O Coveiro
3 Capítulo 3
Durante muitos anos, reprimi qualquer lembrança ou memória do acontecido. Foram inúmeras noites sem dormir. E olha que nunca tive nenhum problema com insônia. Acordava assustado, suando e tremendo bastante. Meu peito queimava. Era como se eu estivesse dentro daquela fogueira que vi no dia do acontecido. Por falar em fogueiras, se tinha algo que era um gatilho para minha crise de ansiedade eram elas. Não podia ver uma que meu cérebro reagia instintivamente. Ofegante, visão turva, falta de ar, entre outras reações. Nunca mais tive nenhuma conversa com a minha avó sobre aquilo. No primeiro aniversário da morte de meu pai, até pensei em a questionar. Mas além da tristeza da mãe, que ainda não tinha superado por completo, não queria que o clima ficasse ruim com a avó. O assunto também foi reprimido na minha cabeça com o tempo.
Alguns anos depois do acontecido percebi que deveria ir embora de Marilândia, não conseguiria viver naquele lugar lembrando do fato todos os dias da minha existência. Precisava de um novo rumo para crescer como pessoa. Pela primeira vez senti que Marilândia não era o meu lugar. Percebi que depois de anos de fraquejo, tinha chegado a hora de enfrentar a cidade grande. A intensidade da capital incomodava bastante. Para quem foi criado na tranquilidade do campo, ouvir buzina de carro o tempo todo era um tormento. Juntava-se às sirenes de viaturas policiais, ambulâncias e o falatório por todos os lados. Mas era preciso tomar aquela decisão.
Contudo, meus planos de sair de Marilândia foram frustrados, pelo menos por um momento. Durante esses anos sem meu pai, a nossa vida mudou bastante. Me tornei um arrimo da família e com quinze anos já controlava o nosso pequeno negócio e ganha pão, que era a venda do leite e dos produtos que a mãe e a avó fabricavam com ele. Eu cuidava dos bichos sozinho. Alguns dias eram tão cansativos que ao chegar em casa nem forças para jantar tinha. Era apenas um banho e cama. Dia sim, dia não, levava o leite e derivados à cidade para vender no comércio. A produção aumentou bastante. Mãe e avó trabalhavam o dia todo, muito mais que antigamente, talvez para pensar menos no acontecido, lembrar menos de meu pai. Aliás, a mãe também mudou bastante, sentiu muito a morte do pai. Perdeu peso, vivia gripada e tinha dias que passava o tempo todo deitada na cama, a base de chá de erva doce, deixando a avó sozinha cuidando dos afazeres.
Até que um dia desmaiou próximo a escada da cozinha. A avó estava próxima e me chamou para acudir. Minutos depois do desmaio, a mãe recobrou a consciência, mas reclamou de uma dor forte na cabeça, além de falta de ar. Após a sentarmos no sofá, peguei meu cavalo e fui até a fazenda onde Mardoqueu era caseiro. Contei o que estava acontecendo. Ele chamou seu pai, o Sr. Isaías, que rapidamente pegou um carro velho que o patrão deixou na fazenda para os serviços do local. Chegamos em minha casa em minutos, colocamos a mãe no carro e a levamos para o centro de Marilândia, onde um pequeno hospital atendia casos sem muita gravidade. No caso de intervenções maiores, era preciso levar para São João de Charles Liray, cidade da minha tia Lucinha, onde um hospital com mais recursos atendia os doentes de toda a região. Não era tão grande assim, mas melhor que o nosso. Se lá não resolvesse, era só na capital.
E não resolveu. Dois dias depois a pressão da minha mãe continuava baixa e a respiração comprometida. Era preciso enfrentar a cidade grande se eu quisesse salvar dona Marina. O prefeito de São João de Charles Liray, Dr. Alexandre Magno Abrão, ajudou a conseguir uma vaga em um grande hospital da capital. Sendo assim, partimos eu, a avó Das Dores, o motorista da prefeitura e minha mãe, com um cilindro de oxigênio do lado do banco rumo a capital.
Saímos pela madrugada e chegamos na capital quase às oito da manhã. A vaga já estava reservada, e minha mãe foi direto para a enfermaria. Foi internada em um hospital grande, aquele sim muito maior do que eu estava acostumado em cidades ao redor de Marilândia. Minha querida mãe, Dona Marina, estava internada há algumas semanas e os médicos nunca me davam boas notícias. Apenas mais do mesmo, que ela estava estável e precisava aguardar os resultados dos exames e os efeitos dos antibióticos. Talvez em algum momento, os médicos tenham falado a real situação e eu não tenha entendido, afinal, era um caipira original, crescido na roça e nos afazeres de uma cidade interiorana.
