O Demônio e o Crisântemo: Uma Combinação Mortal
2 Capítulo 2
Dominic
O treinamento começava antes de o sol aparecer por completo atrás das muralhas, quando o ar ainda estava frio o suficiente para transformar cada respiração em uma pequena nuvem branca e os homens não tinham energia para reclamar de absolutamente tudo. Pelo menos era essa a teoria. Na prática, Falcon conseguia reclamar em qualquer horário, temperatura ou condição física, uma habilidade que aperfeiçoara com dedicação admirável ao longo dos anos. Eu já havia perdido a conta de quantas voltas ele dera ao redor do campo, mas sabia que eram menos do que deveria pela maneira como diminuía discretamente a velocidade sempre que acreditava que eu estava olhando para outro lado.
— Se continuar arrastando os pés desse jeito, vou acrescentar outras cinco voltas. — Mantive os braços cruzados enquanto observava os cavaleiros atravessarem a área de treinamento, alguns carregando pesos presos às costas enquanto outros alternavam entre corrida e exercícios de resistência. Falcon, que até então parecia prestes a morrer de exaustão, imediatamente encontrou forças para me lançar um olhar ofendido.
— Dominic, eu digo isso com todo o respeito que existe dentro do meu coração, que é muito, diga-se de passagem, mas você é uma pessoa profundamente desagradável antes do café da manhã. — Ele diminuiu o passo ao passar perto de mim e recebeu um empurrão nas costas de um dos outros cavaleiros, que claramente não queria ser punido junto com ele. — Não podemos conversar como dois homens civilizados? Talvez sentados? Com pão? Um pouco de carne? Qualquer coisa que não envolva minhas pernas?
— Podemos. Assim que terminar as cinco voltas extras.
Falcon quase tropeçou.
— Você não pode acrescentar voltas por eu reclamar das voltas!
— Acabei de fazer exatamente isso.
— Isso é abuso de autoridade.
— Se continuar falando, serão dez.
Ele abriu a boca, pensou melhor e voltou a correr com uma expressão tão ofendida que alguns homens precisaram esconder risadas. Conhecia Falcon havia tempo suficiente para saber que o silêncio duraria pouco, mas aqueles poucos minutos já eram uma vitória. Diferentemente do que muitas pessoas imaginavam ao ouvir histórias sobre mim, eu não gostava de castigar soldados por diversão, tampouco acreditava que disciplina precisasse ser sinônimo de crueldade. O problema era que homens enviados para a fronteira não sobreviveriam porque seu comandante fora gentil durante os treinamentos. Uma perna cansada naquele campo poderia ser fortalecida; uma hesitação durante uma batalha normalmente terminava com alguém dentro de um caixão, quando havia corpo suficiente para colocar em um.
Aquele pensamento fez minha atenção escapar para as muralhas mais ao sul da propriedade. Mesmo a quilômetros de distância, a fronteira parecia ocupar espaço demais na minha cabeça nas últimas semanas. Primeiro haviam sido patrulhas encontradas mortas próximas às florestas, depois soldados desaparecidos e, por fim, sobreviventes descrevendo ataques que nenhum comandante conseguia explicar sem soar insano. Animais grandes. Homens deformados. Criaturas caminhando sobre duas pernas. Gritos que não pareciam humanos. Cada testemunho era diferente nos detalhes e assustadoramente semelhante no restante, embora a Coroa ainda insistisse em atribuir as mortes a feras, contrabandistas ou soldados inimigos atravessando a região.
Eu teria preferido acreditar nisso também.
Minhas cicatrizes não permitiam.
Uma fisgada atravessou o lado esquerdo do meu pescoço e seguiu até o ombro antes que eu conseguisse afastar o pensamento. Levei a mão instintivamente à região coberta pela gola do uniforme, pressionando os dedos contra a pele enquanto esperava a dor passar. As marcas estavam quietas havia quase dois dias, tempo suficiente para que eu começasse a acreditar que as últimas crises tinham sido provocadas apenas pelo cansaço. Era uma explicação conveniente.
Provavelmente falsa.
— Senhor Duque. — A voz de Hoppe veio atrás de mim, e nem precisei me virar para saber que havia alguma coisa errada. O mordomo costumava atravessar aquele campo apenas quando precisava me arrancar de alguma atividade por um motivo suficientemente importante, e sua postura permanecia tão impecável quanto sempre, embora estivesse segurando dois envelopes contra o peito. — Preciso interromper o treinamento por alguns minutos.
