Meu coração apertou ao chegar em Marilândia e ver o caixão da mãe ser colocado no salão da igreja. Minha avó, com a mão em cima da urna e olhando para meu rosto, disse que era o dia mais triste da vida dela. Das Dores limpava as lágrimas o tempo inteiro. A dor de perder a mãe deve ser tão grande quando a mãe velar a filha. E eu sofria duplamente esta dor vendo a avó ali, na beira do caixão. Perdi as contas de quantas vezes meu coração foi apunhalado naqueles últimos dias. Ser cumprimentado por cada um que entrava no salão não ajudava. O lado bom era que dessa vez não tive que fazer litros de café e servir com biscoitos. O lado ruim é que fiquei com mais tempo para “curtir” minha tristeza, vendo o corpo da minha mãe ali, próximo ao altar.

O velório durou apenas aquele dia. Não fazia sentido mais tempo naquele sofrimento. O único parente vivo da minha mãe, além da avó, era tia Lucinha, que estava presente, morrendo de chorar em um dos bancos da igreja. De resto, apenas os moradores de Marilândia. Novamente, Padre Sérgio comandou a cerimônia, relembrando bons momentos e conversas que teve ao longo da vida com a minha mãe. Ao contrário do velório de meu pai, desta vez fiquei ali, ao lado do corpo, ouvindo as palavras de Padre Sérgio. Aliás, esse povo da capital faz milagres com o corpo dos mortos. Será que é pecado eu dizer que o rosto de mãe estava melhor do que vivo? Achei aquilo interessante. No hospital, estava inchado e com um semblante de sofrimento. No caixão a mãe estava quase sorrindo. Gente, que coisa né? De certa forma, amenizava um pouco a nossa dor. Acredito que, de forma defensiva, acabamos por criar a ideia de felicidade, talvez com o fim da dor ou o encontro com o Criador. Mas eu tinha certeza de que com tanto sofrimento, a mãe estaria bem, seja onde estiver.

Caixão fechado, era hora da despedida final. Nunca tinha voltado ao cemitério de Marilândia depois do enterro de meu pai. Por que reviveria todo aquele momento? Não fazia sentido. Mas aquela caminhada até a sepultura, acompanhando o caixão de minha mãe foi muito além da tristeza do dia. Relembrei tudo, o fogo, o grito, meu pai caindo… Eu chorava a partida da mãe e as lembranças do pai. Minha avó conversava baixinho com Tia Lucinda, que estava inconsolável. Meus irmãos, Antônio e Maria de Fátima, com as mãos dadas, estavam logo atrás do caixão. O namorado da minha irmã, Eustáquio, ajudava a empurrar o carrinho que levava o caixão para a sepultura. Pelo menos aquele traste servia para alguma coisa. Maria de Fátima exibia uma flor nas mãos e guardava para jogar no túmulo.

Ao mesmo tempo que todo aquele momento era pura tristeza, também era, de certa forma curioso. Tudo muito parecido com o enterro de meu pai. Tirando o corpo no caixão, claro e a presença dos meus irmãos, estava todo mundo lá: Sr. Elmo, Mardoqueu e o pai Isaías, Padre Sérgio e outros conhecidos da cidade. Era um Déjà-vu completo. O barulho que fazia o carrinho que levava o caixão era irritante. A impressão que dava era que a qualquer momento aquilo desmontaria e a urna espatifaria ao chão. Talvez um óleo nas engrenagens resolveria. Que vontade de pegar pela alça e levar eu mesmo. Depois raciocinei que era impossível fazer aquilo sozinho.

E aquela quantidade de pessoas orando, dizendo “amém” a cada verso do Padre Sérgio também estava começando a me tirar do sério. Queria que aquele sofrimento todo terminasse rápido. Eu já tinha decidido: voltaria para a cidade grande e tentaria a vida por lá. Durante o velório tive uma longa conversa com meus irmãos, que ficaram muito felizes com a ideia e até ofereceram a casa enquanto eu não me orientasse. Uma nova linha da minha vida estava para ser escrita logo após o último adeus para minha mãe.

Estava tudo seguindo o ritual fúnebre normal quando chegando próximo a sepultura, minha avó Das Dores pediu para que as pessoas que estavam empurrando o carrinho com o caixão esperassem um pouco e foi sozinha até a cova. Achei estranho e apressei o passo para ir junto.

— Vó, está acontecendo alguma coisa? — ela se assustou quando me viu próximo dela perguntando.

— Não, não é nada. Volte para lá e me deixe terminar aqui.

— Então por que pediu para que todo mundo esperasse?

— Larga de ser curioso. Volte e espere lá por um instante — resmungou Das Dores.

