O Demônio e o Crisântemo: Uma Combinação Mortal
1 Capítulo 1
Serafim
O sangue saía do tecido com mais facilidade enquanto ainda estava fresco, uma informação que aprendi muito antes de compreender por que damas precisavam decorar dezenas de regras de etiqueta para sobreviver a um jantar entre nobres. A água dentro da pequena bacia já estava tingida de vermelho quando torci novamente a manga negra entre os dedos, aproximando o tecido da lamparina para verificar se a última mancha havia desaparecido. Ainda restava uma marca discreta perto da costura, pequena o suficiente para não chamar a atenção de praticamente ninguém, mas confiar na desatenção alheia era uma maneira bastante eficiente de terminar presa, enforcada ou, na melhor das hipóteses, obrigada a inventar uma explicação muito criativa para o sangue seco nas próprias roupas. Esfreguei a região mais uma vez com sabão, ignorando a ardência nos nós dos dedos; queimá-las seria muito mais simples, porém tecidos bons custavam caro, e comprar novos trajes escuros sempre que uma missão terminasse mal também seria uma forma bastante estúpida de levantar suspeitas.
Meu quarto permanecia silencioso àquela hora da manhã, apesar de a claridade já começar a atravessar as frestas das cortinas. Eu deveria estar dormindo. Qualquer pessoa sensata estaria. Infelizmente, sensatez nunca pareceu combinar muito com entrar escondida na propriedade de um barão, libertar prisioneiros e terminar a madrugada assistindo um homem descobrir, tarde demais, que caçar pessoas por diversão talvez não fosse uma atividade tão segura quanto imaginava. O Barão Salazar havia passado anos transformando homens, mulheres e até crianças pobres em presas dentro de uma de suas propriedades afastadas, promovendo aquilo como uma espécie de entretenimento particular para convidados que possuíam dinheiro suficiente para comprar silêncio. Os rumores existiam havia muito tempo, mas rumores não bastavam para nós. Nunca bastavam. Investigamos durante semanas, seguimos empregados, encontramos famílias de desaparecidos, cruzamos registros e, quando finalmente tivemos provas suficientes, Salazar perdeu o direito de continuar respirando.
Terminei de enxaguar o tecido e o estendi próximo à janela antes de voltar a atenção para o único objeto daquela noite que ainda me incomodava. Sobre a escrivaninha havia um pequeno anel dourado que eu deveria ter deixado onde o encontrara, mas minha curiosidade decidiu ignorar a parte racional do meu cérebro no momento em que vi o símbolo gravado em sua superfície. Três círculos se entrelaçavam no centro do metal, cercados por linhas estreitas que lembravam galhos espinhosos; não era o brasão dos Salazar, tampouco qualquer emblema aristocrático que eu conhecesse, e reconhecer famílias nobres fazia parte das habilidades que precisei desenvolver para sobreviver entre elas.
Enrolei os dedos em um pano limpo antes de pegar o anel e nada aconteceu. Retirei o tecido, toquei diretamente o metal e o arrepio voltou imediatamente, começando nas pontas dos dedos e avançando pela palma como se eu tivesse mergulhado a mão em água congelada. Afastei-a por reflexo e o anel caiu sobre a madeira com um ruído baixo. Aquilo já havia acontecido duas vezes desde que cheguei em casa e eu continuava sem gostar da sensação, principalmente porque não era completamente desconhecida. Desde criança, alguns objetos me causavam impressões semelhantes: frio sem motivo, calor repentino, uma espécie de pressão atrás dos olhos ou aquela desagradável certeza de que havia algo onde aparentemente não existia nada. Na primeira vez em que tentei explicar, disseram que eu tinha imaginação fértil; na segunda, chamaram de superstição. Não houve uma terceira. Aprendi cedo que guardar certas coisas para mim era uma habilidade tão importante quanto correr ou mentir.
