto, viu quase – se não – todos ali se tornar Cavaleiro.

Ele deve ter ajudado Afrodite a conseguir a armadura..., pensou enquanto coçava o queixo.


–x-

Uma semana se passara desde que voltara. Alguns de seus antigos “costumes” continuaram. Ele continuou a beber e a guardar bebidas ali. Assistia a seus filminhos em volume considerável, mas não trazia nenhuma garota, nem arrumava confusão. Como, naquela tarde em especial, estava livre de qualquer tarefa, resolveu que iria falar com Afrodite. Ele não o vira uma única vez desde que voltara. Estava mais do que na hora, e sabia disso. Subiu até a Casa dele.

– Afrodite...? – perguntou enquanto adentrava a Casa de Peixes. Andou por toda sua extensão, as não encontrou o guardião dela em lugar algum.

Percebeu que ele deveria estar no casebre. Foi até lá, silenciosamente. Bateu à porta e entrou. A casa toda estava quieta. Chamou pelo nome dele, bem baixinho, já que achava que o sueco poderia estar dormindo. E estava certo. Afrodite realmente dormia.

Tinha olheiras, mas duvidava que fossem de sono. Nem eram bem olheiras, parecia mais que o rosto estava inchado por chorar. Sentiu pena dele e remorso, novamente, de ter agido daquela forma. Avistou, num dos cantos do quarto, o quadro dele. Ainda estava danificado, por isso não estava pendurado na parede. Continuou em pé, mas sua idéia era outra, agora. Sorrateiramente, pegou a tela e a levou embora junto de si.

Giovanni voltou a sua casa com o quadro em mãos. Entrou no cantinho em que guardou os materiais e lá se trancou. Começou a fazer sua mágica.



Afrodite acordou no meio da noite. Ainda de olhos fechados foi à cozinha, tateando o caminho todo. Acendeu a luz e fez uma careta ao senti-la em seus olhos, encheu um copo de água e bebeu. Sentia a garganta seca. O pomo-de-adão movia-se conforme os goles. Encheu mais um e virou pra dentro de novo. Apagou a luz e voltou a seu quarto, arrastando os pés. Como o cômodo inteiro estava escuro, não havia dado por falta do quadro. Entrou no banheiro e acendeu a luz. Como não pensava claramente, encostou o braço esquerdo na parede e a testa nele. Ao sair, a luz ainda acesa, iluminando parte do quarto, percebeu que seu quadro já não estava mais ali.

– Mas... Cadê?

Foram as únicas coisas que conseguiu dizer. Acendeu a luz do quarto e começou a olhar pelos cantos. Não se conformava que seu quadro, do qual tanto gostara, e sua única lembrança daquela noite com Giovanni, havia sumido. Ao constatar que já não estava mais em sua casa, ele saiu em disparada, mesmo de pijamas, direto para o Salão do Grande Mestre.


Mandar que acordasse todos os Cavaleiros do Ouro foi a pior decisão que Saori tomou. Eles subiram até ao Salão, mal-humorados e com sono. Milo e Camus eram os piores. Pareciam estar no meio de algo, já que tinham os rostos corados e os cabelos desarrumados. Estavam quase todos ali, com exceção de Máscara da Morte.

– Ele pediu pra dizer que já vem vindo. – explicou Kanon, ao se sentar-se e bocejar.

O único totalmente desperto ali era Afrodite. Ele estava em pé e de braços cruzados, batendo um dos pés, enfezado.

– Eu chamei todos aqui agora porque o Afrodite pediu. Disse que era importante. – Athena disse e, em seguida, olhou para ele.

– Sumiu um quadro da minha casa e, só outra pessoa que mora por aqui poderia ter acesso. Quero saber quem foi.

– Você manda nos acordar por um quadro? Eu vou voltar pra minha casa. Vem Camus!

– Como assim, Milo? Não vai sair, não! Você adora pregar peças em todo mundo! Você poderia muito bem ter entrado em casa e tirado, pra eu ficar procurando feito um tonto.

– Duas coisas, Afrodite: — começou Milo – Não temos intimidade o suficiente pra ficar entrando um na casa do outro, assim. Outra, eu estava ocupado demais, com o Camus. Acha mesmo que eu ia ficar procurando algo pra roubar?

Camus arregalou os olhos e se envergonhou. O pisciano torceu o nariz. Milo estava certo.

– Afrodite, acusação de roubo é algo muito sério! – disse a Deusa.

– Eu sei, me desculpem.

O pisciano tinha os olhos cheios de lágrimas. Ele fez menção de sair do recinto, mas viu Giovanni entrar e ficou estático. Ele segurava, em uma das mãos, o quadro de Afrodite.

– Olha aí o “ladrão” do seu quadro. Já podemos ir dormir, né? – Milo falava sem paciência.

O que Milo não percebeu foi que todos olhavam para o canceriano que se aproximava. Ele chegou bem perto de Afrodite e levantou a tela.

– Vai terminar de danificar? – Afrodite perguntou, olhando nos olhos dele.

– Não. Na verdade, eu consertei.

Ele o entregou a Afrodite, que não entendeu bem aquilo.

– Sinto muito pela forma como o tratei naquele dia. – falou – Você não merece ser tratado assim.

– Obrigado.

O sueco levantou um pouco a tela e olhou. Estava perfeita, sem nenhum arranhão ou corte, e as cores pareciam mais vivas.

– Sei que não deveria ter pegado, mas você estava dormindo e fiquei com pena de acordá-lo. Pensei em fazer algo legal por você. Mas, também não precisava fazer este escarcéu todo.

– É que é uma coisa importante pra mim. Não queria perder. Desculpem-me, todos.

– E quanto a mim? – Giovanni enfatizou – Você me perdoa?

O sueco olhou para ele e depois, sentindo-se envergonhado, olhou para outro canto.

– Perdôo.

Giovanni sentiu-se contente. Mais que contente. Ele agarrou o rosto de Afrodite e o beijou na frente de todos. Os que não sabiam dos sentimentos do canceriano pelo pisciano ficaram boquiabertos, se não pasmos. Milo soltou um grunhido de susto. Shaka sentou-se, amparado por Mú. O macho alfa do Santuário beijava um homem, e na frente de todos, e sóbrio!

Os braços de Afrodite amoleceram. O quadro que segurava caiu no chão. Não esperava aquilo dele. Aos poucos foi cedendo espaço em sua boca, se sentido a vontade, novamente, com aquela língua, aqueles lábios... Ao se separar, lembraram-se dos outros ali. Giovanni, sem nem um pingo de vergonha, encarou todos e disse:

– É, eu gosto dele, mesmo sendo homem, e daí?

Ninguém se atreveu a dizer um “a”.

– E você, peixinho, me dá mais uma chance de ficar com você? – ele falara aquilo em um tom diferente para Afrodite.

Afrodite colocou uma das mãos no peito e disse, com um sorriso no rosto:

– Pensei que nunca fosse pedir!

Ele abraçou Câncer com carinho, fechando os olhos e se entregando a ele.

– Afrodite...

– O quê?

– Este cheiro bom que está saindo dos seus cabelos não é veneno, né?

– Não desta vez. – ele sorriu.


Notas finais
Dite ficou tãããão "coitado"... Eu gosto assim, quando os personagens são "coitados" kkkkkkkk
Espero que tenha gostado deste capítulo!
Logo posto outro!