Não era de afogar minhas mágoas no bar, mas a sensação de imponência diante da situação de minha mãe me deixava muito triste e desanimado. Uma dose, apenas para alimentar meu dia e me dar forças para aceitar o que não poderia mudar. Meu Deus, como amargava. Não sei por que alguém bebia aquilo. Talvez todos eles tinham problemas como eu. Passei a entender e ter empatia pelos bêbados. Em vez de xingá-los, eu sempre os ajudava a levantar, mesmo que isso não durasse até o próximo meio-fio.
Daquelas bandas da capital, memorizei apenas o caminho do hospital e da pensão em que hospedamos durante os dias do tratamento. Dividir o quarto da pensão com a avó era horrível. A única televisão do local era monopolizada pela Das Dores e eu não tinha voz ativa nenhuma. A avó assistia todas as novelas possíveis e ainda tinha um canal religioso que transmitia orações o dia inteiro. Bem que poderíamos ficar na casa dos meus irmãos, Maria de Fátima e Antônio, mas sabe como é gente mais velha, não é mesmo? A avó Das Dores não aceitou de maneira nenhuma e insistiu em permanecer na pensão. E lá ficamos nós, naquele quarto de 4 x 4 m, com duas camas mais duras que a moleira de uma mula. Ainda bem que podíamos revezar como acompanhante da mãe no hospital. Um dia, eu ficava, outro dia, a avó. Era cansativo, pois na enfermaria não tinha cama, era uma cadeira de plástico ao lado do paciente. Mas aquilo me confortava. Estar do lado da mãe era bom. Como era bem difícil dormir, acordava várias vezes na noite e muitas delas via a mãe com os olhos arregalados. Eu esticava as mãos e tocava seu rosto. Ela correspondia com um doce sorriso, também apertando minhas mãos. Às vezes pedia um pouco de água. Eu me levantava para ir até a recepção perguntar a enfermeira se podia. Voltava com um copo de plástico, três dedos de água e ajudava ela a beber, bem devagar para não engasgar.
Apesar de não conhecer nada além dos arredores do hospital, internamente fiquei craque. Andava os corredores todos daquele lugar. Depois voltava para contar para mãe o que tinha visto. Com dificuldade de falar por causa da respiração, ela só arregalava os olhos e balançava a cabeça concordando ou não com minhas palavras. Bom mesmo era quando eu contava algo engraçado e a mãe sorria. Claro, um sorriso sempre precedido de uma tosse, mas valia a pena.
Já minha avó andou a capital inteira. A velha era destemida. Voltava contando tudo que viu. E é claro achou uma igreja pertinho dali. Passava um bom tempo por lá. Pelo menos o almoço de domingo ela aceitou comer na casa de Antônio. E consegui convencê-la também de dormimos o último dia na casa de Maria de Fátima. Aliás, nossos irmãos estavam sempre presentes nessa caminhada dolorosa em que a mãe sofreu. Nunca ficaram um dia sequer sem visitar a mãe. Às vezes, até mesmo nos dois períodos em que era permitida a entrada, manhã e tarde.
Porém, visitas não eram permitidas todos os dias, mas sempre dávamos um jeito de conseguir colocar os dois dentro do hospital. Até mesmo usando minha identidade com Antônio. Nossa sorte é que a moça da portaria não percebeu a diferença entre os rostos. Eu e Antônio não éramos tão parecidos e, até pela questão da idade, Antônio era cinco anos mais velho que eu. Já Maria de Fátima não teve como se passar pela minha avó, óbvio. Mas nada que uma conversa não resolvesse. O que me deixava feliz era que a mãe adorava a nossa presença. Falava pouco, mas era visível o rosto de alegria dela em nossa presença.
Porém, a falta de melhora do seu estado de saúde me incomodava bastante. Poderia ser impressão minha, mas a cada dia parecia estar mais inchada, com dificuldade de respirar. Acho que a nossa presença amenizava um pouco, pois ela nunca teve nenhuma crise respiratória diante de nós. Para tentar amenizar aquela situação, Antônio, Maria de Fátima e minha avó resolveram transferir a mãe para um quarto. Ficaria caro, mas ninguém pensou em dinheiro neste momento. No quarto, era melhor, pois poderíamos ficar todos juntos, pelo menos no horário de visita, sem tentar ludibriar a moça da portaria, e à noite, era permitido um acompanhante dormir por lá. Ótimo, eu teria o quarto da pensão só para mim, sem minha avó atrapalhar meu sono.