Magia existia, é claro, embora a sociedade adorasse fingir que ela obedecia às mesmas divisões de classe que todo o restante. Famílias nobres mantinham relíquias encantadas dentro de vitrines, pagavam fortunas a alquimistas, contratavam estudiosos arcanos e recorriam a curandeiros quando os médicos comuns falhavam, mas bastava um camponês ser encontrado tentando realizar algum ritual não autorizado para aquilo deixar de ser tradição e se transformar em crime. A Igreja gostava particularmente dessa distinção. Quando um aristocrata possuía um artefato antigo, era patrimônio familiar; quando um homem pobre carregava um amuleto que não deveria ter, era heresia. Nunca consegui decidir se aquilo era hipocrisia ou apenas mais uma das inúmeras maneiras criativas encontradas pelos poderosos para continuar poderosos.
Três batidas discretas na porta interromperam meus pensamentos.
— Senhorita Serafim? — A voz baixa veio acompanhada de mais uma batida leve, educada demais para pertencer à maioria dos empregados daquela casa quando precisavam lidar comigo.
Empurrei o anel para dentro da gaveta, fechei-a rapidamente e passei os olhos pelo quarto para garantir que nenhuma faca, roupa manchada ou outro pequeno indício de atividade criminosa estivesse abandonado em algum lugar inconveniente.
— Entre.
— Não diga nada. — Any abriu a porta apenas o suficiente para colocar a cabeça para dentro e, depois de verificar que eu estava adequadamente vestida, entrou carregando um vestido azul nos braços. O coque castanho estava visivelmente torto, duas mechas grudavam nas laterais de seu rosto e havia uma pequena linha branca presa ao ombro de seu uniforme, de modo que precisei morder a parte interna da bochecha para não sorrir antes mesmo que ela percebesse para onde eu estava olhando. — Estou falando sério, senhorita.
— Eu nem disse coisa alguma. — Cruzei os braços, observando-a depositar o vestido sobre a cama com o cuidado de quem carregava uma peça muito mais cara do que realmente era.
— Mas ia dizer.
— Seu coque está torto.
— Senhorita Serafim!
— E há uma linha presa na sua manga. — Apontei tranquilamente, e Any olhou para o próprio braço antes de arrancar o fio com rapidez, lançando-me um olhar ofendido que teria sido muito mais convincente se não estivesse tentando conter um sorriso.
— Às vezes acho que não gosto da senhorita. — Ela pegou o corpete e começou a organizá-lo sobre o vestido, ainda fingindo irritação.
— Mentira. — Levantei-me da cadeira e caminhei até a cama, passando os dedos pelo tecido azul-claro escolhido para aquela manhã. Não era feio, apenas discreto demais, exatamente como praticamente tudo que compravam para mim.
— A senhorita tem uma confiança impressionante. — Any soltou um suspiro teatral e me fez virar para começar a ajustar o vestido, puxando os laços com cuidado.
— Não é confiança quando tenho provas. Você é a única pessoa desta casa que entra no meu quarto voluntariamente antes das oito da manhã.
— Isso não significa que eu goste.
— Também me trouxe o vestido menos horrível do armário. Isso é praticamente uma declaração de amor.
— Trouxe porque a Viscondessa mandou. — Ela puxou um pouco mais o tecido, fazendo-me prender a respiração.
— Mais frouxo.
— Sua mãe vai reclamar.
— Ela não é minha mãe.
Any parou por um instante. Não era a primeira vez que eu fazia aquela correção e provavelmente não seria a última, por isso ela não tentou argumentar. Apenas afrouxou os laços até que eu conseguisse respirar novamente e retomou o trabalho em silêncio.
O Visconde e a Viscondessa Harfield eram meus responsáveis legais, meus supostos benfeitores e, para qualquer pessoa interessada na versão elegante da história, os nobres generosos que haviam acolhido uma criança estrangeira sem família e lhe oferecido uma vida melhor. Era uma narrativa bonita. Os Harfield gostavam particularmente dela porque fazia com que parecessem pessoas de coração enorme durante jantares beneficentes. Havia apenas um detalhe que ninguém costumava mencionar: eu não tinha sido exatamente acolhida. Eu ainda me lembrava das moedas sendo contadas. Não sabia quantas, nem quem as recebera, mas lembrava do som do metal e da mão do Visconde segurando meu braço enquanto Ace gritava meu nome do outro lado da rua.
