O Coveiro
6 Capitulo 6 - Final
Eustáquio tinha todos os motivos para ser desagradável. Além de dar risadas em pleno enterro de mães das pessoas, fumava bastante, com isso exalava um cheio forte de cigarro, contava piadas ruins, fazia comentários idiotas, inapropriados e ainda por cima era irresponsável, pois mesmo depois de beber cachaça, pegou o carro e foi buscar cigarros na cidade. Já eram quase 20 horas quando eu e meu irmão Antônio fomos procurar por Eustáquio. Dentro do carro, achei que Antônio perguntaria sobre a conversa com a avó. Mas, para minha alegria, ele não tocou no assunto:
— Onde mora o Zaqueu? — perguntou Antônio, ligando o farol alto para enxergar melhor, em meio aquela escuridão natural de fazenda.
— Quem?
— Zaqueu, seu amigo que ajudou a trazer o corpo do pai naquele dia.
— Mardoqueu.
— Isso. Com a sua ida para a capital não seria legal que avisássemos a ele que a avó vai ficar sozinha? E se ela precisar de ajuda?
— É, pode ser uma boa — respondi Antônio, quase de improviso, automático. Ainda estava bastante impactado com a conversa que tive com a nossa avó minutos antes de sairmos. Poderia muito bem não acreditar em nada e zombar dessa fantasia que minha avó me disse, afinal de contas, cresci ouvindo histórias fantasiosas dela na varanda de casa. Mas não. Presenciei a morte do meu pai e sei bem o que tinha visto. E por mais que minha avó soubesse contar histórias, ela não teria inventado uma com elementos tão pesados assim.
— Será que a avó vai ficar bem sozinha? — perguntou Antônio.
— Vai. Com certeza. A avó é forte. Consegue resolver tudo. E a gente pode enviar um dinheiro para ela todo mês. — respondi. É claro que eu não tinha essa opinião antes. Mas depois de saber que a velha enfrentou um enviado do diabo, porque temeria em ficar sozinha em casa?
Seguimos a estrada até a centro da cidade e quem encontramos por lá? Coincidência, Mardoqueu e o pai, Sr. Isaías, caminhando de volta para casa. Após o enterro de minha mãe, pai e filho foram à cidade comprar botijões de gás e outras coisas para a casa. Aproveitamos a oportunidade e comunicamos aos dois a minha decisão. Ambos me desejaram sorte e aceitaram a missão de ajudar a avó em qualquer coisa que ela precisasse. Também perguntamos pelo intragável:
— Vocês viram o Eustáquio por aí?
— Quem? — perguntou o Sr. Isaías.
— Meu cunhado. Um baixinho, calvo, que estava hoje no enterro.
— Deve ser o do carro vermelho, pai — respondeu Mardoqueu.
— Isso, o carro dele é vermelho — assenti, balançando a cabeça.
— Comprou os cigarros no Armazém do Jair e seguiu a Rua das Palmeiras. Se soubéssemos quem era a gente até teria dito que estava no caminho errado — informou Mardoqueu.
A Rua das Palmeiras era o caminho para o cemitério da cidade, onde horas antes estávamos enterrando minha mãe.
— E lá vamos nós voltar para o cemitério. Que dia, meu Deus — praguejei.
— Vamos lá, ajudamos vocês — ofereceu o Sr. Isaías. Assim, partimos os quatro dentro do carro em busca do Eustáquio, em um fim de noite que jamais imaginei em minha vida.
Avistamos o carro vermelho de Eustáquio há alguns quilômetros dali, quase chegando ao cemitério. Parado, com o pisca alerta ligado, mas sem ninguém dentro. Saímos do carro e chamamos pelo seu nome. Não tivemos resposta, nem sinal do intragável. Logo em seguida descobrimos o motivo: um pneu furado obrigou Eustáquio a parar. Antônio manobrou o carro e o posicionou de forma que os faróis iluminassem o pneu furado. Abri o porta-malas e encontrei as ferramentas necessárias para trocarmos o pneu. Mas onde diabos estava Eustáquio? Todos nós começamos a chamar pelo seu nome, em um coro uníssono de vozes e nada daquele estrupício responder ou aparecer.
— Santo Cristo, onde ele pode ter ido? — perguntou Antônio, coçando a cabeça e olhando ao redor.
— Se ele tivesse voltado pela estrada para pedir ajuda a gente teria visto, não? — perguntei.
— Provavelmente. Eu não estava correndo muito. Sem dúvida passaríamos por ele — respondeu Antônio.
— Será que saiu andando em outra direção? — questionou Mardoqueu.
— Mas pra lá só tem o cemitério — emendou o pai, Sr. Isaías.