— Falcon ficará extremamente feliz com isso. — Virei-me em direção a ele, e o homem mencionado levantou os dois braços em comemoração do outro lado do campo até perceber meu olhar. — Não significa que podem parar!
A comemoração acabou imediatamente.
Hoppe disfarçou um sorriso.
— Fico satisfeito em ver que o senhor continua inspirando seus homens.
— Eles me adoram.
— Tenho certeza.
Aquele homem trabalhara para minha família antes mesmo de eu nascer e, justamente por isso, era uma das poucas pessoas em todo o ducado que conseguia fazer comentários daquele tipo sem que parecessem desrespeitosos. Seu cabelo já era completamente grisalho, as mãos começavam a denunciar a idade e ele insistia em carregar sozinho uma quantidade absurda de responsabilidades mesmo quando eu lhe pedia para delegar algumas delas. Meu pai dizia que Hoppe conhecia cada pedra daquela propriedade. Eu costumava acreditar que era exagero até descobrir, ainda criança, que ele realmente conseguia perceber quando um quadro havia sido deslocado alguns centímetros.
— O que aconteceu?
O humor desapareceu de sua expressão.
— Recebemos notícias da capital ainda pela manhã. O Barão Salazar foi encontrado morto durante a madrugada. — Hoppe separou um dos papéis que trazia e o estendeu para mim, embora eu não precisasse lê-lo para reconhecer o nome. — A Guarda confirmou que havia vítimas enterradas em uma de suas propriedades. Pelo menos vinte e sete até agora.
Por alguns instantes, o campo pareceu mais silencioso do que realmente estava.
— Então os rumores eram verdadeiros.
— Infelizmente.
Peguei o relatório. Salazar já havia sido mencionado em reuniões do Conselho algumas vezes, sempre acompanhado de denúncias que desapareciam misteriosamente antes que pudessem ser investigadas. Funcionários espancados. Pessoas desaparecidas nas proximidades de suas terras. Festas privadas. Caçadas. Nenhuma acusação sobrevivera tempo suficiente para se transformar em julgamento, o que não era exatamente surpreendente quando homens ricos podiam comprar testemunhas, guardas, documentos e, dependendo da quantia, até a própria reputação.
— Foi o Benfeitor?
— A Guarda suspeita que sim. É o sexto nobre morto em circunstâncias semelhantes nos últimos meses, e novamente surgiram provas de crimes cometidos pela vítima logo após a morte. — Hoppe hesitou antes de continuar, e foi essa pausa que me fez levantar os olhos do documento. — Contudo, existe algo diferente desta vez. Encontraram símbolos desconhecidos em uma das salas.
— Símbolos?
— Aparentemente arcanos.
A cicatriz no meu ombro queimou.
Não apenas doeu.
Queimou.
Meu corpo inteiro ficou rígido por um instante e apertei o relatório com mais força até as bordas do papel dobrarem entre meus dedos. Hoppe percebeu imediatamente; claro que percebeu. Ele sempre percebia.
— Senhor?
— Estou bem.
— As marcas?
— Eu disse que estou bem.
Não era exatamente uma mentira. A dor já diminuía, deixando apenas um calor desagradável sob a pele. Ainda assim, a reação havia sido forte demais para ignorar. Não era comum que as cicatrizes respondessem simplesmente ao ouvir alguém mencionar magia, ou eu provavelmente teria passado metade da vida sofrendo em reuniões com estudiosos da Coroa.
— O relatório veio diretamente da Guarda?
— Sim. Há uma reprodução aproximada do símbolo na segunda página.
Virei o papel.
Três círculos.
Linhas finas.
Algo semelhante a espinhos envolvendo o conjunto.
O ardor voltou imediatamente, desta vez mais fraco, porém inconfundível.
Respirei devagar.
— Dominic? — Falcon havia se aproximado sem que eu percebesse, ainda ofegante da corrida, mas sua expressão já não carregava qualquer traço de brincadeira. Ele me conhecia bem demais para ignorar a maneira como minha mão havia se fechado sobre o próprio ombro. — O que houve?
— Nada.
— Você faz uma cara péssima quando mente.
— E você deveria estar correndo.
— Eu estava, mas Hoppe apareceu, você fez aquela cara de quem acabou de ver um morto levantar e achei que talvez fosse uma situação em que desobedecer pudesse ser perdoado.
Hoppe pigarreou.
Falcon endireitou imediatamente a postura.
— Respeitosamente desobedecer, é claro.
Entreguei o relatório ao mordomo antes que ele tentasse enxergar o símbolo por cima do meu braço.