Sempre fui doutrinado em respeito absoluto aos mais velhos, principalmente a minha avó. Jamais levantei a voz para ela. A avó sempre exerceu sua autoridade naquela casa, até mesmo na presença de meu pai. Por várias vezes, a avó era a autoridade máxima e já decidiu diversos conflitos familiares. Era a voz da experiência e não cabia discutir ou questionar sua autoridade. Se até o pai a respeitava, quem era eu para não fazer. Porém, os tempos eram outros, e eu já não era mais o menino que conversava com as galinhas. Senti uma vontade imensa de confrontar minha avó como nunca tinha feito antes. Beirava os vinte anos e não acreditava mais que respeito se fazia com medo. Se algo estava acontecendo com relação a minha família, mesmo que fosse com a sepultura onde minha mãe seria enterrada, deveria saber.

— Não vou voltar. E quero saber o que está acontecendo! — Disse firme, olhando para os olhos da minha avó Das Dores. A reação dela foi de surpresa e, segundos depois, raiva. Era a primeira vez que o seu neto estava negando uma ordem sua. Ela tentou balbuciar algo, mas eu a interrompi antes:

— Das Dores, não sou mais criança. E a senhora não tem o direito de mandar em mim. O que está acontecendo? Aliás, já passou da hora de conversamos como adultos.

Naquele momento, minhas lembranças afloraram. Lembrei de algumas discussões, brigas com meus irmãos, desentendimentos entre meu pai, mãe e avó. E principalmente um fato que sempre me instigou naquela casa:

— Desde a morte do meu pai, estou querendo ter esta conversa com a senhora. Chega de segredos. Tem a ver com a caixa que a senhora guarda na gaveta com chave e cadeado? Ou é sobre a cicatriz no corpo de meu pai que a senhora nunca disse o que era? — indaguei em tom baixo, mas firme e sério, olhando no fundo dos olhos dela.

Era nítido que a avó Das Dores estava sem reação com tudo aquilo. Lógico, não esperando aquela rebeldia do neto, muito menos naquele momento. Nunca achou que eu iria confrontá-la um dia. E ainda tocando assuntos tão delicados como a caixa e a morte de meu pai. O olhar de reprovação deu lugar a um olhar de medo após eu citar a caixa e a cicatriz. Arregalou os olhos, engoliu seco e apertou o terço nas mãos. Virou as costas e continuou caminhando para próximo a sepultura e eu fui atrás, como um policial ávido por capturar um suspeito qualquer.

— Quer mesmo saber dos fatos? — Das Dores respondeu. — Veja você mesmo — Apontando para dentro da sepultura onde deveria, em tese, estar os restos mortais de meu pai. Mas para minha surpresa, não tinha nada lá. Não tinha caixão, ossos, nada. Arrepiei da cabeça aos pés. Meu olhar congelou e não consegui dizer nenhuma palavra. Olhava para a avó e depois para a cova. A reação de Das Dores demonstrava que já sabia o que encontraria, pois mantinha o olhar fixo e sério para o buraco.

— Vamos perguntar para os coveiros, ué. Eles cavaram, vão saber o que aconteceu — falei com os dedos em riste, apontando para os homens que trabalhavam no cemitério, que aguardavam dentro de um cômodo, que usavam para guardar as ferramentas, o momento do sepultamento.

Das Dores apenas sorriu e respondeu:

— Vá. Eles estão ali. Pergunte a eles o que aconteceu — assentiu Das Dores, com uma soberba que eu jamais tinha visto.

E assim fui, caminhando com dificuldade por causa da terra fofa e as cruzes que demarcavam os túmulos, ora de terra, ora de cimento e granito, cheguei até os dois coveiros que trabalhavam no cemitério.

— Ei, o que aconteceu com os ossos que estavam ali? — perguntei ao primeiro coveiro.

— Não tinha nada lá dentro não. Estava vazio — respondeu o moço, sem me dar muita importância.

— Vazio? Como assim? Meu pai foi enterrado ali há cinco anos — questionei.

— A terra come tudo, moço. Não sobra nada para contar a história — respondeu o segundo coveiro, em um tom jocoso, até com uma voz diferente, como se eu estivesse esperando uma piada. Aquela resposta acendeu um ódio em mim e fez com que eu mudasse o tom da conversa:

— O que vocês fizeram com os ossos? Digam, ou eu vou encher vocês de porrada! — ameacei o coveiro, pegando uma das pás que eles utilizaram e apontando para o seu rosto, bem próximo, quase encostando em seu nariz. Antes, dei um chute forte nas ferramentas que ali estavam, atingindo um deles. A reação mudou e ambos pararam o que estavam fazendo, olhando assustados para mim, com a pá nas mãos.

— Seu moço, lhe juro, não tinha nada lá dentro. Não vimos nada — respondeu o coveiro, com o seu ajudante confirmando tudo, ambos muito assustados. Neste momento, minha avó se aproximou e tocou o meu braço, dizendo:

— Solte a pá e se acalme. Quando tudo isso acabar, eu vou lhe contar — pediu, com um semblante muito sério e ao mesmo tempo misterioso, a avó Das Dores. Nossos olhares se cruzaram, como dois lutadores em um ringue prontos para o combate. Meu irmão Antônio chegou segundos depois e perguntou o que estava acontecendo.