Impaciente, levei as mãos no rosto, esfregando meus olhos, com ódio mortal desse sujeito. Depois de tudo que passei no dia de hoje, ainda vou ter que procurá-lo.
— De qualquer forma vamos trocar esse pneu. Assim, com dois veículos a volta ficará mais fácil. E quando ele aparecer é só entrar e ir embora — disse Antônio.
Levamos aproximadamente vinte minutos para completar o serviço. Os parafusos estavam duros e enferrujados. Foi preciso muita força para desenroscá-los da roda. Assim que colocamos o step e apertamos o parafuso com a ajuda do Sr. Isaías, ouvimos um estrondo muito forte, que assustou a todos no local. E um zunido que penetrava nossos ouvidos, atordoando-nos. Com mato abundante ao redor e sem nenhuma iluminação, olhávamos para os lados procurando de onde teria vindo o barulho. Foi quando Mardoqueu apontou a direção:
— Olha lá, olha lá — apontando para onde possivelmente o barulho teria acontecido.
— É fogo? — Perguntou Antônio.
— Sim, fogo. Olha como está alto — respondeu o Sr. Isaías.
Antônio e Mardoqueu arregalaram os olhos quando perceberam que a grande chama estava se movimentando.
— Mas que porra é aquela? — perguntou Antônio, gaguejando e apontando.
— Está andando? — Perguntou, incrédulo, Mardoqueu.
Estava sim, se locomovendo devagar. Estrondo, zunido, fogo, movimento… Nem preciso dizer que minhas pernas começaram a tremer na hora. Não, não poderia ser, pensava eu insistentemente.
Com a claridade, conseguimos ver as cruzes e confirmamos que era o cemitério. A bola de fogo se aproximou do portão de entrada do cemitério e passou derrubando as grades, adentrando o local. De longe, observávamos a claridade se movendo entre as sepulturas. Para os três que estavam comigo, uma cena sinistra e assustadora. Mas não para mim. Era o segundo contato que estava tendo com “o coiso”. Desta vez, sabia o que era e com riqueza de detalhes. Ele tinha voltado para buscar a alma de alguém. Antônio olhou para mim e ficou sem saber porque eu permanecia sério, enquanto ele e os outros observavam a situação incrédulos. Ele não sabia que eu sabia do que se tratava.
— Frede, você não está vendo aquilo? — perguntou Antônio.
— O Coveiro — respondi sério, sem pestanejar, sem tirar os olhos da direção de onde vinha o mistério.
— Que coveiro? Uma hora dessas? — Antônio rebateu.
— Não um coveiro e sim O Coveiro, meu irmão — respondi para Antônio, que estava com uma expressão confusa na face, não entendendo nada.
Antes mesmo de qualquer questionamento, nós escutamos um grito de horror vindo do cemitério.
— EUSTÁQUIO! — exclamei. Os três olharam assustados para mim e voltaram a olhar para o local.
Entramos rápido no carro e aceleramos até o portão destruído do cemitério. Não gastamos dois minutos até lá. Antônio parou o carro bem em frente à entrada. Nem bem saímos do carro e escutamos o grito novamente, precedido das palavras “Meu Deus” por várias vezes. O cheiro de fumaça era grande e de longe avistamos um clarão próximo as sepulturas que ficam perto dos cômodos onde funcionava a administração do cemitério. Corremos os quatro para lá.
Quando chegamos, tivemos uma visão assustadora de algo que jamais iríamos esquecer. Podem passar décadas em nossas vidas, mas aquele dia nunca sairá da nossa lembrança. Era alto, aproximadamente 1.98 e bem corpulento. Braços fortes como de um fisiculturista. Cabelos longos e negros, que pareciam molhados. Estava todo de preto, camisa, calça e botas de cano longo. Algumas partes estavam rasgadas e revelava o tom branco pálido de sua pele. Tinha correntes cruzando as costas e as arrastava pelo caminho, junto de um caixão todo preto, deixando rastros de fogo. Uma pá estava amarrada entre as correntes nas suas costas. Também tinha fogo em seus braços, coxas e ombros, mas muito menos que aquela bola de fogo que vimos minutos atrás.
Todos nós estávamos paralisados com aquela visão. Todos nós estávamos paralisados de medo, ninguém sabia o que fazer. Até mesmo eu, que sabia quem era, tremia, sem conseguir sair do lugar, como se meus pés estivessem pregados no chão. Apesar de saber de quem se tratava, era a primeira vez que me aproximava dele. Um cheiro forte de carne podre queimada tomou conta do lugar. Levamos as mãos em nossas narinas para não respirar aquele cheiro ruim.
A criatura caminhava lentamente entre as sepulturas, olhando para os lados e cantos, provavelmente procurando algo… ou alguém. Me assustei quando Antônio segurou meu braço, apertando forte. Talvez esperando que eu tivesse alguma ideia do que fazer ou do que falar. Ele só me apertava e olhava para “o coiso”.
