Quando eu tinha nove anos, trabalhava no armazém do Sr. Elmo, fazendo as entregas das compras no período da tarde. Pela manhã, estava no terceiro ano na Escola Municipal Maurício de Souza Cascão. O Sr. Elmo, muito organizado, gostava que as entregas fossem feitas exatamente como o cliente pedia. E sabendo que uma criança de nove anos poderia estragar tudo, ficava no meu pé para que tudo desse certo. Mas poxa, aos nove anos você apenas queria se divertir. Lembro-me de um certo dia, antes de sair para o armazém, passei no galinheiro para o bate-papo diário com as minhas amigas. Eu me sentava debaixo da telha que meu pai tinha feito para que elas pudessem botar os ovos e se protegerem do sol e da chuva. Dali saíam diversos assuntos, muitos deles condizentes com a minha cabeça infantil de nove anos. Coisas sobre cometas, fantasmas, extraterrestres, saci e outras coisas malucas.

Antônio era cinco anos mais velho que eu e sempre caçoava dessa minha mania de conversar com as penosas. Dizia que eu era doido e que tinha medo de pegar essa “doença” de falar com galinha. Mas sempre dava risada no final. Acabei acostumando com as brincadeiras dele. Um dia, ele chegou próximo ao galinheiro onde eu estava. Sabendo que seria vítima de alguma brincadeira, resolvi dar o troco. Parei, olhei para a galinha, cheguei meu ouvido direito mais perto dela, fingi que ela me falou algo. Fiz isso algumas vezes e depois virei meu rosto e fiquei olhando para ele, quando Antônio perguntou:

— O que ela disse?

— Quem? — perguntei a Antônio.

— A galinha, ué. Você não está aí conversando com ela?

— Muito engraçado você. Sai daqui, me deixe.

— Fredinho, estou falando sério, quero saber o que ela está lhe dizendo.

Antônio mudou o semblante e parecia falar sério. Mas como eu conhecia meu irmão e sabia que dali viria uma piada, resolvi contra-atacar.

— Não posso contar, ela pediu segredo — respondi, virando de costas para ele e voltando a olhar para a galinha. Estava levando na brincadeira para evitar as piadas do meu irmão, até o momento em que percebi a cara de sério de Antônio, olhando para mim. Acredite, por um momento, mesmo que tivesse sido por segundos, Antônio realmente acreditou, afinal ele era apenas cinco anos mais velho. E com quatorze anos, Antônio também não era lá o esperto e experiente adulto.

— Por favor, somos irmãos. Me conta — disse Antônio, que realmente parecia acreditar que a galinha estava conversando comigo. Percebi a situação e aproveitei para zombar da cara dele também.

— Ela não vai gostar se eu te contar. É segredo nosso — falei sério, fazendo cara de preocupado.

— Mas somos irmãos, poxa. Irmãos não guardam segredos — implorou Antônio, com a cara triste e decepcionado.

— Ok, vou lhe contar. Mas a mãe não pode saber. Se quiser contar para o papai pode, a mãe não, está bem? — O sorriso no rosto de Antônio quase me fez dar risadas. Segurei o riso. Ele realmente, naquele momento, parecia que estava acreditando que era verdade.

— Prometo que não conto para ninguém.

— Ela me disse que… — me aproximei para falar baixo, saindo debaixo das telhas e me aproximando do ouvido dele, como se naquele pasto enorme tivesse uma alma viva para escutar e disse:

— “CóCóCó”

— SEU FILHO DUMA ÉGUA! — Antônio, furioso, levou as mãos para me dar um peteleco, mas fui mais esperto e sai correndo pelo terreiro afora. Corri tanto que não aguentei e parei. Rolamos na grama, numa luta livre de mentirinha. Cansado, entrei para dentro casa para beber água, enquanto Antônio entrou no celeiro para consertar uma cela que o pai tinha pedido mais cedo.

A mãe estava na cidade junto com o pai para vender o leite e o queijo, que sustentava nossa família. Depois de dois copos de água, sentei no banco de madeira perto da porta da cozinha e ouvi minha avó tossir, mas tossir muito, uma crise forte. Apesar de ajudar nas tarefas de casa e na produção dos alimentos, ela não gostava muito de ir até a cidade. Quando resolvia ir, passava maior parte do tempo na igreja. Quando estava em casa, aproveitava o momento sem barulho e serviço, ficava no quarto fazendo suas orações. Fiquei preocupado com a tosse e com a intenção de poder ajudá-la fui até o quarto dela. Com a porta encostada, minha avó estava de costas e agachou para pegar algo dentro de uma gaveta, que ela mantinha trancada. Aquilo nunca me causou tanto espanto, sempre respeitamos muito a avó e jamais tínhamos liberdade para questioná-la sobre o que guardava ali. Apenas uma vez quando Antônio tentou abrir a gaveta e ela chegou no exato momento. A avó Das Dores repreendeu Antônio bastante, com o aval dos nossos pais. Depois aquele dia, nunca mais tive curiosidade, até aquele momento.

