O Curioso Relacionamento Entre A Fada e o Dragão

8 Decisões Perigosas, Porém Tomadas Por Amor - Parte I


Notas iniciais
Boa leitura!

Depois da declaração de Crolse, começou o falatório. Todos questionavam, gritavam e ficavam confusos ao mesmo tempo, até os criados escondidos do lado de fora especulavam sem entender.

— Chega! Calem a boca, todo mundo! — Berrou Zac, após rugir como um dragão. Todos ficaram em silêncio, espantados. O garoto dragão pigarreou, ajeitou a gola da roupa, suja do molho vermelho, e estendeu a mão para Crolse. – Explique, por favor.

— C-certo. Foi um pouco antes do nascimento da Anllye...

***

Cento e dezessete anos antes:

Todos estavam extremamente agitados e inquietos com os dois eventos mágicos que estavam prestes a acontecer: o esperado nascimento do novo bebê real, e a totalmente inesperada consagração da princesa Jaennia como uma Fada da Lua. Era um evento tão raro e completamente aleatório, ninguém poderia imaginar que a próxima aprendiz escolhida pela Rainha da Lua seria justamente a fada que, bem... Vive sempre no mundo da lua.

O príncipe herdeiro Crolse não poderia estar mais feliz. Uma irmãzinha receberia uma grande honra e outra criança estava prestes a nascer. Crolse sorria como bobo, mesmo tendo que dobrar a quantidade de trabalho, já que seu pai teria que viajar com Nini, pois era costume entre os reinos o atual monarca regente acompanhar o escolhido de sua espécie até o Castelo Lunar.

— Crolse! Irmão! – Jaennia gritou, eufórica, correndo na direção do irmão mais velho e tropeçando nos próprios pés. Seus cabelos, antes ruivos como o do pai, agora estavam brancos, indicando a benção da Rainha da Lua. Crolse ainda não tinha se acostumado com a mudança.

— O que foi, Nini? – Perguntou Crolse, segurando a irmã desastrada, para que não caísse. Ela se firmou em pé, olhou para o nada por alguns segundos e olhou para Crolse novamente.

— Eu esqueci, sinto muito!

— Tudo bem, não se preocupe. – Riu Crolse. Já estava acostumado com a eventual amnésia da irmã. – Já está pronta? É uma viagem longa até o Castelo Lunar.

— Sim, o papai já está me esperando na carruagem. Eu queria me despedir, já falei com a mamãe, só faltava você! – Disse Jaennia, abraçando o príncipe herdeiro. – Tchau, Crolse! A próxima vez que nos virmos, serei uma Fada da Lua oficial!

— Mal posso esperar! – Riu o príncipe Crolse, acariciando o topo da cabeça de Nini, como sempre fazia. A fada mais jovem sorriu como uma criança. – Estou tão feliz por você... E muito orgulhoso!

— Obrigada, irmão! Olha, eu prometo que volto antes do seu aniversário de oitocentos e nove anos, ok? Ah, estou atrasada! Vejo você em algumas semanas!

— Não esqueça seus remédios! – Gritou Crolse para a princesa que se afastava correndo, rápida e desengonçadamente. O príncipe sorriu e meneou a cabeça.

Ah, agora de volta ao trabalho... Pensou. Finalmente teria um pouco de paz, com Nini viajando e Ghye visitando o Reino dos Vampiros por um tempo. Crolse amava profundamente seus irmãos, mais que todas as coisas, entretanto, ele precisava descansar de vez em quando. E é claro que, com descansar, queria dizer que trabalharia até chegar à exaustão. Preciso deixar meu pai orgulhoso!

***

Já havia anoitecido, Crolse estava cochilando sobre a mesa de trabalho, deitado sobre uma poça de baba, quando ouviu um barulho na porta. Alguém estava batendo desesperadamente e gritando por ele. O jovem príncipe levantou num pulo e correu até a porta para abri-la.

— Alteza! A rainha Misallea entrou em trabalho de parto e solicita sua presença urgentemente! – Crolse arregalou os olhos e correu para os aposentos da rainha, sem questionar.

— Mamãe? Mãe! – A rainha das fadas não parecia bem. Seus olhos azuis mal podiam se manter abertos, seu rosto estava totalmente pálido, estava fraca e suava tanto que parecia estar prestes a derreter. Algo estava muito errado. – O que houve? Por que ela está assim?

— É a magia dela! Não é compatível com a do bebê! – Disse o médico real, doutor Horiluc, usando sua poderosa magia de cura na rainha. – Entraram em conflito, é como se ambas estivessem lutando entre si até a morte!

Crolse entrou em estado de choque.

— Doutor, o senhor pode fazer algo, certo? Por favor, diga-me que pode fazer alguma coisa! – Berrou o príncipe herdeiro, ajoelhando-se ao lado da cama da mãe. O médico ficou em silêncio, sem olhar nos olhos do príncipe.