Mardoqueu quase se escondia atrás do pai, que também estava hipnotizado com o que estava vendo. Foi quando a criatura parou, levantou a cabeça e começou a farejar. Puxava o ar forte, como se estivesse sentindo o cheiro de alguma coisa. O barulho das suas narinas lembrava um javali, daqueles grandes, assassinos e violentos. Conseguimos ver, rapidamente, de perfil o rosto da abominação. Branco, pálido, como se tivesse passado um pó, mas logo depois espirrado água. Seus lábios eram pretos e sua boca com grandes dentes e gengivas avermelhadas. E escorria baba pelo canto dos lábios. Parte do seu maxilar estava sem a pele, onde permitia ver sua arcada dentária. Os olhos eram vermelhos e a cada respiração aumentava e diminuía a intensidade do brilho. Foi quando ouvimos Eustáquio suplicar:
— Pelo amor de Deus, quem é você. O que você quer? — Eustáquio estava ferido, seu braço sangrava. Estava encostado em uma sepultura, suplicando respostas da criatura, que respondeu de imediato:
— De onde eu vim você saberá em breve, pois é pra lá que vou te levar — sua voz era grave, grossa, arrastada e ameaçadora. Enquanto falava, recolheu as correntes que estava arrastando junto do caixão, preparando para, possivelmente, amarrar Eustáquio, que disse:
— Levar para onde, desgraçado? — Eustáquio arrancou um pedaço de granito de uma sepultura e atirou contra a criatura, que nem sentiu o golpe do objeto arremessado. Mas revidou, lançando a corrente com a mão direita, em direção a Eustáquio, que gritou ao ser acertado. A corrente fez um grande ferimento no outro braço de Eustáquio, o que nos fez perceber que ele já tinha recebido aquele ataque antes e por isso estava ferido. Eustáquio caiu no meio das covas e começou a se arrastar, tentando fugir da criatura.
A poucos metros dali, observávamos a cena, escondidos e aterrorizados, sem qualquer chance de ajudar Eustáquio. Quem teria coragem? Estávamos paralisados de medo. De repente, a criatura soltou um grito, um uivo, abrindo os braços com as correntes. O fogo que estava em seu corpo ficou mais forte e iluminou ainda mais o local. O cemitério tinha apenas um poste na entrada e uma lâmpada acesa próximo a porta do cômodo onde funcionava a administração. A criatura lançou a corrente novamente, desta vez entrelaçando uma das pernas de Eustáquio, que urrava de dor. Além de imobilizá-lo, as correntes de fogo queimavam a pele de Eustáquio.
Já com a vítima presa nas correntes, a criatura retirou a pá que trazia nas costas e a fincou no solo, onde começou a cavar um buraco. Depois de alguns movimentos, uma luz forte, amarela, saiu do solo onde estava cavando. A abominação se alegrou e soltou outro uivo. Com mais oito ou dez movimentos, o buraco se abriu completamente e dali saiu labaredas de fogo. O som que emanava do buraco era assustador. Pareciam gritos, urros, gemidos e tudo levava a crer que só poderiam mesmo ser gritos, gritos do inferno. Gritos de almas aprisionadas no lago vermelho, sofrendo as consequências dos pecados que cometeram. Eustáquio chorava e suplicava rendição, dizendo “não” o tempo inteiro. O “Coiso” colocou a pá em cima de uma sepultura e começou a puxar a corrente que estava amarrada na perna de Eustáquio, que suplicou:
— Por quê? Por quê? Por quê? — gritava Eustáquio. A criatura respondeu:
— Não sei o motivo da surpresa, estúpido — respondeu de forma calma a aberração, com sua voz grossa. — Ou você nunca ouviu dizer que quem é mau vai para o inferno? — perguntou o Coveiro, com uma pequena risada sarcástica.
Com a outra corrente, a criatura fez um movimento e chicoteou Eustáquio nas costas, abrindo uma ferida em seu corpo. Arrastado, Eustáquio, tentava agarrar-se entre as sepulturas, enfiava seus dedos no chão de terra, mas nenhuma força era suficiente para impedir que a criatura continuasse a puxá-lo para o buraco de fogo.
— O inferno é a última morada dos infiéis, traidores, pedófilos e assassinos — exclamou a criatura com a voz grossa e continuou: — Também nunca vou esquecer dos estupradores, animais maltratados e idosos machucados por vocês, seus tolos amaldiçoados — finalizou o “coiso”, com Eustáquio próximo.