A avó Das Dores tirou da gaveta uma caixa de madeira. Não era tão grande, mas um pouco larga e com um cadeado, o qual a avó abriu com cuidado. Vi quando a avó tirou da caixa fotos, uns papéis e alguns objetos. Tirou a foto do meu avô, Sr. Jarbas e de minhas tias que eu nunca conheci. Pegou também um crucifixo, tamanho médio, com algumas partes enferrujadas. Um pedaço de pano sujo com uma mancha vermelha. Murmurou palavras que não compreendi e suspirou bem fundo, antes de colocar o terço por cima da foto do meu avô, Sr. Jarbas. Fez uma breve oração, guardando tudo em seguida. Porém, antes de guardar, ouvi a avó dizer:

“O pecado do homem e seus desejos profanos serão responsáveis por seu destino final, nas chamas do inferno vermelho”.

É claro que aquela frase me marcou profundamente, apesar de não entender nada na época. O que era profano? O inferno era vermelho? Destino final? Eu era uma criança de nove anos, não podia compreender. Sempre ouvi a palavra inferno nas missas e orações. Tinha medo de ir pra lá. Deveria ser um lugar horrível, palavras do Padre Sérgio. E como eu presenciei a bronca que Antônio levou, preferi não falar e perguntar nada. Porém, nunca mais esqueci… “(…) pecado do homem” (…) “inferno vermelho” (…) “destino final”. Sai correndo dali antes que a avó percebesse minha presença. Corri de volta para o galinheiro e comentei com as galinhas o que tinha visto e ouvido. Como toda criança, após conversar com as galinhas, não pensei mais no que tinha acontecido e voltei a brincar com as penosas, como sempre fazia. Contudo, a memória nunca apagou, apenas registrou e hibernou aquelas palavras que anos depois eu saberia do que se tratava.

***

Abraçado com a minha mãe, chorávamos juntos copiosamente ao lado do corpo de meu pai. Mardoqueu apenas observava a situação, com seu chapéu nas mãos e segurando a rédea para que a carroça ficasse imóvel. Minha mãe repetia palavras religiosas e lamentações como “Meu Deus”, “Meu Jesus”, “Meu Bem, levanta daí”, enquanto passava a mão no rosto pálido e frio de meu pai, ainda em cima da carroça. A avó chegou próximo do corpo e com os dedos fechou os olhos de meu pai. Porém, algo chamou a atenção da avó. Ela voltou próximo ao corpo e abriu um botão da camisa, como se estivesse procurando algo e a sua reação mostrou que ela encontrou. Ao observar a cicatriz no peito de meu pai, a avó Das Dores arregalou os olhos e deu dois passos para trás, repetindo as palavras “(…) do inferno vermelho.” Imediatamente, ao ouvir a frase, minhas memórias foram ativadas. Eu não lembrei do que se tratava, mas sabia que já tinha ouvido aquelas palavras em algum lugar, em um determinado momento da minha vida. Contudo, estava tão assustado e triste com a morte do pai que não dei muita atenção para o fato. E dificilmente lembraria quando foi a primeira vez que ouvi a frase.

Durante todo o velório e enterro de meu pai, o semblante da minha avó chamou minha atenção. Se já não bastasse a tristeza que a morte dele deixou, o fato de minha avó ficar tão fria naquele momento não me deixava esquecer a situação. E quando ela me segurou no banheiro e fez aquela pergunta para mim, percebi que tinha, sim, algo de errado e misterioso entre minha avó e meu pai. Entretanto, esqueci daquilo durante um tempo. Não pensei mais na situação e tratei de continuar a vida, agora com mais responsabilidade, uma vez que não tínhamos mais o meu pai dentro de casa. A lembrança só voltou fortemente nas minhas memórias no dia do enterro da mãe, quando tive a discussão com a minha avó.

***

Do lado de fora da casa, por volta das dezenove horas, após chegarmos do enterro de mãe, Antônio relembrou o galinheiro e as galinhas:

— Parou com isso, né? — Antônio comentou comigo, rindo.

— Idiota — respondi com bom humor, nos abraçando naquele momento triste. Pensei em revelar para Antônio sobre a avó, mas achei melhor resolver isso sozinho. E, quem sabe, eu contasse para Antônio depois que eu descobrisse toda a história.

Entramos em casa e caminhamos até a cozinha. Antônio deu um abraço apertado em Maria de Fátima e depois na tia Lucinha. Antes de entrar no cômodo, olhei para o quarto da avó e ela estava sentada na cama, olhando fixo para mim. Um olhar sério, amedrontador. Senti um frio na espinha, mas não amoleci. Não poderia demonstrar medo. Encarei a avó também com um olhar sério, sem pestanejar. Sem dúvida, a avó estava tentando me dissuadir de alguma coisa. Mas eu não voltaria atrás, ela iria me contar tudo.