— Não é nada que precise saber agora.
Falcon arqueou as sobrancelhas.
— Essa frase nunca deixa ninguém menos preocupado.
— Então considere uma oportunidade de aprender a lidar com a frustração.
— Está vendo? Desagradável antes do café.
— Já tomou café.
— Então talvez seja permanente.
Eu teria respondido se Hoppe não tivesse me oferecido o segundo envelope. Diferentemente do relatório da Guarda, aquele possuía um selo de cera vermelha impossível de confundir. O leão coroado do rei Astor parecia particularmente pretensioso naquela manhã.
— Chegou pouco depois do primeiro — explicou Hoppe. — O mensageiro informou que exige resposta imediata.
— É claro que exige.
Quebrei o selo e percorri a carta com os olhos. Astor nunca fora um homem de escrever textos longos quando poderia simplesmente ordenar a presença de alguém, de modo que a mensagem ocupava menos de metade da página.
Dominic,
venha ao palácio hoje, antes da primeira hora da tarde. Há novos acontecimentos na fronteira e decisões que não podem mais ser adiadas. Também discutiremos uma questão pessoal que aparentemente você pretende continuar evitando até morrer em alguma batalha, o que não será permitido enquanto eu tiver autoridade suficiente para impedi-lo.
Não se atrase.
Astor.
Reli a segunda parte.
Depois uma terceira vez.
Falcon inclinou-se para o lado tentando enxergar.
— Pela sua cara, ou o rei declarou guerra contra alguém ou voltou a falar de casamento.
Dobrei a carta.
— Guerra seria menos irritante do que ele falando de casamento.
— Então é casamento.
— Não disse isso.
— Não precisava.
Hoppe pareceu subitamente interessado demais em ajustar a própria manga.
Olhei para ele.
— Não comece.
— Não disse nada, senhor.
— Mas pensou.
— Receio que não possa controlar meus pensamentos.
— Ainda.
Falcon riu e recebeu um olhar meu antes que a diversão crescesse demais.
— Volte ao treinamento.
— Quantas voltas faltam?
— Depois dessa conversa? Dez.
— Dominic!
Afastei-me antes que ele pudesse começar outro discurso sobre injustiça, embora os protestos continuassem atrás de mim até eu deixar o campo. O relatório permaneceu com Hoppe, mas o desenho havia se fixado na minha memória com uma precisão incômoda. Não conhecia aquele símbolo. Pelo menos era o que minha mente dizia. Meu corpo parecia discordar.

O palácio real ocupava uma elevação no centro da capital e podia ser visto de praticamente qualquer distrito rico, o que provavelmente fazia parte da intenção de quem o construíra. Era uma estrutura antiga de pedra clara, cercada por torres, jardins e muralhas mais decorativas do que defensivas, embora ninguém fosse estúpido o bastante para testar a segurança do lugar. Atravessei os portões pouco antes do horário determinado e deixei o cavalo aos cuidados de um dos cavalariços, recusando a oferta de uma escolta até a sala privada do rei. Eu conhecia aquele palácio desde criança; precisava de orientação tanto quanto Astor precisava de outra coroa.
Encontrei-o junto a uma das grandes janelas de seu gabinete, observando os jardins enquanto segurava uma taça de vinho que provavelmente não deveria estar bebendo tão cedo. O rei já havia passado dos cinquenta, embora se recusasse a admitir qualquer limitação imposta pela idade. Os cabelos escuros começavam a ficar grisalhos nas têmporas, e as roupas eram menos extravagantes do que a maioria esperaria de um monarca, uma característica que enganava pessoas até ele abrir a boca e lembrar a todos de que estava acostumado a ser obedecido.
— Finalmente. — Astor não se virou quando entrei. — Por um momento imaginei que estivesse planejando ignorar a carta.
— Considerei.
— Eu sei.
— Então por que enviou?
— Porque gosto de manter nossas tradições.
Aproximei-me da mesa e notei imediatamente a quantidade de documentos espalhados sobre ela. Mapas da fronteira, relatórios militares, registros de baixas e algumas folhas que não combinavam em absolutamente nada com o restante.
Retratos de mulheres.
Fechei os olhos por um instante.
— Não.
— Nem comecei.
— Não precisa.
Astor finalmente se virou e sorriu daquele jeito que normalmente significava que alguma decisão já havia sido tomada sem minha participação.
— Sente-se.
— Prefiro ficar em pé.
— Você sempre prefere ficar em pé quando sabe que não vai gostar da conversa.