Eles chamavam de adoção.
Eu preferia chamar de compra.
— Pronto. — Any deu alguns passos para trás depois de prender meus cabelos em uma trança e formar um coque baixo. — Acho que a senhorita está apresentável.
— Isso parece um elogio muito cauteloso.
— É o máximo que vai conseguir hoje. — Ela ajeitou uma das mangas e analisou o resultado com atenção. — A Viscondessa quer todos na sala de jantar. Receberam notícias sobre o casamento da senhorita Carmen e ela está enlouquecendo os empregados desde cedo.
— Isso explica a aparência do seu cabelo.
Any ergueu um dedo em minha direção, mas desistiu antes de dizer qualquer coisa.
— A senhorita deveria se apressar. Ela já pediu flores diferentes três vezes e ainda nem terminamos o café da manhã.
— Que situação trágica. Espero que o reino sobreviva à indecisão dela. — Peguei os brincos deixados sobre a penteadeira e coloquei-os enquanto Any balançava a cabeça.
— Um dia essa sua língua vai colocá-la em problemas.
— Minha língua já me colocou em problemas. Por isso aprendi a usar facas.
Any me encarou.
Sorri.
— Foi uma piada.
— A senhorita faz piadas horríveis.
— Essa foi boa.
— Foi preocupante.
Ela deixou o quarto pouco depois, resmungando sobre os preparativos do casamento, e aproveitei o momento de solidão para conferir novamente se a gaveta estava fechada. O anel permaneceria ali até que eu encontrasse alguém capaz de explicar seu significado sem fazer perguntas demais. Talvez Gosth conhecesse algum estudioso disposto a conversar, aquele homem sempre conhecia alguém, embora eu tivesse aprendido que perguntar como era geralmente uma escolha ruim.

O cheiro de pão recém-assado e café chegou até mim antes mesmo de alcançar a sala de jantar. A mesa dos Harfield era exageradamente grande para quatro pessoas, embora eu suspeitasse que seu verdadeiro propósito nunca tivesse sido alimentar alguém, e sim impressionar convidados. O tampo de madeira escura comportaria confortavelmente uma família três vezes maior, mas normalmente servia apenas para criar uma distância agradável entre mim e as outras pessoas sentadas ali, o que, pensando bem, talvez fosse sua principal qualidade.
— Dois meses é muito tempo! — Carmen reclamava quando entrei, segurando uma xícara de porcelana entre as mãos enquanto fazia uma expressão tão sofrida que alguém poderia imaginar que tivesse acabado de receber uma sentença de prisão. — Arthur disse que tentaria convencer o pai a antecipar.
— Casamentos entre famílias importantes exigem preparação, querida. — A Viscondessa falava com uma paciência reservada exclusivamente à filha biológica, enquanto espalhava uma quantidade absurda de geleia sobre uma fatia de pão. — O Conde Zane já está sendo bastante flexível. Dois meses passam rapidamente.
— Para quem não vai se casar, talvez. — Carmen empurrou uma mecha clara para trás da orelha e então me viu aproximar. O sorriso desapareceu de seu rosto com tanta naturalidade que quase considerei aquilo uma habilidade.
— Bom dia. — Puxei minha cadeira e me sentei sem esperar convite, enquanto a Viscondessa me lançava aquele olhar familiar que conseguia dizer muitas coisas ofensivas sem utilizar palavra alguma.
— Serafim. — Ela voltou imediatamente a atenção para Carmen, como se minha presença fosse apenas mais um inconveniente doméstico.
O Visconde nem levantou os olhos do jornal, o que considerei um presente inesperado. Servi-me de chá e, enquanto adicionava açúcar, consegui ler a manchete principal estampada diante dele.
Morte do Barão Salazar choca a capital.
Minha mão permaneceu firme.
A matéria ocupava quase metade da primeira página. O corpo de Salazar havia sido encontrado durante a madrugada em uma de suas propriedades, e a investigação da Guarda revelara documentos relacionados ao desaparecimento de diversas pessoas ao longo dos últimos anos. Alguns nomes já haviam sido identificados. Outros provavelmente jamais seriam.