Ficou decidido que Antônio, Maria de Fátima e Eustáquio dormiriam em casa esta noite e pela manhã voltariam para a cidade. Eu ajeitaria algumas coisas e em breve também partiria rumo a capital, começar uma nova vida. Se não houvesse este fato a ser esclarecido com a minha avó, eu teria ido embora junto com meus irmãos no dia seguinte. Mas eu não poderia dar adeus a Marilândia sem saber da verdade. A tensão do momento foi quebrada com a risada intensa de Eustáquio. Meu Deus, como era desagradável esse namorado da Fatinha. Eustáquio havia tomado uma cachaça que ele encontrou no armário da cozinha e estava ultrapassando o estágio entre o desagradável e o intragável. E sabe o que era interessante? Nossa irmã era apaixonada por ele e achava uma graça de todas as suas piadas e comentários. Antônio também não era muito fã de Eustáquio, mas não tinha tanto ranço quanto eu e até se dava bem com o cunhado.

Enquanto os três estavam na cozinha, fui até o quarto da avó para conversarmos. Seria agora o momento em que ela iria me contar tudo. Caminhei devagar e entrei no quarto sem fazer barulho. Empurrei e fechei a porta. A avó não se assustou, apenas inclinou um pouco o pescoço para conferir. Ela sabia que era eu, esperava aquele momento. Sentei na ponta da cama. Ela estava sentada na parte de cima, de costas para mim, olhando para baixo, com o terço nas mãos. E a caixa em cima da cama, aberta. Engoli seco ao ver a caixa aberta. Concentrado, olhei para a avó e disse:

— Estou aqui, Maria das Dores. Sou todo ouvidos. Me Explique, de uma vez por todas, este segredo.

Falei sério, olhando para o seu rosto, buscando seu olhar, que permanecia para baixo.

— Não sei se você está preparado para saber, meu neto.

— Só vamos saber disso depois que a senhora contar.

Das Dores mudou de posição, virou-se e olhou para os meus olhos. Mas com um outro olhar, bem diferente daquele que me encarou quando cheguei. Era um semblante triste e preocupado. Ela olhou para a caixa e começou a falar. E assim foi durante uns quarenta minutos. A cada frase que saia de sua boca, a cada explicação dos fatos, nomes, datas, objetos… um misto de reações meu corpo demonstrava: incredulidade, medo, confusão… não sabia se acreditava ou não naquilo que estava escutando. Era surreal tudo que minha avó estava me revelando naquele momento.

***

O ano era 1964, a cidade era Lago de Cristal, sudoeste mineiro, onde meus pais nasceram e foram criados. A avó Maria das Dores teve outros seis filhos, mas eu só conheci mesmo a Tia Lucinha. Meu pai era filho único e conheceu minha mãe na missa de domingo. Naquela época, a missa era um dos poucos eventos em que as famílias poderiam se encontrar e conversar. Os namoricos começavam ali. A avó Das Dores estava preocupada com aquela aproximação entre meu pai, Haroldo, e a sua filha, já que naquela época as coisas eram completamente diferentes das atuais. Não era bem-visto uma mulher ficar de muita conversa com homem. E ainda mais o tipo de homem que era meu pai. Haroldo era o autêntico mulherengo, frequentava a Zona Boêmia da cidade e já tinha terminado um noivado. Meu avô, Sr. Jarbas, também não aprovava o namorico entre minha mãe, Marina e o mulherengo do Haroldo:

— Haroldo? Aquele sinuqueiro de esquina? Nem pensar! — vociferou meu avô, balançando os dedos negativamente.

— Pai, ele trabalha e joga apenas nos finais de semana — tentou justificar minha mãe.

— O que não deixa de estar errado. Minha filha, você realmente quer namorar alguém que frequenta bares e joga sinuca? — questionou o Sr. Jarbas, meu avô.

Mas quando dois pombos enamorados querem, nada pode impedir. E foi assim que nasceu o casal. Tudo foi feito da forma correta, como regia o ordenamento moral e ético da época. Meu pai foi até a casa de minha mãe, apresentou-se e conversou com meu avô, tudo isso no sofá da sala. Do outro lado da parede, na cozinha, minha avó Das Dores e minha mãe, tentavam escutar a conversa, sem fazer barulho. E, de acordo com minha avó, a conversa foi tensa. Sr. Jarbas não afinou e colocou Haroldo contra a parede, com uma antiga carabina, modelo Rossi cano duplo, debaixo do braço. Minha avó disse que o pai assustou e engoliu seco, pois sabia que ali não seria como no cabaré que ele frequentava. Ou ele tomava rumo na vida ou o Sr. Jarbas a transformaria em um inferno.

