O Desenhista
7 Capítulo 7 - A Flor que não deve ser Cheirada
Os pássaros já cantavam quando Afrodite acordou. Estava na cama de Giovanni, abraçado pelo mesmo, que dormia um sono tranqüilo. Ficou velando-o por algum tempo. Os olhos bem fechados, um sono pesado; as olheiras fundas, de quem não dorme bem há algum tempo, mas que não deixavam de dar charme ao italiano. Os cabelos rebeldes e secos caindo em seu rosto, apenas algumas mechas. A boca semi-aberta que o convidava, involuntariamente, ao beijo, o qual não negou. Sem pensar duas vezes, Afrodite aproximou-se do rosto do amante e deu-lhe um beijo suave. Giovanni nem mesmo se mexera. O pisciano riu e, contente de poder aproveitar aquilo, deu mais um e depois mais outro e mais outros. Sentiu, então, o abraço apertar mais e, logo depois, sua boca ser beijada com voracidade.
– Desde quando está acordado? – perguntou, quase sem separar as bocas.
– Acordei com o primeiro beijo. Meu sono é leve... E você?
Máscara da Morte estava deitado sobre Afrodite, apenas o tronco um pouco mais levantado, apoiando-se em seus cotovelos, para poder olhar melhor para o mais jovem.
– Não muito tempo...
Ele tentou sair de baixo do outro, mas Câncer o segurava.
– Onde pensa que vai?
– Tenho que voltar à minha morada. Passei a noite fora.
– Larga tudo e vem viver aqui, comigo...
Giovanni beijava o pescoço de Afrodite.
– Quem dera pudéssemos viver aqui, na tranqüilidade. Mas, logo você vai voltar pra sua Casa, então não tenho porque abandonar a minha.
– Como assim?
– Ah... – ele se arrependera de ter falado – Athena disse, em segredo para mim, que você vai ficar morando aqui apenas por um tempo, só pra esfriar a cabeça.
O canceriano se sentou na cama, o olhar vingativo voltara.
– Quem essa garota pensa que é? Eu vou subir até lá, com você, e explicar umas coisinhas a ela!
Ele já se vestia, o comportamento agressivo era mais que evidente nesse momento. Em contrapartida, Afrodite tinha o olhar baixo e triste. Decidiu-se que não deixaria tal ato acontecer.
– Giovanni, antes de sair, que tal se nós...
Afrodite dava tapinhas na cama, atraindo-o. Não demorou nada e, novamente excitado, ele se despia. Praticamente se jogara em cima de Afrodite.
Peixes passeava com seus dedos pelo corpo másculo de Câncer, lembrando-se de como foi ter aquilo tudo bem juntinho de si. Giovanni, em compensação, não tirava os olhos de cima de do amante por nada. A pintinha, cheia de charme, no canto do olho, os olhos grandes e brilhantes, um azul profundo... agora foi a vez dele se lembrar da noite anterior.
– Como você pode ser tão irresistível?
Se posicionou entre as pernas de Afrodite. O pisciano riu e as abriu bem, aproveitando o calor do corpo do outro. Ele entrou em Afrodite, que mordeu o lábio. Ficou sem se movimentar por uns instantes, até sentir o outro querer que aquilo fosse levado adiante.
– Vaaai! – implorou, apertando o quadril do outro com as pernas. – Você é muito mau!
Giovanni ria, mas não fazia por mal. – Quero sentir você, seu cheiro, seu corpo... – disse ele. – De novo.
Máscara da Morte não se conformava com o perfume de rosas que Afrodite exalava, mesmo depois da noite que tiveram. Parecia que, quanto mais excitado ele ficava, mais cheiroso ficava. Aquilo hipnotizava o canceriano. Sentiu sua mente esvaziar e começou a se movimentar. Afundou o rosto nos cabelos sedosos e macios, o perfume inebriante exalando e adentrando em suas narinas, enquanto, com um dos braços, apoiava a perna esquerda do outro. Não queria sair dali. Não sairia, a menos que precisasse.
Afrodite retribuía a paixão. Beijava o pescoço e onde mais alcançasse em Giovanni. Com uma das mãos, trouxe o rosto dele em sua direção e o beijou. As línguas entrelaçavam-se num beijo cada vez mais cheio de luxúria. Quase não conseguiam respirar. Dizia palavras sem nexo nos poucos segundos que não estavam juntas. Eles não conseguiam manter os pensamentos em ordem. Peixes sentia, claramente, o membro pulsante de Giovanni, indo e vindo, num frenesi.
Sentiu o liquido quente escorrer por suas nádegas, tempo depois. A respiração de ambos era cortada. Giovanni se afundara de vez nos cabelos de Afrodite. O perfume, agora, era diferente. Lembrava-lhe algo que não conseguia distinguir com exatidão o que era, mas era muito bom. Aninhou-se mais, mesmo por cima de Afrodite, e dormiu novamente.