— Encontraram mais cadáveres nas terras dele. — O Visconde abaixou ligeiramente o jornal, seu tom carregado menos de horror pela descoberta e mais de irritação pelo escândalo. — Os rumores aparentemente eram verdadeiros.
— Que coisa terrível. — Carmen fez uma careta, embora tenha voltado a mexer no chá poucos segundos depois. — Por que alguém faria algo assim?
Porque podia.
Porque tinha dinheiro.
Porque sabia que as vítimas eram pobres o suficiente para que poucas pessoas importantes se importassem.
Porque homens como Salazar cresciam acreditando que títulos nobres eram uma espécie de autorização divina para decidir quem merecia viver.
Não disse nada disso.
— Ao menos acabou. — A Viscondessa levou a xícara aos lábios. — Era uma vergonha para pessoas de nossa posição.
Quase ri.
Não porque fosse engraçado, mas porque aquela frase dizia muito mais sobre ela do que provavelmente imaginava.
— O problema é que ele não é o primeiro. — O Visconde dobrou parte do jornal antes de continuar. — Seis nobres mortos nos últimos meses e, em praticamente todos os casos, algum crime vem à tona logo depois. O rei terá que tomar providências.
Meses. Ainda era rápido demais. Eu sabia disso, Ace sabia, todos na guilda sabiam. O primeiro caso levara quase meio ano de preparação; depois, à medida que nossa rede cresceu, ficamos mais eficientes. Talvez eficientes demais.
— Talvez devessem simplesmente parar de cometer crimes. — A frase escapou antes que eu decidisse se valia a pena pronunciá-la.
O Visconde baixou lentamente o jornal.
— Disse alguma coisa?
— Disse que é uma situação lamentável. — Bebi um pouco de chá, mantendo a expressão neutra enquanto Carmen escondia um sorriso atrás da xícara. Pelo menos alguém naquela mesa apreciava uma boa tentativa de suicídio social.
— Estão chamando o assassino de Benfeitor novamente. — Carmen apoiou o cotovelo na mesa até receber um olhar severo da mãe e corrigir a postura imediatamente. — Acho um nome ridículo.
Nesse ponto, concordávamos.
Benfeitor não havia sido escolha minha. O apelido surgira depois dos primeiros assassinatos e se espalhara pela cidade com velocidade impressionante. Alguns acreditavam que fosse um homem rico vingando pessoas injustiçadas, outros juravam tratar-se de um antigo soldado cansado da corrupção. Havia também versões muito mais absurdas envolvendo fantasmas, criaturas e até uma maldição lançada sobre a aristocracia.
Curiosamente, ninguém considerava a possibilidade de uma mulher.
Melhor para mim.
No submundo, utilizavam outro nome.
Crisântemo.
Ace fora um dos responsáveis.
Segundo ele, uma flor relacionada à morte combinava perfeitamente comigo.
Segundo mim, ele era um idiota.
Infelizmente, Crisântemo pegou.
— Há uma coisa estranha nesta matéria. — O Visconde aproximou o jornal dos olhos antes de franzir a testa. — A Guarda encontrou símbolos desconhecidos em uma das salas da propriedade. Suspeitam de algum envolvimento arcano.
A xícara parou a poucos centímetros da minha boca.
— Magia? — Carmen imediatamente demonstrou mais interesse pela conversa, inclinando-se para frente até que a mãe novamente lhe lançasse um olhar repreensivo.
— Provavelmente sensacionalismo. — O Visconde virou a página, claramente pouco impressionado. — Os jornais descobriram que colocar a palavra magia em uma manchete aumenta as vendas.
— Mas e se for verdade?
— Então a Igreja e os estudiosos da Coroa cuidarão disso.
Pousei a xícara devagar.
Não havíamos utilizado magia naquela propriedade.
Nenhum de nós sequer tinha capacidade para isso.
O símbolo encontrado pela Guarda poderia não ter qualquer relação com o anel, é claro. Poderia ser apenas uma coincidência. Também poderia significar que alguém estivera naquela propriedade sem que nós percebêssemos, o que era uma possibilidade muito menos confortável.