E parece que deu certo. Por seis meses, foram inúmeros jantares, almoços, sorvetes na praça da cidade e a promessa do casamento. No dia especial, Haroldo pediu a mão da minha mãe em casamento, na presença do Sr. Jarbas, da minha avó Maria das Dores e da carabina, óbvio. A arma de fogo era como a cruz na igreja: abençoava aquela união. E foi uma festa naquela casa, afinal o objetivo de todo pai da época era casar a filha.

A relação entre meu avô Jarbas e meu pai Haroldo mudou depois do noivado. Passaram o almoço inteiro conversando como velhos amigos. Minha avó contou que minha mãe estava muito feliz vendo o pai e o futuro marido sentados no sofá, dando longas risadas. Depois de sair da casa dos sogros, ao final do almoço de comemoração, meu pai cometeu o primeiro erro em sua vida: foi até a zona boêmia beber com os antigos amigos. Queria contar a novidade para todos. Após perceber que meu pai esqueceu o guarda-chuva, meu avô Jarbas foi atrás para devolver, pois estávamos em uma época chuvosa e o sogro não queria que seu futuro genro se molhasse. E, de fato, a chuva chegou naquele dia. Porém, Jarbas não encontrou Haroldo na pensão em que morava. Ao imaginar onde Haroldo estaria, Jarbas ficou furioso. Ao chegar no bar e avistar Haroldo jogando sinuca e com copo de cerveja na mão, o Sr. Jarbas bufou de ódio e retirou da cintura um pequeno revólver, calibre ponto 22 e apertou o punho, caminhando rumo a sinuca onde Haroldo estava com os amigos. Jarbas estava bravo, afinal de contas Haroldo tinha acabado de pedir sua filha em casamento e já estava no boteco?

Jarbas caminhou com fúria até onde Haroldo estava para lhe devolver o guarda-chuva e de presente alguns sopapos ao pé do ouvido. Entretanto, chegando lá, viu o futuro genro ser abraçado pelos amigos, todos lhe cumprimentando e lhe parabenizando pelo casamento. Neste momento, Sr. Jarbas abriu um sorriso. Percebeu que Haroldo poderia ser um bom marido para sua filha e merecia um voto de confiança. Haroldo se assustou com a presença do sogro:

— Oh, Seu Jarbas, eu estava …apenas… vim aqui bem rápido, sabe? — meu pai gaguejava, tentando explicar para o sogro o que estava fazendo ali.

— Filho, fique tranquilo. Vou confiar em você e acreditar que suas intenções são boas. Vim apenas lhe entregar seu guarda-chuva — Sr. Jarbas abraçou o futuro genro e o cumprimentou fortemente.

— Um brinde ao meu sogro! — gritou meu pai, levantando o copo de cerveja, brindando com os amigos e oferecendo ao sogro um copo geladinho de cerveja. Sem graça com a homenagem, Sr. Jarbas não recusou o brinde e aceitou tomar uma cerveja com Haroldo e os amigos. E o que era apenas um brinde, estendeu até muitas horas depois e várias garrafas vazias.

Depois de algumas horas, minha avó ficou preocupada com a demora e saiu à procura do marido. Não acostumada com a zona boêmia, arriscou-se a entrar naquele território inóspito. E ficou surpresa ao avistar o marido bebendo alegremente com o futuro genro. A princípio ficou assustada, mas depois a avó ficou alegre. Era ótimo que estivessem se dando bem, assim nenhuma carabina seria usada.

Rapidamente, sem deixar que ambos percebessem sua presença, minha avó tentou sair daquele lugar. Não era digno que uma mulher casada frequentasse aquele ambiente sem o marido. Restrições morais da época. Contudo, a chuva apertou e obrigou minha avó a procurar um abrigo sob alguma marquise. Após trinta minutos e nada da chuva dar uma trégua e já esperando a fúria do Sr. Jarbas com a situação, minha avó decidiu seguir seu caminho com chuva e tudo. De qualquer forma, chegaria antes do marido e nada aconteceria.

Quando estava preparando para sair, viu Haroldo deixar o bar na companhia de Jarbas, dois amigos e uma moça, que parecia ser uma prostituta. Haroldo cambaleava de bêbado e Jarbas cantarolava alegre com os outros. Minha avó não acreditou no que estava vendo e de tão raivosa que ficou, resolveu seguir Haroldo, o marido e os amigos na chuva mesmo. Ao chegar em uma rua mais afastada, os amigos de Haroldo agarraram a moça e começaram a tirar sua roupa. A moça lutava bravamente, mas sem forças para se livrar dos amigos de Haroldo, que apenas tentava se manter em pé depois de beber bastante, observando aquela violência. Minha avó chorou ao ver a cena da moça ser estuprada e muito mais ao ver o próprio marido e o genro observarem a situação e nada fazer para ajudar. Era um misto de raiva e decepção. Pensou algumas vezes em intervir, mas como explicaria para o marido o que estava fazendo ali?