Eu ouvi tudo. E a voz da minha avó ecoava em minha cabeça: “O pecado do homem e seus desejos profanos serão responsáveis por seu destino final, nas chamas do inferno vermelho”. Não tinha dúvidas que Eustáquio tinha cometido alguns desses atos citados pela criatura horrenda, e ela veio buscá-lo para o castigo quente do lago infernal. Minha avó disse que o Coveiro é o mensageiro do diabo e o encarregado de buscar as almas perdidas no pecado aqui na terra.
Em determinado momento, parece que algo queria sair do buraco aberto pelo Coveiro. Vi apenas dois braços se debruçando e fazendo o movimento, como se estivesse subindo ou fugindo para o nosso mundo. A criatura percebeu e, com raiva, bufando, começou a pisar no braço do fugitivo para que ele voltasse de onde estava:
— Não ouse, infiel. Ainda tem muitos anos de agonia para pagar. Mas pelo mal comportamento, acho que vou aumentar sua estadia conosco — bradou a criatura, com muita raiva.
Cuspindo fogo para dentro do buraco, com um só movimento, utilizando a sua pá, ele ceifou o braço daquilo que estava tentando subir, que caiu de volta no buraco profundo. Também chutou o membro cortado e voltou suas atenções para Eustáquio, que aproveitando o momento, conseguiu movimentar-se um pouco mais à frente. Quando percebeu a atitude, a criatura não gostou, gemeu e puxou Eustáquio com força. O corpo dele veio rápido, batendo contra as cruzes das sepulturas, sem chance de defesa. Com a bota, a criatura pisou no peito de Eustáquio, queimando sua pele. Olhando fixo para os olhos dele, a criatura repetiu as seguintes palavras:
— Ade due damballa. Dê o poder, eu imploro — recitou a criatura por três vezes, antes do fogo no buraco aumentar.
Parece que o fogo recebeu combustível e aumentou consideravelmente. O Coveiro recitou o restante daquilo que parecia ser um ritual para as almas aprisionadas. Levantou Eustáquio pelo pescoço e olhava profundamente em seus olhos. Com as mãos em seu peito queimando a pele, o fogo ao redor do corpo do Mensageiro do Inferno aumentava e diminuía, parecia que estava sugando alguma coisa do corpo de Eustáquio, enquanto olhava para os seus olhos com a boca aberta.
Mardoqueu e seu pai, o Sr. Isaías, agarrados em uma cruz de madeira, balbuciavam o Pai Nosso o tempo inteiro. Não conseguiam sair do lugar frente ao medo que sentiam. Apesar de aterrorizado, eu estava consciente e mesmo sabendo quem era a criatura e o porquê ela estava ali, não tinha a intenção de atrapalhar, por mais insano e cruel que poderia ser. Era óbvio que Eustáquio cometeu alguma das insanidades citadas pela bizarra criatura e por isso estava pagando o preço. Não me reconheci, não estava do lado do mau. Porém, minha avó disse que o Coveiro vem para fazer justiça.
— O que será que você fez, seu intragável? — Era o que pensava naquele momento. Afinal, já sabia os motivos que levavam o Coveiro a aparecer. Mas Antônio não sabia e lamentavelmente gostava de Eustáquio. No momento em que a criatura estava prestes a lançar o corpo de Eustáquio no buraco do fogo eterno, meu irmão se manifestou em alto e bom som:
— Não! — gritou Antônio.
A criatura imediatamente virou o rosto procurando de onde veio o grito. Viu meu irmão em pé, segurando uma cruz de madeira que ele tinha arrancado de alguma cova. As pernas de Antônio tremiam visivelmente, mas fiquei muito orgulhoso dele que conseguiu se levantar e encarar o “Coiso”.
— Solte ele. Agora! — exclamou meu irmão, apontando a cruz de madeira para o “Coiso”.
A criatura olhou odiosa para Antônio, com os olhos vermelhos acesos e emitindo um grunhido baixo, tipo rosnando. Ainda segurando o corpo de Eustáquio, a criatura começou a balançar as correntes em seus braços e de surpresa lançou em Antônio. Por sorte, a corrente acertou a cruz que Antônio estava nas mãos e o ferimento não foi tão profundo assim. Entretanto, suficiente para empurrar Antônio para trás, escorregando, batendo a cabeça e desmaiando por um momento.
Percebendo que Antônio estava caído e sem nenhuma reação, a criatura voltou-se para Eustáquio e cumpriu o ritual. Levantou o corpo de Eustáquio pelo pescoço, olhou em seus olhos e disse:
— Que sua alma queime profundamente e que você pague pelos erros que cometeu. O pecado do homem e seus desejos profanos serão responsáveis por seu destino final, nas chamas do inferno vermelho.
O corpo de Eustáquio foi colocado dentro do caixão preto e o Coveiro fechou a tampa, jogando o caixão sobre o buraco de fogo, levantando chamas e gritos profundos, como se o corpo alimentasse a fogueira.