— Serafim. — A voz do Visconde arrancou-me dos pensamentos.
— Perdão?
— Está me ouvindo ou pretende passar toda a manhã olhando para a mesa? — Ele dobrou o jornal e o colocou ao lado do prato antes de me observar com a costumeira expressão de desaprovação.
— Estava apenas distraída.
— Percebi. — Ele passou o guardanapo pelos lábios. — Sua irmã se casará em dois meses. Espero que encontre alguma maneira de ser útil durante os preparativos, já que parece possuir bastante tempo livre.
Carmen não era minha irmã, mas decidi poupar todos daquela discussão pela manhã.
— Claro.
— E talvez seja hora de começar a comparecer a mais eventos sociais. — A Viscondessa ajeitou os talheres diante de si e me examinou como se estivesse avaliando uma mercadoria que não sabia muito bem onde colocar. — Já está numa idade em que precisa pensar no próprio futuro.
— Meu futuro costuma ocupar boa parte dos meus pensamentos.
— Não estou falando dessas suas leituras e passeios. — Ela arqueou as sobrancelhas. — Uma jovem da sua idade precisa compreender que não permanecerá nesta casa para sempre.
Havia algo na maneira como disse aquilo que me fez olhar para o Visconde.
Ele não reagiu.
Continuou tomando café como se a frase não tivesse significado algum.
Talvez não tivesse.
Ainda assim, eu aprendera há muito tempo que naquela família as conversas mais perigosas eram justamente aquelas que pareciam inocentes.
— Entendido.
A Viscondessa pareceu satisfeita, e o assunto voltou rapidamente ao casamento de Carmen, às flores, aos músicos e à quantidade de convidados que deveriam ser recebidos. Eu apenas terminei o café em silêncio, tentando decidir se o arrepio que sentia era consequência do anel escondido no meu quarto ou de alguma coisa muito menos sobrenatural.
Voltei ao quarto assim que consegui escapar das exigências relacionadas ao casamento e tranquei a porta atrás de mim. A roupa negra já estava praticamente seca próxima à janela e, ao conferir a manga, finalmente não encontrei qualquer vestígio de sangue. Pelo menos um problema daquela manhã estava resolvido.
O anel continuava exatamente onde eu o deixara.
Peguei-o novamente, desta vez utilizando um lenço para evitar contato direto, e o levei para perto da janela. Sob a luz do dia, o símbolo ficava ainda mais evidente. Os três círculos não eram perfeitamente simétricos e as linhas ao redor deles pareciam formar algo maior quando observadas de determinada maneira, quase como raízes ou galhos se espalhando pelo metal.
— Se vai continuar me incomodando, o mínimo que poderia fazer é explicar o motivo. — Girei a peça entre os dedos cobertos e, como esperado, ela não respondeu.
Uma batida breve contra a janela fez com que eu levantasse a cabeça.
Depois veio outra.
Então três batidas rápidas.
Pausa.
Mais duas.
Não era um pássaro.
Atravessei o quarto e abri apenas uma pequena fresta. Um pedaço de papel estava preso discretamente entre a moldura e o vidro, dobrado duas vezes e marcado com uma pequena flor desenhada no canto. Olhei para o jardim antes de pegá-lo, mas não havia ninguém próximo o suficiente para chamar atenção.
Abri.
Temos outro.
A mensagem era curta.
Precisava ser.
Queimei o papel na chama da lamparina e esperei até que as últimas cinzas caíssem dentro da bandeja antes de trocar de roupa.
A Cidade Baixa sempre parecia pertencer a um reino diferente, embora estivesse a pouco mais de meia hora das mansões aristocráticas. Conforme me afastava da região nobre, as ruas largas davam lugar a becos estreitos, o calçamento tornava-se irregular, jardins desapareciam e as enormes residências eram substituídas por casas simples encostadas umas às outras. Vendedores gritavam preços, crianças corriam entre carroças e o cheiro de comida, fumaça, suor e chuva antiga formava uma combinação pouco agradável, porém familiar.
Eu gostava dali.
