O Curioso Relacionamento Entre A Fada e o Dragão

9 Decisões Perigosas, Porém Tomadas Por Amor - Parte II


Notas iniciais
Boa leitura!

O príncipe herdeiro Crolse passou a noite acordado — o que não era nenhuma novidade — tentando contatar os dragões. Não podia nem sequer avisar sua família sobre a morte da rainha, pois não levaram uma esfera de ametista, ferramenta usada para a comunicação a distância.

Crolse trabalhou a noite toda, mas isso não fora suficiente para distrair sua mente de sua perda. Seus olhos estavam inchados de tanto chorar. O jovem príncipe olhou-se no espelho após lavar o rosto no banheiro e ficou desgostoso com o que viu. Nada principesco... Pensou, e retornou ao escritório fungando.

— Vossa alteza. – Um servo bateu na porta entreaberta. – Usamos o artefato mágico que nos entregou e conseguimos contatar os dragões. Solicitamos a presença deles e aceitaram sem questionar.

Ok, isso é estranho. Pensou Crolse. Os dragões raramente aceitavam contato com outras criaturas, quem diria convites, ainda mais tão rápido.

— Certo, obrigado. Eles disseram algo mais? – Perguntou Crolse, mexendo distraidamente nas folhas sobre a mesa. O criado pensou por um instante.

— Ah, sim, senhor! Eles também disseram que estariam aqui nessa noite mesmo. E que esse encontro deveria ser sigiloso.

Bem, essa parte eu tenho que concordar... Pensou o príncipe, sentindo-se culpado. Papai nunca faria negócios com os dragões, ele não pode saber de forma alguma!

— Eles disseram o porquê de virem tão rápido? – Crolse franziu o cenho, achando aquilo muito suspeito. O servo sacudiu a cabeça negativamente e Crolse o dispensou. Sentou-se em sua poltrona confortável e o peso do cansaço caiu sobre seus ombros. Fechou os olhos e pensou na pequena Anllye, que deixara aos cuidados de Horiluc. Estava quase caindo no sono, quando ouviu alguém bater na porta do mesmo jeito que a noite anterior. Oh, não...

— Entre! – Crolse levantou, ajeitando suas roupas e dando a volta pela mesa. Doutor Horiluc entrou com uma expressão desolada no rosto. Oh, por favor, isso não...

— Sinto muito, vossa alteza! O coração da princesa Anllye parou.

***

O bebê no berço dourado parecia uma boneca, mas Crolse se recusava olhar para aquela cena. Virou para o médico ao seu lado. Queria chorar, mas já não tinha mais lágrimas e sua cabeça doía.

— O senhor fez tudo o que estava ao seu alcance? – Perguntou o príncipe, sem emoção na voz. Sentia-se completamente quebrado. Horiluc balançou a cabeça, afirmando.

— Sim, alteza. Ela está em seus últimos suspiros, mas aparentemente seu coraçãozinho parou. – O médico ajeitou os óculos no rosto. O príncipe franziu o cenho, talvez ainda houvesse esperança.

— Se os dragões chegassem nesse instante, ela poderia ser salva?

— O processo seria mais delicado, mas sim. Porém não é o caso...

— Certo, deixe-me agir então. – Disse Crolse, arregaçando as mangas de seu traje real. Horiluc o olhou surpreso.

— O que sua alteza fará? Não acho que exista alguma técnica médica ou magia de cura que eu não conheça, ou já não tenha tentado...

— Não é uma técnica médica ou magia de cura, doutor. É a minha especialidade. – O príncipe herdeiro estendeu as mãos sobre a pequena fadinha e um clarão poderoso a iluminou. Ela parecia congelada.

— I-isso é um selo? – Doutor Horiluc tirou os óculos, desacreditado.

— Eu selei o tempo dela, será como se não tivesse passado nem um segundo sequer até que o selo se quebre. – Crolse esfregou os olhos com o indicador e o polegar. – É uma magia muito exaustiva, mas acho que aguento até à noite.

— À noite? Não me diga que um dragão aceitou vir até aqui para a assimilação.

— Bem, um dragão aceitou vir até aqui, sim. Mas se foi para a assimilação, só descobriremos à noite.

***

O príncipe herdeiro levava a pequena Anllye dentro de um cestinho, enrolada em mantas como se fosse um pacote.

— Por que será que eles escolheram a Floresta das Fadas? Há tantos lugares mais apropriados no reino...

— Eles pediram sigilo absoluto, doutor. E temo que pedirei o mesmo ao senhor, ninguém pode saber sobre isso, principalmente meu pai.

— Eu não posso mentir para a coroa, alteza. – O médico ajeitou os óculos sobre o nariz. Seguia o príncipe as cegas, estava tão escuro que não podiam ver um palmo à frente.

— Eu também sou a coroa, doutor. Esqueceu? Eu sou o príncipe herdeiro, e sem meu pai aqui, eu sou o regente. – Explicou Crolse, calmamente. – Não estou pedindo para mentir, apenas não fale sobre isso se não for perguntado. O senhor mesmo tem mantido a discrição sobre o assunto, não é?