Em um determinado momento, Haroldo tentou tirar os amigos de cima da moça, mas levou um chute de um deles. Caiu em cima de uma poça e ali ficou, sem reação. Tentou acender um cigarro, mas com a chuva não conseguiu. Jarbas, também alcoolizado, dava risadas da situação. Escondida atrás de uma árvore, minha avó apenas chorava e sentia um asco muito grande diante de tudo aquilo. O estômago revirava e minha avó chorava, apenas segurando o som para que os homens não a escutassem. Haroldo, equilibrando-se pelo muro, tentou pela segunda vez interceder, mas levou um soco… De Jarbas, que o fez desmaiar no meio da rua molhada.

Seus dois amigos terminaram o ato perverso e largaram a moça ali, sem as roupas, chorando, encostada no muro. Minha avó horrorizou ao ver o marido cumprimentar os dois homens após o ato. Terminado, os três foram ajudar Haroldo a se levantar. Como se nada tivesse acontecido, os quatro cavaleiros iniciaram a volta para casa, livres, alegres e bêbados. Haroldo se escorava pelos muros e postes de iluminação. Jarbas e os outros dois homens caminhavam com dificuldades um pouco à frente, cantarolando uma música qualquer. Quando os quatro estavam a alguns metros de um lote vago, onde tinha um grande matagal, algo aconteceu. Uma luz forte, precedido de uma fogueira gigante, surgiu próximo ao lado de Haroldo. Dela saiu uma figura grande, com feições humanas, pernas e braços enrolados em correntes, apontando para os quatro que ali estavam, dizendo…

***

A avó sempre soube contar boas histórias. Não era a primeira vez que ela conseguia minha total atenção com alguma dessas. Mesmo depois de adulto, achava fantástica a capacidade dela com a oratória. Sabia prender a nossa atenção. Por mais que você soubesse que tudo era fantasia, a forma como Das Dores contava e representava era sensacional. E confesso que algumas vezes eu acreditava naquilo. Sabe por quê? A avó nunca dizia se as histórias eram verdadeiras ou falsas. E tinha certeza de que se fossem falsas, alguma delas contavam com uma pitada de verdade. Ela usava nomes conhecidos, lugares comuns, características da época. Era muito detalhista e isso ludibriava a gente. Desde pequeno, era muito comum a família inteira – eu, Antônio, Maria de Fátima e minha mãe Marina – sentarmos na varanda para ouvirmos a avó contar casos antigos. Enquanto meu pai fumava um cigarro de palha sentado em uma cadeira próxima, a mãe se divertia vendo as nossas reações aos fatos narrados pela avó. E geralmente, para tentar dar veracidade aos casos, a avó costumava dizer:

— E sua mãe sabe dessa história.

— Eu não sei de nada. Não me coloque nesse rolo — respondia a mãe, rindo, tentando se livrar do fardo de confirmar a imaginação fértil da avó.

Às vezes, meu pai encontrava incoerências nas histórias da avó, tais como datas, nomes de personagens e locais. Foram inúmeras as ocasiões que a avó matava o sujeito e depois, milagrosamente, ele retornava do mundo dos mortos sem nenhuma explicação. Quando meu pai percebia e tentava falar algo, minha mãe cutucava e fazia o gesto com o dedo indicador na boca, indicando silêncio. Éramos crianças, não percebíamos estes detalhes, queríamos apenas ouvir e nos divertir e aquilo bastava, mesmo sem coerência ou concordância. Meu pai resmungava, fazia um bico com a boca e acendia outro cigarro, indignado com aquilo.

***

Antônio entrou de solavanco no quarto e me fez sair do transe em que me encontrava. Eu estava apavorado com as últimas frases que tinha acabado de ouvir. Luz, fogo, figura humana, correntes. Minha cabeça estava confusa. Será que dessa vez a avó contava algo verdadeiro? Por mais que ela gostasse de citar pessoas e cenários conhecidos, colocar nosso avô e meu pai nessa história, em um momento como aquele, me incomodou. Antônio olhou para o meu rosto, achou a situação estranha e perguntou:

— O que vocês estão fazendo?

Não quis contar nada do que tinha ouvido. A avó permanecia séria, paralisada na mesma posição. Na hora, a única explicação que encontrei foi dizer que estava contando para ela a decisão de ir morar na capital. A avó Das Dores abaixou a cabeça e nada disse. Aproveitei e fiz um gesto para Antônio sair do quarto, mas ele não entendeu. Eu queria e precisava ouvir o restante do que a avó compartilhava comigo, porém Antônio disse:

— Freddinho, Eustáquio está bem alterado e sumiu estrada afora. Fatinha está preocupada, vamos procurá-lo.

— Eu não. Ele saiu porquê quis, que volte sozinho — respondi indignado. Veja se tinha base eu não ouvir o final da história para procurar o intragável do Eustáquio.