— Então poupe meu tempo e fale da fronteira primeiro.
O sorriso desapareceu.
Ele voltou até a mesa e empurrou um mapa em minha direção.
— Três postos foram atacados em doze dias. Vinte e um mortos confirmados, sete desaparecidos e quatro homens que voltaram em condições de fornecer algum relato. Nenhum deles consegue descrever exatamente o que enfrentou, mas as histórias são semelhantes demais para serem ignoradas.
Analisei os locais marcados.
Todos ficavam próximos à mesma região.
— Perto das antigas ruínas de Vhalor.
Astor assentiu.
— E perto do local onde seu batalhão foi atacado anos atrás.
A mão que eu mantinha apoiada na mesa ficou imóvel.
— Coincidência.
— Talvez.
— Não acredita nisso.
— Não.
O silêncio entre nós se estendeu por alguns segundos.
— O que os sobreviventes viram?
— Um deles diz que havia homens entre as criaturas. Outro jura que as criaturas eram homens. O terceiro perdeu a capacidade de falar depois do ataque e o quarto enlouqueceu o suficiente para tentar arrancar os próprios olhos antes que conseguissem contê-lo. — Astor empurrou outro relatório para mim. — Também encontraram resíduos arcanos no campo.
As cicatrizes abaixo da minha roupa pulsaram novamente.
— Que tipo?
— É justamente isso que ninguém consegue identificar. Enviei dois estudiosos da Coroa. Um voltou. Disse que a energia não corresponde a nenhuma prática autorizada e se recusou a retornar à região.
— E o outro?
Astor me encarou.
— Desapareceu.
Passei os olhos pelo documento enquanto tentava ignorar o desconforto crescendo sob minha pele.
— Quer que eu vá até lá.
— Quero que descubra o que está acontecendo e, principalmente, se aquilo possui alguma relação com o que aconteceu com seu antigo batalhão.
Meu maxilar se contraiu.
Ele percebeu.
Sempre percebia.
— Dominic—
— Eu vou.
— Não estou questionando isso.
— Então não precisamos falar do passado.
— Precisamos em algum momento.
— Não hoje.
Astor soltou o ar pelo nariz e voltou a se apoiar na cadeira, sabendo que insistir apenas encerraria a conversa mais rápido. Era uma discussão antiga entre nós. Ele queria saber exatamente o que acontecera naquela batalha. Eu também. A diferença era que não havia respostas suficientes para nenhum dos dois.
Mais de dois mil homens entraram naquela região.
Eu fui o único que saiu.
Algumas noites ainda acordava com os gritos deles.
— Partirei amanhã — determinei, dobrando o relatório.
— Não.
Ergui os olhos.
— Não?
— Você partirá quando eu autorizar.
— Acabou de dizer que os postos estão sendo destruídos.
— E estou dizendo que existem outras coisas que precisam ser resolvidas antes.
Olhei para os retratos sobre a mesa.
Depois para ele.
— Não.
Astor puxou uma das cadeiras e se sentou com uma calma que me irritou imediatamente.
— Tem trinta anos, Dominic.
— E continua sabendo contar.
— É Duque de Western, último homem da linhagem direta de sua família e continua se comportando como se morrer sem deixar sucessores fosse uma decisão exclusivamente sua.
— É exatamente isso.
— Não quando metade das terras ao oeste depende de uma sucessão estável.
— Pode nomear outro administrador se eu morrer.
— Não quero outro administrador. Quero que pare de agir como se já estivesse morto.
A frase me atingiu de maneira mais precisa do que eu gostaria.
Não demonstrei.
— Não pretendo me casar com alguma mulher que nunca vi simplesmente porque o senhor decidiu que chegou a hora.
— Curioso. — Astor pegou um dos retratos e o observou sem interesse real. — Porque é exatamente isso que nobres fazem há séculos.
— Também fazem inúmeras outras coisas idiotas há séculos. Não vejo motivo para imitá-las.
— Por isso não pretendo entregá-lo a qualquer pessoa.
— Que reconfortante.
— Dominic.
— Astor.
Ele estreitou os olhos.
Pouquíssimas pessoas utilizavam seu nome daquele modo.
Eu era uma delas desde criança e provavelmente continuaria sendo até que um de nós morresse.
— Já escolhi uma família que considero adequada.
A irritação deu lugar à desconfiança.
— Família?
— Ainda estou verificando algumas questões antes de tornar qualquer decisão oficial. Não vou lhe dar um nome hoje.
— Então não temos mais o que discutir.