— F-filho... — Chamou a rainha Misallea, num sussurro. Crolse se aproximou e acariciou os cabelos dourados de sua bela mãe, sussurrando "estou aqui" continuamente. – Meu amado primogênito... Eu preciso que m-me prometa...

— Mamãe, não fale, a senhora...

— Shhh. Escute, meu amor. Essa pequena criança é preciosa... Eu vi. Ela é diferente...

— Vossa majestade está delirando por causa da febre! – O médico disse, aplicando mais poder de cura. A rainha o ignorou.

— Crolse, meu amor, você não pode deixá-la morrer! Ela não pode morrer aqui, ela é importante! Prometa-me que... Ah... – Misallea desmaiou. O médico deu ordens para seus assistentes e pediu coisas para os criados, mas Crolse não conseguia prestar atenção. Sentia vertigens, seu corpo parecia fraco. Estava totalmente impotente diante daquela situação.

Mamãe... Não, por favor... Por favor... Pediu em pensamento, os olhos não paravam de derramar lágrimas. A rainha abriu levemente os olhos e com um último esforço, tocou o rosto do filho mais velho e murmurou: – Eu te amo muito...

Foram as últimas palavras da rainha Misallea.

Crolse chorou, segurando a mão da rainha ainda em seu rosto, torcendo para aquilo tudo não passar de um pesadelo. Crolse... O jovem príncipe não conseguia pensar em mais nada, a não ser na dor que sentia. Príncipe Crolse...

— Vossa alteza, príncipe Crolse! – Doutor Horiluc chamou, interrompendo seus pensamentos. – Fizemos uma cesariana. É uma princesinha, vossa alteza, mas sua saúde está muito frágil. Sentimos muito por sua perda.

Crolse olhou triste para o corpo sem vida de sua mãe sobre a cama, tirou a mão que estava em seu rosto e colocou delicadamente sobre o lençol. O príncipe herdeiro se levantou, tentando manter a postura.

— Obrigado a todos por seu trabalho duro. Por favor, continuem cuidando da minha irmãzinha. – Disse o príncipe, se esforçando para firmar a voz.

— Claro, vossa alteza. C-como se chamará a princesa?

— Anllye. Princesa Anllye Gerurk. É o nome que minha mãe escolheu. – Respondeu Crolse, olhando a pequena princesa recém nascida. O coração de Crolse se aqueceu ao ver aquela coisinha tão pequena, inocente e delicada, os olhos brilhavam, verdes como os seus. Mas então ele notou que também tinha algo errado. – O que há com ela? Por que não chora? Ela quase não se mexe!

— E-ela... Podemos conversar ali fora, alteza? – O médico pediu, olhando para todos ao redor. O exausto príncipe acenou, o coração apertado com todos os acontecimentos. Do lado de fora, o médico idoso e bigodudo sussurrou:

— Temo que a princesa esteja passando por um processo de assimilação mágica, alteza, quando há inserção de magia diferente em um corpo. Sua mãe, a rainha, inconscientemente inseriu sua própria magia na princesa Anllye, como mecanismo de defesa. É um processo muito perigoso para um adulto, quanto mais para uma criança recém nascida... – Horiluc enxugou o suor da testa com um lenço branco.

— Quer dizer que ela pode morrer? – Crolse questionou, incrédulo.

— Sinto muito, príncipe Crolse, mas é uma certeza que a pequena não vai suportar. A rainha Misallea não era uma fada comum, sua magia era forte demais, nunca vi igual nos meus quarenta e seis mil anos de vida. Creio que nem se fosse uma adulta poderia sobreviver...

Outro baque. Crolse estava ofegante, parecia prestes a desmaiar. Apoiou-se na parede, o médico o ajudava e pedia desculpas.

— Doutor... N-não há nada que possamos fazer? – Perguntou Crolse, não conseguindo conter as lágrimas novamente. O médico franziu o cenho, numa expressão triste, mas então se lembrou.

— Uma nova assimilação! – Disse Horiluc, batendo o punho na outra mão. O rosto de Crolse se iluminou de esperança.

— Isso pode salva-la?

— Tenho certeza que sim! Só tem um porém...

— Que seria? – Pergunta o príncipe, impaciente.

— É necessário um doador universal, cuja magia seja compatível com todas as espécies de criaturas.

— O quê? Existe algo assim? Quem poderia... Oh. – Príncipe Crolse lembrou-se das lições escolares do primário sobre criaturas mágicas e sorriu amargamente. – Que ironia, logo quem não se mistura com nenhuma outra criatura...

— Sim. – Concluiu o médico, arrumando os óculos que escorregavam pelo nariz pontudo. – Precisamos de um dragão.

Notas finais
Comentários são bem vindos!