O Crime da Rainha
15 Continue em segredo
Começou uma chuva a cair em grandes gotas no toldo que cobria o salão de treino, e um cheiro acre e intenso de barro molhado e fresco subiu da terra. A água que escorria para o salão formava largas possas no chão e o vento que vinha com a tempestade fazia o lugar ficar mais frio que o normal.
O quimono azul que Liu Kang usava começava a se molhar devido às gotículas teimosas de chuva trazidas pelo vento, mas ele estava sentindo como fosse lhe aplicado uma anestesia no mesmo instante em que ouviu as palavras da rainha e o frio não o afetava. Ela por sua vez tentava tirar as mechas prateadas de seu rosto, mas sempre se frustrava. Por fim colocou os para trás num rabo de cavalo baixo.
Sindel aproximou-se mais do shaolin e perguntou:
— Você ouviu o que falei?
Liu Kang piscou os olhos e ficou olhando para a chuva por alguns instantes, passou a mão pelo seu cabelo negros e lisos, respirou fundo e disse:
— Não faz o menor sentido você vir me dizer isso.
— Como não? E o que aconteceu ontem? Esqueceu?
A verdade é que Liu estava confuso com toda aquela situação ali exposta. Não imaginava que as edenianas descobriam tão rápido que estavam grávidas. Afastou-se da rainha por alguns instantes para reorganizar as ideias e voltou até ela perguntando em tom de sarcasmo:
— Qual é o método que você usou para descobrir que está grávida? Lá vocês tem teste de farmácia assim como tem no Plano Terreno?
Sindel percebeu que Liu Kang não estava levando a sério a notícia que veio trazer, mas mesmo assim contou como descobriu a gravidez acobertando a visita de Nightwolf naquela manhã:
— Ermac me confirmou isso.
— Mas por que ele te disse isso? Você perguntou...
— Já chega! – atalhou Sindel com ira na voz – eu não viria aqui sozinha, arriscar a minha vida para lhe dar essa notícia! E ainda tenho que aguentar suas dúvidas e anedotas?
Liu olhou assustado para Sindel e via um desespero em seus olhos, como se estivesse diante de uma adolescente assustada e com medo de ser descoberta. Ele também não sabia o que fazer diante daquela situação, então resolveu segurar as mãos da rainha e acalmá-la. Esta já chorava de cabeça baixa e com a desolação pairando em sua cabeça.
Abraçando-a, o shaolin disse:
— Vou pensar em algo para sairmos dessa.
De ímpeto a rainha se afastou, olhou firme nos olhos de Kang e perguntou:
— Como assim? Pensei que você iria...
— Te assumir? Seria um choque para todos em Nova Edenia! Kitana não aceitaria...
— Mas é óbvio que ela não irá aceitar! – interrompeu Sindel tentando manter o capuz em sua cabeça – pensei que terminaria com ela, que passasse pelo menos um mês e iriamos tornar nosso relacionamento oficial. Como estou no começo da gravidez é mais fácil de evitar suspeitas.
Liu baixou a cabeça, incrédulo com a ideia da rainha. Será que os edeniano são tão ingênuos? Sem nenhuma malícia? Em seguida segurou-a pelos ombros e disse:
— Esse plano que você tem em mente não convencerá ninguém, principalmente o pessoal daqui do Plano Terreno. Deixe que eu dê um jeito nisso.
Sindel engoliu seco e percebeu que tinha colocado Nova Edenia frente a uma roleta russa ao se apaixonar por um ser do Plano Terreno. Mordeu os lábios, deu um sorriso franco e disse:
— Isso quer dizer que você não quer me assumir...
— Claro que não, Sindel! Eu estou pensando em nossa segurança.
— Segurança... Já tem gente o suficiente sabendo do que está acontecendo entre nós.
— Quem? – perguntou Liu atônito – Quem está sabendo?
— Isso não interessa agora – respondeu Sindel com firmeza – enquanto você resolve essa questão eu não quero que você se aproxime de minha filha.
— Como assim?
— É isso ou eu torno público tudo o que aconteceu entre nós.
Em seguida ela deu meia volta e começou a tomar o rumo para o portal que levava para Nova Edenia. Liu Kang ia chama-la mais uma vez, mas sabia que ela estava irredutível. O que lhe preocupava é que mais pessoas teriam que saber o que estava acontecendo, pois precisava de ajuda para ocultar o que havia acontecido entre ele e a rainha. Naquele momento ele acordou do torpor em que se encontrava e pode ver os riscos que estava correndo ao trair Kitana com a própria sogra.
(...)
Jade já havia arrumado suas poucas roupas em uma mochila feita de pano. Em seguida se deitou e ficou a contemplar o teto por alguns minutos. Começou a lembrar de tudo o que passou naquele lugar com Kitana, tanto sua infância como o tempo do torneio. Junto com as lembranças vinha o perfume das flores que vinha do bosque que dava para sua janela. Foi então, que lhe veio a ideia de ir até a janela para espiar um pouco a lua e as estrelas que brilhavam ali, naquele céu negro como seus cabelos. Pensou em voltar ao quarto de Kitana assim que veio do escritório da rainha, mas não tinha certeza se seguraria a comoção e a revolta que estavam presos em sua garganta.
De repente, ouviu-se alguns passos pelo mato e a mulata começou a procurar de quem pertencia aquele barulho. Ela avistou alguém vestido com uma capa preta, mas logo reconheceu os passos da rainha Sindel. Saiu da janela e voltou para sua cama tentando imaginar de onde a rainha vinha, pois era muito tarde. Começou a mudar o foco de seus pensamentos em coisas que lhe traziam paz como as lembranças de sua família e quando sua mãe lhe contava histórias para dormir. E no embalo da recordação da voz de sua mãe acabou adormecendo.
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