— Frede. Pelo amor de Deus. Pode ter acontecido alguma coisa — rebateu Antônio, cruzando os braços sobre o peito, realmente estava preocupado.

Não tive escolha. Contrariado, levantei-me e disse para minha avó:

— Eu volto. Vamos terminar essa conversa, tudo bem? — Disse em um tom amigável, simulando uma simpatia. Não queria deixar Antônio perceber do que se tratava na verdade. A avó Das Dores apenas levantou o olhar e nada disse.

E lá fomos nós, eu e Antônio procurar o Eustáquio. Era tudo que não imaginei fazer naquele dia, em menos de 24 horas do enterro da minha mãe. Meu irmão Antônio foi até o quarto colocar um calçado e buscar as chaves do carro. Fiz o mesmo, coloquei uma bota, uma camisa manga longa e um boné. De repente, minha avó entrou no quarto de uma vez, me assustando por completo. Bem próximo do meu rosto, olhando no fundo dos meus olhos, com o olhar sério e ao mesmo tempo assustado, ela disse:

— Ele vem para buscar quem se deixa levar pelo pecado. Sem piedade, arrasta para o inferno aqueles que fazem da vida um tabuleiro de maldades.

— Quem? — respondi.

— “O Coiso”. O enviado do inferno, o mensageiro do diabo — respondeu minha avó.

Não disse nada, apenas arregalei os olhos. Apesar de ter ficado assustado e impressionado com a história da noite do estupro, era surreal aquilo tudo. A avó podia enganar a gente enquanto criança, mas insistir nessa fantasia anos depois começou a me irritar, de verdade.

— O tal “coiso” do dia do estupro era um mensageiro do diabo? — perguntei.

— Isso, meu neto. Ele vem do inferno para levar as almas sebosas que praticam o mal aqui na terra. Com suas correntes ele leva para debaixo da terra as pessoas maldosas e covardes — explicou.

— Tipo um coveiro do inferno? Vó, a senhora continua levando na brincadeira. Eu quero saber a verdade sobre…

Mas antes de terminar a frase, a avó me repreendeu, com o dedo próximo aos meus olhos e com um olhar de ódio misturado com pavor:

— Não faço piada com coisa séria. Isso não é como aquelas histórias que eu contava para vocês.

— Nossa, que medo do Coveiro, Dona Maria das Dores — respondi de forma jocosa.

De imediato, Das Dores disse, em um tom alto e expelindo raiva:

— Não profane o que você não entende.

— Então quero entender. E não estou mais suportando esse segredo. A senhora não quer que eu acredite que uma assombração matou meu avô, não é? — respondi, e não foi em um tom amigável.

— Todos os pecadores terão um encontro com ele. Suas correntes de fogo encontrarão onde estiverem. E sem nenhuma piedade, ele arrastará sua alma para o inferno vermelho.

Das Dores tremia enquanto falava e piscava insistente. Não era assim das outras vezes. Percebi de imediato que não se tratava de brincadeira. Ou então minha avó havia tomado da mesma cachaça que Eustáquio. Porém, não estava acreditando em tudo aquilo, até que ela pronunciou:

— “O pecado do homem e seus desejos profanos serão responsáveis por seu destino final nas chamas do inferno vermelho.”

Assim que minha avó terminou de recitar aquela frase, minhas lembranças e memórias foram ativadas naquele momento. Comecei a tremer e a relembrar de tudo. Todas as memórias estavam se encaixando.

— Quem você acha que viu naquele dia? Quem você acha que matou seu pai?

Aquela pergunta foi como um tiro. Minha respiração ficou acelerada. Deixei cair o que tinha nas mãos e dei dois passos para atrás, me afastando da minha avó, procurando algo para escorar. Sim, senti a visão escurecer. De forma alguma, ela não brincaria com um assunto desses.

— Do que a senhora está falando? — consegui balbuciar.

— “O Coiso” é Batasheba, o seu nome verdadeiro. Ele vem buscar todas as pessoas que praticam o mal. Não ache que você estará longe de suas correntes, pois se a sua vida é inundada pelo pecado, ele virá lhe buscar. — respondeu minha avó.

Naquele momento, só pensava no dia da morte do meu pai. O clarão, o fogo, a silhueta. Mas ainda não entendia o motivo da coisa levar o meu pai. O que o velho Haroldo teria feito de tão grave?

— O pecado também vem da omissão. O silêncio dos bons é equivalente a atitude dos maus. — continuava Das Dores a explicação, antes de levantar a mão direita e me mostrar a foto do meu avô, o Sr. Jarbas. Naquele momento, tudo clareava. Lembrei da história, a bebedeira, o bar, o estupro. “O Coiso” tinha vindo buscar o meu pai por ele ter participado daquele ato horrível e covarde.

— Mas meu pai tentou ajudar — questionei a minha avó.

