O Décimo andar

5 O Doce Sabor do Proibido



​Marta estava radiante. Na cozinha, o cheiro de chocolate e manteiga era convidativo.

​— Eloah, querida, leve este bolo de brigadeiro para o Arthur — pediu a mãe, cobrindo o prato com um papel filme caprichado. — Ele foi tão gentil com a carona e com as boas-vindas. É o mínimo que podemos fazer para manter a boa vizinhança.

​Eloah encarou o bolo como se fosse uma granada. Ela não queria subir. Ou melhor, ela queria demais, e era exatamente isso que a assustava.

​— Mãe, manda o porteiro entregar...

​— De jeito nenhum! Deixe de ser boba, é só subir um lance de escadas. Vá logo antes que esfrie.

​Sem saída, Eloah pegou o prato. Cada degrau em direção ao décimo andar parecia pesar uma tonelada. Ao chegar na porta da cobertura, ela hesitou por longos segundos antes de tocar a campainha.

​Arthur abriu a porta em poucos segundos. Ele estava descalço, com uma calça de moletom cinza e uma camiseta branca que parecia fina demais. Ao vê-la, ele não sorriu; apenas encostou o ombro no batente da porta, observando-a.

​— Minha mãe... ela fez um bolo. Pra você — Eloah balbuciou, estendendo o prato.

​— Brigadeiro? — Arthur arqueou a sobrancelha, pegando o bolo e, deliberadamente, tocando os dedos dela no processo. — Entre, Eloah. Eu não mordo. A menos que você queira.

​O comentário a fez entrar quase por impulso. A cobertura era moderna, com luzes baixas e uma decoração minimalista que gritava masculinidade. Ele colocou o bolo na bancada da cozinha americana e se virou para ela.

​— Você parece nervosa — ele constatou, caminhando lentamente em sua direção.

​— Eu não deveria estar aqui — ela confessou, a voz falhando enquanto recuava até suas costas baterem na parede de vidro que dava para a varanda. — Meus pais acham que você é um cavaleiro, Arthur. Mas eu sei que você não é.

​Arthur parou a centímetros dela. Ele apoiou as mãos no vidro, uma de cada lado da cabeça de Eloah, cercando-a completamente. O calor que emanava dele era quase palpável.

​— Seus pais estão certos sobre uma coisa: eu sou um homem de palavra. E eu disse que a vista aqui de cima era perigosa — ele sussurrou, o hálito quente atingindo o pescoço dela. — O problema é que você continua subindo as escadas, Eloah. Você quer cair?

​Eloah olhou para os lábios dele, a respiração ofegante. A rebeldia que ela sempre usou como armadura derreteu sob o olhar prateado de Arthur.

​— E se eu quiser? — ela desafiou, num sussurro audaz.

​Arthur não esperou mais. Ele selou a distância entre eles em um beijo faminto e profundo. Foi uma colisão de mundos: a urgência dos dezoito anos dela contra a experiência controlada dos quarenta dele. As mãos de Eloah subiram para a nuca dele, os dedos se perdendo no cabelo levemente grisalho, enquanto Arthur a trazia para mais perto, como se quisesse fundi-la ao seu corpo.

​O beijo tinha gosto de pecado e de algo que ambos sabiam que mudaria tudo. Por um momento, a diferença de idade, os pais no andar de baixo e as regras de Direito não existiam. Havia apenas o som da chuva que começava a cair lá fora e a eletricidade entre eles.

​Mas, tão rápido quanto o fogo começou, o pânico atingiu Eloah. O peso do que ela estava fazendo — com o vizinho, com o amigo do seu pai, com um homem que a intimidava tanto quanto a fascinava — a atingiu em cheio.

​Ela rompeu o beijo bruscamente, ofegante, os lábios inchados e os olhos arregalados.

​— Eu... eu não posso — ela disse, a voz trêmula.

​Antes que Arthur pudesse dizer uma palavra ou tentar alcançá-la, Eloah girou nos calcanhares e correu em direção à porta. Ela atravessou o corredor e desceu as escadas de serviço como se estivesse fugindo de um incêndio.

​Arthur ficou parado no centro da sala escura, o silêncio da cobertura retornando, mas agora carregado com o cheiro dela. Ele passou a mão pelos lábios, um sorriso sombrio e predatório surgindo em seu rosto. Ele sabia que, depois daquele beijo, o nono andar nunca mais seria longe o suficiente.