— Agora vou cuidar de você — rogou a criatura, iniciando a caminhada em busca do corpo do meu irmão. Quando estava chegando próximo, Mardoqueu não aguentou o medo e correu, tentando sair do cemitério, chamando a atenção do “Coiso”. A criatura lançou suas correntes e capturou Mardoqueu, arrastando-o para perto dele, dando risadas malignas. Primeiro, o levantou pelo pescoço e o encarou bem de frente, emitindo sons e sentindo cheiro do corpo. Depois disse:
— Não. Você busca a paz. Não é indigno. Pelo menos por hoje. Mas saiba que eu posso voltar, sempre que quiser. E talvez vamos nos reencontrar novamente. Você quer? — Mardoqueu não respondeu. Estava imobilizado pelo “Coiso”, que a levantava pelo pescoço e continuou:
— Jovem, você será a história viva. Contará a todos sobre a minha existência e será o mensageiro do destino. Anunciará para todos a verdade de quem se deixa levar pela luxúria, vaidade e maldade. — vociferou a criatura, encarando Mardoqueu, antes de marcar o seu peito com o seu anel.
A queimadura no corpo de Mardoqueu formou uma espécie de símbolo e era exatamente igual à de meu pai. Reconheci na hora. A criatura lançou o corpo de meu amigo a uns cinco metros. Vendo aquilo tudo, o Sr. Isaías correu para próximo do filho, enquanto a criatura erguia o corpo de meu irmão.
— E quanto a você. Veremos… — antes que ele terminasse a frase, apavorado com a ideia de ter meu irmão levado pela criatura, levantei-me de onde eu estava:
— COVEIRO! — gritei. Imponente, fiquei de pé, encarando o mensageiro do demônio.
A criatura olhou para trás e nossos olhares se encontraram. Não sei o porquê fiz aquilo, uma vez que já tinha presenciado o poder que aquele monstro tinha. Com o que iria me defender? Não sei. Foi apenas um instinto familiar para salvar meu irmão. O Coveiro largou Antônio e começou a caminhar em minha direção. Ele olhava para mim e puxava o cheiro no ar, emitindo aquele som de javali.
— Ora, esse cheiro não me é estranho. Acho que nos conhecemos, jovem. — afirmou a criatura diabólica.
Diabos, como assim? Pensei. Será que o Coveiro percebeu de quem eu era filho? Ou neto? Não tive tempo para pensar, ele lançou suas correntes em minha direção. Porém, como já sabia seus métodos consegui desviar por muito pouco. A feição do Coveiro ao me ver escapando das suas correntes, por duas vezes, não foi das melhores. Bufou e urrou de uma forma assustadora. Continuamos a nos encarar por alguns segundos. Eu tentava fugir dele, me movimentando com cuidado pelos túmulos. Se eu errasse o passo, ele conseguiria me pegar. Poucos segundos depois, ele tentou novamente me atingir com as correntes. Urrou, desta vez muito mais alto, pois consegui me safar mais uma vez.
Sem paciência, o Belzebu pegou a sua pá e apertou os passos em minha direção, quebrando as cruzes e esculturas presentes nas sepulturas. Estava decidido a me pegar de qualquer maneira. Enquanto caminhava em minha direção, seu rastro de fogo era marcado pelo caminho. Porém, por ser alto e corpulento, não tinha tanta velocidade e consegui me livrar dele com facilidade, apenas desviando das correntes e dos estilhaços que voavam em minha direção quando ele quebrava os túmulos com a pá. Percebendo que esse jogo de gato e rato era irritante e ineficiente, o Coveiro parou, olhou para os lados, pensou em algo e disse, em alto e bom som:
— Senhor dos Reinos Infernais. Traga de volta para mim aqueles que já não se levantam mais!
Bateu com a pá no chão por três vezes. Um vento forte soprou em todo o cemitério, cobrindo toda a lua por alguns momentos. Ficamos apenas com a iluminação do buraco de fogo e do corpo do Coveiro. Uma fumaça branca saiu do buraco onde jogou o corpo de Eustáquio. Segundos depois, de lá surgiram o que eu batizei de “Errantes”, criaturas que voltam do inferno sob a ordem do Coveiro.
Eram pessoas com suas roupas queimadas, peles deformadas e algumas delas com o rosto completamente desfigurados. Os ossos de seus corpos estavam expostos, como esqueletos andantes. Da boca, emitiam gritos aterrorizantes, uma mistura de vozes de várias pessoas sofrendo. Era o som que ouvi vindo do buraco quente que o Coveiro abriu. Provavelmente eram vítimas do Coveiro que agonizavam nos poços do inferno. Não eram grandes, não tinham correntes, mas se movimentavam mais rápido que ele.
