O Desenhista
3 Capítulo 3 - Fraqueza
Afrodite andava pelo vilarejo ao redor do Santuário a procura do pequeno ateliê de que ouvira falar ha algum tempo. Quando, por fim, o achou, deparou-se com as portas trancadas.
- Não andei tudo isso pra voltar de mãos abanando... – murmurou ele – Alguém em casa?
Ele batia de leve na porta. Ouviu algum barulho vindo de dentro. Fez a mesma coisa, mas agora não houve resposta nenhuma, nem mesmo um ruído. Entendendo claramente a situação, começou a esmurrar a porta. Ele batia com força, a mão aberta, fazendo um estrondo danado. As pessoas que andavam por ali se afastavam na figura andrógena enfezada.
- Eu sei que tem alguém ai! Pode me atender agora, ou eu posso ficar batendo aqui até que abram!
- Está certo! – gritou uma senhora ao abrir a porta.
- O quer?
- Quero emoldurar isto aqui!
Afrodite mostrou o desenho feito por Máscara da Morte. A mulher olhou sem muita empolgação. Chamou o pisciano para entrar e começou a preparar o vidro e as madeiras da moldura. Ele olhava de longe, com cara de desdém.
- Esta cor é boa o suficiente pra você? – ela perguntou, o descaso ainda maior.
- Um pouco mais escuro. Isso, exatamente.
Pegou o desenho da mão de Afrodite, olhando-o de cima a baixo, e começou a emoldurá-lo. Em pouco tempo estava pronto. Ele a pagou e, mal saiu, ela já batera a porta com força.
- Hunf! Mal agradecida!
Saiu contente, caminhando de volta ao Santuário.
Enquanto isso, em seu cantinho, Máscara da Morte continuava desenhando. Um olho. Depois outro, logo fez um rosto. O rosto mais bonito que fizera. O mais bonito que já havia visto. Que qualquer um já vira. Ele começara a desenhar Afrodite.
- Giovanni*... O que deu em você? – perguntou a si mesmo.
Ele largou o desenho ali, só até a parte de cima dos ombros desenhada. Levantou-se e começou a andar pela casa. Pegou uma cerveja e sentou-se em seu sofá. Começou a refletir.
Quais minhas chances com ele? Vale mesmo à pena ficar com ele, afinal, é um homem, ainda... Sem contar que somos cavaleiros. Isso daria problemas, principalmente a mim. Vou esquecê-lo. Isso! Eu vou sair me divertir e esquecê-lo de vez!
Ele se levantou do sofá e vestiu a primeira roupa que vira a sua frente. Uma calça jeans e uma camisa cinza. Fechou seu pequeno ”estúdio” da Casa, batendo a porta com força. Quase chegando a Casa de Gêmeos, deu de cara com Afrodite, novamente.
- Oh! Que bom que te encontrei! Olha só como ficou!
O pisciano mostrava animado o trabalho do canceriano emoldurado.
- Ficou realmente ótimo. Muito bom!
- Pois é! E olha que a megera que fez isso fez com má vontade. Imagina só, se ela fizesse as coisas com boa vontade sairiam muito melhores!
- Pois é...
Ele aparentava frieza para com Afrodite.
- Ah, desculpe, Câncer. Eu não quis empatar seu caminho. Mas, um conselho. Passe rápido pela Casa dos irmãos, aí...
Afrodite apontou pra a Casa de Gêmeos. Máscara da Morte entendeu o que Afrodite quis dizer e contraiu os lábios na hora, mostrando reprovação àquilo.
- Pensando bem... Eu nem estava com tanta pressa assim. – falou, por fim. – Vou voltar para meu canto.
- Claro... Ah, se não for te pedir demais, pode me ajudar a pendurar isso em algum lugar? A menos que seja um incomodo.
Nunca é incomodo quando se trata de você..., pensou.
- Tudo bem.
A Casa de Afrodite não era nenhum palácio. Nem tinha tanto luxo como se imaginava. Era bem simples. Sua sala tinha uma estante com muitos livros, havia uma poltrona grande no lugar do sofá, dois pequenos armários, que batiam até a cintura, um em cada canto da sala, com vasos enormes de rosas tomando toda sua superfície. Na mesa de centro também tinha um vaso, mas este era menor. Nessa mesa havia algumas marcas em suas extremidades. Provavelmente de tanto colocar os pés sobre ela. Havia duas portas ali, fora a da entrada. Ele deduziu que seria uma do quarto e outra da cozinha. Mas ambas estavam fechadas, portanto não pode ter certeza. Na janela dali, cortinas claras e delicadas, que deixavam uma luz aconchegante adentrar no local. E o local era impecavelmente limpo e cheiroso.
- Sua casa é muito bonita. – disse Máscara, olhando tudo.
- Obrigado. Demorou um pouco pra deixar assim. Quando vim morar aqui, isso era uma desordem total.
- Não sabia que você lia.
- Quando não se tem muito que fazer, eu leio. Eu não converso com muitos Cavaleiros, sabe... E quando converso, também não tenho muito assunto. Meu assunto sou sempre eu. – riu, uma ponta de magoa começando a aparecer em sua voz. – Ser narcisista tem seu lado ruim.
- Não perde nada deixando de conversar com eles. Te garanto.
- Obrigado por me consolar. Mas não foi pra isso que te chamei. Onde você acha que fica melhor?
Máscara olhou os quatro cantos da sala. Pensou um pouco e achou a solução.
- Se importa se eu fizer uma pequena mudança aqui?
- Não! Fique a vontade! A casa é sua agora. – riu o pisciano.
