O Crime da Rainha
14 É verdade
Sindel ficou em seu escritório até o entardecer. Não comeu nada desde a visita de Nightwolf. A notícia que ele havia dado mexeu muito com sua cabeça e se sentia acuada com a culpa. Além da culpa também o desespero a cercava, pois não conseguia encontrar uma saída para aquela situação. Como contaria para Kitana? E se isso gerasse uma guerra entre Nova Edenia e o Plano Terreno? Tudo isso seria por sua culpa. Começou a vir a ideia de que o que Nightwolf dissera era uma mentira, apenas para assustá-la. Mas a rainha sabia que ele não é assim de brincar com essas coisas.
Mesmo assim ela precisava ter a certeza de que realmente estava grávida. Então fez algo que não imaginaria em fazer. Mandou que chamasse Ermac, pois era o único que poderia sondar essa informação. Antes que ele chegasse, Sheeva entrou em seu escritório e viu a rainha frente a uma janela olhando para o sol que se escondia entre as montanhas dando lugar a noite.
— Majestade – chamou Sheeva.
— Ermac já está aí? – perguntou a rainha sem olhar para a shokan.
— Está chegando.
As duas ficaram alguns instantes em silêncio. Sheeva estava preocupada, pois desde que o índio havia se retirado a rainha pediu para ficar só. Ousou a se aproximar mais e perguntou:
— Está tudo bem?
— O que acha?
Sheeva se assustou com o tom áspero de Sua Majestade. Mesmo assim insistiu:
— O que aquele índio te fez?
Não demorou muito para que Ermac chegasse. As almas esverdeadas pulsavam de suas interiores enlouquecidas para saírem daquele corpo e sua mortalha deixava o clima do escritório um pouco mais lúgubre do que já estava.
— Aqui estou Majestade – disse o homem cheio de almas em seu interior.
Sindel se virou para frente e pediu que Sheeva fechasse a porta e assim ela obedeceu ficando do lado de dentro do escritório. A rainha se levantou e ficou frente a Ermac. Olhou firmemente nos luzeiros esverdeados dele e disse:
— Preciso de uma confirmação do que o índio me disse esta manhã. Uma confirmação rápida e precisa.
— Se estiver ao meu alcance assim farei – ele respondeu prontamente.
— Ótimo! Responda-me se estou grávida.
Sheeva ficou aturdida com as palavras que vinha dos lábios de Sindel, mas ficou calada para ouvir a resposta.
Kitana e Jade retornaram para o palácio depois de uma longa caminhada pelas vilas próximas dali. Ao passar pela porta do escritório viram dois guardas um de cada lado da porta em posição de sentido. Logo deduziu que sua mãe poderia estar ali dentro. Kitana não hesitou em ir até a porta para falar com sua mãe, mas um dos guardas a parou dizendo:
— Desculpe-me Alteza, mas não pode entrar.
— E por que não?
— Sua Majestade pediu que não entrasse ninguém, até mesmo a princesa.
A princesa ficou sisuda e a guardiã de longe deduziu em pensamento o que poderia ser, mas nada comentou. Foi até Kitana e disse:
— Vamos para o seu quarto. Andamos o dia inteiro. É melhor descansar por agora.
— Tem razão – respondeu Kitana se dando por vencida, pois era verdade que estava bem cansada – Vamos.
Em seguida as duas subiram as escadas. Jade acompanhou a princesa até o seu grande quarto. Entraram e vendo que seu banho já estava pronto Kitana começou a se despir. Jade por sua vez ia saindo do quarto quando a princesa pediu:
— Fique. Vamos conversar.
O que Jade mais queria era ir para seu quarto, mas obedeceu a princesa ficando com seus braços apoiados no batente de uma janela próxima olhando a lua que surgia pomposa no horizonte.
Já nua Kitana entrou na banheira, mergulhando seu corpo na água quente. Fechou os olhos e ficou assim por alguns instantes. Mas aquele silêncio começou a incomodá-la e disse a amiga:
— Não vai dizer nada? Você sempre tem um assunto.
Jade não quis olhar para a princesa e disse de onde estava:
— Não acordei muito bem hoje.
— Notei. Não falava quase nada o dia todo comigo. Mas acho que posso deduzir o motivo.
A guardiã engoliu seco, voltou o seu olhar para a princesa e perguntou que motivo era esse.
— Bem, o meu casamento está se aproximando e sei bem que você não gosta do Liu Kang.
— Ora princesa – respondeu Jade voltando o seu olhar para a lua, mas com dor no coração em ter que dizer isso – eu não mando no seu coração.
— Mas me diga o motivo de você não gostar dele. Sempre o vi te tratar bem...