Dois dos errantes caminharam na direção de Mardoqueu e Isaías, que tentavam afastá-los com pedaços de madeiras e pedras. Foi quando o Coveiro olhou para mim e disse:
— E para você, tenho algo especial.
Ele apontou para o buraco e lá estava saindo um outro errante. Porém, havia algo de diferente. Este estava de chapéu, com roupas parecidas… olhava para mim de uma forma estranha, como se soubesse quem eu era. Não percebi de imediato. O errante foi caminhando, arrastando como todos os outros, em minha direção. Foi quando a mistura de vozes, característico deles, cessou e o errante balbuciou de forma clara:
— MEU FILHO.
Inacreditável. Arregalei os olhos e fiquei paralisado. A calça preta, a blusa azul-escuro e o inseparável chapéu. Meu Deus, era meu pai.
— Filho, senti tanto a sua falta — Neste momento, a voz já era igual. Nada de gritos ou urros, era meu pai ali, na minha frente. Depois de anos, ouvir a voz dele novamente foi um choque. Cai de joelhos, chorando. Estiquei os braços, dizendo:
— PAI, meu querido pai.
— Onde está o Furacão, filho. Que saudade dele — depois de ouvir isso, com a voz claramente de meu pai, minhas lágrimas aumentaram. Eu estava entregue. Era o meu pai que estava ali, na minha frente.
— Vá, abrace o seu pai, Fredderyco. Ele sente sua falta — disse o Coveiro, com a voz aveludada e calma, bem diferente do seu habitual. Com meus braços esticados e chorando bastante, eu já estava pronto para receber aquele abraço.
O errante já estava próximo de mim quando Mardoqueu gritou:
— Fredderyco, este não é seu pai. É o mau, é o mau. Não, não.
Por incrível que pareça, o grito de Mardoqueu me assustou e fez com que eu prestasse mais atenção. Quando olhei fixamente para o errante, vi a escuridão do seu olhar e ossos expostos em suas mãos. Forcei os olhos e percebi o rosto cadavérico e putrefato daquele errante que dizia ser meu pai:
— Não, não. Você não é meu pai. Você não é meu pai — Levantei-me rapidamente, antes do errante encostar em mim.
— VOCÊ NÃO É O MEU PAI. — de pé, vociferei em alto e bom som. Neste momento, o errante voltou a sua forma esquelética total e as vozes infernais saindo da sua garganta. Ele abriu a boca e berrou, avançando em cima de mim com ferocidade.
Não consegui desviar e o errante agarrou o meu pescoço, apertando forte. O Coveiro, com raiva depois que eu descobri seu plano, ordenou que mais dois errantes fosse ao meu encontro. Tentei fugir, mas conseguiram me cercar. Fiquei sem ação. Não tinha o que fazer. Eram fortes e me seguraram com firmeza, sem chance de escapar. Restava apenas esperar que o Coveiro me pegasse.
O enviado do inferno começou a caminhar em minha direção. Contudo, antes que a criatura se aproximasse de mim, algo aconteceu. O Sr. Isaías, com um pedaço de madeira, acertou, com força, o corpo de uma delas, que se desmontou inteiro ao chão. Os pedaços de ossos espalharam pelas sepulturas. O Coveiro olhou a cena e, indignado, lançou as correntes na direção do Sr. Isaías. Por sorte dele e azar da abominação, a mira não foi tão boa e não acertou o Sr. Isaías, por poucos centímetros. Os outros errantes me soltaram e se movimentaram em direção ao pai de Mardoqueu. E agora foi a vez do filho acertar uma delas e a desmontar pelo chão. Uma a uma foi sendo destruída por Mardoqueu e Isaías, formando um corredor de ossos em meio as covas e sepulturas.
O Coveiro, vendo toda aquela cena, e ao mesmo tempo não acreditando, iniciou algo muito maior. Vociferando frases que eu não identifiquei, provavelmente uma linguagem satânica, começou a recitar um novo ritual. Um vento forte se iniciou, mas um vento diferente, que em vez de empurrar, estava nos puxando para o buraco do inferno. Mardoqueu e o Sr. Isaías estavam mais próximos e bem perto de serem engolidos pelo buraco. Eu tentava me agarrar a qualquer coisa que estivesse ao meu alcance, mas o vento puxava com força. Meu corpo batia entre as sepulturas e meu rosto arrastava pelo chão de terra. A coisa demoníaca, como um maestro regendo uma orquestra, fazia gestos com as mãos, como se estivesse regendo o vento, puxando a gente cada vez mais para dentro do buraco.
De repente, escuto alguém gritar:
— Batasheba! Eu ordeno, pare agora!