— Diga-me com quem tu andas e direi quem tu és. Seu avô era profano e aquele acontecimento não tinha sido o primeiro dos seus atos de horror. E, infelizmente, seu pai tomou o mesmo caminho, seguindo o rumo da maldade — disse Das Dores.

Eu estava anestesiado com aquela quantidade de informações. Não sabia o que pensar, o que dizer. Apenas estava parado ali, no meio do meu quarto, olhando assustado para minha avó.

— Fui vítima. Perdi as contas de quantas vezes apanhei do seu avô. Perdi a conta das vezes em que fui humilhada. Perdi as contas de quantas vezes implorei pela sua morte — lamentava minha avó, com lágrimas nos olhos.

— Mas porque a senhora não foi embora, não pediu ajuda, sei lá. Por quê? — indaguei.

— Meu neto. As coisas antigamente não eram fáceis. Ou você se omitia ou não tinha casamento. E sua mãe? E meus filhos? Eu vim de uma família pobre. Entende que para uma mulher naquela época não era possível questionar um homem? — já com os olhos marejados, explicava minha avó.

Eu não disse nada. A verdade é que não consegui dizer nada, nem uma palavra sequer. Porém, o pior a minha avó ainda iria me contar. Engolindo seco e olhando dentro dos meus olhos, minha avó chegou um pouco mais perto do meu rosto e, com um tom de voz baixo, revelou:

— Você é fruto do pecado, meu neto! — disse minha avó, com o olhar sério e os lábios secos, trêmulos. Não entendi e a questionei. Ela continuou:

— A sua origem é nefasta, cruel e maldosa. E eu não consigo dizer se você é filho do seu pai ou filho do seu avô!

Meu mundo caiu pela segunda vez ao ouvir minha avó dizer aquilo. Senti uma tonteira, a visão embaçou novamente e minhas pernas começaram a tremer. O que diabos minha avó estava dizendo? Que história era aquela? Tremia e minha camisa encharcada de suor.

— O álcool é o combustível para o pecado da luxúria. E foi em uma dessas que o seu avô poderia ter destruído a vida da sua mãe. E o seu pai? Bêbado feito um gambá, apenas admirava a situação. Dava risadas, como se aquilo fosse engraçado. Igualmente no dia do estupro.

Ainda com lágrimas nos olhos, a avó continuava o desabafo:

— Seu pai sempre foi conivente com seu avô e nunca teve peito para confrontá-lo. E não me recordo de quantas bofetadas levei, de quantas ameaças sofri em todas as vezes que ousei qualquer atitude. Estupro e agressão era rotina em nossa casa. Comigo, suas tias, sua mãe.

Eu não estava suportando aquilo. No mesmo dia em que eu enterrei minha mãe, a minha avó revelava este terrível segredo. Derrubei o abajur do criado e o copo com água que eu havia trazido para a noite, que seria mal dormida. Sentei-me no chão do meu quarto e lágrimas escorriam sobre meu rosto. Do lado de fora, Antônio buzinava várias vezes.

— O Coveiro levou meu avô e meu pai para o inferno? Como fez com os dois amigos que estupraram a moça na rua escura? É isso que a senhora está me dizendo?

— Que bom que você entendeu, meu neto. E mais uma vez te suplico para não brincar com aquilo que você não entende. Mas acredite, ele existe – disse minha avó, retirando da caixa um pedaço da corrente que seria do Coveiro.

— Como? A senhora pegou… como? — perguntei, assustado, olhando para o objeto.

— Depois de levar as duas almas dos inconsequentes amigos do seu pai, o Coveiro caminhou em direção ao seu avô. Não sei explicar, acho que o meu coração é muito maior que o ódio que eu sentia. Me revelei para ele e com este crucifixo nas mãos, o enfrentei com a mais pura coragem, acreditando estar sob a proteção de Deus. — explicava minha avó. E eu? Sentado no chão do meu quarto, com as mãos na cabeça, terrivelmente assustado com tudo aquilo.

— Seu avô retirou a arma da cintura e atirou por duas vezes na criatura. Nada aconteceu. Somente depois de mais três tiros é que a coragem dele acabou e percebeu o risco que corria.

— Implorei para que saíssemos dali. Seu pai já estava apressadamente na frente. Não teve coragem de olhar para trás. Assim que aquele bicho urrou, olhei em seus olhos, apontei este crucifixo, que brilhou como nunca tinha brilhado antes. O Coveiro desviou o olhar e começou a dar passos para trás, recolhendo parte de suas correntes, se afastando de nós, voltando para o buraco de onde tinha saído. Até que o brilho do fogo foi diminuindo e, por fim, ele desapareceu. O cheiro de fuligem e fumaça ficaram no ar.