Nobres costumavam dizer que aquela parte da cidade era perigosa, mas perigo era uma questão de perspectiva. Na Cidade Alta, homens escondiam facas atrás de títulos, sorrisos e contratos. Ali pelo menos ninguém se esforçava tanto para parecer diferente do que realmente era.
Mantive o capuz baixo sobre o rosto enquanto atravessava uma viela conhecida, vestida com roupas simples o suficiente para não chamar atenção. Alguns moradores me reconheceram e fizeram pequenos gestos de cumprimento, outros sequer olharam em minha direção. Aquela era uma das coisas que mais apreciava na Cidade Baixa: as pessoas sabiam quando não perguntar.
A antiga taverna apareceu depois de mais duas esquinas, com a placa torta balançando sobre a entrada e uma parede que parecia sobreviver exclusivamente por teimosia. Para qualquer pessoa de fora, o lugar estava abandonado havia anos. Para nós, era lar, esconderijo, depósito de armas e sala de reuniões, dependendo do dia.
Desci a escada estreita até o porão e encontrei quatro pessoas me esperando.
— Está atrasada. — Ace anunciou assim que me viu chegar, sentado sobre a mesa onde deveríamos manter os mapas, com uma das botas perigosamente próxima de amassar documentos importantes. O cabelo claro estava tão bagunçado quanto sempre, e aquele sorriso satisfeito deixava bastante evidente que ele sabia exatamente o quanto sua posição me irritava.
— Você está sentado em cima dos mapas. — Parei diante dele e cruzei os braços, olhando primeiro para seu rosto e depois para os papéis presos sob sua perna.
— Também senti sua falta. — Ele abriu os braços como se esperasse um abraço.
— Saia daí antes que eu o ajude.
— Você trata muito mal seu melhor amigo. — Ace escorregou da mesa e tentou apoiar o braço em meu ombro, mas afastei-o antes que conseguisse. — Um dia vou embora e você vai sentir minha falta.
— Provavelmente por alguns minutos.
— Cruel.
— Crianças, podemos começar? — Azeff interrompeu antes que Ace inventasse outra resposta. Estava encostado à parede, passando lentamente uma pedra de amolar pela lâmina de uma faca curta, e seu olhar âmbar transitava entre nós com a paciência de alguém que já havia presenciado aquela mesma discussão dezenas de vezes. — Algumas pessoas aqui possuem trabalho de verdade.
— Tecnicamente, matar nobres é meu trabalho. — Ace puxou uma cadeira e se sentou ao contrário, apoiando os braços no encosto.
— Você passa metade das missões reclamando.
— Reclamar melhora meu desempenho.
Bloodyn soltou uma risada abafada do outro lado da sala enquanto organizava pequenas lâminas sobre uma mesa lateral. Gosth permaneceu sentado no canto mais escuro, quase imóvel, como se houvesse decidido participar da reunião tornando-se parte da parede.
Dante era o único ausente.
Isso também não era incomum.
— O que temos? — Apoiei as mãos sobre a mesa assim que Ace finalmente parou de falar, e Azeff deixou a faca de lado antes de puxar uma pequena pasta.
— Desaparecimentos. — Ele a abriu diante de mim, espalhando algumas folhas. — Onze confirmados nas últimas semanas, talvez mais.
Passei os olhos pelos registros.
Homens.
Mulheres.
Uma adolescente de quinze anos.
Nenhum sobrenome importante.
Nenhuma família com influência.
Nenhuma pessoa cuja ausência provocaria uma investigação séria.
— Existe algum padrão além da região?
— Pobreza. — Bloodyn se aproximou da mesa e apontou para dois nomes. — Esses aceitaram trabalho em uma propriedade rural. Três testemunhas disseram que outras vítimas foram vistas entrando em carruagens diferentes, todas sem brasão. Os restantes simplesmente desapareceram.
— E por que recebemos isso agora?
— Porque ontem um dos Vira-Latas ouviu um empregado bêbado falando mais do que devia. — Ace pegou outra folha e a empurrou em minha direção. — Parece que todas as pistas acabam levando ao mesmo nome.
Li.
Marquês Florence.