O médico não respondeu. Os dois homens seguiram a passos rápidos até o meio da floresta, onde um par de dragões os esperavam.

Uau. Pensou Crolse.

Estavam diante deles, simplesmente, o rei e a rainha do Reino dos Dragões, Seaniyek e Zhigmahand Khaliaf, e eles eram uma das coisas mais magníficas que o príncipe herdeiro já vira. Seaniyek era amarela e azul turquesa, com olhos amarelos brilhantes e uma cauda longa e enorme se enrolava entre as suas patas. Já Zhigmahand, era negro como o breu, parecia se camuflar na noite, exceto por seus olhos vermelhos ameaçadores. Eram gigantescos, mal cabiam entre as árvores.

O príncipe Crolse e o médico fizeram uma reverência e se apresentaram.

— Sabemos quem você é, garoto. – Zhigmahand falou, sua voz era como um trovão. – O primogênito daquele odioso rei das fadas, Daemint.

— Argh, até o nome dele é feio... – A rainha dos dragões parecia revirar os olhos. Crolse pigarreou.

— Bem, vamos direto ao ponto, imagino que nenhum de nós tenha tempo para jogar conversa fora. – O príncipe falou rispidamente. Os dragões rosnaram, nem um pouco felizes com a fala do jovem príncipe, porém se calaram.

— Bem, eu os convidei para o Reino das Fadas porque quero fazer um acordo. – Explicou Crolse. Era arriscado, mas precisava continuar. – Eu preciso de algo dos senhores, e estou disposto a retribuir com o que quer que me pedirem.

Os dragões se entreolharam.

— Nos dói admitir, pois isso fere nosso orgulho, porém nós... Nós também precisamos de algo de você, garoto fada. – Confessou a rainha.

— Ouvimos falar que você é mestre em magia de selamento, é verdade? – Perguntou o rei, sem muito entusiasmo. – E que também é bom em magia de camuflagem.

— Sim, precisamos disso também. – A rainha sacudiu a cabeça. – Se realmente puder fazer essas coisas, faremos um acordo com você.

Graças a Deus que eu escondi a Anllye! Pensou o príncipe. Ele pegou a cesta invisível e colocou no chão. Com um movimento das mãos, a cesta foi revelada, e o bebê passou a ser visto. Os dragões pareciam impressionados.

— Ah, eu nem consegui sentir a presença da criança! – Disse a rainha Seaniyek.

— Olha esse selo perfeitamente produzido... Nunca imaginei que as fadas inúteis pudessem fazer algo do tipo! – O rei assentiu, impressionado. Crolse fez uma careta, não estava gostando nada daquela conversa. – Você é bom em desfazer maldições também?

— Maldições? Não, majestade, isso está fora da minha área. – Explicou Crolse, um pouco confuso.

— Ah, querido, ele é uma fada, não podemos esperar demais delas...

— Sim, esqueci por um momento, a capacidade dos inferiores são bem limitadas... – Concordou o rei com sua esposa.

Preciso suportar, por Anllye! Pensou Crolse, se mordendo de raiva com as ofensas gratuitas.

— Esta é a princesa Anllye Gerurk, minha nova irmãzinha. – Crolse estendeu a mão para o cesto, tentando manter a calma. – Ela está doente e precisa fazer uma assimilação mágica para sobreviver. Dragões são os únicos doadores universais de magia. Se concordarem em realizar o processo, farei o que me pedirem.

Os dragões se entreolharam novamente, parecendo não gostar nem um pouco da ideia.

— Eu não sei, querido...

— Precisamos disso, querida. Lembre-se, é só por isso que estamos aqui passando por essa humilhação. A ideia também não agrada a mim, mas no momento, não temos outra opção.

Os dragões cochichavam na língua draconica. Mas Crolse era fluente em muitas línguas e os entendia perfeitamente.

— Certo, garoto fada. – A rainha Seaniyek falou. – Faremos a assimilação, se você concordar em esconder uma caverna aqui na floresta das fadas.

— U-uma caverna? – Crolse perguntou, surpreso.

— Sim, enviaremos a caverna para cá com magia espacial. Há um prisioneiro nela, um dragão amaldiçoado por uma nojenta bruxa humana. – Explicou Seaniyek.

— Maldita seja a bruxa Wenzy, e maldito o dia em que ela nasceu! – Recitou o rei Zhigmahand. – Como pôde amaldiçoar um dragãozinho inocente, ele nem conseguia abrir as asinhas direito ainda!

— Ah! Ah, nosso pobre filhotinho, foi transformado naquela coisa imunda! – Choramingou a rainha.

— Seu filhote? – Crolse franziu o cenho. O rei dragão pigarreou.

— Bem, não importa, só queremos saber se temos um acordo ou não.

— Sim. – Disse o príncipe herdeiro sem hesitar. – Os senhores farão a assimilação e eu selarei a caverna, é isso?

— E também fortalecerá as correntes e esconderá a caverna dos olhos alheios. – Lembrou a rainha. Crolse acenou e recitou o feitiço:

— Que ambas as partes possam cumprir o que foi acordado.

— É um juramento solene. – O casal de dragões selaram o acordo mágico.

Notas finais
Comentários são bem vindos!