O canceriano foi até a estante e a empurrou para outro canto. Tirou o armarinho que estava ali e mandou que Afrodite o pusesse onde estava a estante. Depois do “arrasta-arrasta” ele pegou o quadro e o segurou em frente ao local que ficaria.
- Eu não faria melhor, Máscara! Muito obrigado!
- Pegue um martelo que vou colocá-lo aqui.
Com cuidado, ele enfiou um prego ali. Algumas marteladas e estava pronto! Pendurou o quadro.
- Acho que foi a melhor coisa que fiz. Te chamar aqui. – riu o pisciano. Tenho um quarto inteiro precisando de uma melhorada... É brincadeira! Mas ficou perfeito! Você deveria trabalhar como decorador.
- Ei, vamos com calma. Só sou pratico. E não deixe isso vazar. Já basta saberem que sou desenhista.
- Nem morto! Você é meu decorador exclusivo!
Máscara da Morte riu junto de Afrodite.
- Quer um vinho, Câncer?
- Ah... – ele olhou a porta. – Acho que outra hora.
- Tudo bem.
Afrodite sorriu amigavelmente, embora ainda tivesse um semblante levemente infeliz.
- Acho que vou aceitar. Já cansei de beber aquela porcaria de cerveja.
O pisciano bateu palmas curtas e rápidas, mostrando-se animado.
- Vou buscar! Fique a vontade!
Enquanto ele se enfiava no que Máscara achou mesmo ser uma cozinha, o canceriano começou a olhar os livros. Parte deles romance, outros suspenses policiais. Mas o que mais chamou sua atenção foram os títulos eróticos. Apenas quatro, mas bem chamativos, incluindo o clássico Kama Sutra. Quando ouviu a porta ser aberta, mudou seu foco para os suspenses.
- Se gostou de algum, eu posso emprestar.
- Não sou muito de leitura. Obrigado. – falou ao pegar a taça com vinho.
Afrodite puxou o apoio para pés da poltrona e sentou-se nele, enquanto Máscara sentou-se na poltrona, a pedido do anfitrião.
- Então, Máscara da Morte... Desenhista. Conte-me quando começou a desenhar.
- Faz tanto tempo que nem lembro. Eu desenho por desenhar, mesmo.
- Tudo bem, você não quer falar, eu entendo. Não vou te pressionar. Mas juro que fiquei impressionado ao saber. E ao ver, principalmente.
Ele apontou para o novo quadro em sua parede.
- Fico contente que tenha gostado.
Eles estavam ficando sem assunto.
- Afrodite, você se lembra das investidas que te dei? – perguntou Máscara, olhando para a taça.
- Lembro! Mas está tudo bem! Eu não levei nenhuma delas a sério. Sei que quando você bebe, fala besteiras. Vamos fingir que nunca aconteceram.
Ele sentiu como se Camus o tivesse congelado.
- Que bom! – mentiu.
- Eu sei que todos aqui, você é o mais mulherengo.
- Eu não sou mulherengo.
- Aham... – riu, com escárnio.
- Ah é? E você é santo, né? Mas e os homens com que sai?
- Mais bichas que eu. Se bobear, eu é que como.
Eles começaram a rir. O comentário foi só o começo da conversa.
Aos poucos a garrafa de vinho foi esvaziando. Não só aquela como mais outras. Eles estavam limpando a pequena adega de Afrodite. Mas nenhum dos dois se importava. A conversa estava muito boa. Eles riam alto.
- Ah, Máscara, só você mesmo... – ria Afrodite, a voz “mole” pela bebida. Eles contavam um ao outro, casos engraçados que acontecera a ambos.
- Giovanni. Pode me chamar de Giovanni.
- Mas... Que belo nome...!
- Obrigado.
Máscara, ou Giovanni, estava mais sóbrio que Afrodite. Estava muito mais acostumado a bebida que o outro. Apenas umas garrafas de vinho não o derrubariam facilmente.
- E é... Muito sexy... É assim que seduz... as mulheres?
Os olhos de Afrodite pareciam estar “pesados”.
- Mais ou menos. Algumas eu puxo para meu colo. Outras apenas vêm e se sentam aqui.
- Se sentam no seu colo...? Assim?
Afrodite levantou-se, meio zonzo e sentou-se no colo de Máscara.
- Sim. Assim mesmo.
- E depois?
- Depois eu falo no ouvido delas. Falo besteiras ou simplesmente mordo levemente.
Afrodite puxou os cabelos para trás.
- Me mostra...
Máscara não se deteve. Não sabia quando teria outra chance dessas. Aproveitou. Deixou o hálito quente sair de sua boca e passear entre o pescoço até a orelha de Afrodite, dando beijinhos suaves. Ele percebeu a pele de Peixes se arrepiar quando os pequenos pelos claros do sueco se levantaram.
- Aí, eu as beijo. – disse, olhando-o nos olhos.
Máscara e Afrodite se engalfinharam em um beijo cálido e apaixonado. Mas não por muito tempo. O sueco apagara. O italiano deu um sorriso, achando graça na situação e se levantou, levando-o até o outro cômodo fechado que era o quarto dele, realmente.
Tirou os sapatos de Afrodite e depois fechou as cortinas dali. Não que fosse necessário, pois já era quase noite, mas isso não deixaria nenhum inseto incomodo entrar e atrapalhar seu sono.
- Durma bem... – disse Máscara, antes de dar um ultimo beijo e voltar a se sentar na poltrona, a porta do quarto aberta para ver se o outro estava bem.
Continuou sua taça até dormir.
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