Conseguir sair de baixo de Giovanni, sem acordá-lo, foi uma tarefa mais que difícil. Afrodite estava em pé, ao lado da cama, onde o italiano dormia de bruços. Dessa vez, não fingia estar dormindo. O sueco o cobriu um pouco com o lençol e se vestiu. Ao ir ao outro cômodo, buscando a saída, parou um pouco para visualizar melhor uma das pinturas de Máscara da Morte.
Como é talentoso, pensou. Em seguida ele saiu, fechando a porta com cuidado. Sabia que Giovanni não acordaria tão cedo, mas sabia, também, que todo cuidado era pouco.
Correu até o Santuário, onde subiu as Casas quase sem pedir passagem. Praticamente invadiu o Salão do Grande Mestre e a sala de Athena para falar com a deusa.
– Mil perdões! – pedia ele, ajoelhado perto dela. As lágrimas escorriam por seu belo rosto.
– O que houve?
– Passei a noite com Máscara da Morte e, juro que não foi por mal, acabei contando a ele sobre o plano de castigá-lo, deixando-o por algum tempo isolado daqui. Ele ficou furioso, queria vir para cá, tirar satisfação, mas não deixei...
Afrodite despejava tudo o que acontecera na deusa. Ele nem mesmo parava para respirar. A única coisa que o fez interromper-se foi quando a mesma tocou-o no rosto.
– Afrodite, relaxe. Mais hora ou menos hora isso aconteceria. Eu conheço meus Cavaleiros.
– Mas... Eu traí sua confiança ao contar tudo a ele!
– Não, não traiu. Não se culpe. Só peço que quando o reencontrar diga que quero muito falar com ele.
– Bem... – Afrodite relutou.
– O quê?
– Tem mais um probleminha. Para impedir que ele viesse, eu meio que o envenenei...
– Você o quê?
Agora sim, Athena reagira de outra forma.
– O veneno não vai matá-lo, mas quando ele acordar vai ficar muito, muito, muito bravo...
Peixes torcia seus dedos, como uma criança envergonhada.
– Daqui a quanto tempo ele acordará?
– Em dez horas, mais ou menos. É bem forte esse veneno. Aliás, não é bem um veneno, é mais um sossega leão.
Ela suspirou e pôs uma de suas mãos na testa, pensando em como reagiria com esse Máscara da Morte que, além de enfurecido com ela, ainda teria muita raiva, e sabe-se lá mais o quê, de Afrodite. Pensou por algum tempo, em silêncio, até que decidiu o que faria.
O Sol poente enchia aquele quarto com cores avermelhadas. Mas, a pessoa dali não era de prestar atenção àquilo.
O mundo girava para ele. Não conseguia manter os olhos abertos, nem tinha consciência do que acontecia. Via dois rostos. Um deles era extremamente belo, a seu ver. Era o que mais se aproximava. Sentiu algo frio escorrer por sua garganta, com um gosto de... nada. Em poucos minutos começou a recobrar sua consciência, analisando o cenário ao redor.
Afrodite estava sentado em sua cama, bem ao seu lado. Na outra extremidade do quarto estava uma garota. Athena!
– O que houve? – perguntava ele. Aparentemente, não se lembrava de nada.
– Sabe quem somos? – perguntou Afrodite.
Ele fez que sim com a cabeça e murmurou os nomes.
Conforme ia ficando mais atento, iam lhe contando tudo. Contavam sobre sua expulsão, sobre o castigo que a deusa lhe dera, para o qual ele fez uma cara de nojo e resmungou palavrões em italiano, mas, o ápice da coisa foi quando Afrodite lhe contara sobre o tal envenenamento.
– Como você pôde seu traidor? Eu não ia matar a deusa! Talvez tentar dar uma surra nela, mas nunca matar! – ele gritava com Afrodite.
Athena tentava fazer com que Câncer se acalmasse, mas ele parecia uma besta. Seu rosto aparentava ódio.
– Mil perdões! – pedia Afrodite – Tentei evitar uma catástrofe!
– Catástrofe? Acha mesmo que sou burro de atacar uma deusa, ainda mais quando tem, pelo menos, mais seis outros Cavaleiros ao redor dela? Você não precisava ter me envenenado, apenas me segurado! Tava bom demais pra ser verdade!
– Perdoe-me, Giovanni!
– Não quero ouvir mais a sua voz! FORA DAQUI!
Ele berrara a ultima parte, deixando Afrodite atordoado com a reação. O pisciano chegou a sentir medo do outro. Pegou a deusa pelo pulso, com cuidado, e a levou para fora. Andaram poucos metros quando perceberam, logo atrás deles, algo sendo jogado porta a fora da casa de Giovanni. Eram os quadros que ele pintara. Estavam estraçalhados. O único que ainda tinha alguma salvação era o que Afrodite mais gostara. Ele voltou para trás e pegou com cuidado a tela, recebendo um olhar ameaçador de Máscara da Morte. Saiu com o objeto em uma das mãos e Athena agarrada ao outro braço dele, tentando consolá-lo de alguma forma.
– Não fique assim, tudo vai se ajeitar com o tempo.
– Mas, em quanto tempo?
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