O Crime da Rainha
19 Desconfiança
Liu Kang ouviu a voz de Kitana ao fundo e ficou apreensivo no que podia acontecer, pois aquele deslize poderia colocar todo o plano que havia feito para o ralo. Esperou alguma resposta da rainha, mas a ligação foi encerrada.
Era melhor assim.
O shaolin estava no mesmo lugar em que encontrara Sindel na noite anterior. O céu não estava nublado e se podia ver a lua em forma de sorriso. Será que aquilo era um bom sinal? Daria certo aquela empreitada que estava prestes a iniciar? Não sabia que horas poderia ligar para Sindel sem interrupções, pois precisava ver com ela os detalhes de como seria sua saída do palácio, e como a levaria dali sem despertar desconfiança.
Levantou-se do lugar em que estava sentado e foi caminhando a passos lentos para o seu quarto. Apesar de seu coração estar agitado, Liu precisava fingir que nada estava acontecendo.
Ao chegar ao quarto encontrou Kung Lao secando os cabelos com uma toalha. Liu aproveitou a distração do amigo e guardou o celular debaixo do colchão.
— Onde estava, Liu?
O shaolin se assustou com a pergunta e disse de ímpeto:
— Pensei que não tinha me visto entrar.
— Você não é invisível. E então onde estava?
— No salão maior de treino. Por quê?
Lao jogou a toalha na cama, respirou fundo e voltando o seu olhar para Kang e disse:
— Por nada, irmão. Só estou preocupado com você.
— Preocupado? — Perguntou Liu tentando disfarçar o nervosismo — Está tudo bem comigo.
— Não — falou Lao se levantando e meneando a cabeça — não está. Você ultimamente anda meio isolado, como se estivesse escondendo algo.
Kang engoliu seco e permaneceu com os olhos fitos em seu amigo.
— Não estou escondendo nada de você. É impressão sua...
— Qual é, Liu Kang? Não tente me enganar. Sei que faz tempo que anda estranho com a Kitana, sai em pleno horário de treino sem deixar aviso, fica tão recluso em algum lugar a noite que ninguém consegue te encontrar, tem desobedecido ao monge Chang tratando-o com malcriações...
— Quer dizer que o monge veio reclamar com você sobre mim?
— Eu estava conversando com ele sobre coisas aleatórias até que chegamos a você e ele me contou sobre sua mudança comportamental.
O nervosismo tomou conta de Liu, por perceber o risco que corria de Kung Lao saber sobre o seu segredo. Cruzou os braços e perguntou:
— O que ele falou sobre mim?
— Bem, foi algo muito superficial, mas por quê? Você o agrediu? O ameaçou de morte?
— Claro que não! Acha mesmo que sou capaz disso? — perguntou Liu alterando a voz
Lao tranquilamente pegou uma camiseta qualquer em seu guarda-roupa e respondeu:
— Do jeito que você anda estranho não duvido de nada.
Em seguida se retirou deixando Kang sozinho com seus pensamentos. O que ele precisava naquele momento era saber exatamente o que monge Chang falou para Kung Lao.
(...)
Kitana aproximou-se da mãe que tratou logo de guardar o telefone entre os seios, passou por ela dando uma olhada na paisagem noturna que Nova Edenia lhe oferecia e perguntou:
— Com quem falava?
Sindel não sabia que desculpa inventar, pois em Nova Edenia ninguém tinha aparelho celular e ela era a única pessoa no reino que tinha. Então surgiu a desculpa de dizer que falava com a primeira pessoa que vinha em mente: Sonya Blade.
— Nós já conversamos faz um tempinho e... ela estava me dizendo sobre a progressão que ganhou nas... Forças Especiais.
A princesa mordeu o lábio inferior anuindo com a cabeça. Deu mais uma olhada para o céu e disse:
— Não entendo porque parou de falar com ela quando cheguei.
— Ah — disse a rainha tirando o celular dentre os seios — ele caiu devido o susto que eu levei quando você chegou. Vou até conferir se quebrou.
Sindel pressionou o botão do lado direito do aparelho e deu um sorriso quando ele ligou.
— Ufa! Que bom que está funcionando. — falou a rainha limpando a tela do aparelho. — E por que demorou tanto?
— Falei que eu poderia demorar na casa de Li Mei.
— Mas não pensei que fosse tanto. Aliás, o seu novo guardião já está no palácio.
— Guardião? Como assim, mamãe? Pensei que seria uma mulher...
— Não se preocupe, meu bem – falou Sindel passando as mãos no rosto da filha – ele é um bom rapaz e leal a causa que luta. Creio que você vai gostar dele.
Kitana bufou e disse:
— Eu queria a Jade conosco.
— Sabe que agora não é possível, mas logo ela retornará. Acalme-se. Agora você precisa dormir.
A princesa foi para seus aposentos, mas ainda não estava satisfeita com a resposta que a mãe dela dera ao dizer com quem estava falando. Sabia bem que Sindel mal conhecia Sonya, e tinha certeza que naquela hora a major já estava dormindo. Deu uma olhadela para trás e viu a mãe mexendo no celular. Ela vai tentar falar com essa pessoa de novo.
(...)
Apesar de o dia ter sido tranquilo no Sky Temple, Jade gostaria de estar em sua terra. Ela não tinha o que reclamar da estadia e de como era tratada, mas a saudade do palácio, de Kitana, dos amigos de Nova Edenia a deixava com o coração apertado não deixando ela tão à vontade naquele lugar.
O céu estava estrelado na região do Sky Temple e a paisagem era bem convidativa para dar um passeio. Como não haviam deixado claro se poderia sair ou não do ST, resolveu dar uma volta pelos arredores. Desceu a escadaria bem devagar apreciando a brisa noturna que soprava pelo seu rosto. O aroma de dama-da-noite tomava conta do lugar onde Jade passava e ela continuava caminhando.
Após vinte minutos de caminhada, Jade estava já no território da academia Wu Shi. Apenas algumas luzes dos postes espalhados pelo pátio aberto estavam acesas. Era o suficiente para ver a arquitetura do lugar, típica dos palácios imperiais chineses.
Mas um barulho lhe chamou sua atenção e ela pode ver Liu Kang discutindo com um monge. De sobressalto Jade se agachou por de trás de um arbusto, assim assistiu toda a discussão. Como estava um pouco longe não conseguia ouvir bem sobre o que discutiam, mas era nítido que Liu tentava a intimidar o ancião que só andava para trás. O que o monge não percebeu era que estava de costas para um penhasco. De repente o ancião escorregou e deu um grito sendo sustentado apenas por suas mãos fracas. Liu Kang agachou e quando estendeu o braço para ajudar ouviu-se um grito desesperado do monge que acabara de ser tragado pela escuridão.
Assustada Jade saiu do seu esconderijo e correu voltando para o Sky Temple apavorada, orando para que não fosse percebida pelo shaolin. Certeza que o monge sabia demais.
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