Era minha avó, Maria Das Dores, apontando seu infalível terço para o Coveiro. O terço estava enrolado no mesmo crucifixo que estava dentro da caixa e que ela usou quando presenciou o Coveiro pela primeira vez. A criatura do inferno ficou visivelmente surpreso e incrédulo quando minha avó citou seu real nome. Seus olhos vermelhos estavam arregalados e sua boca aberta pingava um líquido gosmento. Surpreso com tudo aquilo, o Coveiro parou e fixou o olhar em minha avó, querendo saber de onde vinha a voz. Das Dores, imponente e sem demonstrar medo, disse:
— Leve quem você quer levar e deixe o resto em paz, em nome de Deus Todo Poderoso — bradou a minha avó.
O Coveiro retrucou, com sua voz grave e assustadora:
— Quem disse que ele é Todo Poderoso? Eu sou Todo Poderoso — respondeu o Coveiro.
— Você não, Ele é e vai me ajudar a enviar você de volta para baixo — disse Das Dores, estufando o peito e levantando o nariz.
Outra vez, o Coveiro bufou e emitiu grunhidos de protesto, não acreditando na coragem de Dona Das Dores.
— VOCÊ É MUITO AUDACIOSA E VAI SE ARREPENDER DISSO — falou alto a criatura, caminhando em direção a minha avó. O vento que nos puxava para dentro do buraco do inferno parou. Mardoqueu e o pai estavam bem próximos de cair no buraco do fogo eterno. O senhor Isaías sentiu uma mão cadavérica puxar a barra da sua calça, mas conseguiu se safar, arrastando bem rápido para longe do buraco.
Neste momento, a avó Das Dores retirou uma cruz de ferro da parede do cemitério e amarrou o terço nela. Algo aconteceu. A cruz começou a brilhar, emanar uma luz azul, de ponta a ponta, abrilhantando todo o redor da minha avó. Com a cruz em mãos, Das Dores caminhou sem medo, até o Coveiro, com passos firmes. A terrível criatura bufou com a audácia daquela velha senhora. Olhando fixo para minha avó e puxando o ar pelo grande nariz, o Coveiro disse:
— Nos encontramos outra vez, não é Maria das Dores!
Minha avó parou subitamente. Ouvir o Coveiro dizer o seu nome foi um golpe e tanto. Ela não esperava. Arregalou os olhos e começou a tremer. Ele a reconheceu, depois de tantos anos.
— Não pense que desta vez fraquejarei como da última. Naquela oportunidade, já estava satisfeito com as duas almas da noite, mas deixei você pensar que tinha me vencido. Uma pena que anos depois, quando terminei o ciclo com seu genro, você não estava presente. Seria uma revanche monumental — discursou o Coveiro, com olhar triunfante para minha avó, preparando as correntes a serem lançadas. Das Dores não afinou, firmou o corpo, encarou o olhar do Coveiro e disse:
— Batasheba! Se não vai levar o que quer, volte de onde veio — falou minha avó, dando dois passos para frente e erguendo o crucifixo novamente, que brilhou na face da criatura, que em um curto período, desviou os olhos do brilho.
O Coveiro bufou raivoso, não estava acreditando que a velha Das Dores o enfrentava outra vez. Aquele momento era a chance que eu precisava. Enquanto o Coveiro começou a caminhar em direção a minha avó, grunhindo e preparando o ataque, arranquei uma outra cruz de uma sepultura, me aproximei rapidamente pelas costas e enfiei metade do objeto em seu corpo. Ele grunhiu alto, de forma assustadora. Virou-se e tentou me acertar com as mãos, sem sucesso. Minha avó vendo tudo aquilo, também correu em direção à criatura e enfiou a cruz no peito do Coveiro, que gemeu outra vez, um grunhido de dor. Tínhamos acertado a aberração. Com a mão no peito, era nítido que estava sentindo dor. Por alguns segundos, ele tentou retirar a cruz do seu peito, mas minha avó forçou ainda mais, fazendo-o grunhir ainda mais alto.
O “coiso” urrava de dor e tentava ora atingir a mim, ora a minha avó, mas não conseguia. Nos desviávamos de seus ataques. Enquanto ele tentava acertar minha avó, eu fincava ainda mais a cruz em suas costas, várias vezes. Cambaleante e ferido, estava visivelmente sem rumo. Com a cruz fincada em seu peito e costas, queimando sua pele, o Coveiro começou a retroceder, cambaleante, procurando o buraco do inferno que ele mesmo abriu. Arranquei a cruz que eu tinha enfiado em suas costas e refiz o movimento por mais três vezes, na última bem fundo, com ele já ajoelhado e arrastando em direção ao buraco. A cada vez que fincava, era um gemido de dor. O maldito estava covardemente fugindo. Mas antes de voltar para o inferno, lançou as correntes e prendeu minha avó Das Dores e começou a arrastá-la para o buraco também:
— Ou você acha que esqueci de você? Jarbas lhe aguarda e clama pelo seu nome todos os dias, enquanto o fogo consome sua alma. Sua omissão aos excessos dele carimbou o seu passaporte. Você está CONDENADA, Maria das Dores — berrou o Coveiro para minha avó.