Nos dias de visita, conversávamos sobre tudo: trabalho, lembranças do pai, histórias de Marilândia, tudo o que pudesse ser dito virava assunto e a mãe, com os olhos arregalados, prestava atenção em cada detalhe, muitas vezes até dava longas risadas, sem forçar para que a tosse não atacasse. E foi assim até o último dia. O atestado de óbito veio escrito “indeterminado”. Porém, ouvi um enfermeiro cochichar que foi Pneumonia. A mãe partiu serena, quase sorrindo, apertando as nossas mãos. Senti o mesmo aperto no peito como no dia da morte de meu pai, cinco anos atrás. Ver minha mãe morrer sem aparente dor não aliviou a sensação dolorosa que é a morte. Eu estava arrasado. Aos poucos, a respiração da mãe diminuía, até seu peito ficar imóvel. A força da mão dela se acabou e amoleceu enquanto a segurava. A enfermeira entrou e disse que poderíamos ficar ali o tempo que fosse necessário. Chorávamos baixinho, eu, Antônio e Maria de Fátima, enquanto a avó, com seu infalível terço, orava aos pés do corpo de nossa mãe.
Quinze minutos depois, saímos todos do hospital. Antônio foi providenciar a papelada e Maria de Fátima e minha avó o plano funerário. Eu não estava acostumado com esse tipo de coisa. Minha irmã poderia fazer aquilo com mais facilidade, mas teve que voltar para o hospital, pois esqueceu parte da documentação exigida pelo cartório para registrar o óbito. Na roça, geralmente o padre era o responsável por isso. Agora, estava eu e minha avó em um salão iluminado, dentro de uma funerária, rodeado de caixões, escolhendo o tipo de urna em que a mãe seria enterrada. Depois da morte do meu pai, foi uma das piores sensações que tive na vida. Porém, apesar de estar muito triste, eu e minha avó estávamos serenos, afinal, acompanhamos a mãe nessa sua última jornada e vendo todo aquele sofrimento acabamos por aceitar a morte como o melhor caminho. Mas por dentro eu estava dilacerado. E sentia que a avó também. Sabe aquele ditado que pais não nasceram para enterrar os filhos? Pois é.
Voltamos para Marilândia no mesmo dia, no carro da prefeitura, o mesmo que tinha nos levado antes. Zé Eduardo, o motorista do prefeito, minha avó na frente e eu no banco de trás de um Celta, modelo 1.0, com o brasão da cidade colado na porta. Seguíamos o carro funerário com o escrito “Mão de Deus” nos vidros pretos. Maria de Fátima estava no veículo logo atrás, junto com seu namorado, o insuportável Eustáquio e o nosso irmão Antônio. Porque eu não gostava do Eustáquio? Antigamente, achava que tinha herdado o ranço da avó, que nunca gostou dele. Lembro bem no dia do enterro do meu pai, após a cerimônia, quando todos estávamos em casa, em um dos poucos momentos sem tristeza, a mãe deu uma risada:
— Mãe, deixa a Fatinha ficar com o quarto dos fundos. Ela disse que Eustáquio reclamou dos pernilongos — sugeriu minha mãe para minha avó.
— Diga para este senhor que roça é assim! Tem mosquitos, pernilongos, cobras, etc — respondeu grosseiramente Das Dores e saiu resmungando.
— A senhora nunca gostou mesmo dele né? Tem algum motivo? — perguntou minha mãe, com uma risadinha no canto da boca.
— Não sei. Santo não bateu. Acho a energia dele ruim, sabe aquela coisa de sentir? — respondeu a avó, fechando o olho esquerdo e batendo a mão no peito, devagar, mas várias vezes. A mãe apenas fez uma cara de desentendida.
A avó rebateu:
— Não se faça de boba. Você sabe sim. E ele é um preguiçoso também. Olha o tamanho daquela barriga? — retrucou a avó, arrancando risadas da mãe. Achei engraçado a avó reparar no físico do Eustáquio. Eu estava à beira do fogão, preparando o café e ouvindo tudo. Claro que tive que disfarçar as risadas. A avó completou:
— Tem algo nele que não me desce.
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