A avó continuou:

— Conseguimos chegar em casa, molhados e assustados. Seu pai, só fui saber dele dois dias depois, quando apareceu lá em casa para levar sua mãe à missa. Nada disse, apenas me cumprimentou como sempre fazia e saíram os dois. Nunca mais tocamos no assunto. Jamais contei uma só linha disso tudo para minha filha e familiares. Ela já sofria o bastante com seu pai e os desmandos do seu avô.

Jarbas, em uma loucura incontrolável, retirou todas as roupas quando chegou em casa, ficando nu. Colocou tudo dentro de um tambor, no fundo do terreiro, queimando de uma só vez. Todos da casa acordaram com aquela movimentação atípica. Não entenderam nada e a avó Das Dores apenas disse que estava bêbado.

— Depois de secar o corpo e vestir roupas limpas, seu avô deitou-se em nossa cama e só acordou quase doze horas depois. Nunca mais tocou no assunto e nem sei se ele lembraria de alguma coisa. — disse minha avó.

— E depois disso, o que aconteceu? — perguntei.

— Após algum tempo, seu avô começou a ter muitos pesadelos durante a noite. Era comum acordar de madrugada, suado e assustado. Ao logo dos meses, sua sanidade foi sendo afetada. Não conseguia mais trabalhar e tinha acessos de raiva comigo, amigos e vizinhos. Os remédios não faziam efeito e os exames da época não ajudaram em nada. Mas eu sabia o motivo daquilo tudo e que medicamento nenhum resolveria.

— Porque?

— A consciência é o pior dos castigos, meu neto. Seu avô estava sentindo os efeitos do ato cruel que havia cometido. E o encontro com “O coiso” era questão de tempo. Um dia antes da sua morte, por volta das três da madrugada, pulou da cama, assustado, retirando os lençóis e cobertores. Dizia pegar fogo, que seu corpo estava pegando fogo.

— E era fogo? — perguntei.

— Não da forma literal. Porém, desesperado, entrou no chuveiro frio, querendo apagar as chamas invisíveis. Foi quando entrei no banheiro e vi a marca em seu peito…

— A mesma marca do corpo de meu pai — completei.

— Sim, meu neto. No dia seguinte, seu avô passou o tempo inteiro sentado em uma cadeira que tínhamos na varanda de casa. Não conversou com ninguém, não quis almoçar e nem aceitou a janta. Com um olhar vago, como eu nunca havia visto antes, ficou assim durante todo o dia. Por volta das dezoito horas, desceu ao porão onde guardávamos as ferramentas e coisas velhas. Percebendo a demora, fui até lá para saber o que estava fazendo por tanto tempo.

— E?

— Seu avô estava morto, com uma corda presa no pescoço. Balançava de um lado para o outro. Ainda pingava saliva da sua boca e sua língua estava para fora. A cicatriz em seu peito estava brilhando, como se tivesse sido feita naquela hora. E o cheiro de fuligem queimada era forte no ar. Eu sabia o que tinha acontecido ali. Tentei chorar, gritar, espernear. Pensei em correr e levantar o corpo dali, em uma tentativa de salvá-lo. Contudo, algo mais forte me impediu. A justiça tinha sido feita. E assumo, meu neto, estava contente com o desfecho.

Eu e meus irmãos sabíamos que meu avô tinha cometido suicídio. Mas com certeza, esta versão revelada pela minha avó era bem diferente do veneno para ratos que havia nos contado há tantos anos.

— Não importa o quanto demore. Não importa o quanto dure. O mensageiro do inferno vem para acertar as contas com quem pratica o mal. Marca seu gado com sua corrente para buscar o corpo, após ter levado a alma. E o seu poder é gigante, mexe com o inconsciente, de forma subliminar ou direta, como fez com seu avô. A criatura entrou na mente dele e foi corroendo até que ele mesmo não aguentou e tirou a própria vida. De uma forma ou de outra, ela lhe atormenta até que sua alma seja propriedade dela. E o “Coiso” não costuma deixar nada para trás. Por isso não havia restos na sepultura onde sua mãe foi enterrada. O Coveiro voltou para buscar o que restou do seu pai. E não tenha dúvidas que ele queima nos profanos tanques de fogo junto com seu avô. Disso eu tenho certeza — finalizou minha avó.

Despertei daquele transe ao ouvir a buzina insistente do carro de Antônio, tínhamos que sair para procurar o Eustáquio.

— E por que a senhora resolveu não esconder isso de mim e me contar tudo hoje? — perguntei.

— Não sei, meu neto. Apenas sinto que você deveria saber da verdade. Algo está me dizendo aqui no meu coração que você precisa saber disso hoje.

Que dia estava sendo aquele 27 de abril de 1983. Enterrei minha mãe e descobri que posso ser filho do meu avô, que era um desgraçado estuprador e agressor de mulheres. E meu pai? Um banana que acompanhou o sogro em suas maldades. Eu não poderia estar pior. Coração dilacerado, cabeça confusa. Minha vida tinha virado ao avesso. O que mais poderia acontecer?