O Décimo andar

4 O Peso da Lei e o Calor do Asfalto



​A fachada da faculdade de direito era imponente, com colunas de concreto que pareciam feitas para esmagar qualquer resquício de rebeldia juvenil. Eloah saiu pelo portão principal segurando a pasta com o comprovante de matrícula. Aos 18 anos recém-completados, ela se sentia uma fraude ali dentro. Tinha terminado a escola cedo, aos 17, e enquanto suas amigas no Rio planejavam viagens de mochilão, ela estava ali, prestes a mergulhar em códigos civis e doutrinas pesadas por pressão silenciosa de Ricardo.

​O sol de São Paulo era diferente do Rio; não queimava a pele com a brisa do mar, ele apenas abafava entre os prédios. Eloah parou na calçada movimentada e abriu o aplicativo de transporte. "Quinze minutos", ela leu, soltando um suspiro de frustração.

​Enquanto esperava, um sedan preto de vidros escuros reduziu a velocidade e parou exatamente à sua frente. O vidro do passageiro desceu suavemente, revelando Arthur Meirelles. Ele não usava as roupas casuais da noite anterior, mas um terno sob medida que o deixava ainda mais intimidador.

​— O sol aqui fora não perdoa, Eloah. Quer uma carona?

​Ela hesitou. Olhou para o celular, depois para ele. A curiosidade venceu o cansaço.

​— Seus pais sabem que você aceita carona de estranhos? — ele perguntou com um sorriso irônico enquanto ela entrava e sentia o choque térmico do ar-condicionado gelado.

​— Você não é um estranho, é o "vizinho perfeito" — ela rebateu, fechando a porta. — E eu tenho dezoito anos. Tecnicamente, sou dona do meu próprio nariz.

​Arthur deu a partida, movendo o carro com uma precisão calma pelo trânsito caótico.

​— Direito? — ele perguntou, indicando a pasta no colo dela.

​— É o que se espera de uma Cavalcante, não é? Ordem, progresso e um diploma respeitável.

​— Você fala como se estivesse assinando uma sentença de prisão, não uma matrícula — Arthur comentou, lançando um olhar rápido para ela. — Se não queria Direito, o que queria estar fazendo agora?

​Eloah encostou a cabeça no banco de couro, observando o perfil dele. O maxilar bem marcado, a mão firme no volante. Havia uma intensidade na forma como ele dirigia, como se estivesse no controle absoluto de tudo ao seu redor.

​— Queria estar escrevendo. Ou apenas sendo livre por um tempo. Mas meu pai acha que a vida precisa de um "plano de carreira" desde o berço.

​— O Direito é uma forma de entender as regras — Arthur disse, a voz ficando mais baixa, mais densa. — Mas a vida real acontece nas entrelinhas, Eloah. Nas coisas que a lei não consegue explicar.

​— Como o quê? — ela perguntou, sentindo a eletricidade voltar a percorrer o carro.

​Arthur parou em um sinal vermelho e virou-se totalmente para ela. A proximidade era perigosa. O espaço entre os bancos parecia ter encolhido.

​— Como o desejo — ele disse, a palavra saindo lenta e pesada. — Como a atração entre duas pessoas que, pela lógica, nem deveriam estar no mesmo carro. A lei diz que você é uma adulta agora, mas seus olhos ainda têm o brilho de quem quer incendiar o mundo. E eu? Eu sou o homem que já viu o mundo queimar.

​Eloah sentiu o ar faltar. A intensidade daquela conversa não era o que ela esperava de uma carona de cinco minutos. Ele não a tratava como uma "menina", mas falava com uma honestidade brutal que a despia de todas as suas defesas.

​— E você gosta do fogo, Arthur? — ela sussurrou, desafiando-o.

​Arthur manteve o olhar fixo no dela por um segundo que pareceu uma eternidade. O sinal abriu. Ele voltou a olhar para a estrada, as mãos apertando o volante com um pouco mais de força.

​— Gosto — ele respondeu, finalmente. — Mas o fogo também destrói quem não sabe brincar com ele.

​O restante do trajeto foi feito em um silêncio carregado. Quando o carro parou na garagem do prédio, Arthur não saiu para abrir a porta para ela. Ele apenas destravou as portas.

​— Chegamos, Dra. Cavalcante.

​— Obrigada pela carona, vizinho — ela disse, saindo do carro com o coração na boca.

​Eloah caminhou até o elevador sem olhar para trás, mas sentia os olhos de Arthur queimando em suas costas. Nada havia acontecido fisicamente, nenhum toque, nenhum beijo. Mas, dentro daquele carro, as regras que ela acabara de se inscrever para estudar haviam sido as primeiras a ser quebradas.