— Desgraçado, solte minha avó — gritei apavorado, correndo para tentar salvar minha avó das correntes do Coveiro.
Entretanto, ao correr para tentar ajudar minha avó, ela olhou no fundo dos meus olhos, levantando a mão, pedindo para que eu ficasse no lugar onde estava. Eu não estava acreditando. Minha avó não permitiu a minha ajuda. Ao invés disso, olhou para o Coveiro e enfiou a cruz ainda mais fundo em seu peito, fazendo a criatura gemer. Minha avó abraçou o Coveiro com força e o foi empurrando para o buraco do inferno. Caíram os dois. Assim, vi o Coveiro voltar para as profundezas do mal, mas levando minha avó junto com ele.
— Não! — Gritei, com os olhos lacrimejando. Caí de joelhos, em lágrimas escorrendo pelo meu rosto.
O buraco fechou assim que ambos caíram. Os ossos das caveiras errantes se dissolveram no chão de terra do cemitério. A névoa se dissipou e a lua voltou a iluminar tudo ao redor. Ao olhar para a entrada do cemitério, vi meu irmão com os olhos arregalados, amparados pelo Sr. Isaías e Mardoqueu, ambos também com a feição de assustados com tudo que presenciaram. Tentei me recompor, levantei-me e fui em direção aos meus amigos. Ajudei meu irmão a se levantar e caminhamos juntos, nós quatro, até o carro, cansados, de volta para casa, para refletir como seria a nossa vida daqui para frente, depois desse encontro macabro com a criatura do inferno.
***
Acordamos com o sol nascendo. Apagamos dentro do carro, nós quatro. Foi estranho. Olhamos uns para os outros, sem entender o que fazíamos ali. Pensamos que tinha sido um sonho. Eu torcia para que tivesse realmente sido um sonho. Mas o carro vermelho do Eustáquio continuava ali. Antônio colocou a mão atrás da cabeça e sentiu uma dor. Eu olhei para os meus braços, mãos e vi as queimaduras provocadas pelos errantes do inferno. Foi o choque de realidade. Antônio ligou o carro e voltamos para a cidade, até pegar o caminho de casa. Ninguém falou uma palavra sequer no curto caminho. Deixamos Mardoqueu e o Sr. Isaías próximo a porteira da fazenda onde eles moravam. Sem palavras para o momento, nos cumprimentamos apenas com os olhares. Assim que eles fecharam a porteira, Antônio acelerou o carro até chegarmos na fazenda. Assim que o carro foi se aproximando da entrada, Maria de Fátima apareceu assustada na varanda, com os olhos vermelhos. Não tinha dormido a noite inteira:
— Jesus Cristo, o que aconteceu? Onde vocês estavam? — perguntou Fatinha, visivelmente desesperada.
— Só preciso tomar um banho, “Fá”. Preciso de um banho — respondeu Antônio, sem dar muita explicação para nossa irmã e indo direto para o banheiro. Fatinha olhou para mim exigindo que eu contasse o que tinha acontecido. Mas apenas entrei e me sentei na cadeira da varanda, esparramado, com os olhos fechados e o corpo doendo.
— Cadê o Eustáquio, Fred?
— “Fá”, eu não sei como explicar isso para você… mas… — respondi.
— Como não sabe explicar? A avó saiu daqui às pressas, antes das nove da noite, a pé nessa escuridão toda. Disse que sentiu cheiro de morte e que procuraria vocês. Meu Deus, Fredderyco, o que aconteceu, pelo amor de Deus? — suplicava por explicações a minha irmã Maria de Fátima.
Não sabia como explicar tudo aquilo para Fatinha. Aguardaria Antônio sair do banho. Não sei como vou explicar o dia em que o Guardião do Inferno veio até a Terra buscar um infiel. Não sei como vou explicar toda a história que a nossa avó me contou sobre nossa família. Não sei nem como vou conseguir explicar onde estava nossa avó agora. E não sei como contar para nossa irmã que fomos testemunhas oculares do encontro entre o diabo e o homem. E que, apesar de ter levado nossa avó e o Eustáquio, conseguimos mandá-la de volta para as profundezas do inferno. Além da minha memória, a única coisa que sobrou para provar foi esse pedaço de corrente, que o Coveiro largou para trás. Vou guardá-la como troféu. Porque se ele um dia voltar, eu pretendo devolver. E não será de forma amigável!
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Fim
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