— Nada, Toninho. Estava querendo saber se demoraria muito. Quero que isso termine logo. — respondi e abracei meu irmão, enquanto olhava para a nossa avó por cima do seu ombro. Nossos olhares se cruzaram novamente, como dois inimigos frente a frente em uma arena, preparados para a guerra.

Voltamos abraçados, eu e Antônio para próximo da sepultura, e demos sinal de positivo para que o caixão de minha mãe fosse trazido até o local. Antônio olhou para dentro da sepultura e notou algo de diferente:

— Fredinho, eles colocam fogo no túmulo antes do sepultamento? Ou essa terra preta é normal? — questionou Antônio, apontando para o fundo da sepultura, que além de fuligem, tinha pedaços de madeira queimada.

Estava me perguntando o porquê Antônio não questionou também onde estaria os restos mortais de nosso pai. Como foi que ele não notou? Será que achou que a mãe não seria enterrada no mesmo local? Refleti de imediato. Pensei em avisá-lo, assim teria uma ajuda para questionar a avó na conversa de mais tarde. Mas logo após ouvir a pergunta de Antônio, olhei sério para nossa avó. Estava com os olhos arregalados e balançou a cabeça negativamente, de forma sutil, com aquele gesto para que eu não contasse.

— Não sei, Toninho. Talvez o preto não seja fogo e sim cor de terra mesmo — foi a única resposta que consegui pensar no momento.

Dei sorte, Antônio aceitou a resposta e não fez mais nenhuma pergunta, já que o caixão da mãe já estava chegando ao local.

E assim foi todo o ritual do enterro de minha mãe. Meus irmãos em prantos, Padre Sérgio rezando e eu e minha avó trocando olhares fulminantes a cada segundo de pausa nas palavras do religioso. Não consigo esquecer do misto de sensações que tive naquele dia. Tristeza, lembranças, remorsos, raiva, curiosidade. Durante toda a cerimônia de despedida, só pensava na caixa, na terra preta da sepultura, nos restos de madeira queimada, onde estariam os ossos de meu pai e… no Eustáquio.

Sim, o insuportável do namorado da minha irmã estava um pouco afastado do local do sepultamento, rindo junto de uma pessoa que eu não reconheci no momento, mas que posteriormente identifiquei como um amigo de infância de mamãe. Ora, como pode o sujeito conseguir dar risadas em um momento fúnebre como aquele. A falta de respeito de Eustáquio fez com que eu esquecesse por uns instantes a dor e tristeza que estava sentindo no momento. Quase perdendo a razão e indo cobrar satisfação do Eustáquio, assustei quando ouvi o barulho das correntes. Santo Cristo, correntes. O gatilho para a crise foi apertado. Enquanto os coveiros passavam as correntes nas alças do caixão, tudo revivia em minha memória. A luz, o fogo, meu pai morrendo, a silhueta andante… Senti as vistas escurecerem e uma tonteira que quase me jogou para dentro do buraco. Fui amparado pelo Sr. Elmo e Mardoqueu:

— Calma, meu amigo, Deus está com você. Fique calmo — Sr. Elmo me segurava pela cintura, auxiliado por Mardoqueu. Agradeci balançando a cabeça e recobrei a consciência, enquanto o caixão de minha mãe descia à sepultura.

Meus olhos encheram de lágrimas e meu coração apertou. Ver minha irmã Maria de Fátima agachar, jogar a flor que estava nas mãos e balançar os dedos, se despedindo da mamãe foi o fim para mim. Chorei, chorei bastante e fui abraçá-la, seguido de Antônio. Ficamos ali em apoio uns aos outros, enquanto os coveiros jogavam terra sobre o caixão. O barulho que a terra fazia ao tocar o caixão era como uma faca cravada em nosso peito. Minha irmã tremia cada vez que o caixão era coberto pela terra jogada pelas pás dos coveiros. Fim de tudo, minha mãe estava morta e enterrada, longe das dores e percalços da vida. Que dia cruel, que lembrança mais triste da minha vida. Meu coração estava dilacerado.

Eu e meus irmãos viemos pelo caminho de volta conversando sobre a possibilidade de ir morar na capital. Achei estranho que nenhum dos dois me perguntaram sobre deixar minha avó por lá. Lembrei dela e a procurei no meio daquelas pessoas retornando para suas casas. Não a encontrei. Não importa. Ela não poderia fugir ou desaparecer. Assim que fosse possível, iríamos conversar. Tudo que eu não falei em anos, falaria nesta conversa. E Dona Maria da Dores Vortis iria me responder todas as perguntas. Estava sedento por respostas e minha avó teria que me satisfazer, por bem ou por mal.

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