Conhecia-o de reputação. Homem rico, discreto, dono de diversas propriedades e tão tedioso em eventos sociais que eu jamais havia dedicado atenção especial a ele.
— Temos alguma prova concreta de que esteja envolvido?
— Não. — Azeff respondeu imediatamente.
— Então não temos um alvo.
Ace soltou um gemido.
— Cris, onze pessoas sumiram.
— E isso é motivo para investigar, não para matar alguém.
— Ele é um marquês.
— O que não significa automaticamente que seja culpado.
Ace me encarou como se eu tivesse acabado de defender pessoalmente toda a aristocracia.
— Você está ficando mole.
— E você está ficando idiota. — Peguei os documentos e os organizei diante de mim. — Nós não somos carrascos andando pelas ruas escolhendo quem merece morrer porque ouvimos alguma história interessante numa taverna. Investigamos primeiro. Sempre.
Bloodyn concordou com um movimento discreto da cabeça, enquanto Azeff parecia satisfeito por alguém ter encerrado a discussão.
— Tem mais. — Gosth falou pela primeira vez.
Todos olharam para ele.
Ace apoiou o queixo nos braços.
— É sempre emocionante quando você decide participar da conversa.
Gosth ignorou.
Retirou uma pequena folha dobrada de dentro do casaco e a deslizou pela mesa na minha direção.
— Encontraram isso no quarto de uma das desaparecidas.
Abri o papel.
Meu corpo ficou imóvel.
Três círculos.
Linhas ao redor.
Espinhos.
O mesmo símbolo do anel.
— Onde conseguiram isso? — perguntei, mantendo o tom tão neutro quanto possível.
— A irmã da garota desenhou de memória. — Bloodyn apoiou uma das mãos na borda da mesa. — Disse que havia uma marca parecida no chão na manhã seguinte ao desaparecimento. Pensou que fosse alguma brincadeira até perceber que a irmã não voltaria.
Ace me observou atentamente.
— Você conhece?
Demorei pouco mais de um segundo para responder.
Já foi tempo suficiente.
— Não.
Gosth ergueu os olhos para mim.
Não falou nada.
Esse era o problema de trabalhar com um espião: mentir ficava significativamente mais difícil.
Dobrei o papel e o coloquei sobre os demais documentos, tentando organizar rapidamente tudo que sabia. Salazar possuía um anel com aquele símbolo. Agora uma pessoa desaparecida, aparentemente relacionada ao Marquês Florence, tinha a mesma marca dentro do quarto.
A coincidência começava a exigir esforço demais para continuar sendo coincidência.
— Investigaremos Florence. — Passei os olhos por cada um deles, certificando-me de que Ace prestaria atenção principalmente à parte seguinte. — Apenas investigar. Ninguém encosta nele enquanto não soubermos exatamente o que está acontecendo.
— Mesmo se descobrirmos que ele está envolvido nos desaparecimentos?
— Se descobrirmos, então descobriremos também para onde essas pessoas estão indo e quem mais está envolvido. — Toquei o desenho do símbolo com a ponta dos dedos, lembrando involuntariamente do frio do anel contra minha pele. — Não acredito que esse homem esteja trabalhando sozinho.
Azeff inclinou ligeiramente a cabeça.
— Por quê?
— Porque pessoas como Florence não costumam sujar as próprias mãos quando podem pagar alguém para fazer isso por elas.
Ace deixou de brincar pela primeira vez desde que eu chegara.
— E se isso for maior do que estamos pensando?
Olhei novamente para o símbolo.
Talvez fosse.
Provavelmente era.
— Então faremos o que sempre fazemos. — Fechei a pasta e a puxei para perto de mim. — Descobriremos a verdade antes que alguém consiga enterrá-la.
Naquela tarde, ainda acreditava que o Marquês Florence seria apenas mais um nome para investigar, mais um aristocrata escondendo crimes atrás de dinheiro e influência, e que o símbolo encontrado em seu caminho acabaria tendo alguma explicação simples. Eu também acreditava que o homem morto naquela madrugada seria o maior problema que teríamos naquele mês.
Estava errada nas duas coisas.
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