— Temos. — Ele entrelaçou as mãos sobre a mesa. — Porque você não irá para a fronteira solteiro.
Por alguns segundos, simplesmente o encarei.
— Está brincando.
— Não.
— Há homens morrendo.
— Eu sei.
— E quer atrasar uma operação militar por causa de um casamento?
— Quero garantir que, caso algo aconteça com você, Western não entre numa disputa sucessória capaz de desestabilizar metade do oeste enquanto lidamos com seja lá o que estiver surgindo na fronteira. Não estou organizando um baile porque me sinto entediado, Dominic. Estou tomando uma decisão política.
Isso, infelizmente, fazia mais sentido do que eu gostaria.
— Quanto tempo?
— Pouco.
— Isso não é uma medida de tempo.
— Alguns dias, se todos cooperarem.
— E se eu não cooperar?
Astor sorriu.
— Você é meu comandante.
— Isso não responde.
— Responde perfeitamente.
Inclinei a cabeça para trás e respirei fundo, procurando paciência em algum lugar do teto ornamentado.
Não encontrei.
— O senhor consegue tornar qualquer situação pior.
— Uma habilidade essencial para governar.
— Quem é ela?
— Ainda não.
— Ao menos conheço a família?
— Provavelmente.
— Isso não me tranquiliza.
— Não era minha intenção.
Afastei-me da mesa, já cansado daquela conversa.
— Então espero que encontre alguém suficientemente desesperada para aceitar.
Astor observou minhas cicatrizes por um instante antes de voltar os olhos ao meu rosto.
— Você ainda acredita nisso?
— Em quê?
— Que nenhuma mulher poderia querer se aproximar de você por causa dessas marcas e das histórias que contam.
— Não me importo com o que contam.
— Mentira.
Minha expressão endureceu.
— Terminamos?
Astor não respondeu imediatamente. Havia momentos em que deixava de parecer rei e voltava a ser o homem que aparecera na propriedade Western depois da morte de meus pais, permanecendo ao meu lado enquanto eu mal conseguia ficar em pé. Eu odiava quando fazia aquilo. Era muito mais simples discutir com um monarca do que com alguém que conhecia minhas fraquezas.
— Por hoje — respondeu enfim. — Mas leve uma coisa em consideração antes de decidir odiar uma mulher que ainda nem conheceu: ela provavelmente terá tão pouca escolha quanto você.
Aquilo me fez parar.
Não me virei.
— Então talvez não devesse obrigar nenhum dos dois.
— Talvez o mundo em que vivemos não permita que eu escolha sempre a solução mais gentil.
— Essa é uma desculpa perigosa para um rei.
— Eu sei.
Saí antes que a conversa pudesse piorar.

O sol já começava a descer quando deixei o palácio. Em vez de montar imediatamente, fiquei alguns minutos junto ao cavalo, observando o movimento dos criados e guardas atravessando o pátio enquanto tentava organizar informações demais dentro da cabeça.
Salazar morto.
Símbolos arcanos.
Ataques na fronteira.
As mesmas terras onde meu batalhão havia desaparecido.
Um casamento.
Era impressionante como Astor conseguia reunir problemas completamente diferentes dentro da mesma tarde.
Passei a mão pelo pescoço e pressionei uma das cicatrizes sob a gola. Ainda estava quente.
Talvez devesse ter contado a ele.
Talvez devesse ter mostrado como as marcas haviam reagido ao símbolo encontrado na propriedade de Salazar.
Não contei.
Durante anos, estudiosos haviam examinado meu corpo, feito perguntas, desenhado as cicatrizes e criado teorias que variavam entre maldição, contaminação arcana e algum fenômeno desconhecido provocado durante a batalha. Nenhuma explicação levara a lugar algum. No fim, todos sempre acabavam olhando para mim como se esperassem que alguma coisa pior surgisse debaixo da pele.
Preferia manter aquela nova reação comigo até saber se realmente significava alguma coisa.
Montei e deixei o palácio enquanto os sinos da cidade anunciavam o fim da tarde. O caminho de volta passava pelas regiões mais movimentadas da capital, mas minha atenção permanecia presa ao desenho que vira naquela manhã. Três círculos entrelaçados. Espinhos ao redor.
Eu tinha certeza de nunca tê-lo visto antes.
Então por que meu corpo o reconhecia?
A pergunta me acompanhou até os portões da propriedade Western.
Naquele momento, ainda acreditava que a resposta estava na fronteira.
Não fazia ideia de que ela acabara de começar a caminhar em minha direção.
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