Se naquele momento fosse possível, Jade daria um nó em sua própria língua para não dizer o que estava entalado em sua garganta sobre o que vira.
De repente ouviu-se batidas na porta. Jade saiu da janela, olhou para Kitana buscando sua aprovação. Ela consentiu e Jade abriu. Era Sheeva.
— É com você mesmo que Sindel quer falar.
— Quem é, Jade? – perguntou a princesa da banheira.
— Sua Majestade me quer em sua sala – respondeu Jade voltando-se para a princesa – tenho que ir lá.
— Não se preocupe, Alteza – disse Sheeva – ficarei aqui na porta vigiando.
— Como quiser – falou a princesa em tom de lamento voltando a se concentrar em seu banho.
Jade fechou a porta e foi em direção a escada sem olhar para Sheeva. Ao descer viu a porta do escritório aberta, mas diminuiu o passo analisando bem o lugar, pois sentia que o ambiente estava com ar pesado, o que a deixava angustiada.
Entrou no escritório e viu a rainha de braços cruzados encostada na mesa de madeira. Olhou para a guardiã e ordenou:
— Feche a porta!
Jade a fechou. Aproximou-se da rainha e disse olhando para o chão:
— Fale Majestade!
A rainha pigarreou, se desencostou da mesa e disse olhando para um dos quadros:
— Você está sabendo demais e isso me preocupa.
Jade ficou calada diante da afirmação da rainha. Preocupava lhe, pois podia falar para a princesa e mostrar quem a rainha e o seu namorado são verdadeiramente? Ou espalhar para o reino como a vida no palácio era promíscua? O que a rainha fará com ela?
— Decidi o que fazer com você – continuou a rainha – isso garantira a segurança.
— A segurança de que? – perguntou Jade de ímpeto olhando em direção onde a rainha estava.
Sindel voltou seu olhar para Jade e disse:
— De que Kitana só saiba no tempo certo.
Jade voltou a baixar a cabeça e se calou. Sindel voltou seu olhar para os quadros e falou:
— Você ficará um tempo no Sky Temple. Irá para lá amanhã de manhã, mas já pode arrumar suas coisas.
—E Kitana? Quem será sua guardiã?
— Não se preocupe, pois já resolvi essa questão. Por enquanto é isso, pode sair.
Jade soltou um suspiro e saiu da sala. Fechou a porta atrás de si e foi direto para seu quarto com uma revolta entalada na garganta.
(...)
Era onze da noite.
O palácio estava já no mais profundo silêncio. Sindel descia as escadas, coberta com a capa que usara na noite anterior e um sapato com uma sola que não deixava fazer barulho no chão de madeira. Sheeva logo foi ao seu encalço e a encontrou já na saída do palácio.
— Aonde vai, Majestade? – perguntou Sheeva preocupada.
— Preciso ir até Liu Kang.
— Mas agora? É perigoso! Sabe da revolução dos tarkatâneos...
— Não vou demorar – atalhou Sindel – preciso ir agora para não despertar a desconfiança de Kitana. Agora me deixe ir!
Sindel deixou a shokan e saiu do palácio mergulhando na escuridão da noite, sozinha.
(...)
Todos dormiam na academia Wu Shi. Sindel caminhava na ala aberta de treinos procurando alguma placa ou coisa parecida indicando onde era o dormitório. Foi quando ela viu um monge de idade avançada andando sozinho por ali e sem hesitar ela foi até ele.
— Monge – disse Sindel em voz baixa – estou a procura de Liu Kang.
O ancião reconheceu a voz da rainha, voltou-se para ela e perguntou:
— Como tem coragem de vir aqui?
Sindel deu um passo para trás e estava atônita pela forma como ele fez a pergunta. Ele continuou:
— Você não tem noção do que está causando em seu reino, Majestade, está traindo sua filha e seu povo.
— Já chega, monge Chang! – disse Liu Kang vindo atrás dele.
Sindel sentiu seu coração acelerar o ver o shaolin que sorriu beijando-lhe as mãos em seguida. O monge apenas respirou fundo, balançou a cabeça e disse:
— Estão cavando a própria ruína.
Em seguida se retirou.
Liu Kang segurou as mãos da rainha e perguntou:
— O que veio fazer aqui a essa hora? E sozinha?
A rainha umedeceu os lábios, ficou com os olhos fechados por alguns instantes, apertou a mão do shaolin com força e respondeu:
—Vim lhe trazer uma noticia urgente.
— Então diga.
Ela engoliu seco, olhou profundo nos olhos de Liu e disse:
— Estou grávida.
Fale com o autor